28/09/2025

OBRIGADO ( Pedro Homem De Mello )

 Por teu sorriso anônimo, discreto,

(O meu país é um reino sossegado)

Pela ausência da carne em teu afeto,
Obrigado!

Pelo perdão que o teu olhar resume,
Por tua formosura sem pecado,
Por teu amor sem ódio e sem ciúme,
Obrigado!

Por no jardim da noite, a horas más,
A tua aparição não ter faltado,
Pelo teu braço de silêncio e paz,
Obrigado!

Por não passar um dia em que eu não diga
- Existo, sem futuro e sem passado.
Por toda a sonolência que me abriga.
Obrigado!

E tu, que hoje és meu íntimo contraste,
Ó mão que beijo por me haver cegado!
Ai! Pelo sonho intato que salvaste,
Obrigado! Obrigado! Obrigado!

REVELAÇÃO ( Pedro Homem De Mello )

 Tinha quarenta e cinco e eu, dezesseis.

Na minha fronte, indômitos anéis
Vinham da infância, saltitando ainda.

Contavam dela: - Já falou a reis!
Tinha quarenta e cinco e eu, dezesseis.
Formosa? Não. Mais que formosa: linda.

Seu olhar diz: Seja o que o Amor quiser
A verdade planta que os meus dedos tomem!

Pela última vez foste mulher.
E eu, pela vez primeira, fui um homem!

POEMA ( Pedro Homem De Mello )

 Noite. Fundura. A treva

E mais doce talvez.
E uma ânsia de nudez
Sacode os filhos de Eva.

Não a nudez apenas
Dos corpos sofredores
Mas a das almas plenas
De indecisos amores.

A voz do sangue grita
E a das almas responde!
Labareda infinita
Que nas sombras se esconde.

Mas quase sem ruído,
Na carne ao abandono
O hálito do sono
Desce como um vestido.

Pedro Homem De Mello, in POEMAS (1964-1979)

 A chuva, sensualíssima, procura

Embebedar as folhas e as raízes.
Verga meus ombros, prende-me a cintura.
Respira com as árvores felizes.
E feminina, feminina, actua
De modo a encher de gozo a hora em que vivo.
A minha carne entrego-lha. Está nua!
Porque sou másculo é que sou cativo.
Aceito a chuva. Sorvo-a! Não discuto
O som libidinoso do seu pranto.
E, como a interromper sinais de luto,
Sorrio. Fico remoçado. Canto!
E canto o amor, o amor das mães solteiras
- Amor sem medo, amor sem fingimento.
E canto, ainda, todas as bandeiras
Que pedem vida aos músculos do vento!

XIX ( Lília Tavares )

 Água

é a palavra
que acorda em mim o eco
misterioso do feto.
Desperta em mim
a bruma e o silêncio
dos labirintos íngremes
da alma.

Água
é a palavra
que evoca em mim a fonte
inicial do éden
perdido bucólico lustral.

Água
é a palavra
eterna elementar.

Alma
é a palavra.

XVIII ( Lília Tavares )

 Algures dentro de mim

uma nascente.
A merecê-la que cântaro?
Que canto?

Sinuoso
vertente
precário
o trilho das palavras

A dor transborda
A sede permanece.

REFÚGIO ( Lília Tavares )

 Hoje acordei com a dor das árvores;

estou de pé e o meu tronco sustém
o vazio e a solidão dos ramos
côncavos de espera,
impacientes de ternura.
Quero o bracejar dos pássaros,
ser refúgio dos ventos que me procuram,
tornar-me na folhagem que te abriga,
ser o ninho na tua noite, aberto
com a inquietação e a serenidade
dos rumores das aves mais tardias.
Não, desta vez não vou ...

Maria Teresa Horta, in ESTRANHEZAS (D. Quixote, 2018)

Não me exijam
que diga
o que não digo
 
não queiram
que escreva
o meu avesso
 
não ordenem
que eu acene
o que recuso
 
não esperem
que me cale

e obedeça 



DIVERSAS ( Nina Rizzi )

 o êxtase é um

vê-la

(colados os corpos

sou o seu profundo)

não abro mão da maravilha

: (minha) condição feminina

prolongar prazeres

como não a dor

 

senhores (minha senhora), não há nada como

a vida clitoriana

en(sf)trega em tribal

 

ademais, nada sabe a ciência do íntimo

— o meu

: n'ela o prazer é um canto

curva entre ossos

maciez rugosa

é maresia

pontos em gostos gemidos

gritos e gozos


27/09/2025

DIA-A-DIA ( Líria Porto )

 domingo

ia à missa

 

segunda

rezava o terço

 

na quinta

maria das quantas

limpava o quarto

e punha o lixo

na cesta

 

no sábado

vinha um soldado

tirar-lhe as teias

da aranha

 

nu tempo restante


SUICIDA ( Líria Porto )

 cimentei bombas nos olhos

pus granadas no umbigo

soquei pólvora em cada poro

bebi chumbo derretido

ateei fogo no invólucro

acorrentado a explosivos

depois convoquei a morte

para dormir comigo

 

ela me disse tu és um forte

se queres uma consorte

convida a vida

EXPLÍCITO ( Maria Terra )

 Louvai a Deus todo poderoso mulheres de toda a Terra

Amai a todos os homens como se fosse a si mesmas

Bebei de sua água repugnante e salvai vossos casamentos

Imaginai pra sempre que poderia ser pior

Rameiras romeiras rezeiras

Irmãs de toda caridade

Negai apenas o arrependimento

Trilhai a trilha confiante e sem choro

O amor de Deus é singular

 


OUTDOOR ( Líria Porto )

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ENQUANTO A LUA FLUTUA ( Líria Porto )

 o luar penetra entre as persianas

listra a cama o lençol as fronhas

mescla as paredes

 

tua ausência morde-me o pescoço

deixa em minha pele a digital do frio

o roxo dos carimbos

LACUNA ( Líria Porto )

 no vão entre o colchão e o cobertor

espaço da tua ausência

a saudade dos arrulhos dos sussurros

do amor que existiu e voltará

numa noite assim

de muita chuva


FLORES DESABROCHAM ( Líria Porto )

 insinuas compreendo

e sem nada explícito

fico nua tu te despes

 

em dias de delicadeza

o grotesco é belo

:

o sexo dos velhos

COMPLEXO ( Líria Porto )

 vestida com poucos pelos

(tinha pelagem restrita)

caminhava uma mulher

sem qualquer outro adereço

e nua como nasceu

atravessava esta vida

até que um dia um cruel

apontou suas estrias

 

a mulher então corou

apequenou-se

cobriu-se


A ATRIZ ( Líria Porto )

 com uma saia cigana

um xale de renda preta

e eu virava uma puta

uma mulher sem cabresto

 

depois — a roupa trocada

e limpa de qualquer culpa

fantasiada de santa

ninguém me apontava o dedo

 

difícil é ficar nua — ser duas

seres tu mesma

UM SONHO ( Caetano Veloso )

 lua na folha molhada

brilho azul-branco
olho-água, vermelho da calha nua

tua ilharga lhana
mamilos de rosa-fagulha
fios de ouro velho na nuca
estrela-boca de milhões de beijos-luz

lua
fruta flor folhuda
ah! a trilha de alcançar-te
galho, mulher, folho, filhos
malha de galáxias
tua pele se espalha
ao som de minha mão

traçar-lhe rotas
teu talho, meu malho
teu talho, meu malho

o ir e vir de tua
o ir e vir de tua ilha

lua
toda a minha chuva
todo o meu orvalho
caí sobre ti
se desabas e espelhas da cama
a maravilha-luz do meu céu
jabuticaba branca


 


 

26/09/2025

ENGRAÇADINHA ( Sergio Saraceni / Tite Lemos )

 Nua,

Dentro do quarto
Dentro do espelho
Sou toda tua,
Mas não és só meu
Pois me seduzes,
Mas me desprezas.
Apago as luzes
À tua espera
Te ensino amar
E a malquerer
O amor tão virgem, principiante e eu,
Tão sábia amante
A te chamar.
Oculta fêmea,
Engraçadinha,
Sabes meu nome,
Pois és meu homem
E também és minha mulher
O amor antigo verdejante e eu,
Tão tola amante
A te esperar
Inutilmente...

24/09/2025

O AMOR É O MEU PAÍS(Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)

 Eu queria, eu queria, eu queria

Um segundo lá no fundo de você
Eu queria, me perdera, me perdoa
Por que eu ando à toa
Sem chegar
Quão mais longe se torna o cais
Lindo é voltar
É difícil o meu caminhar
Mas vou tentar
Não importa qual seja a dor
Nem as pedras que eu vou pisar
Não me importo se é pra chegar
Eu sei, eu sei
De você fiz o meu País
Vestindo festa e final feliz
Eu vi, eu vi
O amor é o meu País
E sim, eu vi
O amor é o meu País

23/09/2025

INESGOTÁVEL ( Lila Maia )

 Já fui tão antiga querendo ser feliz.

Mas ele chega louco demais para o meu corpo.

Me arrasta, porque sabe que serei magma

Neste doce deslumbramento das marés altas.

E feito um guerreiro suas mãos tocam

Onde só existe falta.

Esse homem me habita com fúrias e pássaros.



 

LETRAS ( Jade Prata )

 Cada palavra

         é áspera, é úmida,
         língua.
         Voz à mingua.
         Cada palavra minha
         é quente, é fértil,
         útero.
         Cada palavra sua
         recusa, se lambuza,
         abusa de mim.

PERFEIÇÃO ( Patrícia Lins )

Hoje fiz amor comigo mesma,
É quase perfeito
O toque no peito.
Em meu pensamento invento.
E braços fantasmas
Me esmagam,
Um ou mais bocas me sugam
Eu mesma me desdobro
Em mais de um gesto
Que espalho por todo o resto.
Posso ser Leda, por que não?
(O Cisne a bicar meus seios)
Quem sabe escrava, serva surrada
Ou, de alta linhagem, uma dama
Pudica, cheia de anseios.
Branca? Negra?
Idolatrada ou usada?
(Bem de acordo com meu estado emocional)
E quando o gozo explode, sem igual,
Extemporâneo, lá dentro, total!

ALÉM DE MIM ( Olga Savary )

 Quero apenas

Além de mim, quero apenas
essa tranquilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.

Além de mim
e entre mim e meu deserto
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto de meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

"A Literatura é uma dama exigente, não dá descanso. Ou você entrega a ela toda a sua energia ou ela lhe vira as costas." ( Olga Savary)


 

O ESPELHO ( Carla Andrade )

 Essa mulher no espelho

tem o mesmo olhar
abotoado da menina que roubava
as sombrinhas de cogumelos
das árvores e dos pastos.

Esse olhar no espelho parece
bolinhas de gude
na escada rolante,
olhos inconsequentes.

Essa mulher no espelho
tem gosto de hóstia
ao lembrar
dos dedos de menina
a lambuzar o próprio sexo.

Essa mulher é a mesma
que se atira nas raízes do seu colo
e se retira com nacos de barro
de obra inacabada.

Esse reflexo no espelho é o
reflexo de tantos outros reflexos.
Máscaras de pétalas
secas pelo tempo.

Coragem.
Pediu para o homem.
Essa mulher ainda sou eu?

COMBUSTÃO ( Carla Andrade )

 Minha coxa

a esfregar na sua.
Palito de fósforo
a riscar o céu.