23/09/2025

AULA DE ANATOMIA PARA CERTAS MENINAS ( Carla Andrade )

as meninas de outra época 

colecionavam e trocavam papéis de carta 
os de seda  – os mais valiosos – amassavam 
não eram espichados como o tergal das saias

 

Na ponta dos dedos toques sutis:
nervos fibras músculos e enredos
como uma descoberta num mapa 
cada desenho uma labareda
a eterna promessa do completo

 

o papel de carta insinuava
o que não seria estudado na escola:
tesouros de piratas de seus corpos 
marés encharcadas de águas-vivas
a ponta da pirâmide, esfinge

 

o cheiro dos papéis de carta:
orquídeas de Madagáscar
plantas carnívoras
coberta descoberta
lençol não trocado
árvores frutíferas


os envelopes das cartas
ficavam quase abertos
asas de libélulas 
retirados em dedos ébrios
com luvas de cetim 
de cartolas mágicas

 

já ouvi falar que as meninas 
ardiam seus papéis de carta
em ferros a vapor 
sem nenhum rubor
não aprendiam com as mães
mas com as mãos

 

os papéis importados
forasteiros
abriam-se
como figos na imaginação
um livro pagão

se em blocos 
as meninas molhavam
a ponta dos dedos 
e desfolhavam
um a um

 

alguns papéis de carta 
se esfregavam dentro
das pastas 
assim como as pernas
das meninas ao comprimir
seus travesseiros

tão bem lavados pelas mães

 

as mãos os dedos 
eram cúmplices

assim como 
as pernas penas 
sem tinta sem álibis

 

as meninas não falavam 
dos seus dedos no recreio
merendeira lacrada: 
maçã, bolacha recheada
os meninos preferiam 
medir coisas no banheiro

 

Meninas
de matemática não eram certeiras
de vasos sanguíneos mais festeiras

 

pequenos montes de eclosão 
meninas e seus dedos
os meninos jogavam tapão

 

as meninas não trocam mais papéis de carta
algumas ainda guardam suas pastas
tocam-nos como tecido de alfaiataria rara
e sentem o cheiro de notas
das primeiras alforrias

SUMIDOURO ( Olga Savary )

 Talhe da audácia

e da covardia, meu rei e vassalo,
engolir de pássaros,
golpe de asa
fartura de água
na árvore da vida,
na terra me tens
com os pés bem plantados.
Aqui nado, aqui voo,
telúrica e alada.


PELE DE TERRA, MINHA MORADA ( Olga Savary )

 Pele de terra, minha morada,

para ti portas abertas, abertas
as comportas do mar deflagrado
na manhã vendo-te vindo todo de branco.
Aqui o pio de pássaros e algumas árvores,
nossa imaginação, teus objetos,
fingem floresta para o selvagem e quase
sem ternura momento de naufrágio.
Minha voluta roxa e ascendente
ao labirinto-caracol, tua obsessão,
só agora te descubro, ah minha força,
instrumento contra meus excessos,
minha  imperfeita perfeição.

GUERRA SANTA ( Olga Savary )

 Tenho um medo da fera que me pelo,

ao vê-la quase perco a fala
(embora seja a fera o que mais quero)
mas reagindo digo-lhe palavras doces
e palavras ásperas, torno
igual minha voz à voz dos bichos
para seduzi-la ou para intimidá-la,
para que pontiaguda me tome das entranhas
depois de dilacerar com as garras meu vestido.


 


É PERMITIDO JOGAR COMIDA AOS ANIMAIS ( Olga Savary )

 A sombra vindo da floresta

cobrindo-nos como um toldo,
os anéis de folhas e raízes
e os véus de areias e marés,
a água vindo em meio ao fogo aceso,
olho no olho o bicho que me espreita,
ponho-me nua para ser domada
e o coração do magma eu atiro à fera.


O SEGREDO ( Olga Savary )

 Entre pernas guardas:

casa de água
e uma rajada de pássaros.

SENSORIAL ( Olga Savary )

 Íntima da água eu sou por força,

Mar, igarapé, rio ou açude,
Pela água meu amor incestuoso.

SIGNO ( Olga Savary )

 A respiração de novembro e de sua véspera

(outubro) arde-me não no cérebro
nem no ombro
mas – anel de fogo – nas ancas
e nas entranhas.
Em ti eu amo os amores todos.
Eu não podia aceitar isto
mas aceito agora. A vida
não cessa, é eterno continuar.
Por mais que se queira
o ávido sangue não será saciado.
A tarde é quem está bebendo este desejo
conivente com a violência
da patada da fera amada.
E numa noite de novembro
é que fiquei pronta para a vida
ao ver o mar refletido no teu corpo
e ao meu rosto assomar todo o desastre.

SER ( Olga Savary )

O sexo tão livre, natural, obsessivo
Como areia e seixos rolados:
Regresso à  água.

22/09/2025

ÁPICE ( Líria Porto )

 bem melhor que namorada

a melhor amiga - com quem possas

ter orgasmos


FOSCOS ( Líria Porto)

meu amor é como o sol

tem seus invernos


meu corpo - como a lua

sabe da solidão



(IM)POSSIBILIDADES ( Líria Porto )

 eu te levaria para dançar

depois faríamos amor

uma foto sorridente

e nunca mais nos veríamos

ou

eu te levaria para uma foto

faríamos amor e dançaríamos

sorridentes

ou

eu te levaria para uma foto

e faríamos amor

ou

um amor sorridente

ou

nunca mais dançaríamos

ou

nunca mais

ou


FLUIDOS ( Líria Porto ) in "Esculturas musicais 14". Zunái - revista de poesia e debates, 26.7.2013.

 tornei-me assim liquefeita

quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nessa vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
quase criava raiz

minha tristeza de chuva
esta amargura profusa
tem olhos túmidos

sou tal e qual o dilúvio
derramo transbordo enxurro
sangro os pulsos

DESPERDÍCIO ( Líria Porto ) in Olho Nu; Patuá, São Paulo, 2017

 prima dirce vê a vida

pela fresta

ela adora futebol
e vai à missa

seu pecado foi cheirar
lança-perfume

prima dirce borda borda
mas não pinta

AS SÍLABAS ( Luiz Tatit )

 Cantiga diga lá

A dica de cantar
O dom que o canto tem
Que tem que ter se quer encantar
Só que as sílabas se embalam
Como sons que se rebelam
Que se embolam numa fila
E se acumulam numa bola
Tem sílabas contínuas:
Ia indo ao Piauí
Tem sílabas que pulam:
Vox populi
Tem sílaba que escapa
Que despenca
Rola a escada
E no caminho
Só se ouve
Aquele boi-bumbá
Tem sílaba de ar
Que sopra sai o sopro
E o som não sai
Tem sílaba com esse
Não sobe não desce
Tem sílaba legal
Consoante com vogal
Tem sílaba que leve oscila
E cai como uma luva na canção

MULHER FEMINISTA ( Lia Sena )

 insisto em ser

o que apavora
o que me cobram
não posso dar
se não cabe no que
é ser mulher.
que não me basta
ser apêndice
sou liberdade de corpo
inteiro
de corpo livre.
não quero menos
só quero pleno
só quero igual.

MULHER FEMINISTA (Luh Oliveira )

 Meu feminino selvagem

clamou-me mulher
sugou em mim
toda força e doçura
toda magia e ternura
tudo que expele vida
de meu ventre
Meu feminino selvagem
clamou-me dona
do meu corpo
da minha alma
das minhas vontades
fez-me menina,
felina, doutrina
fez-me divina,
vagina.
Fez-me feminista.

DELÍRIO ( Líria Porto )

 a minha alma gêmea ela mora em marte

e vagueia solta por entre as estrelas 
se há tempestade ou um pé de vento
vem ela pousar em meu travesseiro 
a minha alma gêmea dança tão bonito
quando é lua cheia sou eu quem vai lá
rodopiamos doidos pela via láctea 
às vezes perdemo-nos pelo infinito
nas noites escuras deixo a porta aberta
a minha alma gêmea vem aqui me ver
leva-me consigo voo em sua nave
só a minha casca fica presa à terra
a minha alma gêmea fez-me prometer
quando ela puder quando eu precisar
vai me transportar carregar meu corpo
vou morar em marte de uma vez por todas
acaso ouças risos ou vozes alegres
barulho de guizo ou de cachoeira
é minha alma gêmea a brincar comigo
a contar-me histórias sobre a lua cheia
então eu te peço  - não chores
abre a janela
publicado no livro Cadela Prateada

FÔLEGO ( Líria Porto )

 quando nasci

não tinha anjo disponível 
então um diabinho com um tridente 
espetou a minha bunda e disse - vai
cai na vida
não tens outra saída
publicado no livro Cadela Prateada

BEBEDEIRA ( Líria Porto )

 se o amor voltar eu me desvio

escondo-me num fundo de bar

fujo do cio

 

se o amor me quiser de novo

não me vai encontrar

afogo-me no copo de um bêbado

num cubo de gelo

cubro-me com chope ou uisque

eu me bebo

 

se o amor vier

não vou querê-lo

 

amor é vício


20/09/2025

MEMÓRIAS DE DULCINEIA XIV ( Graça Pires )

 Na penumbra me perco.

Surpreendida. Impaciente.
Como se uma reprimida dança
movesse o mais insólito enredo
nos meus passos.
Deito-me de bruços para cheirar,
na terra, o hálito do sonho que persigo
e o corpo cobre-se-me de ervas bravas.
Assim permaneço
até que uma lua de sangue me visite.
Graça Pires, De Uma Extensa Mancha de Sonhos

FUGA ( Graça Pires )

 Pinto na janela a tormenta

de um mar imaginado.
De costas para a lua
preparo a minha fuga.
Enrolo à volta do corpo
a primeira onda:
a derradeira âncora
para roçar na boca
o lamento verde das marés.
De Uma Extensa Mancha de Sonhos, 2008

O TEMPO QUE PASSA ( Graça Pires )

 E, no entanto, muda a direcção dos ventos. 

As mãos rondam os gestos. 
A lisura das horas segue o rumo de chronos. 
Um descuido na confluência de ruas
sem retorno arde sob os pés. 
São lugares improváveis onde se chega sem guia, 
só pela ocasionalidade de tudo, só pelo cheiro, 
só pelas lajes com arestas arredondadas. 
Um laço de ferro vem ancorar no peito as marcas 
que alarmam o tempo que passa, 
registado por relógios sem ponteiros, 
a alagar de suor hábitos antigos, 
como uma cilada ou um cutelo 
fendendo os dias tão breves. 
Com minhas mãos povoadas de acenos, 
toco a face intocável das memórias. 
E escrevo. Escrevo a síntese de íntimos silêncios 
para que não se banalize a minha voz diferida. 
Graça Pires, De Antígona Passou Por Aqui. 2012

RETRATO MARROM ( Fausto Nilo / Rodger Rogério )

 Ai meu coração sem natureza

Vê se estanca esta tristeza
Que ilumina o escuro bar
O nosso amor é um escuro bar
Suspiro azul das bocas presas

O medo em minha mão
Que faz tremer a tua mão
Traspassa o coração
Joga fumaça em meu pulmão
Silente esquina do Brasil
Nos verdes mares calma lama
Um desespero sem canção

Guarda o teu olhar de ave presa
Na toalha de uma mesa
Sem mirar a luz do sol
Não há calor na luz do sol
O fim da festa é uma certeza

Te vejo em minha vida
Como um retrato marrom
São lembranças perdidas
De um passado e tudo bom
Brilha um punhal em teu olhar
Sinto o veneno do teu beijo
Era moderno o meu batom

PERTURBADA DÁDIVA (Graça Pires, De "O improviso de Viver")

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LAMENTO DAS MULHERES AFEGÃS ( Graça Pires )

 Olhem para nós. Ouçam-nos.

Não somos vultos sem identidade.
Somos mulheres.
Somos mães filhas irmãs amigas.
Temos um nome.
Indefesas frente ao terror
é silencioso o lamento o arrepio.
Qualquer gesto nos pode destruir.
Ficámos sem chão.
Avistamos a montanha
mas um deserto invisível
acorrenta-nos os pés.
O céu é um abismo.
Onde estão as estrelas
os anjos o nosso deus?
Não. Não choramos.
Temos o olhar parado nos livros proibidos
na inutilidade dos dias que hão-de vir
nas palavras reprimidas
na mais indecifrável prece
tão perto da descrença.
Quem poderá salvar-nos?
( Graça Pires, in O Improviso De Viver )


TERRA ( Célia Moura, in "Terra De Lavra" )

 Trago na pele

O odor das macieiras
No entardecer da espera
Quando a semente lançada
Ao ventre da terra amanhada
Pelo arado da esperança
Me carrega no tempo
Caminhos de urze e de giesta
Neste cimento armado,
Erguido por todos os lados,
Árvores moribundas da cidade
Transbordantes viscerais de
Ânsias fétidas,
Fome.
Trago no sangue
Crianças e pássaros de todas as cores,
Mães que sorriem com seus filhotes
Ao colo,
Alguns agarrados às saias,
Trago refrescos de limão
E piruetas ao redor da fogueira
Trago tuas árduas, ternas mãos
Entre as minhas,
Meu mantimento, meu pão
E as minhas sujas do musgo
Que invento pelo Natal.

19/09/2025

AMO -TE POR SOBRANCELHAS ( Julio Cortázar )

Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores

branquíssimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galeria de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.