18/04/2025

RUPI KAUR, in Leite E Mel; Lua de Papel, 2017

 pôs as mãos

na minha mente
antes de as pôr
na minha cintura
nas minhas ancas
ou nos meus lábios
não me disse
que era bonita primeiro
disse-me que era única
- é como me toca

17/04/2025

AOS LOUCOS ( Célia Moura )

 Floriram para mim breves instantes

fui poeira no teu deserto,
pirilampo esvoaçando na tapada
onde os grilos ainda cantam,
à toa.
Deste-me vazio, artifícios vários
e ausência.
Edifiquei alicerces, plantei sementes
e no fogo que em mim habita
continuo a construir amor
e sonho como só aos loucos
é permitido fazer.
Floriram em mim alvoradas de núpcias
entrego o meu corpo ao mar
não voltarei atrás
sigo esta loucura
jamais te direi adeus
porque te matei e sepultei
há tantos anos a um canto do jardim.
Um dia todas as sementes que em ti plantei
germinarão.
Entenderás finalmente
a dimensão desta ânsia de liberdade
de minha nobre e lúcida loucura
desta paixão que me morde & amordaça,
este intenso e absurdo amor,
desencontros de mim.

09/04/2025

Célia Moura in “No Hálito De Afrodite”

 Ela é a loba ancestral

Que te invade pelas madrugada
Percorre teus cabelos
Escorre-te pelas costas,
Finca as garras
Na pele que sempre lhe pertencera
Beija teus flancos estremecidos
De homem vivido e só
Ela é tua serpente temida
E amada,
Sibilando ao teu ouvido
A púbis de Afrodite
Sequiosa
Na masturbação dos sentidos
Chamando-te …

05/04/2025

O SOL ( Jaqueline Ruiz )

 a força que eu busco no outro,

só encontro quando eu me acolho.

envolve um certo risco se amar.
é preciso mergulhar sem saber nadar
e sem saber o que vai encontrar no fundo do mar.
mas é preciso ir.
disparar.

o melhor espelho
para cultivar amor-próprio
é o seu reflexo na água
pouco antes de pular.

há quem cante para Deus, Buda e Iemanjá.
eu canto para mim,
de olhos fechados,
sentindo a leveza do ar me tocar,
para me acalmar.
certa de que toda a espiritualidade,
independente dos nomes que a chamam,
de alguma forma me escuta e
está sempre pronta para me ajudar.

enquanto isso, respeito minhas ondas.
se eu choro, é para me recarregar.
eu me cuido com o amor que cuido dos outros
e com o amor que estou sempre disposta a dar,
por que não há outro jeito a não ser
ser minha amiga.
aceitar meu banquete,
rejeitar migalhas.

o sol descansa para a lua,
mas nunca deixa de brilhar.
felicidade é ponto de vista.

eu canto e escuto ecoar:
trabalhe em você,
na sua paz,
que em breve,
no teu peito,
o amor há de repousar.

AMARGOS COMO OS FRUTOS ( Ana Paula Tavares ) in Dizes-me Coisas Amargas Como Os Frutos

 Amado, por que voltas

com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo

Amado, onde perdeste tua língua de metal
a dos sinais e do provérbio
com o meu nome inscrito

Onde deixaste a tua voz
macia de capim e veludo
semeada de estrelas

Amado, meu amado,
o que regressou de ti
é a tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas 
como os frutos. 

AMA -TE: POR DENTRO E POR FORA ( Simone Moisés )

 Costumo dizer que nada é permanente

exceto a mudança.
Toda mudança interior e exterior
merece esforço e dedicação,
afinal buscar renovação deve e tem que
ser sempre para melhor.

Assim como as águas de um rio que se renova,
renove-se também, diariamente,
interiormente e exteriormente, ninguém
deve ser escravo de sua própria identidade.
Se houver oportunidade de mudança, mude.

Cuide-se, queira-se bem.
Respeite-se,
ama-te por dentro e por fora,
seja gentil consigo mesmo.

SE SOUBÉSSEMOS ( Ana Bailune )

 Se soubéssemos

Quantos adeuses se escondem,
Adormecidos,
Por trás de cada ‘olá’,
Talvez nós não deixássemos
A vida passar,
As pessoas irem embora
Sem nosso mais atencioso olhar

Se soubéssemos
Que a estrada sob os pés
Pode, a qualquer momento,
Desabar,
Talvez prestássemos mais atenção
À linda paisagem que nos cerca,
E que foi com amor, criada
Para que a possamos desfrutar.

Se soubéssemos
Que cada palavra proferida
Pode ter um imenso, enorme peso
Por sobre uma vida,
Talvez as medíssemos com cuidado
Antes de deixá-las caírem
Em ouvidos errados.

Se soubéssemos
Que tudo o que hoje vivemos
Em breve, tornar-se-há lembranças
Que, no futuro, teremos
Para reviver em noites longas e vazias,
Talvez fôssemos mais felizes,
Quem sabe, escolhêssemos cores mais bonitas
Para pintarmos cada dia!

MADRIGAL PARA CECÍLIA MEIRELES ( Cacaso )

Quando na brisa dormias,

não teu leito, teu lugar,
eu indaguei-te Cecília:
Que sabe o vento do mar?
Os anjos que enternecias
romperam liras ao mar.
Que sabem os anjos, Cecília,
de tua rota lunar?
Muitas tranças arredias,
um só extremo a chegar:
Teu nome sugere ilha,
teu canto: um longo mar.
Por onde as nuvens fundias
a face deixou de estar.
Vida tão curta, Cecília,
pra que então tanto mar?
Que música mais tranquila,
quem se dispôs a cantar?
São tuas falas, Cecília,
a barco tragando o mar.
Que céu escuro havia
há tanto por te espreitar?
Que alma se perderia
na noite de teu olhar?
Sabemos pouco, Cecília,
temos pouco a contar:
Tua doce ladainha,
a fria estrela polar
a tarde em funesta trilha,
a trilha por terminar
precipita a profecia:
Tão curta a vida, Cecília,
tão longa a rota do mar.
Em te saber andorinha
cravei tua imagem no ar.
Estamos quites, Cecília:
Joguei a estátua no mar.
A face é mais sombria
quanto mais se ensimesmar:
Tão curta a vida, Cecília,
tão negra a rota do mar.
Que anjos e pedrarias
para erguer um altar?
Escuta o coral, Cecília:
O céu mandou te chamar.
Os anjos com tantas liras
precisam do teu cantar.
Com tua doce ladainha
(vida curta, longo mar)
proclames a maravilha.

03/04/2025

O QUE POSSO OFERECER - TE EU ? ( Mônica Leite )

Se não possuo o amor ingênuo das moças 




TUDO QUASE NADA ( Luis Rodrigues )

 

Tudo quase nada

OFÉLIA ( Raimundo Correia)

 Num recesso da selva ínvia e sombria,

Estrelada de flores, vicejante,
Onde um rio entre seixos, espumante,
Cursando o vale, túrgido, fluía;

A coma esparsa, lívido o semblante,
Desvairados os olhos, como fria
Aparição dos túmulos, um dia
Surgiu de Hamlet a lacrimosa amante;

Símplices flores o seu porte lindo
Ornavam... como um pranto, iam caindo
As folhas de um salgueiro na corrente...

E na corrente ela também tombando,
Foi-se-lhe o corpo alvíssimo boiando
Por sobre as águas indolentemente.

LÍNGUA BRASILEIRA ( Menotti del Picchia )

 O povo menino

no seu presepe de palmeiras
aguardou as oferendas de Natal.

A nau primeira
trouxe o Rei do Ocidente
que lhe deu o tesouro sem-par
do Cantar de Amigo,
dos Autos de Gil Vicente
e, depois, a epopéia de Camões.

No navio negreiro
veio o Melchior do mocambo
talhado em azeviche como um ídolo benguela,
com a oferta abracadabrante e gutural
dos monossílabos de cabala.

Nos transatlânticos e cargueiros,
o Rei Cosmopolita,
que tem as cores do arco-íris
e os ritmos de todos os idiomas,
trouxe-lhe o régio presente
das articulações universais.

Os três reis fizeram um acampamento das raças
e ensinaram o povo menino
a falar a língua misturada
de Babel e da América.

E assim nasceste,
ágil, acrobática, sonora, rica e fidalga,
ó minha língua brasileira!

BELEZA ( Menotti del Picchia )

 A beleza das coisas te devasta

como o sol que fascina mas te cega.
Delas contundo a luminosa entrega
nunca se dá, melhor, nunca te basta.

E a imensa paz que para além te arrasta
quanto mais se te esquiva ou te renega...
Paz tão do alto e paz dessa macega
que nos campos esplende à luz mais casta.

A beleza te fere e todavia
afaga, uma emoção (sempre a primeira e nunca
repetida) que conduz

o teu deslumbramento para um dia
à noite misturado, na clareira
em que te sentes noite em plena luz.

DEUS, ME DÊ CORAGEM ( Clarice Lispector )

 Meu Deus, me dê a coragem

de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.

ESTRELA PERIGOSA ( Clarice Lispector )

 Estrela perigosa

Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

AMOR, ESCUTA UM SEGREDO ( Vinícius de Moraes )

 Amor, escuta um segredo 

Tua pele é lisa, lisa 
Minha palma que a analisa 
Não tem medo: fica nua. 

Fica de tal modo nua 
Que eu, ante tanto abandono 
Transforme o desejo em sono 
E não seja apenas teu.

DONA DOIDA ( Adélia Prado )

 Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.

AMOR FEINHO ( Adélia Prado )

 Eu quero amor feinho.

Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teóloga mais.
Duro de forte o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero um amor feinho.
 in 366 Poemas Que Falam de Amor; Brasil, 1935.

UM JEITO ( Adélia Prado )

 Meu amor é assim, sem nenhum pudor.

Quando aperta eu grito da janela
- ouve quem estiver passando -
ô fulano, vem depressa.
Tem urgência, medo de encanto quebrado,
é duro como osso duro.
Ideal eu tenho de amar como quem diz coisas:
quero é dormir com você, alisar seu cabelo,
espremer de suas costas as montanhas pequenininhas
de matéria branca. Por hora dou é grito e susto.
Pouca gente gosta.

SEDUÇÃO (Adélia Prado)

 A poesia me pega com sua roda dentada,

me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

IMPRESSIONISTA ( Adélia Prado )

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

Célia Moura, in "NO HÁLITO DE AFRODITE"

 Invades-me

Nessa tesão
Que as searas
Silenciam
E me delicias
Na tua pele molhada
Dessa orgia de veludo
Em ti
Plena de incenso,
Jasmim
Rubras rosas
E nossos corpos
Finalmente libertos
Entre as papoilas
E o canto dos pardais.