25/08/2025

DEDICAÇÃO ( Andréa Santos )

 Amizade de duas mulheres

É quase nunca sem razão
Quase sempre por domesticação!

Amizade de dois homens
É quase nunca por compreensão
Sempre por colaboração!

Ah! Amizade liga duas pessoas
Quase nunca por paixão
Quase eternamente por união
E frequentemente pela sensação

Ih! A amizade entre duas almas
Por pouco é paixão, tesão!
É olhar com simpatia
É amar sem a garantia
Da aproximação e coração

A SOMBRA DO PÁSSARO ( Olinda Rodrigues )

 O brilho da praia reflete a sombra do pássaro

E então meus passos me entregam ao mar

Que me circunda.

Nele meu corpo,

Envolto, embate-se

Gozando o poder das ondas

Onde finge que se funde.


AMANHÃ ( Olga Savary )

 Se devoras teus sonhos

quando se ensaiam apenas
e secamente represas
essa linguagem de flores
e teu desejo de asas
que restam subterrâneas,
quem serás tu, depois
do grande sono, amanhã?

Não te abandones um só momento
sou inconstante como a nuvem
sou mutável como o vento.
Não te dês inteiro um só momento
porque um dia te quererás de volta
e levarás somente um fragmento.

CONHEÇO O MEU LUGAR ( Antônio Carlos Belchior )

 O que é que pode fazer o homem comum

Neste presente instante senão sangrar?
Tentar inaugurar
A vida comovida
Inteiramente livre e triunfante?

O que é que eu posso fazer
Com a minha juventude
Quando a máxima saúde hoje
É pretender usar a voz?

O que é que eu posso fazer
Um simples cantador das coisas do porão?
Deus fez os cães da rua pra morder vocês
Que sob a luz da lua
Os tratam como gente - é claro! - aos pontapés

Era uma vez um homem e o seu tempo
Botas de sangue nas roupas de Lorca
Olho de frente a cara do presente e sei
Que vou ouvir a mesma história porca
Não há motivo para festa: Ora esta!
Eu não sei rir à toa!

Fique você com a mente positiva
Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)
Pois sou uma pessoa
Esta é minha canoa: Eu nela embarco
Eu sou pessoa!
A palavra pessoa hoje não soa bem
Pouco me importa!

Não! Você não me impediu de ser feliz!
Nunca jamais bateu a porta em meu nariz!
Ninguém é gente!
Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!
Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos!
Não sou da nação dos condenados!
Não sou do sertão dos ofendidos!
Você sabe bem: Conheço o meu lugar!


FLORA ( Climério / Dominguinhos / Ednardo )

 Se eu pudesse pensar em ti

Sem vontade de querer chorar
Sem pensar em querer morrer
Nem pensar em querer voltar
Essa dor que eu sinto agora
É uma dor que não tem nome
Que o meu peito devora e come
E fere e maltrata, sem matar

No roçado do meu coração
Há um tempo de plantar saudade
Há um tempo de colher lembrança
Pra depois com o tempo chorar

Ô Flora, meu sertão florindo
Aflora o meu peito só
Teu amor é um fogo, é um fogo
É um fogo, é um fogo
Dos teus olhos tição

24/08/2025

VENHA A NÓS O VOSSO REINO ( Olga Savary )

 Cheios de imagens os olhos

e de silêncio os ouvidos.
Palavras: quase nada.

A cor do barro primitivo em tua pele,
terra-mãe, vinho de frutos, fogo, água,
em ti se nasce e em ti se morre.

Vais me recolhendo e recompondo
no labirinto-búzio-alto-das-coxas,
presságio de submerso jardim,

um ideal jardim em que me apresso
e tardo retardar a troca das marés
quando para ti me evado.

O que é amor senão a fome rara,
o susto no coração exposto
que com a chama ou a água devora,

é devorada, que desdenha a mente
por uma outra fome, vago pasto
água igual a fogo, fogo como lava?

Amor foi uma volta inteira de relógio mais 7 horas.
Amor: chega de gastar teu nome:
agora arde.

GAZEL ( Olga Savary )

 De amor, criei (incriado)

este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.

O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo

sem cessar.

"Olga Savary é senhora de uma gleba fecunda no território da poesia brasileira viva que ninguém aí se nutre deve desconhecer." (Antônio Houaiss)


 Foto: Olga Suvary

PRÁXIS AMANDI ( Olga Savary )

Na práxis de então

bem pouco se aprendia
com as vagas teorias
da chula sacanagem.
Quase sempre havia alguém
que não gozava
e se perdia
no meio da viagem

Hoje se sabe,
de Kama Sutra a Sade
passando de Ovídio à Barabarela
por dentro de Vinicius de Morais,
que amar é arte requintada
e há de
melhor acontecer a quem mais sabe.


Começa-se a bolina pelos olhos,
ou pela planta dos pés
que tanto faz
mas que se o faça como quem não quer
chegar além do simples arrepio.


Que se tateie muito de leve e manso
por cada canto da pele o corpo inteiro
e sempre no sentido
inverso ao da penugem.  

 Bem lentamente caía nos declives
e nos valados mais fundos e escondidos.
Teça, com os dedos leves, pelo a pelo,
roçando o eriçando cada uma
das papilas digitais —as mais sensíveis—
desde os agudos picos aos mais túmidos
e úmidos abismos,
como se cada polpa de dedo fosse língua.

 

Não se abandone então.
Não perca o tino,
que o pássaro do espasmo é fugidio,
e cansa de voar
nas brumas da emoção
do ser em cio.


Daí por diante
passe a refletir
frente dos espelhos,
e crie — a dois ou a dez —
todas as formas de ir
e posições
passíveis das possíveis
contorções.


Prossiga nos caminhos da surpresa
e não se escandalize
se a resposta vir maior que a empresa.
Pois que, por suas mãos
os deuses são,
e não se sabe onde
explodindo seus próximos desejos. 


E tendo tudo isto posto,
tome todo tento à tentação
de sua companheira.


E, se tiver força e sã ciência,
refreie os seus ginetes,
sorva a seiva que lhe molha os lábios,
inspire fundo,
até que a égua úmida, esgotada,
estanque o seu galope,
e se abandone, como quem se esquece
da própria servidão
da vida e morte,
na relva dos lençóis.
E então comece.

 

 

MAPA DE ESPERANÇA ( Olga Savary )

 Vinha pisando sobre toda a praia,

o sangue quieto — ou quase quieto —,
os pensamentos leves como espumas
e os cabelos soltos como nuvens.

Trágica como princesa de elegia,
meu estandarte é o desespero,
minha bandeira, indecisão.

Ainda assim, alegria, te festejo.



 



IRARUCA ( Olga Savary )

 Destino é o nome que damos

à nossa comodidade,
à covardia do não-risco,
do não-pegar-as-coisas-com-os-dentes.

Quanto a mim,
pátria é o que eu chamo poesia
e todas as sensualidades: vida.

Amor é o que eu chamo mar,
é o que eu chamo água.

NOME ( Olga Savary )

 Tu, em tudo presença,

         vibrar de asa,

 

         eu, que nem nome tenho,

         jamais nua de água,

 

         tu, felicidade do corpo

         embasado em brasa,

        

         eu, sequer lembrança,

         mero eco na sala,

 

         tu, veneno curare

         — e eu é que me chamo naja?


ACOMODAÇÃO DO DESEJO III ( Olga Savary )

 Deito-me com quem é livre à beira dos abismos

e estou perto do meu desejo.

Depois do silêncio úmido dos lugares de pedra,
dos lugares de água, dos regatos perdidos,
lá onde morremos de um vago êxtase,
de uma requintada barbárie estávamos morrendo,
lá onde meus pés estavam na água
e meu coração sob meus pés,

se seguisses minhas pegadas e ao êxtase me seguisses
até morrermos, uma tal morte seria digna de ser morrida.

Então morramos dessa breve morte lenta,
cadenciada, rude, dessa morte lúdica.

 

VIDA ( Olga Savary )

 das uvas roxas que abocanho

em tua boca e em teu fruto exposto
que faço meu vinho, meu sangue,
que para ti como um rio corre,
minha paixão, muso do meu canto
vindo do fundo da terra,
basalto e magma, esperma
de fundas furnas e de grutas
e das fendas submersa
de onde atocaiado tu me espias,
para ti meu canto, um também roxo canto
uivando das entranhas, mãos, garganta
a me dizer: vida
a ser trazida
entre os dentes
atravessada
tal uma faca.

SIGNO ( Olga Savary )

 Há tanto tempo que me entendo tua,

exilada do meu elemento de origem: ar,
não mais terra, o meu de escolha,
mas água, teu elemento, aquele
que é do amor e do amar.

Se a outro pertencia, pertenço agora a este
signo: da liquidez, do aguaceiro. E a ele
me entrego, desaguada, sem medir margens,
unindo a toda esta água do teu signo
minha água primitiva e desatada.

SATURNAL ( Olga Savary )

 Paraíso é essa boca fendida de romã

— bagos de vida,

 

paraíso é esse mistério de água ininterrupta

fluindo do terminal das coxas,

 

é a vulva possuída-possuindo

violáceo cacho de uvas,

 

é esse dorso de vinho navegável

atocaiado para um crime.


 

AUTO DESPEDIDA ( Olga Savary )

 Há algo nas manhãs que não entendo agora

e a um grito de minhas pernas não atendo.

Ainda depois da noite, noite me espia

e sonho dúvidas enormes e imóveis

como a imobilidade das aranhas.

Tão pouco tempo – e tenho de deixar-me

e queria nunca ter de repartir-me.

Começa a raiva da saudade

que inventei vou ter de mim


21/08/2025

SABOR DO PECADO ( Cléia Muti Fialho )

 Que sabor tem o pecado?

O doce do teu corpo amado
O gosto dos beijos teus
Que misturados com os meus
Compõe um manjar apetitoso!

Que sabor tem o pecado?
O sal do teu corpo suado
Tem paladar sedutor
Convite atraente para o amor
Servido nu e delicioso!

Que sabor tem o pecado?
Depois do banho tomado
Ainda com o corpo molhado
Há no ar uma harmonia
Da gostosa fantasia
De ter à ti me entregado.

Este é o sabor do pecado
Não é pedaço de mal caminho
E se isto for errado
Se andar no caminho é fatal
Já estamos condenados
Por este pecado consensual!

ACORRENTADO ( Ana Bailune )

 De que adianta ser anjo,

Se estás preso a uma jura?

Quando as asas aprisionam,
Em um voo indesejado
E alcanças as alturas
Ao teu ego, acorrentado?

Ah, nada sabes
Do quanto ainda és escravo!

Pois um anjo verdadeiro
Voa, sem a pretensão
De chegar ao paraíso,
Pois o leva dentro em si.

De que adianta ser anjo,
Se não consegues sorrir?

Pois se temes esse mal
Que carregas em tua alma,
Dele, tu serás a vítima,
E te perderás de ti…

Pois um anjo, no espelho
Vê além do seu reflexo,
Vê a essência do Divino
Adormecida em seu plexo.

De que adianta ser anjo
Se tua reza não tem fé?

Ah, palavras que derramas,
Sem razão e sem porquê
Sobre um solo ressecado
Qual sementes a morrer.

Pois a oração de um anjo
Transcende toda a palavra,
É a flor do sentimento
Brotando de alma para alma.

De que adianta ser anjo,
Se não há felicidade,
Se não um paraíso,
Se não há uma verdade?


 

MAR ( Ana Martins Marques )

 Ela disse

mar
disse
às vezes vêm coisas improváveis
não apenas sacolas plásticas papelão madeira
garrafas vazias camisinhas latas de cerveja
também sombrinhas sapatos ventiladores
e um sofá
ela disse
é possível olhar
por muito tempo
é aqui que venho
limpar os olhos
ela disse
aqueles que nasceram longe
do mar
aqueles que nunca viram
o mar
que ideia farão
do ilimitado?
que ideia farão
do perigo?
que ideia farão
de partir?
pensarão em tomar uma estrada longa
e não olhar para trás?
pensarão em rodovias
aeroportos
postos de fronteira?
quando disserem
quero me matar
pensarão em lâminas
revólveres
veneno?
pois eu só penso
no mar


 

O BRINCO ( Ana Martins Marques ) in Da Arte das Armadilhas

 Pode ser que como as estrelas

as coisas estejam separadas
por pequenos intervalos de tempo
pode ser que as nossas mãos
de um dia para o outro
deixem de caber
umas dentro das outras
pode ser que no caminho para o cinema
eu perca uma de minhas ideias
preferidas
e pode ser
que já na volta
eu me tenha resignado
alegremente
a essa perda
pode ser
que o meu reflexo sujo
no vidro da lanchonete
seja uma imagem de mim
mais exata
do que esta fotografia
mais exata do que a lembrança
que tem de mim
uma antiga colega de colégio
mais exata do que a ideia
que eu mesma
agora tenho de mim
e portanto pode ser
que a moça cansada
de olhos tristes
que trabalha na lanchonete
tenha de mim uma imagem
mais fiel
do que qualquer outra pessoa
pode ser que um gesto
um jeito de dobrar os lábios
te devolva
subitamente
toda a infância
do mesmo modo que uma xícara
pode valer uma viagem
e uma cadeira
pode equivaler a uma cidade
mas um cachorro estirado ao sol não é o sol
e uma quarta-feira não pode ser o mesmo
que uma vida inteira
pode ser
meu querido
que esquecendo em sua cama
meu brinco esquerdo
eu te obrigue mais tarde
a pensar em mim
ao menos por um momento
ao recolher o pequeno círculo
de prata
cujo peso
frio
você agora sente nas mãos
como se fosse
(mas ó tão inexato)
o meu amor

OLHOS BÉLICOS ( Carina Castro )

 destingia o mirar, preto e branco terra e céu

turvou-se sobre os corpos
fim de imagem

meus olhos estão nus
e distinguem

uma metáfora passa em frente aos olhos anteriores
- à fronte interior -

mar, deserto, céu
consolidados por destroços

cobrem
meu corpo
espaços das solidões — o vazio entre minhas pernas, entre o tecido e eu
percursos para se perder
a vista

fim de imagem


VEM SOU TUA... ( Sedutora )

 Vem Sou Tua...


Vem me provoca, me devora me tocas 
Vem me encanta me canta
Vem me domina me tira do sério,
Desvela meus mistérios
Vem me alucina me atiça e faz-me ousar
Vem me arrasta me tira a roupa,
Deixa-me louca

Vem me faz um carinho, deita em meu ninho
Me faz sonhar
Vem me bota no colo, me enrosca e me toca me faz delirar
Vem me leva contigo, me beija
Me faz murmurar

Vem me deixa sem sentidos,
me despe do pudor, me dá teu amor
Vem, sem receio, sem medo, com todo ardor
me deixar sentir teu calor

Vem, sem demora e me devora
me alucina sem hesitar
Vem te quero agora, sem delongas ou demora, me faz suspirar

Vem puro fascínio, desejo e paixão
me entrega o coração
Vem me fala de amor, me deixa sonhar
desvairada, descompassada, sem saída
totalmente perdida de amor
Vem me faz navegar soltando a imaginação