Eu te beijo
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
Eu te beijo
Ouve a declaração oh bela, de um sonhador titã
Segue nessa marcha triste
Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
Sou a rainha do egito
Gosto de ficar na praia deitado
Na frente do cortejo o meu beijo
Perfuro o ventre da escuridão
onde as coisas se escondem
porque estão cheias de sim e de não e de confusão
e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca
respondem
São como coisas presas ao labirinto
com algemas nos pulsos e tudo
são cinco pras cinco e eu já me sinto
dentro do seu não e de um caixão de veludo
Toca teu samba, toca
e tortura meu ser com prazer de ser
a tortura como aquela coisa que nos choca
onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter
Não ter o quê?
Ora, tá na cara
não ter é não ter você
seja com grilo ou seja odara
Luas de prata conseguem
fazer com que lentamente
as sensações das emoções naveguem
e invadam como as fadas minha mente
Doem-me todas as cicatrizes
e sinto as rugas das verrugas
Sei que és como atores e atrizes
e que sempre atacas quem te quer por em fugas
Tocas então mil serenatas
e antigas cantigas e rondós
depois mijas no chão como os cães vira-latas
e ficas falando de ti quando estamos a sós
É por isso que sinto todos estes e aquelas
dores incolores e na garganta estes nós
Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas
poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!
Tenho a ventura fiel
No céu, - frente à sua casa,
Debaixo d'água tudo era mais bonito
Fascínio tenho eu
É Xangô que vai chegar
As camélias do quilombo do Leblon
Vem
Quando eu estou sob as luzes
Uma mulher é apenas
essa que às vezes
faz crescer ( no lugar errado )
a dúvida
numa ênfase sem lógica,
o arrepio que devagar.
Uma mulher impõe-se suavemente
com movimentos de peixe;
ela insinua-se nos teus sentidos e nas tuas palavras;
deixa um livro aberto entre os lençóis
e uma camélia
de fogo nas tuas pernas.
No meu corpo convergem
os mitos silenciosos.
O teu sexo, minotauro
e a criação dos gémeos nos meus seios.
A árvore da vida do meu ventre
e a sinfonia de todos os adeuses.
Repositório de histórias antigas
de tudo o que foi e o que foram
mãos ensanguentadas
de unicórnio partido.
Reconheço-me em cada canto
onde repousam,
quentes e descalços,
os quebrados mitos.
Os nossos corpos molhados pela água,
lambidos, entrelaçados,
o mar faz-nos cócegas no sexo,
um pé, a nuca.
A água espumosa
que nos agarra, um braço
como um toque por distracção
que te apanha,
me apanha
mas esquivo-me, tu estendes-te.
As nossas asas tocam-se,
as nossas pernas enlaçam-se
e a água
por dentro, por fora, por dentro.
Os nossos corpos: a água.
A lua impiedosa
ou a tua língua, lavando-me
inteira e brilhante,
despiu-nos.
O teu corpo, espelho interminável,
sabia que a maldade
estava ocupada noutro sítio.
E possuíste-me inteira
no descuido exacto da vida.
Eu serei Margarida e tu o mestre,
Merlin com sua língua
na cova mais funda
e a minha boca
uma bússola no teu corpo.
Os postes circulares da tua cama
convergem nos nós das minhas pernas
- a luz era uma vela –
mas os teus olhos
dardos na noite.
O silêncio ganhou um cheiro a sândalo marinho:
esse que derrete
as máscaras.