31/01/2026

CUIEIRA ( Panhonka. Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó )

 Nossa mãe

Poder gerador da vida

Útero divino

Minha mãe

Majestosa Mãe Terra

Que nos ensina sobre aparências…

Muitas vezes enganosas

De fel ,vira mel

Curandeira sagrada….

O que não tem serventia, faz ter

Do enfeite traz a cura

Do miolo traz o sumo

E o sumo que é fel

Sem água

vira mel

Mel que cura.

Miolo misterioso

O fogo transforma

De branco amargoso

Em preto saboroso.

Manchas não pode ter

A cura não tem máculas

Três Luas é o tempo

Que precisa

O útero da filha

Para a mãe curar…

Louvado seja, Metindjwynh!

Mejkumrex minha  Mãe Terra!

A VISÃO ( Panhonka. Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó )

 Para onde iremos depois da nuvem cinza

Nós sabemos bem…

Para onde iremos depois de todo sangue derramado

Nós sabemos bem…

Para onde iremos com nossos corpos violados

Nossos pés, patas, peles, penas, couros e cascos em chamas

Nós sabemos bem

Para onde iremos sem as árvores rios e animais

Nós sabemos bem…

E tu?

Para onde irás quando te faltares o essencial que tu mesmo destruístes?

Tu não sabes?

Nós sabemos bem, e isso nos apavora!

ÁRVORE NUA ( Anne Morrow Lindbergh ) in O Unicórnio e Outros Poemas

 Despiram-me das folhas de minha juventude,

levadas pelo vento do tempo, deixando-me
como aos galhos no inverno. Permaneço,
ereta e solitária, a testemunhar outras vidas,
emoldurando outro brilho,
harpa a tocar uma paixão que não é minha.

Minha ramagem, um leque aberto
ao céu, novamente trará
os mistérios desfolhados que tanto amei,
com raízes e ramos igualmente nus,
os galhos que sorvem a chuva ou balançam ao sol
são os mesmos; a sombra e a essência são uma.
Agora que já perdi as folhas tão frágeis,
não há nada mais a cobrir, nada mais a ocultar.

Vida, sopra por mim agora, finalmente despida,
pois me tornei tão frágil e tão destemida!

OLHANDO O MAR, SONHO SEM TER DE QUÊ ( Fernando Pessoa )

 Olhando o mar, sonho sem ter de quê.

Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.

Mas de se nada ver quanto a alma sonha!

De que me servem a verdade e a fé?

 

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,

Em ruas ou em estradas ou sob ramos,

Temos esta certeza e sempre e em tudo

Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

 

As árvores longínquas da floresta

Parecem, por longínquas, estar em festa.

Quanto acontece porque se não vê!

Mas do que há ou não há o mesmo resta.

 

Se tive amores? Já não sei se os tive.

Quem ontem fui já hoje em mim não vive.

Bebe, que tudo é líquido e embriaga,

E a vida morre enquanto o ser revive.

 

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser

Motivos coloridos de morrer?

Mas colhe rosas. Porque não colhê-las

Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

MULHER CORRENTEZA ( Lidiane Adjú Kariú )

 Tu és água da fonte

É Segredo contido

É água de rios fundos.

 

Tu és água corrente

É a pedra do caminho

É a cantoria de teu encanto

É o encontro de tudo.

 

Tu és a correnteza da água

É o ventre fecundo

É a sacies do mundo.

 

Tu és a corredeira do rio

É o movimento da vida

É o desejo profundo.

 

Tu és água de remanso

É braço de descanso,

É o canto.

30/01/2026

PRESA NÃO SOU RIO ( Lidiane Adjú Kariú )

 Não me queiram água mansa,

Porque água mansa não sou.

Eu sou correnteza,

E na correnteza eu vou.

Quebrando pedra,

Quebrando represa,

Quebrando tudo que me mantem presa.

Presa não sou rio,

Presa não sou.

 

Não me queiram espírito brando

Porque domesticada não sou.

Eu sou feita de selva

E a selva me ensinou.

A cantar o canto

A quebrar quebranto

A quebrar o encanto

Que me mantem presa.

Presa não sou tua,

Presa não sou.

MESTRA DO AMOR ( Vânia de Oliveira Freitas (Prema Shakti))

 Gratidão a Ti Oh doce Mãe

Numa concentração intensa

Suas cores brilham e se revelam

Teus poderes se manifestam

Para nós perceptíveis ficam

Cada vez mais nos direcionamos para Ti

E a vida começa a sorrir

Unidos a Ti

Sem hesitar

Tua vontade cumprir

Agir!

PARÁ É TERRA INDÍGENA! (Danielle Souza (Iacy Anambé))

 Da cidade das mangueiras

Maíri Tupinambá levanta

Banhada de rios misteriosos

Do povo Parawara

 

Pará é terra indígena, meu mano!

Não sabias?

Pois chegue que vou lhe contar!

 

Aqui ilhas de memórias

Levantam Acaizais

Imponentes samaumeiras

Viram o tempo de milhares de povos que plantaram esse chão!

 

Cabelos de jenipapo, olhos de urucum,

pintados de diversidades,

cocares dos tuxaus são cedidos gentilmente pelo povo do céu

Tecido por mãos Matriarcais

 

Da mandioca, alimento da terra!

Many ensinou como tirar sem matar

Beber sem secar

Viver em harmonia com todos os seres.

 

Do céu Jacy ensinou suas filhas a plantar as raízes dos Kunamis no ritmo da batida do coração da natureza.

 

Do fundo, oyaras guardam as memórias dos clãs das águas e as gigantes sucuris devoradoras de mundos.

 

Tapi Ir’rape

Conta as histórias para os anciões que preservam memórias, cantos, línguas e constelações.

 

Somos muitos povos, muitas nações, somos, guerreiros, somos guardiões desta terra paraowara, tapajowara, marajoara, karajawoara...

 

Somos!

Anambé, Gavião, tembé, munduruku, Tupinambá, sacaca, Kayapó, amanaye, turiwara, assurini, borari, arara, xipaya...

 

O meu país Pará é terra indígena é terra de gente forte

Do norte, da Amazônia!

REVOLTOSAS ( Danielle Souza ( Iacy Anambé ))

 Entre terras e águas, o corpo emerge,

Mulher ancestral, que a memória protege.

Símbolo de poder, cravado no chão,

Onde rios esculpem sua canção.

 

Guarda segredos, medicinas da mata,

Fala a língua que o vento desata.

Do fundo dos rios, dos céus a chorar,

Seu corpo é história a se revelar.

 

Na arqueologia, fragmentos despontam,

Mãos hábeis, no barro, lembranças contam.

Cerâmicas vivas, matriarcal oração,

Do sagrado e do simples, a narração.

 

Pegadas no solo, digitais da história,

Renasce no tambor a força da memória.

Pinceladas vibram no espírito forte,

O corpo pulsa, ecoa no norte.

 

Revoltosas, não apenas beleza,

Mas chama que arde em luta e nobreza.

Social e cultural, é força que inspira,

Poder vivo que a história admira.

SÓ TE QUERIA ATÉ ONDE ME ACHAVA( Izabela Souza )

 Me recusei de você

Só te queria em parte
Me recusei de você

Não sabia me abrir

Não sabia te sentir
Perdi-me dos teus olhos
E não nos encontrei mais
Por medo de não ser óbvio
O óbvio que me sinto segura
Agora o meu sorriso é triste
Pedir-te e estou triste
Triste pela recusa, tão odiosa
Para mim e para ti
E você sorri e não é mais para mim
Está algo justo
Teus olhos eu não encontro mais
E o óbvio agora é vazio
E cadê a segurança?

BRUXA ( Izabela Souza )

Mulher livre

Liberdade feminina

Solto a bruxa que sou

Sou poeta e tô cantando Cássia Eller,

Me adorando ao som de Pitty,

Exalando poder.

Somos deusas, Rita Lee.

O suor na pele é a prova da dança que danço.

Liberdade.

Bruxa, bruxa a palavra dança na minha mente.

Apenas uma mulher liberta.

Sou grande demais para estar presa.

Música alimenta o meu ser.

O volume está alto.

Preenchendo cada vibração da minha alma.

Inspirada ao escrever.

Liberdade.

Euforia.

Te entendo, Natasha.

Bebo a água gelada. Escorrendo pelo canto da boca.

Água é alivio.

Meu cabelo é arte.

Quem não entende que se foda.

Que não me entende que se ame mais.

Amor.

Olhos vermelhos me faz chegar ao clímax.

Alguns momentos atrás tocava Geração Coca Cola, sou  aquela revolução passada.

E me lembro daquele poema que fiz outro dia.

Sou intensa, em todos os sentidos.

Intensidade, amém.

8/80.

Santa trindade, amo-lhes.

A sensação de se encontrar é transcendental.

No atual exato momento, tô me encontrando aqui, sozinha, escutando música boa, cantando música boa, dançando e escrevendo, me sinto preenchida.

Imagine-me.

Imagine-me bruxa.

Faroeste caboclo.

Não peço por nenhuma permanência, só a minha.

Não cobro ninguém.

Mas faço a minha parte.

Me afogo em tudo que vale, o final vale o início.

28/01/2026

NÃO CREIO NESSE DEUS ( António Aleixo )

 I

Não sei se és parvo se és inteligente
Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II
Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra.
Não te achas egoísta ou exigente?

III
Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.

IV
Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!

27/01/2026

PAGANÍSSIMA TRINDADE ( Mônica Ribeiro )

 Falo a partir do umbigo mas

quando peço: “fale, umbigo!”
ele se fecha
teimoso
falso profundo
sequer um centímetro de breu

Teme mostrar-se
o ele-eu

Quando o guardo sob tecidos
ele resolve escapar
e diz: “agora eu falo!”
No fundo de seu fundo
não quer calar sua-minha voz

Pensamento-voz-sem-timbre
Dedos escrevendo
Palavra grafada
Eis
nesta simultaneidade
minha Paganíssima Trindade

OCEANO ( Ana Cecília de Sousa Bastos ) in Contemplação do Mar; Confraria do Vento, Rio de Janeiro, 2022

 Somos oceano nas extremidades.

Contemplo minhas unhas,
conchas do mar.
Tanto brilham essas partes!
Fecham extremidades,
ilusória completude.

Somos oceano,
peixe e cautela,
flutuação e peso em luta na água,
correnteza e vida,
ave e liberdade.
E nada quero dizer do amor.

Alheio-me, abstraio-me,
ânsia e vertigem,
sonho profundidades inauditas,
mergulho.

ORNITÓLOGA ( Adriane Garcia )

 Vai saber

O que passa no pássaro
Eu que não sei nem de mim
Me dou ares de laboratório e
Lupas, tubos de ensaio
Tenho uns
Pinçamentos estranhos

Cato amostragens
Para ver se me explicam
Voos
(eu que
nunca saí do chão
quando saí
era sonho)

Me intrigam os olhos pretinhos
Paradinhos
Dos pássaros mortos

Desde criança eu reparo
Se a morte é sempre fria.

HARAS ( Adriane Garcia )

 Crio

Ninguém me diz o quê
Nem como

Domo
Meu cavalo eu quero aqui
No arreio

Mas gosto
Que ele corra
Desembestado

Até o meu
Assovio.

O AMOR DISPARADO (Adriane Garcia ) in Garrafas ao Mar, Penalux, Guaratinguetá - São Paulo, 2018.

 Pressente-se o perigo

O coração acelera
E ganha vantagem

O médico o chama
De taquicardia
E o cérebro sabe

Daqui pra frente
Quem é que manda.

O MÉTODO DA MULHER DE LÓ (Adriane Garcia ) in A Bandeja de Salomé, Caos & Letras, 2022.

 Quem olhasse para trás se tornaria

Uma estátua de sal
Foi o dito e
Todos sabiam

Como qualquer um sabe
Que cortar o pulso

Como qualquer um sabe
Que tomar veneno

Como qualquer um sabe
Que se enforcar na corda

Como qualquer um sabe
Que pular de um penhasco

Mas me tornar uma estátua de sal
(perdoem-me por não aguentar mais, minhas filhas)
Me pareceu mais rápido
Menos doloroso
Do que acompanhar aquele homem
Vendo o que eu via
Todos os dias
Dentro da minha casa.

26/01/2026

LEVA - ME ( Alfonsina Storni ) – Tradução: Nelson Santander

 Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;

Ata-me a tua alma; a alva a brilhar.

Toma-me pelas mãos como em um branco casulo
E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho.

Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!
A morte caça pelo mundo tal qual harpia.

Faz-me esquecer o muito que me pesa nos ombros
Esta carga pesada de pesados escombros.

Liberta-me! Em tuas mãos quero pesar menos
Do que pesam – luzes – os pensamentos serenos.

Mais leve do que o ar, do que o ar muito mais leve
Como bolha de espuma a voar na manhã breve.

Espuma, brisa, aroma, casulo, flor, fragrância:
Leva-me para sempre sem rumo nem distância.