24/01/2026

PAGA E REPAGA ( E. M. de Melo e Castro )

 A paga

eu gostaria muito sim talvez
dar uma enorme foda todo o mês
numa mulher que se chamasse Inês
e que tivesse um gato siamês
que não me chateasse cada vez
que nela me pusesse de viés
porque as mulheres pensam que talvez
no foder se paga tudo de uma vez

mas nunca se lembram que ao invés
o pagar nada tem com as fodas que dês
porque ainda ontem dei ai umas dez
e a paga que tive foi um chato burguês

A repaga

não penses tu proleta fodilhão
que lá por seres caralho
tens razão
nem que todas as fodas que me dês
são a fácil desforra
do tesão

porque a cona é que sabe
do vir ou do não vir
e só no seu sorrir
é que o caralho sobe

mas se és mal pago
não vais morrer de fomes
e se me pagas
não pagas o que comes.

(e o chato talvez
não seja mais
que o teu retrato
português)


23/01/2026

CERTAS PALAVRAS ( Carlos Drummond de Andrade ) in Boitempo

 Certas palavras não podem ser ditas

em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não adivinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, actos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos.

E tudo é proibido. Então, falamos.

O HISTORIADOR ( Carlos Drummond de Andrade ) in A Paixão Medida

 Veio para ressuscitar o tempo

E escalpelar os mortos,
As liturgias e as espadas,
O espectro das fazendas submergidas,
O muro de pedra entre membros da família,
O ardido queixume das solteironas,
Os negócios de trapaças, as ilusões,
Jamais confirmadas nem desfeitas.
Veio para contar
O que não faz jus a ser glorificado
E se deposita grânulo
No poço da memória.
É importuno.
Sabe-se importuno e insiste
Rancoroso, fiel.

ESCOLHER ( Adriane Garcia ) in O Nome do Mundo - ed. Armazém da Cultura, 2014.

 Há você

Um espaço
Para os passos
E uma porta

Não é por que
É uma porta
Que você tem que
Abri-la

Liberdade
Pode ser
Antes da porta.

FATAL ( Adriane Garcia )

 O amor te faz nascer

E morrer
Dez vezes por dia se ele quiser

O amor é senhor
E você sabe
Só é possível servir a um

O amor te acorda de noite
Te deixa sem sono
Te põe pra dormir, te deixa

Em coma, letárgico
O amor te dá sonhos
E tira

O amor se ri dos sonetos
De amor e gargalha e se finge
De terno, o amor

Se apresenta sério
O amor faz mistério
E entrega o jogo, se quer

O amor vai te deixar louco
Vai te fazer rouco
De gritar o amor

E aí, vai fingir estar surdo
Vai te tornar mudo
E perguntar: O quê?

O amor vai matar o seu deus
Te fazendo tão pleno
De só haver o amor

E vai sair muitas vezes
Deixando vazio o quarto
E o altar

O amor vai querer te matar
E te fazer querer morrer
E nascer
E morrer
De amor.

O ALFA E O ÔMEGA ( Adriane Garcia ) in O Nome do Mundo - ed. Armazém da Cultura, 2014.

 Carregas tuas coisas

E na verdade nada tens
Elas apenas te parecem
Tuas
Teu, mesmo, é só teu consolo
De ter a ti ainda
Para que esperes que possas ter
Algo mais que outras coisas
Tu que fora de ti nada tens nem nunca terás
Tu que fora de ti nada és nem nunca serás
Tu, eterno efêmero buscante
Do que primeiro e último se chama Amor.

TRANSMUTAR ( Adriane Garcia ) in O Nome do Mundo - ed. Armazém da Cultura, 2014.

 As vidraças balançaram

Eu estava distraída
Sentia tanto frio
Que não vi que o frio vinha

O vento disse meu nome
Avisou-me
Pegasse um casaco
E quando saí à porta
Rodou-me como aos sacos plásticos

Depois, pôs me no chão
E deu-me um beijo de folha

Uma chuva miúda caía
Como quem me trocasse de roupa.

ACENDER AS LUZES ( Adriane Garcia ) in O Nome do Mundo - ed. Armazém da Cultura, 2014.

 Abaixo pálpebras

E apago o dia
Dentro de mim
O escuro avia
Minha intimidade

Pudesses me tocar
Eu diria:
– Aí dói muito
E tu deixarias
Quieto
O meu rio?

Os peixes nadam
Num lodaçal difícil
E ainda há um monstro
De comer pântanos

Tu fazes um
Movimento brusco
Eu choro e
Me inundo
E para não me afogar eu
Abro os olhos.

POEMA SEM PALAVRAS ( Wanda Monteiro )

 Ofereço-te

Um Poema
Sem Palavras
Lavradas

Ofereço-te
Um Poema Semente
Versos
Arados
Rimas brancas
Rubras
Ritmo de sístoles
E diástoles
Pulsos líricos
Cifrados em minhas veias

Ofereço-te
Um Poema Silêncio
Verbos
Silenciosos
Que respiram
Que Transpiram
Sentidos
Todos

Ofereço-Me

CAIS ( Wanda Monteiro )

 Turva água a tua

Que de teus olhos
Escorre nua

Molha o muro da face tua

Abre-lhe fenda
Funda
Escura

Fina janela para teu subterrâneo Cais

Abismo de teus Ais.

Por Wanda Monteiro

 I

teus olhos miram invisível rio
nele
palavras que nunca disseste
nadam como peixes cegos
nadam famintas
morrendo à míngua
de tua coragem de dizê-las
no leito
um Eu nunca dito
naufraga
reverberando seus assombros
e soçobros

II
teus olhos
minguados
padecem do estio dessa tarde
o sol bebe
gota à gota
teu rio
quando a noite chegar
deita-te no chão de tua noite
colhe a chuva de teu sereno
quem sabe
tu possas chorar sobre tua madrugada
a carne orvalhada
dói menos
dói menos
menos

III
silenciosa
a memória corre
lambe as margens de teus olhos
que choram água
e sal
no rio de teus olhos
um leito seca de saudade


IV
turva água a tua
que de teus olhos
escorre nua
molha a pedra
face tua
abre-lhe fenda
funda
escura
fina janela para teu subterrâneo cais
abismo de teus Ais

V
no ventre de tua rosa tardia
nasce um tempo
de espera solidão silêncio
um tempo de plantar
no pouco de tua terra
uma semente de rio
espera pelo rio nascer
ainda que nessa espera
um frio minuano atravesse-Te
tomando-Te o corpo na angústia
que tu possas não germinar
nem crescer
nem florescer
no canto
de uma derradeira estação.

Por Wanda Monteiro; in A Liturgia do Tempo e Outros Silêncios, 2019, Editora Patuá.

 há quem diga do corpo – de sua concretude

mas o que há é liquidez
mais de mil partículas – mil núcleos – mil esferas
fluindo nesse rio andante
na disputa e na defensa
pelas mesmas artérias – mesmos veios
numa permanente luta de vida e morte

há uma força que lhes une e desune
lhes funde e aparta

o rio esse denso corpo que mergulha em si
pesado demais para chover
precipitar-se no ar

o corpo esse rio de sal e sangue
lento de correr que mal sossega – mal respira
ilhado de vento e vazio

há quem diga do corpo
de sua agudeza em mirar
mas o que há é miragem
centrífuga ilusão de ser
a refluir no verbo

o corpo é esse rio
cuja nascente e foz
disputam a força
o espaço
o tempo e as profundidades
no centro de um coração

FRENTE AO MAR ( Octavio Paz ) tradução: Haroldo de Campos. RJ: Guanabara, 1986.

 1

Chove no mar.
Ao mar o que é do mar
e que as herdades sequem.

2
A onda não tem forma?
Num instante se esculpe,
no outro se desmorona
à que emerge, redonda.
Seu movimento é forma.

3
As ondas se retiram
– ancas, espáduas, nucas –
logo voltam as ondas
-peitos, bocas, espumas.

4
Morre de sede o mar.
Se retorce, sozinho,
em sua cama de rochas.
Morre de sede de ar.

A CANÇÃO DA VIDA ( Mário Quintana ) do livro “Esconderijos do Tempo”, 1980.

 A vida é louca

a vida é uma sarabanda
é um corrupio
A vida múltipla dá-se as mãos como um bando
de raparigas em flor
e está cantando
em torno a ti:
Como eu sou bela
amor!
Entra em mim, como em uma tela
de Renoir
enquanto é primavera,
enquanto o mundo
não poluir
o azul do ar!
Não vás ficar
não vás ficar
como um salso chorando
na beira do rio
(Como a vida é bela! como a vida é louca!)

XIX ( Mário Quintana ) do livro “A Rua dos Cataventos”, 1940.

 Minha morte nasceu quando eu nasci.

Despertou, balbuciou, cresceu comigo
E dançamos de roda ao luar amigo
Na pequena rua em que vivi.

Já não tem mais aquele jeito antigo
De rir e que, ai de mim, também perdi!
Mas inda agora a estou sentindo aqui,
Grave a boa, a escutar o que lhe digo:

Tu que és minha doce Prometida,
Nem sei quando serão as nossas bodas,
Se hoje mesmo ou no fim de longa vida

E as horas lá se vão, loucas ou tristes
Mas é tão bom, em meio às horas todas,
Pensar em ti saber que tu existes!

OBSESSÃO DO MAR OCEANO ( Mário Quintana ) do livro “O Aprendiz de Feiticeiro”, 1950.

 Vou andando feliz pelas ruas sem nome

Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral
Búzios calçando portas caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su’alma perdida e vaga na neblina
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

INFINITO DESEJO ( Gonzaguinha )

 Ah, infinito delírio chamado desejo

Essa fome de abraços e beijos
Essa sede incessante de amor
Ah, essa luta de corpos suados
Ardentes e apaixonados
Gemendo na ânsia de tanto se dar

Ah, de repente o tempo estanca
Na dor do prazer que explode
É a vida, é a vida e é bem mais
Esse teu rosto sorrindo
Espelho do meu no vulcão da alegria
Te amo, te quero, meu bem não me deixe jamais
Eu vejo a menina brotando da coisa mais linda
Que é ser tão mulher

Oh santa madura inocência
O quanto foi bom e pra sempre será
E a mim só importa manter essa chama
Até quando eu não mais puder
E a mim não importa nem mesmo
Se Deus não quiser!

IANSÃ ( Caetano Veloso & Gilberto Gil )

 Senhora das nuvens de chumbo

Senhora do mundo dentro de mim
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim

Senhora das chuvas de junho
Senhora de tudo dentro de mim
Rainha dos raios, rainha dos raios
Rainha dos raios, tempo bom, tempo ruim
Eu sou o céu para as tuas tempestades

Um céu partido ao meio no meio da tarde
Eu sou um céu para as tuas tempestades
Deusa pagã dos relâmpagos
Das chuvas de todo ano
Dentro de mim, dentro de mim

FULANO, BELTRANO E SICRANO ( Fátima Guedes )

 Taí, uma mulher com pecados

Habilmente dividida
Três homens no meu caminho
Três caminhos sem saída:

O Fulano é meu amigo
O Beltrano é meu marido
O Sicrano é meu amor
E a briga cá é comigo
Eu é que sei...

Teve de ser com Fulano
De quem eu sou a pela fraca
A amante mais devassa
Seu estopim de desgraça
De encontros em pleno dia
E o medo que ele me passa
E a pressa que ele me passa
Eu sei que se ele me aperta
Sente em meio seio a fogaça
Eu sou mil vezes melhor
Embora ele adore a outra
Fulano me deixa louca

Beltrano me quis primeiro
Arrebatou-me princesa
Viril, forte e cavalheiro
Elogiou minha beleza
E Beltrano me escolheu
Pra ser o que há de mais seu
A mãe de seus garotinhos
Todos de olhos tranquilos
Seus filhinhos, meus filhinhos
Beltrano é o que há de mais puro

Mas Sicrano ainda me olha
Com tanto apego
Gosta e não gosta de estar comigo
Sente no meu respirar
Uma nota de perigo
Me tira e me põe nos seus planos
Sicrano vai nisso há anos
Ele sabe que minha vontade é ele
E me deixa esperar por de repente
Sicrano me põe doente

O Fulano é meu amigo
O Beltrano é meu marido
O Sicrano é meu amor
E a briga cá é comigo
Eu é que sei...

PROCURA DA POESIA ( Carlos Drummond de Andrade )

 Não faças versos sobre acontecimentos.

Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

21/01/2026

PELA INTERNET ( Gilberto Gil )

 Criar meu web site

Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje

Criar meu web site
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje

Que veleje nesse informar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé

Um barco que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve meu e-mail até Calcutá
Depois de um hot-link
Num site de Helsinque
Para abastecer

Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut

Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut

De Connecticut de acessar
O chefe da Mac Milícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus para atacar os programas no Japão
Eu quero entrar na rede para contactar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na Praça Onze
Tem um videopôquer para se jogar

20/01/2026

Por Bruna Lombardi

 Era preciso fazer alguma coisa

pesquisar todas as malhas dos signos
os mapas, os índicos até achar
era preciso estudar
atentamente os orixás
a possibilidade de viajar
tentar o mar
era preciso
escutar Keith Jarrett suavemente
sem se afogar
um som, um meio tom, um quadro na parede
luz de neon, e abrir um verde escandaloso na parede
paisagem que não se vê.
Por que você?
por que não qualquer um de nós que já tentamos tudo
que nos drogamos profundamente conscientes
perdidos no urbano da cidade
os olhos úmidos, a sensibilidade
de um nervo exposto, nos sentimos
metade depois.

Quem sabe os astros, as ondas de energia, as coincidências
os vôos interplanetários, uma idéia de resistência
uma coisa meio Blade Runner em volta
a gente de saco cheio de John Travolta
tentando achar a porta de saída
Nos vestimos de branco, tentamos escapar
com alternativas, chás naturais, respostas no I Ching
dança, poesia, artes marciais
andróides, liberdade, ecologia
músculos, danger, punk, micros, Nova York
toda ideologia é sempre tão contraditória
talvez a salvação viesse em naves espaciais
atari, eletrochoque ou a própria loucura
talvez saber chorar ajude muito.

Era preciso rever o lugar da emoção
o sexo, essa coisa delirante
escrever um relatório hite do avesso
que falasse de telefonemas noturnos, insônia
Metal pesado

Você devia ter se segurado em alguma coisa
uma moda, um discurso, uma idéia de si mesma
- uma paixão que fosse -
qualquer coisa
um mito, um guru, uma política
uma revolução, uma mentira
sei lá, alguma coisa pra se agarrar
talvez uma amiga como ela
um patamar
alguma coisa
antes de cair devagar
pela janela.

Por Bruna Lombardi

 Procurei me esconder do drama

mas ele atravessou
as paredes da minha casa
e me encontrou parado,
diante do espelho,
com um certo constrangimento,
como se envelhecer fosse pecado.

Por Bruna Lombardi

 oVocê vai logo perceber que ele não é uma pessoa fácil.

Um temperamento horrível, me diziam.
E eu, escrevia o nome dele secretamente
nas vidraças, nos elevadores, nos banheiros de cinema.

Você sabe que eu também, as vezes, fico insuportável
com essa mania de querer o impossível.

Mas, devia haver uma brecha nos nossos destinos,
que permitisse um encontro
num quarto de hotel qualquer
uma vez na vida!
furtivos e ordinários,
uma vez e pronto!
horas roubadas.

Não tive jeito de fazer essa proposta
e ele talvez nunca soube o que eu queria.
Carrego comigo o lado oculto de um desejo
passo por ele, sorrio,
digo bom dia.

Por Bruna Lombardi

 Voltei pra casa com a saia do avesso.

Pequenos sinais, evidências;
Esqueço sempre em algum lugar
Minha prudência.

Bom comportamento nunca foi meu ponto forte.
Minhas contradições se digladiam,
Sobrevivo de um instinto que me empurra
Para lugares onde moças não iriam.

Sou tantas, e a cada dia uma.
Quero da vida todas e mais algumas,
Ir fundo em todas essas personagens.

Gosto de descobrir todas as pessoas das pessoas,
E sobretudo gosto das pessoas
E é a elas que dedico essa viagem.

Por Bruna Lombardi

 Agora eu já sabia dele,

já tinha conseguido desvendar a fantasia,
já quase na quarta casa onde se compreendem os mecanismos da alma,
o id, substrato da psique e as grades,
as cancelas,
quando surgiu a oportunidade de nos olharmos longamente,
ah! os freios, e eu senti uma atração alucinada por ele.
Isso é tudo.
Atração. Atração.
Faria qualquer coisa por ele.
Viagens interplanetárias.
Encontros furtivos.
Três dias de ônibus (...) qualquer coisa.
Seria capaz de mentir.
Estranhos espaços da mente. Atmosferas.
Por ele até abstinência sexual.
Um homem comum, apenas isso.
Mas eu sabia que ele trazia latente aquela coisa absoluta. Definida. Demoníaca.
Delírios pactos, bastava ver como tragava a fumaça, de maneira perigosa.
Por ele eu me arrastava no tapete, pensei,
ah! se ele soubesse, decorei nomes de árvores, espécies, qualidades quando ele me disse que gostava e eu só de vê-lo falar de eucaliptos, ipês, espatódias, bauínias, algarobas, magnólias, tibuchinas, oleandros, muçuendas, acácias, paineiras, plátanos, olmos e resedás, pensava involuntariamente em sexo.

Por Bruna Lombardi

 O susto em nós foi avançar

muito para dentro do proibido.
Muito para perto de uma zona perigosa
A boca da noite... o desconhecido.
Vagos caminhos de uma via nebulosa.
Vários conceitos para falar da mesma coisa
O susto em nós foi descobrir porteirasde territórios nunca antes percorridos
No fundo de todos nós um visitante
No fundo, a falta de sentido.

Visitantes de nós mesmos cometíamos
a imprudência de quase enlouquecer
Para chegar à compreensão.
E uma coisa afiada nos conduzia
através da trilha da poesia
e do difícil trajeto da paixão.

Por Bruna Lombardi

 Nossa história está escrita

dentro de cada célula
só não sabemos lê-la
ainda

dentro de nós existe
a resposta que buscamos
só que não a procuramos
bem

o nosso lado mais sábio
ainda se esconde da gente
e vamos nascer novamente
até saber