19/01/2026

EU TE BEIJO ( Ivana Aponte ) tradução: Gladys Mendía

 Eu te beijo

O sabor do café
anuncia um novo dia

 

Eu te beijo
O curry te comove
enquanto meus lábios ardem de leve

 

Eu te beijo
Saberás mais de mim
na noite seguinte

18/01/2026

A BELA E A FERA ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Ouve a declaração oh bela, de um sonhador titã

Um que dá nó em paralela e almoça rolimã
O homem mais forte do planeta, tórax de Superman
Tórax de Superman e coração de poeta

Não brilharia a estrela oh bela, sem noite por detrás
Tua beleza de gazela sob o meu corpo
É mais uma centelha num graveto

Queima canaviais
Queima canaviais
Quase que eu fiz um soneto!
Mais que na lua ou no cometa ou na constelação
O sangue impresso na gazeta tem mais inspiração

No bucho do analfabeto, letras de macarrão
Letras de macarrão fazem poema concreto

Oh bela, gera a primavera, aciona o teu condão
Oh bela, faz da besta-fera um príncipe cristão

Recebe o teu poeta oh bela, abre teu coração!
Abre teu coração ou eu arrombo a janela!

TERRA DE NINGUÉM ( Marcos Valle & Paulo Sérgio Valle )

 Segue nessa marcha triste

Seu caminho aflito
Leva só saudade
E a injustiça que só lhe foi feita
Desde que nasceu
Pelo mundo inteiro
Que nada lhe deu

Anda, teu caminho é longo
Cheio de incerteza
Tudo é só pobreza
Tudo é só tristeza
Tudo é terra morta
Onde a terra é boa
O senhor é dono
Não deixa passar.
Para no final da tarde
Tomba já cansado
Cai um nordestino
Reza uma oração
Prá voltar um dia
E criar coragem
Prá poder lutar
Pelo que é seu.

Mas...
O dia vai chegar
Que o mundo vai saber
Não se vive sem se dar
Quem trabalha é que tem
Direito de viver
Pois a terra é de ninguém

ELEGIA 1938 ( Carlos Drummond de Andrade ) in Sentimento do Mundo, 1940

 Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,

onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

17/01/2026

RAINHA DO EGITO ( Nelson Jacobina )

 Sou a rainha do egito

Sou a filha do faraó
Sou uma dessas meninas que namoram a lua
E o sol
Sou cartomante de esquina
Sou bailarina de um cabaré
Sou uma dessas meninas que anda descalça
E a pé
Me mandando pela louca madrugada
Com um cigarro aceso em cada mão
Por que o ser humano
Seja homem ou mulher
É uma eterna criação
É uma eterna criação

Posso te beijar agora
Pro zig zag poder ir embora
Posso te beijar agora
Pro zig zag poder ir embora

É a barra pesada que está chegando
É a barra pesada que está chegando

Tudo menina, menino jóia dançando
Tudo menina, menino jóia dançando

TARADO ( Caetano Veloso & Jorge Mautner )

 Gosto de ficar na praia deitado

Com a cabeça no travesseiro de areia
Olhando coxas gostosas por todo lado
Das mais lindas garotas, também das mais feias
Porque são todas gostosas e sereias
Pro meu olhar de supremo tarado
Tarado.

LÁGRIMAS NEGRAS ( Jorge Mautner & Nelson Jacobina )

 Na frente do cortejo o meu beijo

Muito forte como aço, meu abraço
São poços de petróleo, a luz negra dos seus olhos
Lágrimas negras caem, saem, doem

Por entre flores e estrelas
Você usa uma delas como brinco pendurada na orelha
É o astronauta da saudade com a boca toda vermelha
Lágrimas negras caem, saem, doem

São como pedras de moinho
Que moem, roem, moem
E você, baby, vai, vem, vai
E você, baby, vem, vai, vem

Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Belezas são coisas acesas por dentro
Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento
Lágrimas negras caem, saem, doem
Lágrimas negras caem, saem, doem

PREFIRO O VENTRE DA ESCURIDÃO ( Jorge Mautner )

Perfuro o ventre da escuridão

onde as coisas se escondem

porque estão cheias de sim e de não e de confusão

e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca

         respondem

São como coisas presas ao labirinto

com algemas nos pulsos e tudo

são cinco pras cinco e eu já me sinto

dentro do seu não e de um caixão de veludo

 

Toca teu samba, toca

e tortura meu ser com prazer de ser

a tortura como aquela coisa que nos choca

onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter

 

Não ter o quê?

Ora, tá na cara

não ter é não ter você                

seja com grilo ou seja odara

 

Luas de prata conseguem

fazer com que lentamente

as sensações das emoções naveguem

e invadam como as fadas minha mente

 

Doem-me todas as cicatrizes

e sinto as rugas das verrugas

Sei que és como atores e atrizes

e que sempre atacas quem te quer por em fugas

 

Tocas então mil serenatas

e antigas cantigas e rondós

depois mijas no chão como os cães vira-latas

e ficas falando de ti quando estamos a sós

 

É por isso que sinto todos estes e aquelas

dores incolores e na garganta estes nós

Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas

poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!

16/01/2026

RIQUEZA(Gabriela Mistral) in Rosa do Mundo 2001;Poemas para o Futuro,Assírio & Alvim; Trad.:José Bento

 Tenho a ventura fiel

e a ventura perdida:
uma é qual uma rosa,
e a outra como um espinho.
De tudo o que me roubaram
nunca fui despossuida:
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida,
e estou tão rica de púrpura
como de melancolia.
Ai, como é amada a rosa
e que amante é o espinho!
Como o duplo contorno
dos frutos que gêmeos vivem,
tenho a ventura fiel
e a ventura perdida

AS ESTRELAS (Trovas) Adelmar Tavares

 No céu, - frente à sua casa,

primeira vez que a beijei,
brilhava, linda, uma estrela
ninguém nos viu, bem o sei.

Mas não sei que disse a estrela,
que há, desde essa ocasião,
bem defronte à sua casa,
toda uma constelação.

DEBAIXO D'ÁGUA ( Arnaldo Antunes )

Debaixo d'água tudo era mais bonito

Mais azul mais colorido
Só faltava respirar

Mas tinha que respirar

Debaixo d'água se formando como um feto
Sereno confortável amado completo
Sem chão sem teto sem contato com o ar

Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Debaixo d'água por encanto
Sem sorriso e sem pranto
Sem lamento e sem saber quanto
Esse momento poderia durar

Mas tinha que respirar

Debaixo d'água ficaria para sempre
Ficaria contente
Longe de toda gente para sempre
No fundo do mar

Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

Debaixo d'água protegido salvo fora de perigo
Aliviado sem perdão e sem pecado
Sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar
Mas tinha que respirar

Debaixo d'água tudo era mais bonito
Mais azul mais colorido
Só faltava respirar

Mas tinha que respirar
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia
Todo dia, todo dia
Todo dia

MISS SUETER (Aldir Blanc & João Bosco)

 Fascínio tenho eu

Por falsas louras
(Aí, a negra lingerie)
Com sardas
Sobrancelha feita a lápis
E perfume da Coty

Na boca
Dois pivots são graciosos
Entre joias naturais
E olhos tais minúsculos aquários
De peixinhos tropicais
Eu conheço uma assim
Uma dessas mulheres
Que um homem não esquece
Ex-atriz de TV
Hoje é escriturária do INPS
E que, dia atrás
Venceu lá no concurso de
Miss Sueter

Na noite da vitória
Emocionada, entre lágrimas falou
Nem sempre a minha vida foi tão bela
Mas o que passou, passou
Dedico esse título a mamãe
Que tantos sacrifícios fez
Pra que eu chegasse aqui, ao apogeu
Com o auxílio de vocês
Guardarei para sempre
Seu retrato de miss com cetro e coroa
Com a dedicatória que ela
Em letra miúda, insistiu em fazer
Pra que os olhos relembrem
Quando o teu coração infiel esquecer
Um beijo, Margot

XANGÔ ( Chico Saraiva & Suzana Salles )

 É Xangô que vai chegar

Por Alá canta o corão
Coro Atlântico verão
Acalanto uma canção

Xangô baixou em Shangai
Na pele de um samurai
Em nome da mãe e do pai
Xangô entra não sai
Xangô chamou um xamã
Nas terras de Aldebarã
Em nome do irmão da irmã
Xangô é a luz da manhã

Xangô pluma da cultura
O bico da bic futura
Seu nome é a água que fura
Dureza da pedra que dura
Xangô agogô da planície
Xangô versos que Xangô disse
O chão a chã superfície
Me viu antes que eu lhe visse



PARAÍSO EU ( Arnaldo Antunes )

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15/01/2026

AS CAMÉLIAS DO QUILOMBO DO LEBLON ( Caetano Veloso & Gilberto Gil )

 As camélias do quilombo do Leblon

As camélias do quilombo do Leblon
As camélias do quilombo do Leblon
As camélias

As camélias do quilombo do Leblon
As camélias do quilombo do Leblon
As camélias do quilombo do Leblon
Nas lapelas

Vimos as tristes colinas logo ao sul de Hebron
Rimos com as doces meninas sem sair do tom
O que fazer
Chegando aqui?
As camélias do Quilombo do Leblon
Brandir

Somos a Guarda Negra da Redentora
Somos a Guarda Negra da Redentora

As camélias da Segunda Abolição
As camélias da Segunda Abolição
As camélias da Segunda Abolição
As camélias

As camélias da segunda abolição
As camélias da segunda abolição
As camélias da segunda abolição
Cadê elas?

Somos assim, capoeiras das ruas do rio
será sem fim o sofrer do povo do Brasil
Nele, em mim, vive o refrão
As camélias da segunda abolição virão

Célia Moura, in “No hálito de Afrodite”

 Vem

Não esperes pelo esperma tardio
Das fontes que hão-de jorrar
O cio das feras
Pelo sobressalto da espera,
Nem sequer acordes
A soturna escadaria,
Ela geme baixinho
Enquanto te aguardo.
Liberta-me apenas do negrume
Destes olhos.

14/01/2026

DE PRIMEIRA GRANDEZA ( Antônio Carlos Belchior )

 Quando eu estou sob as luzes

Não tenho medo de nada
E a face oculta da Lua
Que era minha aparece iluminada
Sou o que escondo sendo uma mulher
Igual a tua namorada
Mas o que vês
Quando me mostro estrela de grandeza inesperada

Musa, deusa, mulher, cantora e bailarina
A força masculina atrai não é só ilusão
A mais que a história fez e faz o homem se destina
A ser maior que Deus por ser filho de Adão
Anjo, herói, Prometeu, poeta e dançarino
A glória feminina existe e não se fez em vão
E se destina à vida, ao gozo, a mais do que imagina
O louco que pensou a vida sem paixão

Musa, deusa, mulher, cantora e bailarina
A força masculina atrai não é só ilusão
A mais que a história fez e faz o homem se destina
A ser maior que Deus por ser filho de Adão

Anjo, herói, Prometeu, poeta e dançarino
A glória feminina existe e não se fez em vão
E se destina à vida, ao gozo, a mais do que imagina
O louco que pensou a vida sem paixão

UMA MULHER ( Lourdes Espínola ) , in Partidas e Regressos. tradução: Albano Martins.

 Uma mulher é apenas

essa que às vezes

faz crescer ( no lugar errado )

a dúvida

numa ênfase sem lógica,

o arrepio que devagar.

Uma mulher impõe-se suavemente

com movimentos de peixe;

ela insinua-se nos teus sentidos e nas tuas palavras;

deixa um livro aberto entre os lençóis

e uma camélia

de fogo nas tuas pernas.

MEU CORPO ( Lourdes Espínola ) , in A Estratégia do Caracol; tradução: Albano Martins

 No meu corpo convergem

os mitos silenciosos.

O teu sexo, minotauro

e a criação dos gémeos nos meus seios.

A árvore da vida do meu ventre

e a sinfonia de todos os adeuses.

Repositório de histórias antigas

de tudo o que foi e o que foram

mãos ensanguentadas

de unicórnio partido.

Reconheço-me em cada canto

onde repousam,

quentes e descalços,

os quebrados mitos.

AS PALAVRAS DO CORPO ( Lourdes Espínola ), in A Estratégia do Caracol; tradução: Albano Martins

Os nossos corpos molhados pela água,

                            lambidos, entrelaçados,

                            o mar faz-nos cócegas no sexo,

                            um pé, a nuca.

                            A água espumosa

                            que nos agarra, um braço

                            como um toque por distracção

                            que te apanha,

                            me apanha

                            mas esquivo-me, tu estendes-te.

                            As nossas asas tocam-se,

                            as nossas pernas enlaçam-se

                            e a água

                            por dentro, por fora, por dentro.

                            Os nossos corpos: a água.

 

                            A lua impiedosa

                            ou a tua língua, lavando-me

                            inteira e brilhante,

                            despiu-nos.

                               O teu corpo, espelho interminável,

                            sabia que a maldade

                            estava ocupada noutro sítio.

                            E possuíste-me inteira

                            no descuido exacto da vida.

 

                            Eu serei Margarida e tu o mestre,

                            Merlin com sua língua

                            na cova mais funda

                            e a minha boca

                            uma bússola no teu corpo.

                            Os postes circulares da tua cama

                            convergem nos nós das minhas pernas

- a luz era uma vela –

mas os teus olhos

dardos na noite.

O silêncio ganhou um cheiro a sândalo marinho:

esse que derrete

as máscaras.