13/10/2025

EM LOUVOR DA MINIBLUSA (Carlos Drummond de Andrade)

 Hoje vai a antiga musa

celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetíneo tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo… e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris…? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.

BOLERO DE SATÃ ( Paulo César Pinheiro & Guinga )

 Você penetrou como o sol da manhã

E em nós começou uma festa pagã
Você libertou em você a infernal cortesã
E em mim despertou esse amor
Atormentado e mal de Satã

Você me deixou como o fim da manhã
E em mim começou essa angústia, esse afã
Você me plantou a paixão imortal e mal sã
Que se enraizou e será meu maldito final amanhã

E agora me aperta a aflição
De chorar louco e só de manhã
É a seta do arco da noite
Sangrando-me agora
São lágrimas, sangue, veneno
Correndo no meu coração
Formando-me dentro esse pântano de solidão

10/10/2025

A ESTÁTUA ( Judith Teixeira )

 O teu corpo branco e esguio 

Prendeu todo o meu sentido
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido

E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu sonhei

- Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei

Ó Vénus sensual!
Pecado mortal 
Do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados

ME OLHA, ENTÃO TUDO ME DIZ ( Isabella Ingra )

 e eu nem conseguia te explicar direito o meu desejo.

da loucura de sonhar em te dar em qualquer lugar, num lugar qualquer. nem era interessante explicar que o meu corpo não podia parar de querer, assim tão subitamente, tão sem querer. nem adiantava tentar dizer que todas as vezes que fiz que não quis, queria você. que a lembrança leva e traz, em pequenos flashs de câmera antiga, você decendo pela barriga, você atrás metendo, você tão perto dizendo que está todo em mim. disso eu bem sei, disso eu sigo sabendo. quer dizer, sigo ardendo de saber mesmo não sabendo como ainda continuar a dizer, meu ventre gruda em você, sem que eu perceba o movimento. me aventuro entre o beijo e o esquecimento de que há pessoas ao redor e eu quero queria em qualquer lugar.

DENTES ESTRELAS ( Isabella Ingra )

 você tem estrela nos olhos

você brilha de olhos virados

você tem estrelas nos dedos

seus dedos brilham quando

apertam a minha

você tem estrelas na língua

sua língua brilha enquanto fala

enquanto lambe

enquanto me beija

você tem estrelas.

MEMÓRIA DO VERÃO ( Isabella Ingra )

 claro que o

      clímax

é uma chama

um      chafariz

    claro que minha

    cama

sente falta da nossa

    chuva repentina de verão.

Por Isabella Ingra

 o mesmo mar

que tenho medo de entrar

cresce dentro de mim.

 

um oceano azul tão profundo

como você é profundo dentro de mim

 

te deixo entrar

eu abro minhas ondas

descanso minha ressaca

te sugo nas minhas conchas.

TODOS OS LÁBIOS DISSERAM SIM ( Isabella Ingra )

 sua presença

a fuga da minha estrada

liberdade da minha sentença

 

te deixo

lavar meu corpo

e a vontade de ser sua

lavando meu rosto

 

a sua imagem

rasgando a minha memória

entrando por todas as portas

abrindo portas profundas

 

desgastando a poltrona

e todos os lábios disseram sim

e muito antes de mim

 

te escrevo essa carta poema

como evidência de desejo

de desejo de apertar o meu corpo no seu corpo e vez em quando me pegar te olhando

além de ti

 

talvez procurando

o que há dentro de mim

sobre você

 

que me mostras de ti

vasculhando a memória

deixo a memória nua

de quando me vi nervosa

no mesmo banho que você

e o quanto quis me ajoelhar

do quanto quis ser de você.

Por Isabella Ingra

 meu líquido grosso

agora nas suas mãos

agora na sua boca


Por Isabella Ingra

 se você me pedir

eu me abro

se você me manda abrir

abro também

Por Isabella Ingra

 trepar com a memória da nossa história que foi quase agora

 

há algumas horas

 

e toda vez que lembro

ainda tremo.

Por Isabella Ingra

 chove dentro de mim.

chove.

goteja.

explode.

lateja.


MORDA - ME ( Lírio Valente )

 sem ter vergonha ou medo,

melaço da textura aos dedos,

encosta os lábios, suga-os

𝑚𝑒𝑢 𝑑𝑜𝑐𝑒 𝑣𝑎𝑚𝑝𝑖𝑟𝑜;

víbora-veneno-sangue-vivo.

Revirar dos olhos,

veloz-veloz-veloz;

a batizar meu nome:

P e r e c í v e l.

E, por quê?

Demora sobre a minha vulva; és

Sanguinária selva de lembrança, escorre;

voluptuosa [à]vida;

por guardar últimas e pequenas mortes.

Grita-te raivosa:

Te cavalgo. tento.

Fruta libidinosa.

Úmida-tênue.

Pegue minhas ancas,

Te prometo a vida de um poeta.

Palavras vivas, fonte h-éterea.

Ser poema que escorre a ponta d’língua;

Sós comigo.

Carrega-me da vertigem à fé.

Faz cruz aos braços enrolados aos cabelos;

Reza a prece baixo por meus seios.

Invada-me e te engulo, mulher-areia-movediça.

Sou convulsão do teu lobo-homem.

Urra feito lobo a chamar matilha;

Sou ferida perdida à tua boca;

Vampira.

Canção que cura indefinida;

Trilha à Éter.

Caos e Caligo.

Morda-me. Cíclica.

INTIMIDADE COM AMOR É ORGASMO ( Lírio Valente )

 No teu peito

Os dedos entre meus cabelos

Tua bússola aponta ao meu centro

Nos guia pelos lençóis da pequena morte.

Me escaldei em teu nome

Silibando entre "vem.. vem.."

E você?

Me tateia ao caminho

"Me passeia que eu gosto dessa sorte."

Me prova, me enxerga, me cheira, me morde

Passo à passo, acertado

Acelerado, encaixado

Ao pé do ouvido.

E se deixa em mim,

Abraça todos meus sentidos,

Alívio, sexo, ombro-amigo.

E me vejo ali, bordada em tuas letras

A minha carne é de "aconteça!"

O "eu te amo" em textura umedecida,

Excita, instiga, revitaliza

Volúpia vira ciranda em ternura

E urra enquanto desliza;

Aos montes de vênus à cima!

AFRODISÍACO ( Lírio Valente )

apoia teu corpo em meu ventre;

sorriso colado, teu doce frutado

gemido arfado entre os dentes.

 

olhares trocados, saliva banhada

sem redondilhas, pois, me precipito

barganha de amores não compreendidos.

 

finjo que sei dar nome ao que sinto,

extinto, instinto ou faminto?

 

lembro das águas demoradas,

que formavam castelo onde tu eras rei!

perdido no meu calabouço,

a pulsar em pronto: "coito?"

 

dá-me o estalo delirante,

instante que pré-[acende] o amor.

o ar silente à luz, amando.

voz umedecida aos cânticos frêmitos:
eu quase vivo, eu tremo.

DANÇA COMIGO ( Vanessa Alves )

Dança comigo, me fode bonito e lento

Dança comigo e me traz aquele vinho seco que você comprou correndo no supermercado antes de me espiar pela entrada da fechadura do meu eu

Fode comigo e com o resto de esperança que eu tinha naquele poder erótico de que somos "seres descontínuos procurando continuidade Bataille"

Fode comigo e prometa teus olhos sob meu corpo em estado de quase amor real a vida inteira

Fode comigo bem assim

Me vira

Revira

Sorve meu vocabulário imperfeito, minha ausência, minhas carências, meu ego, minha boceta cor de rosa choque. Come tudo num espiral de desespero terrestre

 

Fricção em slow motion

Pois

Fode comigo mas não esquece que somos iniciantes nessa vida

 

E eu insisto em me enfiar entre as estrelas

Every day for you, baby

Interestelar despenteada: são 28 voltas no sol queimando forte em meu corpo de promessas tortas

 

E depois – desse tanto –

Cumpra o script cinematográfico falido

E

Vá embora

No

Meio da madrugada

 

Como um desconhecido perfeito

FORTÍSSIMO DEMAIS ( Vanessa Alves )

 Quando eu te vi pela primeira vez na câmera do celular

Eu bebi um tanto e fiquei entre meu "deep coração pornográfico e a dúvida"

Posicionei a câmera de ponta cabeça e fiz travelling nas partes da sua cara

Dei zoom onde me dava prazer

Manipulei sua imagem – pra mim – vagarosamente

E

Enquanto uma mão alcançou o espaço sideral com nossos diálogos fortíssimos

A outra molhava a boceta fortíssima

E eu inventava uma canção em inglês, pra parecer chic

E até cantei ela pra você.

E a bateria acabou.

E nunca mais nos falamos.

Acho que foi fortíssimo demais

PETITE MORT ( Vanessa Alves )

 Às três da tarde

Quando uma petite mort me ocorre

La belle de jour

The dream of Picasso

Flores e ménage

Orgasmo e ciúme

 

Existe um vazio absoluto nesse instante

Preenchido de mini diagramas

A serem decifrados

 

Às três da tarde

Acontece uma incisão no córtex pré-frontal da vida

Irreversível