15/02/2025

NOS TEUS LENÇÓIS ( Fábio Piva )

 Noite de amor ardente

Corpos segredando meus desejos
Suados, famintos, cansados
Poetando sinfonias de prazer

Dedilhando tua geografia
Vivendo as alucinantes fantasias
Sons indescritíveis e lascivos
Alimento da minha euforia

Mãos desobedientes e tão atrevidas
Tua língua e minha boca, entrega louca
Meu homem amante, safado, tarado
Fez-me tua, a mulher que sou!

Dia de paixão latente
Corpos eloquentes se entrelaçam
Dentes, unhas, saliva
Proseando com as curvas do teu sexo

Desbravando teu interior selvagem
Padecendo em realidade inebriante
Gemidos desesperados, incontidos
Teu éter me resgata da minha sanidade

Dedos ávidos por teus segredos
Minha boca e teu seio, como anseio
Minha amazona em chamas, faceira, arteira
Fez-me poeta em teu corpo, o homem em teus lençóis!

OS OUTROS ( Célia Moura )

 Os outros?!

Quem são os outros?!
Vem,
Que meu colo se abre como uma negra tulipa
E te amarro como uma tenaz em brasa
Pelos flancos.
Quero queimar-te sim,
Deixar-te na pele o cio das fêmeas
Que em mim habitam
Saborear nas tuas mãos
O mais belo poema
Que só saberei escrever no teu êxtase
Para me saciar num longínquo odor a mar
Despido de todos os silêncios
Quando Chopin inundar nossos corpos exaustos
Paridos de Primavera.
Os outros meu amor?
Não penses!
Eles só existirão quando os libertares

POEMA PRIMEIRO ( Joaquim Pessoa )

 Gosto-te. E desta certeza

se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.
Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.
Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.
Gosto-te. Na-na-na, na-ô
Na-na-na, na-ô… na-nô
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.
Gosto-te. Mas, “longe”
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar a última sílaba. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.
Mais discreto que isto
é impossível.

14/02/2025

SALOMÉ ( Mário de Sá-Carneiro )

 Insónia rôxa. A luz a virgular-se em mêdo,

Luz morta de luar, mais Alma do que a lua.
Ela dança, ela range. A carne, alcool de nua,
Alastra-se pra mim num espasmo de segrêdo.

Tudo é capricho ao seu redór, em sombras fátuas.
O arôma endoideceu, upou-se em côr, quebrou.
Tenho frio. Alabastro! A minh'Alma parou.
E o seu corpo resvala a projectar estátuas.

Ela chama-me em Iris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecôa-me em quebranto.
Timbres, elmos, punhais. A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar-ha sexos no seu pranto.
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na bôca imperial que humanisou um Santo.



SE EU FOSSE PINTOR ( Pedro Homem de Mello )

 Se eu fosse pintor pintava

De verde, verde e cinzento,
O ventre da onda brava
E os olhos cegos do vento
Só com essas duas cores
Talvez que a tinta ocultasse
Meu prazer, as minhas dores.
Tudo que me lês na face!
E, sob o feltro dos dedos
Poisando nas tuas ancas,
As ondas dos teus cabelos
De loiras ficavam brancas.
Nem sequer falas de gente!
Nem alegria nem mágoa.
Ou luar ou sol poente.
Corpo de cristal com água.
Em vez de carne, cerejas.
Legumes, em vez de peixe,
Antes que os meus lábios vejas
E, presos, um beijo os deixe.
Quem se lembraria então
Do poeta (ou do pecado)
Atirado para o chão
Como um fósforo apagado?

13/02/2025

SOBREVIVE - ME ( Célia Moura )

 Guarda-me amor

Na penumbra das manhãs
Nas mãos que por vezes sentes
E são brisa de vento
No esvoaçar de uma gaivota
Que se afasta.

Guarda-me num sussurro, num grito
Num sorriso, num candelabro estilhaçado
No sangue de ti
Aí sim
Como uma secreta tatuagem
Do teu respirar.

Guarda-me na flor e no gesto
Sobrevive-me ao tempo
Dos cardos
Ao gemido das giestas.

11/02/2025

GONÇALO SALVADO, in NUDEZ

 Ó nudez última de meu ser completo

amado corpo que num supremo gozo
difundes em meu sangue
o prodígio encantado da alegria!

Ó mulher viva em sua calidez inocente
de puros ombros perfumados,
fragrância de frescura plena,
acesas colinas para o meu desejo!

Amo a profusão de luz que o teu rosto irradia,
a sombra doce de tua mão em minha face,
o teu sorriso que incendeia a própria água
com um fogo solar que não termina.

Entro em ti com um alento sempre renovado,
já não sonho, aspiro o teu odor de terra
a delícia sumptuosa de teu ventre
na evidência de um perpétuo nascimento.

Mulher, carne de minha carne enamorada,
aroma súbito da suavidade,
sopro de lírio e de nardo,
olente onda de embriaguez,
hálito indefinível de intagível flor –
todo o ar se inflama, arde e transfigura
quando para mim te despes e insinuas.

Quem és cercada de mistérios que não desvendo?
fugidio horizonte de meus anseios que persigo?

És êxtase? Visão de dança?
Doçura que soluça em mim?
Fonte de águas amanhecidas
a rumorejar secretas melodias?

De que jardim fechado surgiste
anunciando a madrugada?
Que fragrância te define?
Que aroma de ti parte
para volúpia dos meus sentidos?
Que perfume é este
que tua pele exala
e sobre mim se derrama
num súbito tremor de claridade?

Ah, pudesse eu tocar tua alma
onde se reflecte puro o firmamento
e a beleza do mundo se espelha deslumbrada
numa contínua festa de estio e primavera!

E pela verdura dos anos beijar teus lábios,
beber a sombra de tantos frutos iluminados!
Leve, tão leve nada mais seria
que ar e brisa e pólen a cintilar ao vento,
a vida mais estéril fecundaria!

08/02/2025

VOCÊ JAZZ ( Marise Tietra )

você entra.
você sai.
eu sus. eu sus.

você vem. você vai. eu piro. piro.
você faz tudo
você entra. você sai.

eu hummm hummpmmh

você vem.
você sai.
eu deixo
você vem. você entra. você sai.

eu deixo
você entra. você vem. fundo fundo
eu fecho

você jazz. 


NÃO SE CASEM RAPARIGAS ( Boris Vian )

 Copla 1

Já viram um homem em pêlo
Sair de repente da casa de banho
Escorrendo por todos os pêlos
Com o bigode cheio de pena
Já viram um homem muito feio
A comer esparguete
Garfo em punho e ar de bruto
Com molho de tomate no colete
Quando são bonitos são idiotas
Quando são velhos são horríveis
Quando são pequenos são maus
Já viram um homem gordo à beça
Extrair as pernas do ó-ó
Massajar a barriga e coçar as guedelhas
Olhando pensativo para os pés

Refrão 1
Não se casem raparigas não se casem
Façam antes cinema
Fiquem virgens em casa do papá
Sejam serventes no carvoeiro
Criem macacos criem gatos
Levantem a pata na Ópera
Vendam caixas de chocolate
Professem ou não professem
Dancem em pêlo para os gagás
Sejam matadoras na avenida do Bois
Mas não se casem raparigas
Não se casem

Copla 2
Já viram um homem à rasca
Chegar tarde para o jantar
Com baton no colarinho
E tremeliques nas gâmbias
Já viram no cabaret
Um senhor não muito fresco
Roçar-se com insistência
Numa florzinha de inocência
Quando são burros aborrecem
Quando são fortes fazem sports
Quando são ricos guardam o milho
Quando são duros torturam
Já viram ao vosso braço pendurado
Um magrizela de olhos de rato
Frisar os três pêlos do bigode
E empertigar-se com um ar de bode

Refrão 2
Não se casem raparigas não se casem
Vistam os vossos vestidos de gala
Vão dançar ao Olímpia
Mudem de amante quatro vezes por mês
Peguem na massa e guardem-na
Escondam-na fresca debaixo do colchão
Aos cinquenta anos pode servir
Para sacar belos rapazes
Nada na cabeça tudo nos braços
Ah que bela vida será
Se não se casarem raparigas
Se não se casarem


 

04/02/2025

ETERNIDADE ( Maria Teresa Horta )

Sempre vivemos para além

da memória
apesar do lapso apunhalando o tempo
Porque antes fomos
connosco noutra hora, e agora
voltamos quando já nos esquecemos
Onde fica a fissura, a brecha
por onde passámos
a chegarmos de novo ao nosso presente
Infringindo as regras das horas
improváveis
hoje igual a ontem, já inexistente
Partimos e tornamos na nossa
eternidade
assim a repeti-la num infindo repente
Perdidos um do outro sempre
a regressarmos, revertendo
a queda que nos ata e desprende
Onde está o estilete de cravar
no peito, onde está
o incêndio, onde está o veneno?
Tanta imprudência que jamais
revelamos, calando
um ao outro aquilo que queremos
Fugaz a madrugada volta a luzir
no espaço, entre o prazer
aceso e o lento segredo
Efémeros os sentimentos
que depois se refazem
como se dissolvem as paixões ardentes
Apesar das tormentas,
para sempre voamos
século após século no ressalto dos ventos

01/02/2025

CABARÉ PALÁCIO ( Carlos Drummond de Andrade )

 A história de Minas passa um momento na Rua Guaicurus

— é noite, a luz espanta lobisomens —
sobre a escada sonora, e no salão repleto,
entre ruivas, louras, morenas, índias e mulatas
vindas de Montevidéu, Buenos Aires, Madri e Tremedal,
saúda respeitosamente
Madame Olímpia Vazquez Garcia,
senhora da Galiza e do puteiro belo-horizontino.

Cessam
tricas e futricas do jogo político das Alterosas,
lamentos de esmagados, filáucias de proponentes,
rumor de escravos escavando ouro e morte nas galerias de Morro Velho,
procissões de formigas cuiabanas tosando meticulosamente talos verdes,
fantasmas de mulas de latim debruçados sobre ex-alunos do Caraça,
tiros à sorrelfa (letais) nas emboscadas de Manhuaçu.
Cessa tudo que a vida morna ostenta,
que outro valor, de Vigo, se alevanta
e acolhe a prosternada
turibulação mineira de pau duro
ou já deficitária, não importa,
mas sempre a Eros erguendo novas aras.

Conspícuos pais da pátria,
flamívomos tribunos,
banqueiros, coronéis, beneméritos da Santa Casa de Misericórdia,
algum Secretário da Fazenda encapuzado
em hidrófilo sigilo,
respeitáveis chefes de família respeitabilíssima
ofertam a Madame Olímpia a catleia de louvor
que ela recebe altiva e sagrada qual Minerva.

Sua ampla testa lisa
encarna o poder
sobre rebanhos, apólices e complexos de Minas Gerais
e a procissão noturna espoca em febre
de bolhas beijos bolinações babas de batom.

Salve,
Imperatriz da farra honesta dos montanheses
que de dia cultivam Platão, o Dever, a Democracia,
tropeçando nos quartos sanguinolentos de Tiradentes,
e à noite estendem a vossos pés galegos
sua vocação de orgia e aniquilamento no esperma.

OPTIMISMO (Jane Hirshfield )

 Tenho vindo a admirar cada vez mais a resiliência.

Não a resiliência simples de uma almofada cuja espuma 

volta repetidamente à mesma forma, mas a tenacidade

sinuosa de uma árvore: tendo a luz de um lado sido bloqueada não há muito,

vira-se para outro. Uma inteligência cega, claro.

Mas de tal persistência surgiram tartarugas, rios,

mitocôndria, figos- toda esta terra resinosa, que se não retrai.


QUANDO DESEJOS OUTROS... ( Carlos Drummond de Andrade )

 Quando desejos outros é que falam

e o rigor do apetite mais se aguça,
despetalam-se as pétalas do ânus
à lenta introdução do membro longo.
Ele avança, recua, e a via estreita
vai transformando em dúlcida paragem.

Mulher, dupla mulher, há no teu âmago
ocultas melodias ovidianas.

LEITORA ( Maria Teresa Horta )

Confesso o vício de ler

afago
cada palavra

Bebo o feitiço das histórias
cada rosa cada asa
por onde a busca se enlaça

Revolvo-me na ruptura
ou na ternura descalça
onde a caneta sutura

Tomo o corpo da leitura
enredo-me no seu abraço
ora vestida ora nua

Ao longo deste prazer
não há nada que eu não faça
em entrega e em devassa

Indo mais longe no ler
encontro o cisne e a rola
na tocaia do prazer

Tenho a paixão da leitura
teima na escrita do perigo
e estremeço de prazer ao entreabrir um livro

Corro as mãos nas suas espáduas
desnudo frases de feltro
afloro as suas pálpebras

Entrelaço as consoantes
com as vogais e o enredo
diante das fantasias no sobressalto do medo

Descubro escusas passagens
pelas cisternas dos livros
ao desfolhar suas páginas

Na entrega e no sustido
nas lágrimas e no sorriso
entre o ardil e o tigre

Ora cumprindo
a harmonia
ora querendo a transgressão

Sou uma leitora voraz
tenho um trato com a audácia
e outro com o perdimento

Entre a leitura e a escrita
existe um espaço sedento
rebeldia e firmamento

Digo tempo e confissão
das cartas das bibliotecas
das literaturas secretas

Corro nas linhas dos livros
tropeçando
de avidez

Na cama quero as palavras
Enoveladas errantes
com elas sou viajante

No rumo da minha
vida
estão os livros e as estantes

Gosto de beber o cheiro
do interior da leitura
temperado com canela e as coisas obscuras

Deleito-me com a poesia
endoideço com o romance
esquivamento das mulheres

com a sua escrita de leite
de linho e alquimia
de aço rumorejante

Encontro a rima cismada
dobo a palavra a vapor
na teima de quem porfia

Vou em busca do fulgor
corro atrás da literatura
dos textos e da leitura

Sou dependente dos livros
sem eles posso morrer
perco-me de tão perdida se proibida de ler


 

PARTIR ( Maria Teresa Horta )

 Não sei

se te deixei partir

Mas num segundo
já não estás na minha mão
nem à minha frente no papel

Ficando eu sem saber
quem eras
quando te encontrei

Se o retrato que de ti
tracei te é fiel

Ou se de tanto te inventar
eu te perdi, por entre
as florestas das histórias

Penumbras dos palácios
Pensamentos, poesias e diários
Oceanos e ventos

Pois nem sequer
percebo se por mim
te afastei ou te larguei

Se obstinada fugiste
ou te esqueci
Se a Torre onde te pus é de Babel

E dela partirás
para viver a única
paixão da tua vida

Não, nem sequer sei
qual foi o meu olhar
pousado em ti

Se com ele te espiei
te persegui
E no espelho onde te vias

Eu te olhei

NA PELE ( Célia Moura )

 Trago na pele as memórias,

loucura desta estranha lucidez.
São horas mortas estes pedaços de nós
pois trouxe comigo desde o útero de minha Mãe
o anoitecer nos olhos e algas nos cabelos.
Poderás burilar as palavras mais belas
emoldurar meu rosto na ternura das mãos
com as quais divagas por este corpo prenhe de enseadas
onde se deliciam gaivotas
mas tu sabes que tudo isso serão instantes
alegrias breves, talvez tanto ou coisa nenhuma.
É assim possessiva esta insónia que me acalenta ao peito
beijando-me como uma filha tão amada.
Diz-me meu amor um novo alvorecer
faz-me acreditar numa simbiose uterina
do caminho por percorrer
pois hei-de trazer na boca o sabor a amoras
e na pele todas as memórias.