21/10/2025

CALAFRIO (Miriam Alves) em "Cadernos Negros". n. 7, SP : 1984.

 O sorriso gela

a porta do paraíso prometido

A tarde cobre-se de frio
grita
esconde-se atrás dos
casacos
faz esculpir aquela saudade
do lugar
jamais percorrido.

Escorrem feito sorvete
as esperanças derretidas
no ardor do querer.

MULHER EM TRÊS TEMPOS ( Murilo Mendes )

 Minha boca está no presente,

O meu olhar, no passado,
Meu ventre está no futuro.
Minha boca toda a noite
Está na boca amorosa
Do meu marido atual,
Meu olhar está no olho
Do meu namorado antigo,
Meu ventre está no futuro
Do corpinho do meu filho.

CORPO ( Dante Milano )

 Adorei teu corpo,

Tombei de joelhos.
Encostei a fronte,
O rosto, em teu ventre.
Senti o gosto acre
De santidade
Do corpo nu.
Absorvi a existência,
Vi todas as coisas numa coisa só,
Compreendi tudo desde o princípio do Mundo.

CHEIRO DE ESPÁDUA ( Alberto de Oliveira )

 Quando a valsa acabou, veio à janela,

sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava.
Eu, viração da noite, a essa hora entrava
e estaquei, vendo-a decotada e bela.

Eram os ombros, era a espádua, aquela
carne rosada de um mimo! A arder na lava
de improvisa paixão, eu, que a beijava,
hauri sequiosa toda a essência dela!

Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh, ciúme!
sair velada da mantilha. A esteira
sigo, até que a perdi, de seu perfume.

E agora, que se foi, lembrando-me ainda,
sinto que à luz do luar nas folhas, cheira
este ar da noite àquela espádua linda!

20/10/2025

MULHER LIBERADA ( Martha Medeiros )

  a verdadeira mulher liberada

não é a que deita sem ser casada
que toma um drinque depois das seis
que fez plástica mais de uma vez
que dirige uma empresa privada
que sai à noite sem ser escoltada
que não é financiada pelo seu ex
liberada é quem recusa clichês
e não dá queixa por ter sido cantada

HÁ MULHERES ( Martha Medeiros )

 há mulheres

que têm diversos namorados
depois casam e têm diversos filhos e filhas
eventualmente um ou dois amantes
e chegam no fim da vida
sem nunca sentirem-se amadas como as artistas
há mulheres
que tiveram uns poucos flertes ligeiros
no máximo um amor platônico
não casam, não fazem filhos
cultivam meia dúzia de amigos
e nunca se sentem benquistas

há mulheres
que preferem ficar sozinhas
não amam senão viagens, plantas e espelhos
e no entanto os homens morrem por elas
largam a família, se atiram a seus pés
amam estas mulheres com o amor mais
puro que existe
e nem isso conquista

fraqueza, defeito
desvio cultural
herança genética, trauma de infância
carência existencial
vá saber a razão
para tanto
eu te amo ocasional

nenhuma mulher se sente
amada o suficiente
desista

NÃO QUERO SABER ( Martha Medeiros )

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NO FUNDO ( Martha Medeiros )

 eu penso conforme o tempo

eu danço conforme o passo
eu passo conforme o espaço
eu amo conforme a fome
eu como conforme a cama
eu sinto conforme o mundo

mas no fundo
eu não me conformo

LIVRO NOVO ( Mariela Cordero ) tradução: Gladys Mendía

 Lias um livro novo

em meu corpo

indagavas outro credo

outra língua

Sentias o cheiro de uma remota maré

fechavas os olhos

até quase senti-la bater

contra teus dedos.

 

Entravas às cegas

no outro mar.

Por Ariadne Marinho

=

 Hoje, cansei.

Simplesmente… cansei.

De telas que me devoram os olhos,

de buscar sentido nos vãos, no nada.

Não aceito brechas -

sou vastidão.

Repito em voz plena: SOU IMENSA!

Sou poesia que pulsa,

vontade em carne viva,

metal

movimento em combustão.

Mas também sou sopro,

sou pausa,

sou o instante que se alonga no tempo.

A espera

O silêncio

E mesmo assim, sigo.

Não me encaixo no comum.

Não sou quase.

Sou o tudo que transborda.

Vida e morte,

entrelaçadas numa dança ardente.

Sou riso solto,

lágrima densa e feia

grito e suspiro.

Sou imensidão.

Sou abismo.

aos poucos, me desencanto.

Sou feita de versos —

gosto de mergulhos, não de margens.

 

Vibro com o que é sensível,

me comovo com o que pulsa.

Não sou rasa —

sou mar em dias de tormenta.

 

Vivo além das linhas desta cidade.

Gosto do mato, das cores

dos caminhos pisados por outros pés.

 

Corro.

E como corro e me derramo.

Extravaso a vida em cada passo.

Sou potência viva,

em carne e em chama.

 

Não sou convenção.

Sou cor.

Mesmo nua,

sou tempestade em aquarela

Por Ariadne Marinho

 Um quase abraço que terminou em distância.

Um quase afeto que nunca se nomeou.
Um quase encontro que ardeu no corpo, mas fugiu da alma.

Fomos desejo pulsante, pele quente, beijos que nunca souberam ser só brincadeira.
Fomos impulso, urgência, vontade crua.
Fomos palavras jogadas onde habita o silêncio.

Por Victoria Benarroch

 O desejo de suas pálpebras

me chove
no branco
de uma luz extraviada

 

esse brilho esconde
a incerteza que prende minhas raízes

 

envolvo com força a água cristalina
e um refúgio permanece

19/10/2025

PELO CORPO ( Luiza Neto Jorge )

 infinita invenção

de pétala a escaldar

desprende o falo

 

a palavra sublimada

que é ele a avançar-me

pelo corpo

 

a porta giratória

que me troca

pelo homem e, a este,

 

o fértil trajo

que lhe cria mais seios

pelo corpo

INSTANTÂNEO ( Mauro Mota )

 No pátio da igreja de São Sebastião,

depois da missa cantada e da comunhão,
Dona Santinha, em perfeito estado de graça,
com o véu, o livro e o terço na mão,
murmurava a um grupinho que Padre João
estava, na sacristia, se derretendo
para a filha mais nova do sacristão.

DESTRUIÇÃO ( Anna Apolinário )

 os olhos do ódio são dourados

a língua víbora lasciva

é doce a cicuta oferecida pelo amante

sou um corpo que tomba entorpecido

o ventre arde como se amasse o veneno

 

o anjo descostura-se do céu quente

não mais seda, agora apenas víscera

doença que despenca

olhos estéreis contemplam

o início da aflição

pequena flama nascente

entre as pernas

sob a luz áspera da manhã

fabrico esta morte

 

um lépido toque de mãos

e os pelos pubianos cintilam

dentro, um grito rubro se agita

violência rasgando o veludo

agora se esvai de mim

terrível lótus sanguínea

pequenino corpo que se tornou rio

18/10/2025

GUERRA É GUERRA ( Dominique Lotte )

gatinha, esperei noites e dias

sua resposta ao meu bilhete bem coerente,

deixado na sua janela ao relento:

"gostosa gatinha, ganhe a glória de um gozo

com um garboso galo, galante gentil e generoso,

sou o Germano, de galho grosso e grande,

guardo na gaveta toda a gama de gritos e gemidos,

garanto derreter o gelo do seu grelo"

e sua resposta, um recado gritado:

"venha a galope, gaste sua glande

na minha gulosa garganta,

se és guerreiro ganhe a guerra do G grande". 

PRAZER ( Cida Pedrosa )

 o diabo faz cócegas em meus pés

enquanto abro as pernas

 

e deus alisa meus cabelos

enquanto grito ao teu ouvido


  

 

KELLE ( Cida Pedrosa )

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DARKNESS ( Micheliny Verunschk )

 A solidão,

essa tempestade,
esse gozo às avessas,
esse jeito de eternidade
que as coisas adquirem
mesmo sendo apenas vidro.
Essas cartas ardendo
no estômago das gavetas,
essas plumas
que surgem quando se apagam
as últimas luzes do dia.
Tudo faz a noite mais longa,
visão de uma sombra
sobre um berço.
Não há resposta
e o labirinto é o falso,
os lábios são falsos,
somente abismo,
absinto verdadeiro.
O sono,
grande placa de cerâmica,
e o tempo,
demônio a ranger sobre o infinito.

AQUELE QUE ME AMA ( Mar Becker ) in Noite Devorada; Círculo de Poemas, São Paulo, 2025.

 aquele que me ama deita os olhos em mim

sabe que tudo é brevidade, agora
tudo é rastro

aquele que me ama sabe que na mulher amada dói uma
cidade invisível
sabe também que, para torná-la visível, é preciso
acessar essa mulher à pouca luz -
enquanto ainda se confundem um no outro
ruína e sonho

CORAÇÃO DE AREIA ( Ana Cecília de Sousa Bastos ) in Contemplação do Mar, Confraria do Vento, Rio de Janeiro, 2022

 Teria escrito mil vezes teu nome na areia,

não fosse teu nome matéria em que meu coração se dissolve.
Mistério infinito do mar-espelho.

Amar é espelho do infinito.
Amar é mistério de areia.

Areia é matéria fluida, efêmera.
Areia é minério talvez eterno.

Este grão que penso reter nas mãos
amanhã mesmo o oceano levará.
Nunca saberei de que silício ou cecília
é feito.

Não saberei onde se quedará meu coração de areia:
em doces praias ou voragens,
rochas ou abismos.

Abismo sou agora, sem nome e sem pouso
E a matéria areia, fugaz e eterna,
dolorida e bela,
me consome.

LAGO DAS POMBAS ( Ruy Proença )

 a pomba no beiral do telhado

da escola de balé Cisne Negro
empresta meus olhos

com ar zen
contempla a Zona 1 arborizada
e os prédios ao fundo
iluminados pelo sol do fim de tarde

ouvirá Tchaikovsky no andar de baixo?

saberá que ali no quarto andar da escola
adolescentes fazem do corpo asas
para um dia quase voar como ela?

jovens, cuidado,
não se aventurem
além do quase

OS DESTROÇOS DE TAMAR ( Adriane Garcia ) in A Bandeja de Salomé, Caos & Letras, 2022.

 Tamar é só mais uma daquelas que precisam dormir

Com um olho aberto e o outro fechado
Caso ouça os passos do pai
Caso o padrasto vá beber um copo d’água
Caso o tio venha fazer uma visita
Caso o primo a convide para brincar
Caso um amigo da família venha jantar em casa
Caso o irmão lhe apareça na porta do quarto

É só mais uma que precisa temer
Andar na rua
Entrar em um banheiro público
Sentar-se para uma entrevista
Vestir uma roupa que goste
Tomar uma bebida na festa
Dizer não para o marido
Ficar enferma em maca de hospital

Tamar é mais uma e mais uma e mais uma
Que se multiplica na velocidade
De um filme irreversível
Como se fosse uma questão de vestuário
Como se fosse irrefreável resistir a Tamar
Como se houvesse desejo por ela
Quando o que há é a sensação poderosa
De destroçar uma fronteira.

O ÓDIO DE HERODIAS ( Adriane Garcia ) in A Bandeja de Salomé, Caos & Letras, 2022.

 Dizem que odeio João Batista

E suas intromissões na vida alheia
Que odeio João Batista
E suas intromissões na minha vida
Que odeio João Batista
Com seu deus me ditando regras
João Batista doutrinando o povo
Distribuindo a palavra pecado
João Batista pastor, entendendo que
Todos são suas ovelhas

Dizem até que amo João Batista
Que meu marido ama João Batista
Que tentei seduzir João Batista
Que minha filha seduziu meu marido
Que a manipulei para pedir a cabeça
De João Batista

Quem tem boca diz o que quer
Digo que odeio João Batista
Tentando transformar seu deus
Em Estado.

MULHER ( Hindemburgo Dobal )

 A brisa e a luz cantarão nos teus cabelos.

A luz que acende a cor:
a saudade no sol nas dunas do teu corpo.
A brisa sobre as águas: o fogo no sangue,
os árdegos cavalos que a manhã dispara.
A tarde do fauno:
a doçura da pele sob o tremor dos dedos.
À noite a luz crescente
sonha o amor nas tuas areias.

16/10/2025

MENINAS DA CIDADE ( Fátima Guedes )

 São 12 pancadas, 12 badaladas

Sol a pino, a telha vã
Esquenta o pó da minha casa
Esquenta a bilha d'água
De tanto que fervem na minha mão
Agulha e pano
Armas de todo dia
Na minha mão
Tesouro e fé e pé
Na mesma tábua em falso
Destino e pé descalço
Desde manhã sentada e presa aqui
Rasgando as sedas das rainhas
Os brancos das donzelas
Que no escuro da cidade alguém há de despir
Ninguém verá tão belas
Filhas da falsidade
A vila é tão pequena e infeliz sem elas que...
Que são doze pancadas,
são doze ruelas
Que desgraçadamente sempre vão dar
Numa mesma praça seca, de noite suspirada,
De noite tão imensamente farta das paixões do dia.
De noite suficientemente larga pras bandalharias.

Meninas que se vêem chegando aqui:
cinturas ainda finas;
medir felicidade.
No rosto a marca dos batons
das senhoras de bem, as damas da cidade.
No peito arfante
O roxo das mordidas mais ferozes
Filhos da mesma terra,
andantes e viajores,
rapazes e senhores de mais realidade.

São doze pancadas, já são doze dadas.
A lua a pino,
e eu já sei que vou entrar na madrugada
rematando bainhas,
pregando rendas que amanhã vai ser o baile das rainhas.
Amanhã já se sabe que elas vão fazer a história da cidade.
São muito cinderelas.

MILAGRE DOS PEIXES ( Fernando Brant / Milton Nascimento )

 Eu vejo esses peixes e vou de coração

Eu vejo essas matas e vou de coração à natureza
Telas falam colorido de crianças coloridas
De um gênio televisor
E no andor de nossos novos santos
O sinal de velhos tempos
Morte, morte, morte ao amor
Eles não falam do mar e dos peixes
Nem deixam ver a moça, pura canção
Nem ver nascer a flor, nem ver nascer o Sol
E eu apenas sou um a mais, um a mais
A falar dessa dor, a nossa dor
Desenhando nessas pedras
Tenho em mim todas as cores
Quando falo coisas reais
E no silêncio dessa natureza
Eu que amo meus amigos
Livre, quero poder dizer
Eu tenho esses peixes e dou de coração
Eu tenho essas matas e dou de coração