19/11/2025

SEIS CEGONHAS NO TAROT ( Luíza Lima de Matos )

 Um pedaço de sol caiu sobre mim

ao meu primeiro choro. Ao meu lado,
treze garotas recebiam pedaços distintos da lua.
Beijamo-nos, ao que renascemos
seis vezes. Construímos cidades
de pena de galinha e água.

No quarto escuro,
uma raposa me olha e ri
deitada enquanto escrevo.
Ela carrega em seu pescoço
o voo mágico da morte.
Ela o oferece para mim
em troca do meu tornozelo esquerdo.

Não escutei as trombetas,
não fui recebida por Deus.

Um bode do mar
foi o nosso companheiro
alimentamos a casa de Vênus
banhamos os pés da Via Láctea
louvamos a mortalidade das estrelas.

A raposa me olhou uma última vez,
nós duas sabíamos que era a última vez,
e, ao meu toque, se transformou em chuva.

Ela renasceu. Apenas para desaparecer.

A POESIA DA LÍNGUA ( Carolina Rieger )

 como o louco deseja seu delírio

irresistível, irrealizável
ou como lida a libertina na lida
lúbrica, enleio-me à língua
e salivo em cada recôndito
para dizer o não dito
deslizo em teu desenho inaudito
de riscos e de curvas
lasciva permeio a água turva
subjacente a sua silhueta
transo, lentamente, seus sons
e vejo multiplicar sua faceta
no transe do teu canto encontro
som, sentido e imagem
como um louco que alucina
e pela sina da transgressão
torno a natureza concupiscente
assim como a promiscuidade ensina
o caminho do cume é indecente
mas leva à língua da poesia

QUEBRA - COPOS ( Fernanda Marra )

 quebrar copos como

procedimento para
não entornar o caldo
a evitação do óbvio
a veneração do falo

quebrar copos como
prosseguimento e contiguidade
sem tranco do punho
ao vidro e
estilhaço

quebrar copos como
apuro redução e compostagem
o fermento
fétido do desastre

quebrar copos como
quem recruta ao mosaico
reúne o que nunca fez
parte

como se perdoasse pela
opacidade agora
e na hora luminosa
do baque

como se relevasse
o polimento bruto
que fez do brilho
embaço

como se acordasse
pedindo água ar
ou talho
esperando
por quem raspa o fundo do requeijão
como se amas-
-sasse

MULHER - ÁRVORE ( Fernanda Marra )

 sendo ipê, a cabeleira não enche

o frio árido arde nas narinas
o tronco engrossa as flores
secam ao pé
de mim

sendo ipê, perdi os pés
aterro tentando aceitar os polos
que fazem meu corpo dis-
-junto buscar simultâneo
sol e solo

haviam me prometido
luz silente e farta
esperava um tapete de pétalas
                  uma colcha de estrume
dedos descobertos e nenhuma necessidade
nessa parte do ano
pretendia dormir

um dia quero ser um pé de ipê,
disse simples
e bebi de suas cores
adubando as raízes

um dia, disse, quero ser um pé de ipê
e inclinada para estancar
a sangria da seiva, caí com galho
ambiência fria
as perdas da copa

agora assisto à morte
das espécies delicadas
quando escolhi a mutação caducifólia
pensei só no viço e
agora aguardo no focinho a brisa amena
um dia, quero ser uma trepadeira

Por Rita Medusa

 ela veio vestida de seda

como eu insisti
Apaguei o cigarro no uísque dela
rasguei a parte de cima do vestido
trajada com uma agonia de desejo
eu sabia que não havia lingerie
disse em sussurros

dança pra mim
encaixa teu corpo nos meus dedos
Deixa tua umidade me ensinar
a dançar

Mulheres!
eu mataria tudo por elas
pela minha futura esposa
minhas filhas, minhas netas
minhas putas, minhas irmãs
minhas leitoras, minhas musas
minhas reclusas
que nunca sonharam ser minhas

Dançávamos eu atrás dela
Segurando suas tetas e me encaixando onde inventava
parecíamos um quebra cabeça
descobrindo ligações descabidas
eu sorvia o licor do pescoço dela
como um vampiro recém apresentado
a uma fome escrava
me perdi beijando o corpo dela
me arranhava as costas enquanto eu era dominada com o aroma dela
de amora apocalíptica
e dama da noite
Com a cabeça no meio das pernas dela
eu juraria fidelidade doentia eterna
ao mais desesperado penar
com uma dose cavalar de confusão cotidiana
Gozou na minha boca
fugiu, se vestiu, se maquiou
– até a próxima querida!
– não caia nas escadas com esses saltos canalhas.
– não, eu volto pra ter fazer miseravelmente feliz.

quero gritar : não volte nunca mais
mas ela é minha heroína
Banquete dos sentidos
corre perigo comigo
se uma única noite pudesse
deitar a cabeça no colo dela
chupando os seios de sua imensidão
eu poderia dizer que sim
para o crime mais medonho

LÍLIA TAVARES, in NOMES DA NOITE.

 Cheguei a casa quando anoitecia.

Ainda quente, o vento empurrava-me o vestido.
Por um instante senti-me ave
levada por brisas, plumas e enigmas.
A aragem entontecia-me de prazer.
Queria ficar nos braços daquele vento.
Imaginei que o anoitecer me pertencia.
De pé, senti o teu corpo.
O meu, aberto e solto, deixou-se ir.
Sou apenas uma guardadora de ventos.

               A Água e a Sede, Modocromia, 2019)

17/11/2025

VENENO ( Alfredo Polacci ) versão: Nelson Motta

Veneno

Não me beije que eu tenho veneno
É meu preço não faço por menos
Mas depois te amarei

Veneno
Esta vida é tão pouca e pequena
Nestes lábios tem todo o veneno
Que você ama e quer
Todos os sentidos, cada gota
D'água, nesses mares de prazer

Veneno
Cor-de-rosa suave e moreno sereno
Nestes seios tem todo o veneno
Que você chama amor

Todos os sentidos, cada gota
D'água, nesses mares de prazer

Veneno
Cor-de-rosa suave e sereno moreno
Nestes seios tem todo o veneno
Que você chama amor

14/11/2025

CILÍCIO (Miguel Torga) in Diário XIV

São tristes estes dias de velhice.
O sol já não aquece,
Nenhum sonho apetece,
Os versos desfalecem ao nascer.
Mas há não sei que sádico prazer,
Que infernal sedução,
Numa melancolia assim desamparada.
É como ter razão

Numa causa perdida, mal julgada. 

Coimbra, 11 de Novembro de 1982.

13/11/2025

MAS ELA DISSE! ( Maria Isabel de Castro Lima )

 Ela disse que eu era seu grande amor, que nunca iria me trair, que iríamos viajar, que não existia vida antes de mim, que eu era seu sol seu céu seu mar, que eu era seu mundo sua família. Achei meio exagerado aquilo, mas alimentou meu ego. Depois de um tempo justo me traiu, viajou com outra, criou outros mundos, construiu outra família. Fui a última a saber.

ORGASMO ( Dama Maurícia )

 O tesão

me jogou no preci

p

í

c

i

o

:

 

caí

sobre

o

prepúcio

e nunca mais

me levantei.

TESÃO RECOLHIDO (Adriana Riess Karnal )

 As roupas no varal

depois de recolhidas

esperam pernas

dorso e abraços.

Ah! Se soubesses como anseio

O que tu escondes!

IMAGINÁRIO FEMININO ( Wislawa Symbora )

 as escritoras mentem

comovidamente

verdadeiras

o tesão

que deveras sentem


não porque sejam fingidoras

ou finjam dores & tensões

de amor

de sexo

de tesão

é porque são amadoras

em suas invenções

 

foram as primeiras no reino animal

a saber que tesão

como a mentira o amor e a fé

é questão

de imaginação

MELANCIA ( Nanda Prietto )

 Teus seios. Pegajosos. Úmidos.

Minha boca, nossas bocas,

Escorrendo. Biquínis.

Umbigos. Tatuagens. Piercings. Vulvas.

 

Comemos o verão todo

Besuntando de água a sede

Uma da outra.

 

Febre úmida. Satélite. Abelha.

O açúcar de teus segredos.

Língua. Gilete. Vulva. Ânus.

Stacy Martin. Lisbeth Salander.

 

Strapon não me expurga.

(Prefiro dedos. Boca. Seios. Ânus. Vulva.)

 

Nós. Duas amantes púberes de Klimt.

Duas de Les Demoiselles d'Avignon.

Santas Teresas cantando baise-moi.

Ombros desnudos propondo travessias.

Risinhos de êxtases vespertinos.

E quem olhasse veria apenas

Duas crianças comendo melancia.

VAUDEVILLE ( Heloisa Defarge )

 

fazer sexo

com anjos

não cura, sua

11/11/2025

ADORO ESSE TEU AR QUANDO ME TOCAS ( Joaquim Pessoa )

 Adoro esse teu ar quando me tocas.

Começas por ficar transfigurada
para, depois de unir as nossas bocas,
te tornares uma fera não domada.

Mordes-me o peito, os ombros, o pescoço.
As tuas coxas nas minhas são abraço
tão forte e perigoso que não posso
responder a seguir pelo que faço.

Enlouqueço. Também sou uma fera
há dias sem comer, à tua espera
pra poder devorar-te e saciar-me.

A luta assim é própria de quem ama.
Se eu tiver de morrer, seja na cama
a vir-me nos teus braços e a passar-me.

10/11/2025

HARMONIZAÇÃO ( Alberto Bresciani )

 Demorasse a tua mão

um pouco mais
sobre o meu ombro

e me nasceriam asas

Em silêncio
logo o pressentimento
o pacto e o voo:

grades e escarpas
ruindo sob as pernas
cúmplices, entrelaçadas

                    as nossas.

PELE QUE HABITO ( Lubi Prates )

 minha pele é meu quarto.

minha pele é todos os cômodos
onde me alimento onde deito finjo
  o mínimo conforto.

minha pele é minha casa
com as paredes descobertas
  uma falta de cuidado
: necessita sempre mais
para ser casa.

minha pele não é um estado
desgovernado.

minha pele é um país
embora distante demais   para os meus braços
embora eu sequer caminhe sobre seu território
embora eu não domine sua linguagem.

minha pele não é casca
é um mapa: onde África ocupa
todos   os   espaços:
cabeça útero pés

onde os mares são feitos de
minhas lágrimas.

minha pele é um mundo
que não é só meu.

ÁFRICA (Giselle Vianna ) in Intempestiva - Patuá, São Paulo, 2023 ( inspirado no filme Amazing Grace )

 vejo a flor

sem ter visto cair a semente
sinto no vento quente
o timbre de Gil
o rhythm & blues
o soprar do siroco
e do son, o som
dos tantãs
o samba e o soul
de Aretha Franklin
sinto em tudo
que sou o calor
da mãe eterna, fonte
da minha voz, luz
ardente da aurora
no sol poente:
na foz,
a descoberta das nascentes

ARTEFATO NIPÔNICO ( Adélia Prado )

 A borboleta pousada

ou é Deus
ou é nada.
  De A Faca No Peito (1988)

O LAGO (Ana Paula Tavares ) in Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos; 2001

 Tão manso é o lago dos teus olhos

que temo avançar a mão
cortar as águas
e semear o espanto
na descoberta
da minha sede antiga.

EU E ELA ( Cesário Verde )

 Cobertos de folhagem, na verdura,

O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más ideias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distracção,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiros,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou pagãos, vida à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavalheiro de Flaublas.

DE TARDE ( Cesário Verde )

Naquele «pic-nic» de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.

DESLUMBRAMENTOS ( Cesário Verde )

Milady, é perigoso contemplá-la,

Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!

Em si tudo me atrai como um tesouro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de ouro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina.
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pelo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos - as rainhas!