05/10/2025

BEIJO ( Gilka Machado )

 Beijo, beijo de amor — ave em cuja aza crêspa

o espirito se eleva a paragens ethereas,
ignivoma, nervosa e zumbidora vêspa,
que infiltra nas arterias,
da volúpia o fervente e orgiaco veneno;
som que ao festivo som de um guiso se assemelha,
que, a um só tempo é gemido, é gargalhada e é threno;
semente, que a vermelha
flôr da luxuria vem plantar sobre o maninho
solo da alma; licôr que se contem da bocca
na amphora coralina; espiritual carinho;
bala rubra que espôca
no lábio; arredondada e rútila e sonora
phrase que vem narrar do amor todo o áureo poema,
e que entender só pôde o ente que ama, que adora.
Beijo de amor — suprêma
delicia, original pomo da arvore da alma,
cujo galho, a subir, vae pender sobre a ameia
do lábio, pomo que ora excita e que ora acalma.

Dentro, em nós, mais se ateia,
ao contacto febril do lábio amado e amante,
das ancias a fogueira, e dos beijos o ruido
sêr julgo o crepitar dessa fogueira estuante.
Beijo de amôr — olvido
para os males da ausência; astro canoro e rubro
que no horizonte arcoal do lábio humano aponta;
flôr que adorna do affecto o sumptuoso delubro;
aurifulgente conta
que, ó Alma! vaes enfiar no collar dos prazeres
rumor que, em si, contem scintillas polycores,
sonora confusão das boccas e dos sêres;
mixto de sons e odores,
beijo, beijo de amôr — escandalosa  lôa,
que, na festa pagan do luxuriante gôso,
em louvor á Cupido a humana bocca entôa;
elixir delicioso,
que ao paladar nos traz dia saudade os resabios;
remedio com que, ó Ancia! esse teu mal ensalmas;
beijo, beijo de amôr — matrimônio dos lábios
— concubito das almas.

DENTRO DA NOUTE ( Gilka Machado )A Annibal Cardozo de Castro

 As laranjeiras estão floridas

e, sob o yéo alvo do luar,
de branco assim todas vestidas
parecem virgens a caminho para o altar.

A alma nos fica inteiramente preza
de um mystico languor,
ao perfume que exhalam na deveza
os laranjaes em flor.

Ha um ruido de oração, de longe em longe,
anda o hyssope da Lua aspergindo todo o ar,
e o Vento reza como um velho monge,
para no altar da sombra as arvores casar.

Enquanto a noute fulge toda accesa
para a festa do Amôr,
vão desfolhando as flôres da pureza
os laranjaes em flor...

E, fecundando as viçosas vidas,
as laranjeiras, par a par,
assim se casam nas ermidas,
nas ermidas lyriaes, lactescentes do luar.

Um pollen branco, de etheral leveza,
— porphyrisado amôr,
distribuem por toda a natureza
os laranjaes em flôr.

E, aos laranjaes que andam noivando, vêde:
a alma goza um prazer secreto e salutar,
adormecendo, como numa rêde,
neste perfume que anda a oscillar... a oscillar.

Julgo absorver a essência da Pureza
no vosso meigo odôr,
ó virgens laranjeiras da deveza!
ó laranjaes em flôr!

SANDALO (Gilka Machado) A Antonio Egas Moniz B. de Aragão

 Quente, esdruxulo, activo, emocional, intenso,

o sandalo espirala, o espaço ganha, berra...
e eu, que soffrêga o sôrvo em longos haustos, penso
sêr elle a emanação da volupia da Terra.

Odor que o sangue inflamma e que ujm desejo immenso
de prazeres sensuaes em nossas almas ferra,
quer perfume o brancor de um rendilhado lenço,
quer percorra, a cantar, as brenhas, o êrmo, a serra.

Quando o aspiro a embriaguez em mim se manifesta,
e ebria do amôr transponho a virential floresta,
onde a Luxuria, como uma serpente, assoma...

Ha rumores marciaes, sangrentos, aggressores,
de trompas, de clarins, cornêtas e tambores,
na fórte exhalação deste infernal arôma.

PERFUME ( Gilka Machado) (A Alberto de Oliveira)

 Vaga revelação das sensações secretas,

das mudas sensações dos mudos vegetaes;
arco abstracto que afina as emoções dos poetas
e que ao violino da alma arranca sons iriaes.

O' perfume que a dôr das plantas interpretas
e encerras, muita vez, desesperos mortaes!
busco sempre sentir-te errar, nas noutes quietas,
quando teu floreo corpo em somno immerso jaz.

E's um espiritual desprendimento ao luar,
si á noute sonha a flor do calice no leito,
e és a transpiração da planta á luz solar.

Mas, si acaso te extrahe o homem — sêr destruidor,
perfume! — decomposto, inane, liquifeito,
és a essência, és a vida, és o sangue da flôr.

LUZ ( Gilka Machado )

 Luz — concepção primeira e cósmica da Treva!

por esse teu fulgor lançares, dispenderes.
a belleza da Forma o olhar attrahe e enleva,
gosa a vista os da Côr emotivos prazeres.

Por ti fluctua no ar dos perfumes a leva,
és o verbo de Deus, o poder dos poderes,
o alimento vital que as cousas todas ceva,
o calor que impulsiona a machina dos sêres.

És o semen do Sol, que a Mãe-Terra fecunda,
que na treva germina e varias formas toma,
de cuja producção a humanidade é oriunda.

Possa eu sempre te vêr por tudo distribuída,
luz que és som, luz que és cor, que és sangue, força, arôma,
que és idéa a medrar no cérebro da Vida.

SILENCIO ( Gilka Machado ) (A Antonio Corrêa d’Oliveira) in "Crystaes Partidos: poesias".

Mysteriosa expressão da alma das cousas mudas,
Silencio – pallio immenso aos enigmas aberto,
espelho onde a tristeza universal se estampa.
Silencio – gestação das dôres crueis, agudas,
solenne imperador da Treva e do Deserto,
estagnação dos sons, berço, refugio e campa.

Silencio – tenebroso e insondavel oceano,
tudo quanto nos teus abysmos vive immerso,
tem a secreta voz dos rochedos, das lousas.
És a concentração do sêr pensante, humano,
a vida espiritual e occulta do universo,
a communicação invisivel das cousas.

Um intimo pezar toda tua alma invade,
ó meu velho eremita! ó monge amargurado!
Dentro da cathedral da verde natureza,
ouço-te celebrar a missa da Saudade
e invocar a remota effigie do Passado,
dando-me a communhão sublime da tristeza.

Seja engano, talvez, do meu cerebro enfermo,
mas eu comprehendo os teus sentimentos profundos,
eu te sinto cantar olentes melopéas...
Foste o inicio de tudo e de tudo és o termo.
Silencio – concepção primitiva dos mundos,
cosmopéa etheral de todas as idéas.

Silencio – solidão de symptomas medonhos,
pantano onde do mal desenvolvem-se os vermes,
fonte da inspiração, rio do esquecimento,
lagôa em cujo fundo os sapos dos meus sonhos,
postos alheiamente, inanimes, inermes,
fitam de estranho ideal o fulgor opulento.

Ó Silencio! Ó visão subjectiva da Morte!
- refúgio passional que eu sempre busco e anceio,
gôso de recordar... torturas e confortas,
pois fazes com que ao teu influxo eu me transporte
ao seio da Saudade, a esse funereo seio
- esquife onde revejo as illusões já mortas.

Da scisma na minha alma o triste cunho imprimes,
és o somno, o desmaio, o natural mysterio,
trazes-me a sensação dos gélidos tormentos;
e si nesse teu ventre hão germinado os crimes,
no teu cérebro enorme, universal, ethereo,
têm-se desenvolvido os grandes pensamentos.
In "Crystaes Partidos: poesias". Rio de Janeiro: Revista dos Tribunaes, 1915. (ortografia original)

CANÇÃO V ( Hilda Hilst ) in Poesia: 1959-1979/ São Paulo: Quíron; Brasília: INL, 1980.

Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio
Se me amas, podes dizer que não
Pouco me importa ser nada à tua volta
Sombra, coisa esgarçada
No entendimento de tua mãe e irmã

A mim me importa, Dionísio
O que dizes deitado, ao meu ouvido
E o que tu dizes nem pode ser cantado
Porque é palavra de luta e despudor
E no meu verso se faria injúria

E no meu quarto se faz verbo de amor

04/10/2025

ODES MAIORES AO PAI - I (Hilda Hilst) in “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

Uns ventos te guardaram. Outros guardam-me a mim. E aparentemente separados
Guardamo-nos os dois, enquanto os homens no tempo se devoram.
Será lícito guardarmo-nos assim?
Pai, este é um tempo de espera. Ouço que é preciso esperar
Uns nítidos dragões de primavera, mas à minha porta eles viveram sempre,
Claros gigantes, líquida semente no meu pouco de terra.

Este é um tempo de silêncio. Tocam-te apenas. E no gesto
Te empobrecem de afeto. No gesto te consomem.

Tocaram-te nas tardes, assim como tocaste
Adolescente, a superfície parada de umas águas? Tens ainda nas mãos
A pequena raiz, a fibra delicada que a si se construía em solidão?
Pai, assim somos tocados sempre.
Este é um tempo de cegueira. Os homens não se veem. Sob as vestes
Um suor invisível toma corpo e na morte nosso corpo de medo
É que floresce.

Mortos nos vemos. Mortos amamos. E de olhos fechados
Uns espaços de luz rompem a treva. Meu pai: Este é um tempo de treva.

ODES MAIORES AO PAI - V ( Hilda Hilst ) in “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

Sobrevivi à morte sucessiva das coisas do teu quarto.
Vi pela primeira vez a inútil simetria dos tapetes e o azul diluído
Azul-branco das paredes. E uma fissura de um verde anoitecido
Na moldura de prata. E nela o meu retrato adolescente e gasto.
E as gavetas fechadas. Dentro delas aquele todo silencioso e raro
Como um barco de asas. Que fome de tocar-te nos papéis antigos!
Que amor se fez em mim, multiforme e calado!
Que faces infinitas eu amei para guardar teu rosto primitivo!

Desce da noite um torpor singular, água sob o casco de um velho veleiro
Calcinado. Em mim, o grane limbo de lamento, de dor, e o medo de esquecer-te
De soltar estas âncoras e depois florir sem ao menos guardar tua ressonância.
Abraça-me. Um quase nada de luz pousou na tua mesa

E expandiu-se na cor, como um pequeno prisma.

CINCO ELEGIAS - QUARTA (Hilda Hilst) in “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

Não te espantes da vontade
Do poeta
Em transmudar-se:
Quero e queria ser boi
Ser flor
Ser paisagem.
Sentir a brisa da tarde
Olhar os céus, ver às tardes
Meus irmãos, bezerros, hastes,
Amar o verde, pascer,
Nascer
Junto à terra
(À noite amar as estrelas)
Ter olhos claros, ausentes,
Sem o saber ser contente
De ser boi, ser flor, paisagem.
Não te espantes. E reserva
Teu sorriso para ops homens
Que a todo custo hão de ser
Oradores, eruditos,
Doutos doutores
Fronte e cerne endurecido.
Quero e queria ser boi
Antes de querer ser flor.
E na planície, no monte,
Movendo com igual compasso
A carcaça e os leves cascos
(Olhando além do horizonte)
Um pensamento eu teria:
Mais vale a mente vazia.

E sendo boi, sou ternura.
Aunque pueda parecer
Que del poeta
Es locura.

DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE - I ( Hilda Hilst ) in “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.)
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio.
As casas estão cheias. As mulheres parindo sem cessar,
Os homens amando sem amar, ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor… Serei eu só
A revelar o escuro das janelas, eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.
E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.

DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE - 6 ( Hilda Hilst )

Tudo é triste. Triste como nós
Vivos ausentes, a cada dia esperando
O imutável presente.
Tudo é triste. Triste como eu
Antiga de carícias
De olhos e lamentos
Lenta no andar, lenta
Irmã
De algum canto de ave
De silêncio na nave, irmã.

Vamos partir, amor.
Subir e descer rios
Caminhar nos caminhos
Beijar
Amar como feras
Rir quando vier a tarde.
E no cansaço

Deitaremos imensos
Na planície vazia de memórias.

Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

O DESEMBARQUE DE JULIETA DOS SANTOS ( Cruz e Sousa )

 Chegou enfim, e o desembarque dela

Causou-me logo uma impressão divina!
É meiga, pura como sã bonina,
Nos olhos vivos doce luz revela!

É graciosa, sacudida e bela,
Não tem os gestos de qualquer menina:
Parece um gênio que seduz, fascina,
Tão atraente, singular é ela!

Chegou, enfim! eu murmurei contente!
Fez-se em minh’alma purpurina aurora,
O entusiasmo me brotou fervente!

Vimos-lhe apenas a construção sonora,
Vimos a larva, nada mais, somente
Falta-nos ver a borboleta agora!

DANÇA DO VENTRE ( Cruz e Sousa )

 Torva, febril, torcicolosamente,

numa espiral de elétricos volteios,
na cabeça, nos olhos e nos seios
fluíam-lhe os venenos da serpente.

Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
que convulsões, que lúbricos anseios,
quanta volúpia e quantos bamboleios,
que brusco e horrível sensualismo quente.

O ventre, em pinchos, empinava todo
como réptil abjecto sobre o lodo,
espolinhando e retorcido em fúria.

Era a dança macabra e multiforme
de um verme estranho, colossal, enorme,
do demônio sangrento da luxúria!

AFRA ( Cruz e Sousa )

 Ressurges dos mistérios da luxúria,

Afra, tentada pelos verdes pomos,
Entre os silfos magnéticos e os gnomos
Maravilhosos da paixão purpúrea.

Carne explosiva em pólvoras e fúria
De desejos pagãos, por entre assomos
Da virgindade–casquinantes momos
Rindo da carne já votada a incúria.

Votada cedo ao lânguido abandono,
Aos mórbidos delíquios como ao sono,
Do gozo haurindo os venenosos sucos.

Sonho-te a deusa das lascivas pompas,
A proclamar, impávida, por trompas,
Amores mais estéreis que os eunucos!

SERPENTE DE CABELOS ( Cruz e Sousa )

 A tua trança negra e desmanchada

Por sobre o corpo nu, torso inteiriço,
Claro, radiante de esplendor e viço,
Ah! lembra a noite de astros apagada.

Luxúria deslumbrante e aveludada
Através desse mármore maciço
Da carne, o meu olhar nela espreguiço
Felinamente, nessa trance ondeada.

E fico absorto, num torpor de coma,
Na sensação narcótica do aroma,
Dentre a vertigem túrbida dos zeros.

És a origem do Mal, és a nervosa
Serpente tentadora e tenebrosa,
Tenebrosa serpente de cabelos!

03/10/2025

RITO DE PASSAGEM ( Graça Pires )

 Descerrei o olhar

para ver no fundo do abismo
o reino da água
com reflexos
de lágrimas e suor
de sangue e saliva
no recato da memória se doendo.
Neles me purifiquei para entrar
no labirinto das palavras.

SAGRAÇÃO DO ÓCIO ( Fernando Campanella )

 Hoje, no dia dos meus anos,

saio da toca das palavras
e vou festejar no telhado
por horas ali ficando, um pombo
ou um tímido gato,
de papo para a tarde virado.

Hoje, não mais sou um bicho doído
nem trago o gosto antigo
de um paletó
ou de um guarda-chuva, pendurados.

Transito pelo tempo dos pássaros:
quem me conta os anos,
quem na memória me guarda?

Se a luz incide, sei que o dia perdura
e me ilumina por dentro esse fato.
Quando escurece, vou dançar conforme a sombra,
contar estrelas intermináveis
ou adormecer no anonimato.

Mas não quero agora falar de sombras —
a noite, eu sei, a noite já é bem outro trato.

CASO DO VESTIDO ( Carlos Drummond de Andrade )

Nossa mãe, o que é aquele

vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou.

Chorou no prato de carne,
bebeu, gritou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou,

dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele.

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só para lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou para mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

O SEU SANTO NOME ( Carlos Drummond de Andrade )

 Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

02/10/2025

DO LIVRO: NEFERTITI & AKHENATON, "O CASAL SOLAR " DE CHRISTIAN JACQ

 "Claro o rosto,

Alegremente enfeitado com dupla pluma,
Soberana da felicidade,
Dotada de todas as virtudes,
Com cuja voz nos alegramos,
Senhora de graça, grande de amor,
Cujos sentimentos enchem de alegria
O senhor dos dois países.
A princesa herdeira,
Grande de indulgência,
Senhora da felicidade,
Resplandecente nas suas plumas,
Alegrando com a sua voz àqueles que a ouvem,
Encantando o coração do rei em sua casa,
Satisfeita com tudo o que lhe dizem,
A Grande e bem amada esposa do rei,
Senhora dos dois países,
"Belas são as belezas de Aton",
"A Bela Chegou",
Vivendo para sempre.

ANIMAL QUE DESPERTA(Ana María Rodas)trad.:Floriano Martins

 Sou a gata que caminha dentro de mim

comigo
as leves patas felpudas
Desci pelo rio
conservando o gosto pela caça
os miados ambíguos

Quando fecho os olhos atravesso os séculos

As areias deram cor
a esta pele suave que esconde
uma flor molhada entre as mandíbulas
o ouro egípcio se vê refletido na pupila
desta gata
que demasiadas vezes
recorda sua verdadeira condição de fera

A Rainha de Sabá teria dado a metade de suas terras
para ter estas garras

LIMPASTE O ESPERMA(Ana María Rodas)trad.:Floriano Martins

 Limpaste o esperma

e te meteste no chuveiro.

Deste um tapa no testemunho
porém não na lembrança.

Agora
eu aqui, frustrada,
sem permissão para assim estar
devo esperar
e acender o fogo
e limpar os móveis
e encher o pão de manteiga.

Tu comprarás com cédulas sujas
o teu capricho
passageiro

tudo isto me enoja um pouco
quando deixo de ser humana
e me transformo em traste velho.