27/10/2025

DISTÂNCIA ( Carmen Verde Arocha ) tradução: Gladys Mendía

 A mulher nasce com o apetite na boca;

lava os tomates,
o coentro e a alma,
com o destino ali
sacudindo-a
em cada esquina,
em cada bocado.

O homem, ao contrário,
leva séculos para preparar seu nascimento
e, no momento em que é expulso do ventre,
envelhece.

TEM UM CORPO NO MEU POEMA ( Junia Lyrio )

 Tem um corpo no meu poema

que não sai da cama

que está mal das pernas e levita

evita as parafernálias da euforia em voga

as virtualidades

essas coisas todas, inertes

sem ossos, sem carne

sem sangue nos olhos

beijos molhados e sonoridades do amor.

Tem um corpo no meu poema

que não sai da cabeceira

que está mal do coração e palpita

habita as palafitas das moradias precárias

as aquosidades

essas coisas todas

úmidas

sem argamassa, sem paredes

sem chão sob os pés

passos longos e medidas do viver.

Tem um corpo no meu poema

que não sai de cena

que todo dia insiste

assiste, acena

e vai.

QUARTO ( Junia Lyrio )

 Sou a pessoa que atravessa um quarto

enquanto poros consomem sons

inaudíveis vozes

silêncios vagantes.

Atravessada no umbigo

a farpa que lembra

o pontiagudo jogo de poder

/latejar sem dor/

/penetrar saindo/

a memória como epígrafe na pele

marcando só

o que foi

sem antes ter sido.

Sou a pessoa que trespassa o quarto crescente

enquanto corpos se eximem, vis

de rasgar gargantas

pregas rugosas.

Transitória no tecido

a umidade lúdica que assombra

a gotejada sede de verter

/vibrar sem cair/

/percorrer rangendo/

o deslize como fios nas cordas

ajuntando aí

o que é

apesar do contido.

EXTASE ( Sophia Jamali Soufi ) tradução: Nina Maria

 

Venha

Aqui
Ao lado desta velha ferida
Que a cada toque teu
Se abre de novo.

Fica comigo
Antes que esta cidade
Devore meus últimos sopros.

Teu corpo,
esse sagrado movimento,
onde cada olhar
rasga minhas fronteiras.

E eu,
nua,
renascendo da pele antiga.

Teus olhos,
dois abismos sem fundo,
duas taças transbordando de loucura,
a cada instante me chamam
para a ruína.

Teus lábios,
o gosto amargo do proibido,
com o perfume de mil beijos não dados.

Cada beijo,
um incêndio
que reduz minha alma a cinzas.

Em teu abraço
todas as fronteiras desmoronam.

E nós,
como duas almas,
nos entrelaçamos
e voamos rumo ao nada. 

TROCA ( Sophia Jamali Soufi ) tradução: Nina Maria

 Teus olhos,

milhares de palavras não ditas,
milhares de poemas não escritos,
milhares de segredos sepultados.

Teu olhar, toque de fogo:
morte e vida,
início e fim.

Teus lábios,
fruto proibido,
um beijo cru,
que me arrasta ao inferno eterno.

E eu, a cada dia,
cedo à tua tentação

INTERROMPIDAS ( Danielle Santos de Freitas )

 mundana, perversa, lasciva

produto de uma costela masculina

precisa de

normatização

privação

interdição

 

louca, bruxa, maldita

a medicina e a igreja

sua insânia adestrarão

 

onde houver fornicação,

fidelidade

 

para a indecência,

castidade

 

no lugar do sexo,

abstinência

será espiritual sua satisfação

 

o casamento e a maternidade

serão sua remissão

NOIVA - PAPÃO ( Ana Marta Cattani )

 abram alas

olha a noiva aí

 

palmas

palmas

 

lá vem ela

bem atrás de você

 

olha a mão dela

no seu ombro

 

bafo no cangote

queixo na clavícula

 

falanges afiadas

só pra te dizer:

 

não gosto de branco

vim te comer

Por Victoria Benarroch // tradução: Gladys Mendía

 O desejo de suas pálpebras

me chove
no branco
de uma luz extraviada
 

esse brilho esconde
a incerteza que prende minhas raízes

 

envolvo com força a água cristalina
e um refúgio permanece

Por Victoria Benarroch // tradução: Gladys Mendía

 Talvez o segredo do que é sereno esteja ali

transitando silencioso
a orla das palavras
no preciso ritmo do desejo

 

o gesto sabe de sua entrega

26/10/2025

LINDINHA ( Affonso Romano de Sant'Anna )

 É linda, é vida, é mulher

essa pequenina mariposa
que, clarinha, pousou
na folha branca de papel.
É linda, é vida, é mulher.
Parece a cinderela,
alguém em traje de noiva,
tão quieta, embora.
Na cabeça uma coroa.
Com seu manto de rainha
mexe as anteninhas. Para mim?
Querida:
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
Que mensagem me trazes?
Escrevo entortando a frase, a letra
para não te machucar.
Não ser zoólogo
para entender-te,
saber tua espécie,
teus anseios, ó lindinha,
vai, voa, leva meu afeto
ou, então, fica tranquila
enquanto folheio coisas já escritas
ou em silêncio escrevo
para daqui não te apartar.
Me olhas, que te escrevo.
Adiante a lareira arde,
lá fora, cantam grilos.
Certo tens uma biografia
como qualquer ser desconhecido.
Paro de escrever. Te observo.
Se eu vivesse no campo
como São Francisco
que belos amigos faria!
Entre uma folha e outra,
entre um minuto e outro
um ser vivo pequenino, como eu,
se instalou defronte a mim.
Querida,
não és a bruxa preta do poeta,
o corvo escuro,
a mosca azul do poeta.
És pequenina,
és linda, és vida, és poesia
e, certamente, mulher.

RISTORANTE ETRURIA ( Affonso Romano de Sant'Anna )

 Essa bela garçonete etrusca

com esse nariz imponente navegando
entre as mesas do restaurante;
essa bela garçonete etrusca
com esse nariz portentoso
como enfunadas velas na direção da Grécia;
essa bela garçonete etrusca
passa para cá, para lá
ocupada em seu trabalho,
e não sabe que a contemplo
há 25 séculos atrás.

FICOU - ME O DESEJO ( Marina Colasanti ) in Gargantas Abertas, 1998

 As mulheres etiopes

usam sobre a cabeça um pano branco
que envolve os ombros
e desce pelo corpo.
Assim as encontrei em Israel
chegadas de tão longe com seus filhos
reunidas numa escola
e o pano branco era tudo o que tinham
defesa casulo
e a maneira de serem o que eram
em uma terra estranha.
Quis chegar-me e dizer
também sou etiope
embora de cabeça descoberta
também sou mulher e tenho filhos.
Mas faltou-me coragem
para enfrentar o estranhamento.
Hoje, se as encontrasse
não poderia dizer sou uma de vocês
nem se estivesse envolta em pano branco.

Uma guerra acabou
e a terra em que nasci
já não se chama Etiópia.

RÉDEAS NAS MÃOS ( Marina Colasanti )

 Nos corredores da minha infância

mulheres esticam lençóis.
Brancas mãos recortadas sobre
escuros vestidos
pálidos rostos empoados
de sombras.
Postadas
na nascente e na foz
do negro rio que liga
copa e sala
empunham pelas pontas
branco linho
e puxam e sacodem
num estalar de vela em tempestade.
Como se domam éguas
a poder de pulso
assim domam-se as fibras.
Logo se aquieta o linho
doce o freio na boca
manso o dorso no escuro
e elas deitam um lado sobre o outro
em todo o comprimento.
Só então
duelantes
escolhendo as armas
as duas avançam
com medidos passos
erguem as mãos
e selam
branco a branco
as quatro pontas

Dobrado está o lençol
no seu silêncio.
Que amanhã
sobre a cama
se desdobra.

TARDE E CASA VAZIA ( Marina Colasanti )

 O pudim amorna

sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.

PIETÁ ( Reinaldo Ferreira )

 Já lívido repousa em seu regaço.

Já não escuta, não vê, não ri, não fala.
Aquele que foi Seu filho, Ela o embala
Morto, alheia a tempo e espaço.

O mistério parou no limiar dos assombros.
Dos irados profetas, das rígidas escrituras
Sobra um Deus morto; e os únicos escombros
São a atónita aflição das criaturas.

Eles choram, vários, como vários são
Sua revolta e sua dor. Absorto,
O olhar da Mãe escorre, inútil, no chão.
Ela, o que chora? O Deus parado - ou o filho morto?

AMAR ( Carlos Drummond de Andrade )

 Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que êle sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia ?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão vazio,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

BRANCA DIAS ( Carlos Drummond de Andrade )

 Branca Dias

paixão de frade
em seu engenho
da Paraíba
repele o amor
pecaminoso.
O amor se vinga:
é acusada
de judaísmo.
Já vão prendê-la.
Atira joias
e prataria
na correnteza.
A água vira
Riacho da Prata.
Morre queimada
no santo lume
da Inquisição
em Portugal.
Reaparece
na Paraíba
em Pernambuco
sob o luar
toda de branco
sandálias brancas
cinto azul-ouro.
Branca Dias
- garantem livros -
nunca existiu,
é lenda pura
de lua cheia.
E a Inquisição
provavelmente
outra ilusão.
Representação visual gerada por IA

A FALTA DE ERICO VERISSIMO ( Carlos Drummond de Andrade )

 Falta alguma coisa no Brasil

depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.

Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo.

Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.

Falta um solo de clarineta.

PINTOR DE MULHER ( Carlos Drummond de Andrade )

 A Augusto Rodrigues

Este pintor

sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volume reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.

MÚSICA PROTEGIDA ( Carlos Drummond de Andrade )

 Santa Cecília, anterior aos sindicatos,

protege a situação dos músicos das minas.
Ninguém seja cantor ou instrumentista
quer no sagrado ou no profano
sem se prender aos doces laços
de sua melódica Irmandade.
Quem infringir a santa regra
ofensa faz ao povo e ao Céu,
a boca se lhe emudece, o instrumento
cai sem som na laje fria.
Mas aos pios irmãos Santa Cecília
a cada dia e hora
concede voz mais pura
e mais divino som ao clarinete.

CASO PLUVIOSO ( Carlos Drummond de Andrade )

A chuva me irritava. Até que um dia

descobri que maria é que chovia.

A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura…
maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa… Nossa!

Não me chovas, maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!

Eu lhe dizia em vão — pois que maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,

que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

Eu lhe gritava: Para! e ela chovendo,
poças d’água gelada ia tecendo.

Choveu tanto maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa

e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.

E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de maria mais chuvavam,

de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,

e eis o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido.

Os seres mais estranhos se juntando
na mesma aquosa pasta iam clamando

contra essa chuva, estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual)

Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d’água mais deliram,

e maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.

Os navios soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,


e maria chovendo. Eis que a essa altura,
delida e fluida a humana enfibratura,

e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,

e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, maria! — e ela parou.