26/08/2025

AVESSO ( Alice Ruiz )

 Pode parecer promessa

mas eu sinto que você é a pessoa
mais parecida comigo
que eu conheço,
só que do lado do avesso.
 
Pode ser que seja engano
bobagem ou ilusão
de ter você na minha,
mas acho que com você eu me esqueço
e em seguida eu aconteço.
 
Por isso deixo aqui meu endereço
se você me procurar
eu apareço,
se você me encontrar
te reconheço.

CHUPANDO MANGA ( Maria do Carmo Ferreira )

 No pé, tem mais sabor.

No próprio galho, mais.
Barra de atalho:
quintal de Cataguases
(no Largo do Rosário).
A menina trepada
no pé de manga espada
coleciona esqueletos
de caroços de manga
pendidos pelo cabo.
É preciso ter prática.
A manga bem madura
se for tocada, cai,
desperdiça, esborracha
no chão t’apetecível
que fica pra mais tarde.
Agora é contorná-la
como se faz amor –
pondo as mangas de fora:
as que resistem ao tato
as que não cheiram fundo
as que não pintam e bordam.
Esta vai, de mordida
em mordida, sua pele
deixa ver a cor viva
(entre coral, vermelho)
que os dentes vão lanhando.
Dulcíssimo, seu sumo
pelo queixo, pescoço,
ungindo de perfume
como a Arão, as barbas.
Fibra a fibra, o caroço
depois de bem lavado
(só de saliva e língua)
merece ser penteado.
Tudo está nos conformes:
a manga, enorme, pesa
como um copo de suco
no arregalado estômago.
Resta fazer a sesta
no gancho de dois galhos,
cabeça recostada
ao tronco da mangueira
visando um céu sem conta
de pintalgadas prendas.
E sonhar outras mangas
já sendo encaçapadas
(logo mais, pelas tantas)
que vão deixando à mostra
seus raios-X aos pássaros.

POSTIGO ( Helena de Figueiredo )

 Nos seixos brancos

a redondez do tempo
habitáculo do amor

refúgio onde me abrigo
mas onde fiz um postigo
de forma propositada:

preciso falar com o vento
seguir a canção dos pássaros
respirar a madrugada.

IMPULSO ( Helena de Figueiredo )

 Nem sempre o que apraz dizer

é inverso ao desejo de o fazer

bom seria que o espinho continuasse na rosa
do sangue soubéssemos apenas a cor
e dos vendavais, a notícia dos jornais.

De todas as sensações qual a melhor, não sei
no copo cheio, o líquido derrama ao simples toque
a sede não existe, dá o mote
e o que era tão conciso soa a efémero
e treme o coração
uma vontade louca de abraçar o impossível
afasta o medo

e deixamos a certeza do rochedo
para seguir nas asas de um falcão.

O PRINCÍPIO ( Helena de Figueiredo )

 A língua passeia pelo céu da boca

o som ajeita-se
no gesto

e falas

a tua voz é um manto de rosas
na saliva trazes ouro
caminhos de encanto

e a noite cai
sem que nos tivéssemos apercebido.

Ensinaram-me, que o principio era o verbo

digo:
o princípio são teus lábios
a mensagem que amo entender.

DOMINGO ( Helena de Figueiredo )

 Semana de desejo adiado

gestos, rotinas, tempo contado
hoje, enfim, vejo-me nua
quero ser tua.

Que se confundam os olhos
os sussurros
a pele
que surja uma só impressão digital
uma mistura ansiosa de vontades
enleadas, como a hera do quintal.

Espreito cedinho p´la janela
pressinto teus passos na calçada
a hora é chegada.

Abro-te a porta, devagar
recuas, pareces duvidar
é domingo meu amor
podes entrar.

DE CARA LAVADA ( Martha Medeiros )

 hoje me desfiz dos meus bens

vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos

o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos

a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos

a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos

aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos

coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos

MULHER ( Martha Medeiros )

 “Quem você pensa que é?”

perguntou pra mim de queixo em pé…
Sou forte,
fraca,
generosa,
egoísta,
angustiada,
perigosa,
infantil,
astuta,
aflita,
serena,
indecorosa,
inconstante,
persistente,
sensata e corajosa,
como é toda mulher,
poderia ter respondido,
mas não lhe dei essa colher.



DÁ-ME TUA MÃO ( Gabriela Mistral )

 Dá-me tua mão, e dançaremos;

dá-me tua mão e me amarás.
Como uma só flor nós seremos,
como uma flora, e nada mais.

O mesmo verso cantaremos,
no mesmo passo bailarás.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga, e nada mais.

Chamas-te Rosa e eu Esperança;
Porém teu nome esquecerás,
Porque seremos uma dança
sobre a colina, e nada mais.

  

A PALHINHA ( Gabriela Mistral )

 Havia uma menina de cera;

mas não era uma menina de cera,
só um feixe de trigo no canteiro.
Mas não era feixe nem pilha,
só uma tesa flor de maravilha.
Tampouco era a tal flor, penso que ela
era um pequeno raio de sol na janela.
Porém sequer um raio, como fui notar,
mas uma palhinha dentro do meu olhar.
Acheguem-se para ver como perdi inteira,
nesta lágrima, minha festa verdadeira.

INÚTIL ( Olga Savary )

 Se fosses estrela

eu seria esse bocado de céu
que te sustém.

Se fosses alga
eu seria essa vagarosa vaga
te embalando vagarosamente.

Se fosses um vago som
ou tom no fim da tarde
eu seria esse não imaginado vento
te desencadeando.

Mas, de que vale pensar nisso
se te busco e não sei quem és
se me esperas e não sabes quem sou.

TRANQUILIDADE NA TARDE ( Olga Savary )

 Ah, derramar-me líquida sobre o mar

– ser onda indefinidamente –
esperar pela primeira estrela
e dela ser apenas
espelho.

QUEDA ( Olga Savary )

 Negro crepúsculo mergulhou em meu avesso

e na goela de minhas tempestades
o pó de meus céus de vidro veio ao chão.
O tempo? Findo; só meu silêncio é o pêndulo
– compasso de minhas contradições.
Desenhei com cuidada distância
no olho fechado do tempo meu esperar de nada
mas mesmo para o quase nenhum esperar de nada
só haverá a esterilidade muda das poças d’água.
Fui castigada com a impossibilidade de meus voos
e da antiga competência de minhas asas, nada.
Mas não há revolta. Fico então resgatada
com meu prazer amargo de existir não existindo
– tudo é remorso.

AO FÓSFORO ( José Paulo Paes )

 Primeiro a cabeça

o corpo depois

se inflamam e acendem

o forno
do pão

a luz
na escuridão

a pira
da paixão

a bomba
da revolução.

Sim, mas vamos à coisa concreta:

você fala de fósforos
ou de poetas?

REVERBERAÇÃO ( Lya Luft )

 O destino trama os dias

e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.

Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.

A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.

Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
– ou que me abandonou
nalguma esquina.

(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)


CANÇÃO DA FALSA ADORMECIDA ( Lya Luft )

 Se te pareço ausente, não creias:

hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar

ÔNUS ( Lya Luft )

 A esperança me chama,

e eu salto a bordo
como se fosse a primeira viagem.
Se não conheço os mapas,
escolho o imprevisto:
qualquer sinal é um bom presságio.

Seja como for, eu vou,
pois quase sempre acredito:
ando de olhos fechados
feito criança brincando de cega.
Mais de uma vez saio ferida
ou quase afogada,
mas não desisto.

A dor eventual é o preço da vida:
passagem, seguro e pedágio.

DINORAH, DINORAH ( Ivan Lins / Vitor Martins )

 Quando a turma reunia

Alguém sempre pedia
Ah! Dinorah, Dinorah
E o malandro descrevia
E logo já se via
Ah! Dinorah, Dinorah

E até que ela chegasse a um motel de classe
Ah! Dinorah, Dinorah
Dava um frio na barriga e
Pé pra muita briga
Ah! Dinorah, Dinorah

E nos espelhos ela se despe
Dança nos olhos uma chacrete
E o pessoal na pior
Repete!

Mas o verdadeiro fato
Está dentro do quarto
Ah! Dinorah, Dinorah
Ele abre o seu armário e
Vê no calendário
Ah! Dinorah, Dinorah

E se abraça em frente a ela
O terno, o corpo dela
Ah! Dinorah, Dinorah
Desenhando na lapela
A boca e o beijo dela
Ah! Dinorah, Dinorah



CANÇÃO DAS MULHERES ( Lya Luft )

 Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais. Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta. Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor. Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes. Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais. Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco – em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa.
 
Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais. Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo: “Olha que estou tendo muita paciência com você!” Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça. Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: “Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!” Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente logo: “Pôxa, mais um?” Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire. Que o outro – filho, amigo, amante, marido – não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa – uma mulher.



 

25/08/2025

PRAIA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Os pinheiros gemem quando passa o vento

O sol bate no chão e as pedras ardem.

Longe caminham os deuses fantásticos do mar
Brancos de sal e brilhantes como peixes.

Pássaros selvagens de repente,
Atirados contra a luz como pedradas,
Sobem e morrem no céu verticalmente
E o seu corpo é tomado nos espaços.

As ondas marram quebrando contra a luz
A sua fronte ornada de colunas.

E uma antiquíssima nostalgia de ser mastro
Baloiça nos pinheiros.

IX ( Hilda Hilst )

 Ilharga,

osso, algumas vezes é tudo o que se tem.
Pensas de carne a ilha, e majestoso o osso.
E pensas maravilha quando pensas anca
Quando pensas virilha pensas gozo.
Mas tudo mais falece quando pensas tardança
E te despedes.
E quando pensas breve
Teu balbucio trêmulo, teu texto-desengano
Que te espia, e espia o pouco tempo te rondando a ilha.
E quando pensas vida que esmorece. E retomas
Luta, ascese, e as mós vão triturando
Tua esmaltada garganta. Mesmo assim mesmo
Canta! Ainda que se desfaçam ilhargas, trilhas.
Canta o começo e o fim. Como se fosse verdade
A esperança.

X ( Hilda Hilst )

 Como se

fosse verdade encantações, poemas
Como se Aquele ouvisse arrebatado
Teus cantares de louca, as cantigas da pena.
Como se a cada noite de ti se despedisse
Com colibris na boca.
E candeias e frutos, como se fosses amante
E estivesses de luto, e Ele, o Pai
Te fizesse por isso adormecer.
(Como se se apiedasse porque humana
És apenas poeira,
E Ele o grande Tecelão da tua morte: a teia).
Como se
fosse vão te amar e por isso perfeito.
Amar o perecível, o nada, o pó, é sempre despedir-se.

E não é Ele, o Fazedor, o Artífice, o Cego
O Seguidor disso sem nome? Isso...
O amor
e sua fome.

MULA DE DEUS ( Hilda Hilst )

 I

Para fazer sorrir o mais formoso
Alta, dourada, me pensei.
Não esta pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim o precioso.
Para fazer sorrir o mais formoso
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.
Se me vires, Senhor, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.
II
Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.
Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.
Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.
III
Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?
Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?
E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores
Alegrou-se de mim o coração.
IV
Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).
Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.
Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos
Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.
V
Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.
Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula
Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó formosura.
VI
Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.
Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...
Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.
VII
Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.
Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.
VIII
Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada
Essa sou eu.
Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura).

ANDA VEM ( António Botto )

 Anda vem, porque te negas,

Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha  rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
- Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem! Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos.
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!

ATESTADO ( Anita Costa Prado )

 Branca, negra,

amarela ou vermelha.
Cor da pele é banalidade.
A caveira que somos
é o atestado de igualdade 

DIA ( Adélia Prado )

 As galinhas com susto abrem o bico

e param daquele jeito imóvel
- ia dizer imoral -
as barbelas e as cristas envermelhadas,
só as artérias palpitando no pescoço.
Uma mulher espantada com sexo:
mas gostando muito.