Por mim, e por vós, e por mais aquilo
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
08/01/2026
DESPEDIDA (Cecília Meireles) in Flor de Poemas, 1972.
A CHUVA CHOVE ( Cecília Meireles )
A chuva chove mansamente como um sono
CONTEMPLATIVA ( Raiza Figuerêdo )
pelo direito à pausa
UM CORPO FEMININO ( Raiza Figuerêdo )
experimenta muitas formas, linhas, curvas
07/01/2026
AMOR ( Nuno Júdice ) in Meditação Sobre Ruínas, 1994
Um poema, dizes, em que
o amor se exprima, tudoresumindo em palavras.Mas o que ficanas palavrasdaquilo que se viveu?Um pó de sílabas,o ritmo pobre da
O AMOR ( Nuno Júdice ) De Cartografia de Emoções, 2001
Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,de ti, em mim ficou. Está nos teuslábios, na tua voz, nos teus olhos,e talvez ande por entre os teus cabelos,ou nesses fios abstractos que desfolho,com os dedos da memória, quando osevoco.Existe: é o que sei quandome lembro de ti. Uma relação pode duraro que se quiser; será, no entanto, essaimpressão divina que faz a sua permanência? Ouimpõe-se devagar, como as coisas a que otempo nos habitua, sem se dar por isso, coma pressão subtil da vida?Um deus não precisa do tempo paraexistir: nós, sim. E o tempo corre por entreestas ausências, mete-se no próprioinstante em que estamos juntos, fogepor entre as palavras que trocamos, eue tu, para que um e outro as levemosconnosco, e com elas o que somos,a ânsia efémera dos corpos, omais fundo desejo das almas.Aqui, um deus não vive sozinho,quando o amor nos junta. Desce dos confinsda eternidade, abandona o mais remoto dosinfinitos, e senta-se aos pés da cama, comoum cão, ouvindo a música da noite. Umdeus só existe enquanto o dia não chega; porisso adiamos a madrugada, para que nãonos abandone, como se um deusnão pudesse existir para lá do amor, ou
O OVO DA SERPENTE ( Thaís Campolina )
ouvi dizer que o berro da cigarra é um aviso
CICLO CIRCADIANO ( Thaís Campolina )
eu devia correr pelo menos uma hora inteira hoje
A MEMÓRIA DOS RINOCERONTES ( Thaís Campolina )
DEVER DE CASA ( Thaís Campolina )
mesa sem poeira
pia seca
privada higienizada
roupa limpa e dobrada
cama feita
papel em cima de papel
dentro da gaveta
livro empilhado na estante
algumas canetas guardadas
outras, soltas
sempre sobra uma
alguma coisa
um objeto
de uma casa habitada
circula
como se vivo fosse
é carregado
pego
jogado no chão pelo gato
quebrado
colado com cola quente
guardado
até que esteja de novo
no lugar errado
ESTAR ONDE NÃO ESTOU ( Thaís Campolina )
a cortina entreaberta
acordar é sempre uma explosão
SOMOS ACOSTUMADOS A PULAR DE CABEÇA EM UM VALE DE CACOS PONTIAGUDOS ( Thaís Campolina )
elas são trepidantes
a palavra é sempre um risco
PONTO G ( Thaís Campolina )
uma montanha de gelo seco
é capaz de esfriar geleiras
inteiras de água parada
o gelo seco é mais gelado
do que os ventos do ártico
geleiras inteiras de gelo seco
desaparecem em segundos
numa piña colada
piña colada tropicaliente
faz subir um calor no peito
que não é azia
gelo seco gelado
queima tudo
faz nuvem
e eu bebo
MEMÓRIA CELULAR DE UM PEIXE ABISSAL( Thaís Campolina ) in Enxame, a ser lançado em 2026
à toa e preocupada
QUEM MORRE? ( Martha Medeiros )
Morre lentamente
Por Martha Medeiros. in Fora de Mim. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.
Tenho que faxinar você da minha vida, não posso permitir o atrevimento de você estar aqui sem estar aqui.
Por Martha Medeiros; in Tudo Que Eu Queria Te Dizer, Carta para Maria Alice, pág. 80
Você sabe que não sou mulher de arrependimentos, de olhar pra trás, essas coisas. A gente tem que mirar no alvo e atirar, pronto, foi. A flecha não volta. Se acertamos ou erramos, não tem volta. Foi assim que levei a vida sempre.
A LÁGRIMA (Augusto dos Anjos) in Poesia e Prosa, Zenir Campos Reis; Ed. Ática, São Paulo, 1977.
- Faça-me o obséquio de trazer reunidos
ANSEIO ( Augusto dos Anjos ) in Pau d’Arco - 1902
Nessas paragens desoladas, onde
AO LUAR (Augusto dos Anjos)
ARIANA ( Augusto dos Anjos )
Ela é o tipo perfeito da ariana,
MÃOS ( Augusto dos Anjos )
Há mãos que fazem medo
MINHA ÁRVORE ( Augusto dos Anjos )
Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada!
MÁGOAS ( Augusto dos Anjos )
Quando nasci, num mês de tantas flores,
VENCEDOR ( Augusto dos Anjos )
Toma as espadas rútilas, guerreiro,






















