02/10/2025

CORAÇÃO INSANO ( Nadia Anjuman ) tradução: Regina Guimarães

 Não quero as vistas do jardim, nem a água, nem os grãos

Sou aquele pássaro que procura apenas um recanto nas ruínas
O meu coração transborda de mágoa e desejo
Quero um buraco na casa do pesar para alojar esse desditoso órgão
Não recebi bondade de amigo, conhecido ou amante
Quero arredar do mundo este meu coração aflito
No meio da multidão, a solidão marcou-me a ferros
Possa o Deus de Anjuman fazer do meu coração uma borboleta
Do afã cerebral nada de bom emana: quero vinho – saúdo a embriaguez
não quero arejar o intelecto – é a loucura que me encanta
Quero um coração louco, quero um coração louco

UM PRANTO SURDO(Nadia Anjuman)Trad.:Regina Guimarães

 O som dos verdes rastros está na chuva

Chega até nós desde a estrada
Almas sedentas e saias empoeiradas chegaram do deserto
Seu hálito ardente e a miragem-fundida
De suas bocas secas e cobertas de pó
Nos chegam, agora, desde a estrada
Seus corpos atormentados, meninas criadas na dor
A alegria longe de seus rostos
Corações velhos e repletos de rachaduras
Não surgem sorrisos nos oceanos inóspitos de seus lábios
Nem uma lágrima brota do seco canal de seus olhos
Oh, Deus!
Poderia ignorar se seus gritos surdos que saltaram do céu,
Alcançam as nuvens?
O som dos verdes rastros permanece na chuva

01/10/2025

FLOR DE FUMO ( Nadia Anjuman )Trad.: Regina Guimarães

Estou cheia de vazio
                                   Cheia
E muitas vezes é este fardo de nada
no campo incandescente do meu corpo
                                   que arde por dentro
Desta estranha ebulição 
                                   de súbito
                                   os meus poemas
                                   nascem
                                   ao jeito de papéis
                                   desdobrando-se
                                   – rara flor são
Porém,
estes fios de fumo
                                   dão ao meu corpo
                                   seu cheiro e sua cor

BULHA ( Adélia Prado )

Às vezes levanto de madrugada, com sede,
flocos de sonho pegados na minha roupa,
vou olhar os meninos nas suas camas.
O que nessas horas mais sei é: morre-se.
Incomoda-me não ter inventado este dizer lindíssimo:
‘Ao amiudar dos galos.’ Os meninos ressonam.
Com nitidez perfeita, os fragmentos:
as mãos do morto cruzadas, a pequena ferida no dorso.
A menina que durante o dia desejou um vestido
está dormindo esquecida e isto é triste demais,
porque ela falou comigo: "Acho que fica melhor com
[babado"
e riu meio sorriso, embaraçada por tamanha alegria.
Como é possível que a nós, mortais, se aumente o brilho
[nos olhos
porque o vestido é azul e tem um laço?
Eu bebo a água e é uma água amarga
e acho o sexo frágil, mesmo o sexo do homem.


A SERENATA ( Adélia Prado )

 Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

ANÍMICO (Adélia Prado)

Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoado de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asa, é boca, é bico,
é grão de poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.


TEUS OLHOS ( Alzira Freitas Tacques )

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SONHO? ( Leonor Farías ) Trad: Antonio Miranda

 Eu não sonhei…

os beijos na vereda da praça
o toque anoitecendo minha cintura
a mesa escondedora de joelhos
e a doce insinuação lasciva

Não foi una confusão
o sonho desses dois vocábulos
o enérgico e possessivo. Vamos!
as reinvidicações veladas
e a ternura ol descobrir o gesto.
Não foi uma fantasia
a glória da palavra justa
o cúmplice silêncio da espera
a gulosa mirada do encontro
e os dias de fogo à distância,,
as mãos sobrepostas
o céu por fazer-me tua
a ponta de meus pés para pegar a boca
e agachados para sorver minha essência.
Não foi una alucinação
a fúria animal entremesclada
o ofegante do músico
a vertigem elevada entre teus braços
e teu sensual tom autoritário.
Não era um delírio
(embora delirássemos)
os risos debaixo o cinto sustentador
tuas águas derramadas em meu ventre
me néctar fluindo por teus dedos
e a urgente ereção em meus confins.
Não, eu não sonhei

Os sonhos não deixam rastros, nem amasso,
nem odores
Os sonhos são pura confusão
Os sonhos não são nossos.

METÁFORA DO CORPO ( Leonor Farías) Tradução: Antonio Miranda

 É amor (e não me engano)

Eu o vi em sua inocente perversão
no crime das carícias moribundas
e o atropelo da fome.
Eu o senti na sucção dos espasmos
na fatal embalançar-se lúbrico
e na inefável  almagama do acoplamento.
Eu o viví no desbarranco
tomada pelo assalto
atravesando-me
(ávido)
o santuário
na elevação no justo instante
o ereto estandarte da morte.
Eu o  cheirei no suor das extremidades
no desperdício de fluidos
em cada gesto
que maltratou meu corpo com excessos.
No puxão sedento da ira
que devora e chupa com audácia
que sujeita com fúria
como troféu de batalha.
Posse que é amor (não tenho dúvida)          
quando a terra gira sob meus pés
no ritmo da entrega           
quando sua lança rompe
todas as fronteiras de minha história
Quando sou sua
E sou
e somos.

30/09/2025

AMAZONAS DE HOJE ( Alexandra Magalhães Zeiner )

 Hoje criei tempo pra me amar

Encontrar-me, sentir, acariciar
Esta outra parte de mim,
Que vive tão distante
Em mundos paralelos
De sonhos ideais

Perdoei e integre
As mutantes que trago dentro de mim
Deusas de muitas faces:
Salomé, Madalena
A Guerreira e Maria

Desconhecia o poder
A força e o medo
Que a escuridão e a ilusão causavam
Que me cegavam
Que me separavam deste mundo

Ao mergulhar nas profundezas
Das fossas oceânicas
Encontrei seres de luz própria
Indicadores de outras vidas
Outras dimensões
E assim me entreguei

Ao me guiarem para a superfície
Processo novo foi iniciado
Da aceitação e compaixão total
Que integrava, eu, minhas irmãs
As Amazonas, habitantes da Mãe Terra
Filhas do Mundo e da Polaridade

YIN ( Andressa Lameu )

 Como uma fêmea regida pela lua, intuo.

Vejo uma Nova Era de Amazonas e Deusas.
Dos mistérios da fé, o poder do feminino é o único em que
acredito.
Estar vivo é respirar no desconhecido.
Estar vivo e ser mulher é enigma duplo.
É ser a própria Esfinge.

CASA AMARELA ( Andressa Lameu )

 Sinto pelos anos perdidos

Pelos nossos filhos não nascidos
Sinto pelas ruas em que não nos beijamos madrugada
adentro.
Sinto pelo grito entalado
Pelo gozo castrado
Sinto pelas vezes em que nos faltou o tempo.
Sinto pela velhice não compartilhada
Em uma casa amarela com nossos nomes na fachada.
Sinto tanto pelo silêncio das manhãs
E pelo riso bonito que te subia as maçãs.
Sinto pelas pessoas desse mundo
E pelo medo profundo que deitam semanalmente nos divãs.
Sinto pela verdade tardiamente revelada.
Sinto pela alma enlutada.
Sinto pela ferida milenar dos clãs.


Sinto pelo que ainda vai acontecer
depois que o ar poluído desaparecer dessa vida vulgar.
Sinto pelo teu desconforto
Que por muitas vezes absorvo
E que me faz pesar
Sinto pelas longas caminhadas sem o menor intuito
Sinto pela saudade que vou sentir quando isso acabar.
Sinto pelo infortúnio de não ter sido a mais amada
Sinto tanto que já não sinto mais nada.
E por isso
Sinto muito.

RECEPTÁCULO ( Ana Paula Del Padre )

 Despiu-se das peças

Retirou acessórios
Libertou-se das amarras
Abriu as correntes
E, mesmo assim,
Não estava
Nem nunca mais estaria
Inteiramente nua.
Ele era, agora,
A veste que a cobria
Sua segunda pele
Quem seria visto no reflexo do espelho
Toda vez que ela ousasse olhar
Para si mesma

RÉGUA ( Ana Paula Del Padre )

 Não há métrica

Capaz de fazer caber
O imensurável
Este isto que somos
Mas, se for para pesar,
E medir
Enquanto deste jeito pulsar
Vale a pena ficar
E, se me permitir,
Ser todas
E as tantas que sou
Falar sem receio
E amar sem freio
Por que partir?
Esta é minha régua:
O brilho no olhar
E o tamanho do sorrir

REPAROS ( Ana Paula Del Padre )

 Repara…

Na pupila que dilata e te chama
Aponta minha cama
Antes de me amar
Repara…
No cheiro de pomar
De flor de laranjeira
E mel de abelha
Que de mim exala
Enquanto me amas
Repara…
Na umidade dos fios
Cabelos encharcados
E minhas outras águas
Sobre você
Depois que me amas
Repara…
Na questão que faço
De prolongar sua permanência em mim
Mesmo depois do fim
Repara…
Antes, durante, depois e além
Repara…
Agora, sempre e pra sempre
Repara infinito
Para nunca ter que reparar
Porque amor visceral desconserta
Mas não sobrevive a reparos

SERELEPE ( Ana Paula Del Padre )

 Artista

Arteira
Desmancha dente-de-leão
Cheira flor de laranjeira
Trepadeira
De cabeça pra baixo
E pernas pro ar
Só de brincadeira
É sua maneira
De encapsular
Aquele instante de fogueira
E entregar a quem em si
Abriu clareira

ENTRELINHA ( Ana Paula Del Padre )

 Gosto das palavras

Mas ainda prefiro
O que nem precisa ser dito
O subentendido
O que está contido
Entre uma frase e outra
Do seu sussurro
E seu suspiro
Bem ali
Naquela brecha
Na fresta
Na fenda
No vão
No vai e vem
Aquele ínfimo espaço
No intervalo do hiato
Quem olha assim
Parece pouco
Mas ninguém adivinha
O quanto cabe
Numa entrelinha

MÃE PRETA ( Bruno de Menezes )

No acalanto africano de tuas cantigas,

Nos suspiros gementes das guitarras,
Veio o doce langor
De nossa voz,
A quentura carinhosa de nosso sangue.

És, Mãe Preta, uma velha reminiscência
Das cubatas, das senzalas,
Com ventres fecundos padreando escravos.

Mãe do Brasil? Mãe dos nossos brancos?

És, Mãe Preta, um céu noturno sem lua,
Mas todo chicoteado de estrelas.
Teu leite que desenhou o Cruzeiro,
Escorreu num jayo grosso,
Formando a estrada de São Tiago.

Tu, que nas Gerais desforraste o servilismo,
Tatuando-te com pedras preciosas,
Que deste festas de esmagar!
Tu, que criaste os filhos dos Senhores,
Embalaste os que eram da Marqueza de Santos,
Os bastardos do Primeiro Imperador
E até futuros Inconfidentes!
Quem mais teu leite amamentou, Mãe Preta?
Luiz Gama? Patrocínio? Marcílio Dias?
A tua seiva maravilhosa
Sempre transfundiu o ardor cívico, o talento vivo,
O arrojo Maximo!

Dos teus seios, Mãe Preta, teria brotado o luar?
Foste tu que na Bahia alimentaste o gênio poético
De Castro Alves? No Maranhão a glória de Gonçalves Dias?
Terias ungido a dor de Cruz e Souza?
Foste e ainda és tudo no Brasil, Mãe Preta!

Gostosa, contando a história do Saci,
Ninando murucututu
Para os teus bisnetos de hoje.

Continuas a ser a mesma virgem de Loanda,
Cantando e sapateando no batuque,
Correndo o frasco na macumba,
Quando chega Ogum, no seu cavalo de vento,
Varando pelos quilombos.

Quanto Sinhô e Sinhá-Moça
Chupou teu sangue, Mãe Preta?!

Agora, como ontem, és a festeira do Divino,
A Maria Tereza dos quitutes com pimenta e com dendê.
És, finalmente, a procriadora cor da noite,
Que desde o nascimento do Brasil
Te fizeste "Mãe de leite".

Abençoa-nos, pois, aqueles que não se envergonham de Ti,
Que sugamos com avidez teus seios fartos

-bebendo a vida!
Que nos honramos com o teu amor!

-Tua bênção, Mãe Preta!

 

29/09/2025

A NINFA ( Manuel Bandeira )

 Estranha volta ao lar naquele dia!

Tornava o filho pródigo à paterna
Casa, e não via em nada a antiga e terna
Jubilação da instante cotovia.

Antes, em tudo a igual monotonia,
Tanto mais flébil quanto mais eterna.
A ninfa estava ali. Que alvor de perna!
Mas, em compensação, como era fria!

Ao vê-la assim, calou-se no passado
A voz que nunca ouviu sem que direito
Lhe fosse ao coração. Logo ao seu lado

Buliu na luz do lar, na luz do leito,
Como um brasão de timbre indecifrado,
O ruivo, raro isóscele perfeito.

28/09/2025

SINCERIDADE ( João Bosco )

Quero viver uma vez mais esse amor
Que as margens lambe invade e traz
Castanhas gotas de cristais
Teu rio a beira do meu cais
O amor é cego quando vê
Que é o coração quem sabe escolher
Haja razão prá entender esse simples querer
Olha prá mim um remanso por fim
Espelho d'água a refletir
Até que tudo resolva por si
Novas canções vão surgir
Para viver uma vez mais
Outro amor nascente dessas ancestrais
Castanhas gotas de cristais

Que não morrem jamais. 

BURACO (João Bosco / Francisco Bosco )

 Os rastros no chão

Passou por aqui
A sombra, o vão
Altivo Zumbi
E o grito de não
Pra quem pôde ouvir

Krejé, Maranhão
Xetá, Paraná
Avá, Tocantins
Auré e Aurá
Juma, Kayapó
Irmãos sem lugar
Sentindo o final
Se paramentou
Deitou-se, fetal
A morte esperou
O transcendental
Se desencarnou

Nem sequer um som
Jamais emitiu
Estoico viveu
Estoico partiu
E ao não se mostrar
Mostrou o Brasil
Sem mundo, sem terra, sem povo, sem língua, sem nome, sem nada de si
No oco buraco da História, em um tapiri

CATIMBÓ ( Ascenso Ferreira )

 Mestre Carlos, rei dos mestres,

       aprendeu sem se ensinar

– Ele reina reina no fogo!

– Ele reina na água!

– Ele reina no ar!

Por isto, em minha amada acenderá a paixão que consome!

Umedecerá sempre, em sua lembrança, o meu nome!

Levar-lhe-á os perfumes do incenso que lhe vivo a queimar.

E ela há de me amar

Há de me amar

Há de me amar

– Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar! 

À luz do sete-estrelo nós havemos de casar!

E há de ser bem perto.

Há de ser tão certo

como que este mundo tem de se acabar

Foi a jurema de sua beleza que embriagou os meus sentidos!

Eu vivo tão triste como os ventos perdidos

que passam gritando na noite enorme

Porque quero gozar o viço que no seu lábio estua!

Quero sentir sua carícia branda como um raio da lua!

Quero acordar a volúpia que no seu seio dorme 

E hei de tê-la,

hei de vencê-la,

ainda mesmo contra seu querer

– Porque de Mestre Carlos é grande o poder!

Pelas três-marias Pelos três reis magos Pelo sete-estrelo

Eu firmo esta intenção,

bem no fundo do coração,

e o signo de salomão

ponho como selo

E ela há de me amar

Há de me amar

Há de me amar

– Como a coruja ama a treva e o bacurau ama o luar! 

Porque Mestre Carlos, rei dos mestres,

reina no fogo Reina na água Reina no ar

– Ele aprendeu sem se ensinar