24/10/2025

UM SIM QUE FOSSE ( Isabella Ingra )

 o seu não

enquanto minha mão segurava o corrimão

te chamei no canto para perguntar de novo

com a boca quase na sua

e o seu não permaneceu até o último degrau


nem sinal da minha dignidade.


naquela mesma noite


fui procurar outro rei para a minha majestade


e a verdade é que seu não

seu seco não

foi fundamental para um sim

molhado


um sim molhado


como pão no café


chuva no asfalto


em outra escadaria da cidade.

IGUAL A DOIS ( Isabella Ingra )

 a matemática só é soma quando estamos juntos


 não me sinto subtraída perto do seu corpo, perto do meu corpo perto do seu, numa batida calma de hip-hop, na última estrofe que o fôlego parece se esvair, olho pro lado e você suada me diz: quero mais disso depois do meu cochilo.

ESTEPE ( Mariza Tavares )

 Abro o caderno de telefones

à procura de um nome.
Se o sexo minimamente afetuoso não estiver disponível
opta-se por um ato único.
Whatever.
Importa apenas o sono tranquilo.
Importa apenas aplacar a angústia
preencher o corpo até a ânsia.
Amanhã haverá mais possibilidades.

PENETRA - ME ( Letícia Marques )

 Penetra-me o corpo,

Rasga a alma,
Deflora o meu desejo,
E viola meu pensamento
Vem, garganta travando o grito
Tropeços e afagos
Do amor
Penetra-me a vida,
Invade meu jardim,
Incendeia a minha cama,
Rasga os lençóis
Vem, bota em mim o seu amor,
Segura forte,
Faz-me uivar de dor
Penetra-me com teu calor,
Até o fundo,
Leva-me pra longe do mundo,
Faz chover lá fora,
Faz nascer amor aqui dentro,
Agora!

YCATU ( Olga Savary )

 E assim vou

com a fremente mão do mar em minhas coxas.
Minha paixão? Uma armadilha de água,
rápida como peixes,
lenta como medusas,
muda como ostras.

BABÁ ALAPALÁ ( Gilberto Gil )

 Aganju, Xangô

Alapalá, Alapalá, Alapalá
Xangô, Aganju

O filho perguntou pro pai:
"Onde é que tá o meu avô
O meu avô, onde é que tá?"

O pai perguntou pro avô:
"Onde é que tá meu bisavô
Meu bisavô, onde é que tá?"

Avô perguntou bisavô:
"Onde é que tá tataravô
Tataravô, onde é que tá?"

Tataravô, bisavô, avô
Pai Xangô, Aganju
Viva egum, babá Alapalá!


Alapalá, egum, espírito elevado ao céu
Machado alado, asas do anjo Aganju
Alapalá, egum, espírito elevado ao céu
Machado astral, ancestral do metal
Do ferro natural
Do corpo preservado
Embalsamado em bálsamo sagrado
Corpo eterno e nobre de um rei nagô
Xangô

22/10/2025

ENCONTRO ATEU ( Daniela Quintas )

 Como entender o seu nome

Que vem do bendito fruto
Que não é santo
Os olhos não são castos
Mas o teu corpo preenche o meu

Como tocar sem sentir
O cálice de vinho
Os cristais
Os lustres
Que não são sagrados

Quero te mostrar
O outro lado da ponte
Cheio de fissuras
Que já foram reconstruídas

Estou aqui
Desde o primeiro instante
Os passos firmes
Aqui se colocam

Meu corpo…

Ele ainda é um
"Pedaço de mim"
Eu sou o que sou
E minha alma libera uma branda energia

Meu corpo continua
Sendo um corpo
E bendito é o fruto
Do ventre que
Te pariu

Você nasceu, cresceu
Reviveu
Acredite ou não
Agora estamos sós
Juntos

Seja a vontade nossa
Universo ou pó das estrelas
Versos desencadeiam
Esse encontro lunar
Físico, mental
Espiritual

Assim é o espaço
Galáxias que nos regem
Pedaços de Planetas
Amém

FLUIDO ( Sabrinna Alento Mourão )

 sou de água –

e ela me percorre:

a lua move o fluxo das marés
e o fluxo das mulheres:

o meu corpo exerce atração
(quase gravitacional)
em ti:

o teu corpo exerce atração
(quase gravitacional)
em mim:

duas vênus girando
uma em torno da órbita da outra.

MANIFESTO FEMINISTA (Jovina Souza )

 Há um colar de flores em torno de mim.

Há uma fera alada sobre meu ventre,
uma serpente.
E caliente e vermelha, sou astúcia
janelas múltiplas, novas trilhas
para o velho caminho de Zaratustra
e seus discípulos todos homens.

A sabedoria dos homens me dá tédio.
É restrita de assunto. O que é extenso
está na minha cabeça fecunda
em diálogos com todos os sentidos.
Por isso, aprofundo os tempos, as cores,
o mundo
que nasce e renasce na usina de mel
e vida que eu carrego entre as pernas.
O céu das alquimias geniais,
teias de bruxas secretas que tudo ver
e fazem meu padecer virar risos e voos
sobre meus incômodos.

Meus incômodos são as epístolas do falo
que só ejacula mas não sabe o que é gozar.
Para quê essa sabedoria dos machos
se de gozos múltiplos por todo o corpo,
eu me farto?

Há um colar de flores na minha cabeça.
Há uma fera alada em minha mente,
uma serpente, perspicaz, atenta.
Leio o mundo com o cérebro e os sentimentos.
Sou o sagrado, o profano, a linguagem,
a memória, o ninho da terra e das águas.
Se nada ou pouco diz de mim, fêmea e mulher
mantra para expandir a vida nos mundos,
não me serve a sapiência dos homens.
Tem pouco assunto.

MEU CORPO (Jovina Souza )

 Guardo signos ocultos sob

a melanina da minha pele.
Meu corpo parece apenas
de carne e osso, mas é sagrado.
Ele registra os pactos divinos
com meu Orixá de cabeça.
É um santuário de poderes,
segredos no modo como dança,
no amarrar dos panos no cabelo,
e nas contas do kelê uma epopeia
encantada
que veio sobre o atlântico e se faz
a força do ebó nas encruzilhadas,
nos matos verdes e nas cachoeiras.

Meu ara é muito mais que a pura beleza,
exala cânticos e movimentos ancestrais,
o gestual de deusas e deuses em rituais
de criação, alegrias, proteção, irmandade.
Quando ando, meu corpo é uma escultura
de ébano, bordado em cobre, ouro e prata,
uma metáfora a ser revelada.
Ele se movimenta como as águas
é uma bandeira de muitas divindades.
Não toque meu corpo sem a devida licença
senão ele corta. Ele também é do ferro.
É espada, é punhal, é faca.

MEU BATISMO (Jovina Souza)

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DEITEI-ME HOJE COM UMA MULHER (Renata Dalmora)

 Deitei-me hoje com uma mulher

E não é que eu tenha me apaixonado
Mas foi como se nos conhecêssemos há tempos
Os homens não entenderiam
Eu tampouco quero esse tipo de homem
Imaturo e covarde
Também não quero o outro tipo.
Ambos muito antiquados
Saindo de alguma tumba
Clamando por suas mães ou por suas bonecas de louça.
Deitei-me hoje com uma mulher
E não é que eu tenha me apaixonado
Mas era como se nos entendêssemos.
Hoje dormimos juntas e armamos um plano.
Então, tenha cuidado, você está na nossa lista.
Hoje dormimos juntas e sonhamos.
Mas saiba que por detrás da nossa doçura, te analisamos.
Não pense que nos engana com essa cara de que sabe algo da vida.
Não se aproxime de nós. Sua alma é seca e dura como
o concreto da cidade, vai-te embora. O mundo cada
vez mais será nosso, agonize com esse mundo antigo.
Padeça.
Hoje dormimos juntas e projetamos bombas atômicas,
poesias, mil cerimônias do nosso casamento.
Outros planos de amor e de morte. Cuidado! Você está
em nossa lista. É inevitável, você está com os dias contados.
Hoje dormimos juntas e contamos os dias do futuro,
contamos histórias, contamos as sardas dos nossos
corpos – brincamos de estrelas. Hoje nada é mais belo
do que as nossas constelações.
Caiam do muro que construíram pra si mesmos,
homens, para que tirassem do mundo todas as
vantagens. Esse muro vergonhoso. Agora te enxergamos
muito bem, do nosso lugar, entre o Céu e a Terra.
Cuidado! Hoje pegamos vocês de calças curtas.
Hoje deitamos juntas e sonhamos. Hoje nosso plano
de dominar o mundo está traçado.

O CASO DA VIRGEM POSSUÍDA ( Larissa Lins )

 mas o que é que está em jogo aqui afinal de contas?

espero no mínimo respeito
não fiz nada para estar aqui
como vim parar aqui neste banco de réus?
com orgulho bato no peito
brado
minha reputação é ilibada
e ainda que não fosse
audiências
provas
papéis
cupins
todos vocês
algozes

e eu aqui sozinha
e eu aqui a histérica
e eu aqui acuso

num lapso freudiano foi você quem deslizou
quem confessa
a mais torpe vilania
e se alimenta da ruína dos outros
você
todos vocês
algozes cupins

para acabar de vez com cupins
invoco rituais antigos
sacrificiais

escolham imediatamente
dentre homens jovens e de meia-idade
20 e tantos anos e quarentões
escolham dentre aqueles que ali estão
no topo da pirâmide social
4 canalhas brancos dentre os cristãos

empalem-nos vivos à luz do sol do meio-dia na linha do equador
verter o sangue dos 4 canalhas no
sangue necrosado de outras virgens silenciadas

derramar sangue de homem em expiação
para alimentar a terra
é a moeda que temos
o corpo e o sangue
ou vocês acham mesmo que cristo morreu em vão?

só assim então
forma-se um lastro uma luz
que se alastra incandesce e incendeia
uma grande fogueira
em torno do coração

para acabar de vez com cupins
o fogo

PRECE ÀS CRIANÇAS DE GAZA ( Nuno Gonçalves )

 Crianças de Gaza,

De tão longe lhes escrevo
Que quase duvido que me ouçam
Desertos e oceanos me atravessam
Quando nos olhos de minhas filhas, Marias
Avisto as bombas que caem sobre vossas casas
Como pássaros desnorteados possuídos pelo espírito da morte
Quando no choro de minhas filhas, Marias
Ouço o choro assustado que escapa de suas gargantas
Como súplicas de prisioneiros sob as perversões de um carrasco
Que desconhece qualquer limite às suas fantasias de torturador
Crianças de Gaza,
Lhes negam água
Lhes negam abrigo
Lhes negam comida
Mas não podem lhes negar minhas lágrimas
Não podem lhes negar minhas preces
Não podem lhes negar minha poesia
Oceanos e desertos lhes atravessam
E unem os olhos de minhas filhas, Marias, aos seus olhos
Crianças de Gaza,
Algum dia vocês olharão para trás
E verão o horror a ira e a covardia
Destruindo vossas infâncias
Ouvirão o som das bombas e a pulsação das cicatrizes latejando em seus corpos
Vocês nunca deixarão de ser o que são
Nunca poderão esquecer o que estão vivendo agora
Nem o que viveram vossos pais e vossos avós
Crianças de Gaza – Alláh não as abandonará
Nele encontrarão seus indecifráveis oráculos
E os misteriosos labirintos da existência
Nele encontrarão a pedra firme onde ancorar seus íntimos desesperos
Crianças de Gaza,
Sórdidos homens de corações impuros
Mergulham suas infâncias na dor e na amargura
Mas suas almas permanecerão ilesas e intocadas
Na abundância em que crescem minhas filhas, Marias
Saltam como rãs no pântano
As misérias de suas existências
Crianças de Gaza,
Seus pais com armas, fé e angústia descomunal
Tentam lhes devolver a Terra Prometida
Crianças de Gaza,
Suas mães se fazem água para que não morram de sede
Suas mães se fazem pão para que não morram de fome
Suas mães se fazem esperança para que não morram de desgosto
Suas mães se fazem azeite de oliva para que não desconheçam a doçura
Suas mães se fazem tecidos para vestir vosso supremo sofrimento
Crianças de Gaza,
O mundo assiste a tudo e não faz nada
Como um estúpido espectador ante um espetáculo de entretenimento
Somente os seus se fazem escudos para que as bombas não caiam sobre vossas pequeninas cabeças
Crianças de Gaza,
No sono sereno de minhas filhas, Marias
Avisto os destroços de vossas infâncias
Ouço a indiferença absurda do mundo ante o vosso supremo sofrimento
Crianças de Gaza,
A poesia nada pode ante a realidade e a crueldade e o absurdo do mundo
Crianças de Gaza,
Vosso clamor é o clamor de todos os oprimidos da terra
Alláh nunca as abandonou
Alláh nunca as abandonará
Nas ruínas dos hospitais destruídos pelas bombas
Nas ruínas das escolas destruídas pelas bombas
Nas ruínas dos versos dos grandes poetas palestinos
Nas ruínas das místicas árabes e do sufismo
Nas águas dos desertos e na aridez dos oceanos
Vocês encontrarão a matéria-prima e as reminiscências da Terra Prometida
Vocês encontraram o alimento e o abrigo que lhes negam agora
Crianças palestinas
Lhes negam os peixes do mar
Lhes negam o pão da terra
Lhes negam uma casa onde dormir, sonhar e orar
Lhes negam o sal que dá sabor à existência
Crianças de Gaza,
Mas não podem lhes negar uma língua, uma história e uma tradição poética
Não podem lhes negar a fé nem a dor que sustenta toda fé
E vossa dor ecoa nos olhos serenos de minhas filhas, Marias
Palestinas como todas as Marias do mundo
Palestinas como a Maria que amamentou aquele em quem o Ocidente enxergou o próprio Deus
Crianças de Gaza,
Sem saber se essas palavras cruzarão os desertos e oceanos que nos separam
Impotente ante a vossa dor e o vosso sofrimento
Só me resta orar e crer
Que o amor e a misericórdia de Alláh
Hão de vencer a ira, a covardia e a maldade que lhes destroça a infância
Só me resta acreditar
Que algum dia essas pedras que hoje lhes servem de armas
Serão a matéria-prima de sua futura Terra Prometida
E os brinquedos da infância de seus filhos, de seus netos e bisnetos
Só me resta rezar para que algum dia possam brincar de roda
No oásis que lhes concederá o destino
Crianças de Gaza,
Vocês serão maiores e melhores algum dia
Pois lhes tocou não ter outra infância senão a da guerra e dos destroços
E saber da mutilação e da perda antes de conhecer o acolhimento e a alegria
Crianças de Gaza,
A paz sem justiça é qualquer coisa menos paz
Que a poesia seja vossa prece
E que a memória da indiferença do mundo os fortaleça
Crianças de Gaza,
Do outro lado do oceano
Do outro lado do deserto

Alláh lhes olha
Alláh lhes alimenta
Alláh sacia vossas sedes
Algum dia vocês serão maiores e melhores
Pois nunca esquecerão o poder destrutivo do ódio e das bombas
Pois nunca esquecerão o silêncio ensurdecedor da indiferença do mundo
Pois nunca esquecerão o choro e ranger de dentes que soa no campo de batalha
Crianças de Gaza,
Recebam minhas lágrimas e estes humildes versos
Que essa injustiça absurda e esse sofrimento supremo
Que esmaga vossas infâncias com a voracidade de um abutre maligno ante uma presa indefesa
As convertam em guerreiras da Luz e da Sabedoria
E as tornem capazes de vencer as sombras da ignorância
Que não poupam infâncias, oceanos e desertos…

GOZO, LOGO EXISTO ( Gabriele Rosa )

 recusaram minha prova de vida

desembainhei meu sugador de clitóris
gemi alto

VÊNUS ( Maria Alice Bragança )

 Quanto pinto minha boca de vermelho,

penso só em te seduzir.
Assim carmim, assim vermelhos,
os lábios que entreabro,
a olhar para ti.
E a dizer me ama me ama me ama,
esse miado de mulher no cio.

Decifra-me,
ou, dis-pli-cen-te-men-te,
com meus lábios vermelhos,
te devoro.

O SEXO DAS MULHERES ( Maria Alice Bragança )

 Os homens espiam o sexo das mulheres

E não o encontram em suas calcinhas.
Quando as penetram, também não o encontram.

As mulheres escondem o sexo em seus olhos.
O sexo das mulheres está exposto.
O sexo das mulheres balança em seu andar.
O sexo das mulheres balança em seus braços
quando acalentam seus filhos.

O sexo das mulheres não tem nome,
nem imagem, nem figura.
Os artistas não o aprisionaram em pinturas.
O sexo das mulheres está exposto,
quando se vestem, quando se despem,
no grande teatro da vida.

O sexo das mulheres elas o disfarçam.
Com maquiagem, encobrem seu rastro.
O escondem com perfumes.

O sexo das mulheres elas o recriam nos rios.
O sexo das mulheres está imerso no mar.
O sexo das mulheres é concha.
Maresia.

VADIAGEM ( Marta Cortezão )

 a cidade nua se abre

aos meus olhos
se mostra lúdica
oferecendo-se ao prazer

a cidade me deslumbra
me excita à vadiagem
segredando-me ao ouvido
desejos guardados
palavras libidinosas

a cidade se enrosca
em meu corpo
me aperta as nádegas
me assanha o sexo
me seduz inteira

a cidade se derrama
me devora
me absorve
me consome

a cidade me acende
um gozo vivo
uma transa louca
na fúria das horas

POEMA 32 ( Júlia Coelho )

 O seu olhar cruza com as minhas entrelinhas,

sendo um inexplicável encontro de amor.
É como quem se aproxima extasiado
e lê o meio entretido
sem pressa para chegar
no final.

PEDAÇOS DE MULHER ( Miriam Alves )

 Sou eu

que no leito abraço
mordisco seu corpo
com lascivo ardor

Sou eu
cansada inquieta
lanço-me a cama
mordo nos lábios
o gosto da ausência,
sou eu essa mulher

A noite
no eito da ruas procuro,
vejo-me agachada nas esquinas
chicoteada por uma ausência.
Desfaleço
faço-me em pedaços

Mulher
sou eu esta mulher
rolando feito confete
na palma de sua mão

Mulher - retalhos
a carne das costas secando
no fundo do quintal
presa no estendal do seu esquecimento.

Mulher revolta
agito-me contra os prendedores
que seguram-me neste varal
Eu mulher
arranco a viseira da dor
enganosa.