09/09/2025

O DESPERTAR ( Alejandra Pizarnik ) Trad.: Carlos Machado

 Senhor

A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios

Que farei com o medo
Que farei com o medo

Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver

Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue

É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada

Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada

Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi

Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?

Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?

O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual

Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde

Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue

Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo

RISCO ( Eunice Arruda )

 Um poema livre

da gramática, do som
das palavras
livre
de traços

Um poema irmão
de outros poemas
que bebem a correnteza
e brilham
pedras ao sol

Um poema
sem o gosto
de minha boca
livre da marca
de dentes em seu dorso
Um poema nascido
nas esquinas nos muros
com palavras pobres
com palavras podres
e
que de tão livre

traga em si a decisão
de ser escrito ou não

UM DIA ( Eunice Arruda )

 um dia eu

morrerei
de sol, de
vida acumulada
na convulsão
das ruas

um dia eu
morrerei e
não
podia:

há poemas
escorregando de meus dedos
e um vinho não
provado

OLHOS COR DE MOSTARDA ( Líria Porto )

 à porta um sobressalto

por aquele homem eu não esperava
ao fitar-lhe os olhos percebi
vai querer ser dono
                                da minha alma

em legítima defesa eu lhe disse
a mulher que em mim procuras
não existe

nunca mais o vi
mas para assegurar-me comprei cruz
balas de prata cabeças de alho
estacas

A ESFINGE ( Myriam Fraga )

Revesti-me de mistério
Por ser frágil,
Pois bem sei que decifrar-me
É destruir-me.

No fundo, não me importa
O enigma que proponho.

Por ser mulher e pássaro
E leoa,
Tendo forjado em aço
As minhas garras,
É que se espantam
E se apavoram.

Não me exalto.
Sei que virá o dia das respostas
E profetizo-me clara e desarmada.

E por saber que a morte
E a última chave,

Adivinho-me nas vítimas que estraçalho.


 


PURAS PUTAS ( Raiça Bomfim )

 a serenidade, a brisa, o sopro

a graça, o encanto, o canto,
a calma, o doce, a pluma
o puro, a estrela, a flor
é tudo coisa que se aprende em moça;
bom pra ser prendada.
mas há algo que primeira pulsa
recolhida a esconderijos
(gênesis e culpa)
que mulher nunca sonhou ser puta?

08/09/2025

POSSESSÃO ( Ana Rüsche ) in Rasgada, Quinze & Trinta Edições, São Paulo, 2005

 Às vezes aquele corpo não era meu

— um outro me possuía todo.
A noite é lenta, escura e difícil
e aquele meu corpo rude já fora de muitos.

Ele tinha ódio desses passados,
esfaqueava fantasmas nos lençóis
num círculo em volta da cama.

Dizem que o amor era a entrega.
A ampulheta escorria,
ele iria me perder rápido como tantos outros.
A noite é lenta, escura e difícil.

XXV – VÉSPER ( Luíza Mendes Furia ) De Vênus em Escorpião; São Paulo, 2001

 Conservo o verão para que não me deixes

Este verão de folhas a se abrir nas mãos
E em ti farei habitar as correntezas
por que fluem as horas em cardumes de estrelas.

Conservo o verão para que não te percas
E a inocência das chuvas há de banhar teu rosto
E plantarei as palavras ainda úmidas e tersas
sobre os campos e os ninhos. E que floresçam.

Conservo o verão para que não me esqueças
sentada numa cadeira a contemplar as tardes
como se fossem navios ancorados na surpresa
como se fossem alaúdes que o vento tangesse.

GOSTO QUANDO ME FALAS DE TI ( J. G. de Araújo Jorge )

Gosto quando me falas de ti e vou te percorrendo

e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos
[tranquilos

Gosto quando me falas de ti e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs.

Gosto quando me falas de ti quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti porque percebo que te
[desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão.

TEMA LIVRE ( Ana Paula Inácio )

 Há uma parte de ti

presa às linhas férreas
aos rios e seus afluentes
e às capitais de distrito.

Há ainda em ti
quem peça
uma redacção dirigida
como aquela no alternar das estações.
Escrevíamos: os dias ficam mais curtos
e do armário retiramos as roupas de lã.

Ou
vice-versando:
os dias prolongam-se
proporcionalmente aos decotes
inversamente à altura dos vestidos.

Mas agora já não atravessas armários
como em C. S. Lewis.
Neles só encontras espectros em redenção.

Cega de liberdade
esperas, apenas,
por uma bengala.

Do outro lado da rua
a sombra
de um cão.

DA CALMA E DO SILÊNCIO(Conceição Evaristo) “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”. BH: Nandyala, 2008.

 Quando eu morder

a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

FAMA ( Bruna Lombardi )

Nosso caso de amor pode gerar rumores
mudar o tom do nosso humor
como o som do liquidificador
interferindo em nosso som
e nós que vivemos em contradição
um pouco de culpa, um muito de tesão
talvez temamos essa interferência
talvez isso desate o nosso laço
os dois em xeque e talvez mate
ou torne escasso...
o que nos parecia excesso
talvez vire o nosso amor do avesso
e essa intimidade acabe
please please
não conte para ninguém o que você sabe.


SEDUÇÃO ( Bruna Lombardi )

Dentro de mim mora o animal
indômito e selvagem
que talvez te faça mal

talvez uma faísca
relâmpago no olhar
depressa como um susto
me desmascare o rosto
e de repente deixe exposto
o meu pior

em mim germina
uma força perigosa
que contamina
uma paixão vulgar
que corta o ar e que
nenhum poder domina

explode em mim
uma liberdade que te fascina
sopro de vida
brilho que se descortina
luz que cintila, lantejoula
purpurina
fugaz como um desejo
talvez te mate
talvez te salve
o veneno do meu beijo.

NENHUM OBSTÁCULO ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Sei que a manhã trará o fim dos gemidos

no jovem vigor das marés.

Encosta com loucura o teu ouvido às rochas.

Embarcada numa jangada sem mim,

tocarei um a um os sons dos búzios do vento.

Sei que nenhum obstáculo foi suficiente

para impedir este cíclico regresso à terra.

Não tardarás a alcançar a ilha verde,

próxima das nascentes onde te espero

sem corpo. De pele e de alegria me vestirás.

Da nudez dos meus pés beberás o mel.

O QUE EU GOSTO ( Julio Cortázar )

 O que eu gosto do teu corpo é o sexo.

O que eu gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht


 

NA CAMA ( Ângela Ro Ro )

Atrás deste rostinho
Eu tenho um fogo angelical
Por dentro do vestido
Eu guardo um corpo infernal
Se agitando, esperando

A droga do teu beijo
Até você me envenenar
Manchar a tua boca
Até você me tatuar
E berrar que me ama

Na cama, na cama
Meu corpo voltou a se agitar na cama

Suando de desejos
Já não quero nem falar
Que o fogo não se apaga
Se você se entregar
Delirando e queimando





SÓ NOS RESTA VIVER ( Ângela Ro Ro )

 Dói em mim saber que a solidão existe

E insiste no teu coração
Dói em mim sentir que a luz que guia
O meu dia, não te guia, não

Quem dera pudesse
A dor que entristece
Fazer compreender
Os fracos de alma
Sem paz e sem calma
Ajudasse a ver

Que a vida é bela
Só nos resta viver
A vida é bela
Só nos resta viver

GOTA DE SANGUE ( Ângela Ro Ro / 05.12.1949 * 08.09.2025)

 Não tire da minha mão esse copo

Não pense em mim quando eu calo de dor
Olha meus olhos repletos de ânsia e de amor

Não se perturbe nem fique à vontade
Tira do corpo essa roupa e maldade
Venha de manso ouvir o que eu tenho a contar

Não é muito nem pouco eu diria
Não é pra rir mas nem sério seria
É só uma gota de sangue em forma verbal

Deixa eu sentir muito além do ciúme
Deixa eu beber teu perfume, embriagar.
A razão, porque não volto atrás?
Quero você mais e mais que um dia.

Não tire da minha boca esse beijo
Nunca confunda carinho e desejo
Beba comigo a gota de sangue final

06/09/2025

VÊ SE ME ESQUECE ( Alice Ruiz )

Já que você não aparece,

venho por meio desta
devolver teu faroeste,
o teu papel de seda,
a tua meia bege,
tome também teu book,
leve teu ultraleve
carteira de saúde,
tua receita de quibe,
de quiabo, de quibebe,
do diabo que te carregue,
te carregue, te carregue
teu truque sujo, teu hálito,
teu flerte, tua prancha de surf,
tua ideia sem verve,
que nada disso me serve
Já que você não merece,
devolva minhas preces,
meu canto, meu amor,
meu tempo, por favor,
e minha alegria que,
naquele dia,
só te emprestei por uns dias
e é tudo que me pertence
PS: Já que você foi embora por que não desaparece?

Alice Ruiz, in "Pelos Pêlos", editora Brasiliense, 1984.

 já estou daquele jeito

que não tem mais concerto
ou levo você pra cama
ou desperto

MOÇA POLIDA(Alice Ruiz)In "Navalha na Liga", edição ZAP, 1980.

 sou uma moça polida

levando
uma vida lascada

cada instante
pinta um grilo
por cima
da minha sacada

SIM ( Charles Bukowski )

 não importa com quem eu esteja

as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
meus relacionamentos duram em média
dois anos e meio.
com guerras
inflação
desemprego
alcoolismo
jogatina
e o meu próprio nervosismo degenerado
acho que me saio bem o bastante.
gosto de ler os jornais dominicais na cama.
gosto de fitas cor de laranja amarradas em volta do pescoço do gato.
gosto de dormir apertado contra um corpo que conheço bem.
gosto de papeletas pretas no pé da minha cama
às 2 da tarde.
gosto de ver como ficaram as fotos.
gosto que me ajudem a suportar os feriados:
Independência, Dia do Trabalho, Halloween, Ação de Graças,
Natal, Ano-Novo.
elas sabem como remar por essas correntezas
e têm menos medo do amor do que eu.
conseguem me fazer rir onde comediantes profissionais
fracassam.
há a caminhada na rua para comprar um jornal juntos.
há muita coisa boa em estar sozinho
mas há um estranho calor em não estar sozinho.
gosto de batatas vermelhas cozidas.
gosto de olhos e dedos melhores que os meus que consigam
tirar nós de cadarços.
gosto de deixá-la dirigir o carro em noites escuras
quando a estrada e o caminho me deram nos nervos,
o rádio do carro ligado
nós acendemos cigarros e conversamos sobre coisas
e de vez em quando
ficamos em silêncio.
eu gosto de grampos de cabelo em cima de mesas.
eu gosto de conhecer as mesmas paredes
as mesmas pessoas.
não gosto das brigas insanas e inúteis que sempre
ocorrem
e não gosto de mim nessas ocasiões
não dando nada
não entendendo nada.
gosto de aspargos cozidos
gosto de rabanetes
gosto de cebolas.
gosto de levar meu carro num lava-jato.
gosto quando tenho vitória de dez em aposta de seis
por um.
gosto do meu rádio que fica tocando
Shostakovich, Brahms, Beethoven, Mahler.
gosto quando há uma batida na porta e
é ela.
não importa com quem eu esteja
as pessoas sempre dizem:
você ainda está com ela?
devem pensar que eu as enterro
em Hollywood Hills.

04/09/2025

DESFEITA ( Iara Maria Carvalho ) In Saraivada, Sarau das Letras, Mossoró, 2015

 cortei cabelo,

unhas
e todos os carboidratos.

os meus pulsos,
porém,
ainda estão intactos.

Por Halina Poswiatowska. Tradução de Magdalena Nowinska. De Mais Uma Lembrança, 1968

 a minha sombra é uma mulher

descobri isso na parede
ela sorria com a ondulação das linhas
e o pássaro do quadril, de asas encolhidas,
cantava no galho do sorriso

árvore em flor
repleta de papagaios verdes
pendurados pelas asas
uma laranja madureza dourada
o sol brilha nas gotas
na chuva
árvore estreita e nua
meus lábios partidos os meus seios

a lua crescente dos meus cílios cintilou
e apagou-se
quando você apagou a chama do fósforo
e apoiou nos meus ombros as suas mãos
a minha sombra foi uma mulher
antes de desaparecer

Por Halina Poswiatowska. Tradução: Magdalena Nowinska; De Ode Para As Mãos; 1966

 sempre quando quero viver grito

quando a vida me deixa
agarro-a
falo — vida
não me deixe ainda

a mão quente dela na minha mão
os meus lábios perto dos lábios dela
sussurro
vida
- como se a vida fosse um amante
que quer me deixar -

penduro-me no pescoço dela
grito

morrerei se você me deixar
De Ode Para As Mãos (1966)

Por Neide Archanjo, In Todas as Horas e Antes – Poesia Reunida A Girafa, São Paulo, 2004

 Penso partes de um corpo:

os pés tocando seixos
as costas carregando ventos.
Entra na água
e sua respiração é a de um nadador
atravessando uma gruta claríssima
repetida de anzóis.
Vai a braçadas
abrindo um cerne encarnado.
Não é por acaso
que falo de um corpo
preenchendo este espaço
Ele está aqui vivo e distante
irredutível pensamento
que ao ser escrito
torna-se esplendidamente concreto.

EXEMPLO ( Wislawa Szymborska ) Tradução: Regina Przybycien

 Uma ventania

à noite arrancou todas as folhas da árvore
exceto uma única folhinha
deixada
para se balançar solo em um galho nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra
que, sim —
gosta de brincar de vez em quando.