01/02/2026

LIÇÃO DE CASA ( Flora Figueiredo )

 Você tampa a panela,

dobra o avental,
deixa a lágrima secar no arame do varal.
Fecha a agenda,
adia o problema,
atrasa a encomenda,
guarda insucessos no fundo da gaveta.
A idéia é tirar a tarja preta
e pôr o dedo onde se tem medo.
Você vai perceber
que a gente é que faz o monstro crescer.
Em seguida superar o obstáculo,
pois pode-se estar perdendo
um espetáculo acontecendo do outro lado.
Atravessar o escuro
até conseguir tatear o muro,
que é o limite da claridade.
Se tiver capacidade para conquistá-la,
tente retê-la o mais que puder.
Há que ter habilidade, sem esquecer
que a luz é mulher.
Do inferno assim desmascarado,
é hora de voltar.
Não importa se é caminho complicado,
se a curva é reta,
ou se a reta entorta.
Você buscou seu brilho, voltou completa;
jogou a tranca fora, abriu a porta.

CHOVE ( Lígia Dabul )

 Chove tudo.

Chove tanto.
Chove como homem
depois do incômodo
do mormaço. Goza
como vento denso
finalmente molha o suor.
A chuva que se estende em tempo ameno,
desconcentrado,
quero com a boca ainda toda aberta

CABELO ( Raquel Naveira )

 Estou triste,

Cortei o cabelo.
Não sou mais adolescente
De tranças
E olhos lânguidos.
Não sou mais moça,
Balançando a crina,
Como égua musculosa
Na colina.
Não sou mais princesa,
Usando tiaras,
Arrastando a coma
Como se tivesse na cabeça
A cauda de um cometa.
Adeus, cabelame !
Derrame de seiva sobre meus ombros,
Véu natural
Com que penetrava câmaras ardentes.
Por que cortei o cabelo ?
Por que não o mantive longo,
Mesmo branco e seco,
Preso na nuca
Por marfim e pentes ?

CANTO DE SEREIA ( Raquel Naveira )

Vem, meu Ulisses,

Detém teu barco,
Sou sereia sedutora,
Sirena suave
Que atrai para o abismo.
Vem, meu navegante,
Para a minha caverna,
Minha gruta secreta
Onde te devoro
E te encanto.
Vem, meu bravo,
Venceste Tróia
Com tua astúcia,
Descansa
Entre penhascos negros
E precipícios de espumas.
Vem,
Sou sereia,
Cauda de peixe,
Toda vulva,
Estranho molusco

Que te descarna em minha ilha,
E te sepulta
Nos baixios do mar.
Espelho 

Quando olho no espelho
Brilho
E molho os lábios.
Quando olho no espelho
Colho a lembrança de um onda
E seu marulho.
Quando olho no espelho,
Sou pomba capaz de vôo
e arrulhos.
Cansada,
Olho no espelho
e me ajoelho.

RETROSPECTIVA ( Flora Figueiredo ) in "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

 Porque a vida é feita de proibições, 

eu não compus todas as canções, 
não percebi a brisa suspirar, 
eu esqueci cantigas de ninar, 
dei chances demais à voz dos credos, 
não rompi de vez todos os medos, 
roubei do tempo um tanto de carinho, 
não vi a flor amar o passarinho, 
perdi o trem na curva da vertente 
e não deixei o mel melar completamente. 

Porque a vida é feita de proibições, 
larguei o fio, soltaram-se os balões, 
deixei que o pião revirasse sozinho, 
mandei que o zangão se zangasse baixinho, 
desprezei a bruma que baixou o véu, 
permiti à palavra dormir no papel, 
evitei o desvio que atravessa a estrada, 

Não quis o desafio da ronda embriagada, 
não li o poema do poeta maldito 
e não tive o dilema do beijo infinito. 

Porque ainda há tempo para o encantamento, 
quebre-se o vidro do sermão absoluto, 
rompa-se a teia, reveja-se o estatuto, 

que a primavera quer amar o chão de vento.

TRAJETO ( Flora Figueiredo ) in "O Trem Que Traz A Noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

 Pressenti você por onde andei: 

nas páginas da história que reli, 
nos respingos da lua que bebi, 
em meio às contas dos rosários que rezei. 

Bem que eu tentei mudar de assunto: 
alterei o roteiro da viagem, 
colhi alfazemas na paisagem, 
dedilhei valsas, decorei poemas. 
Você veio junto. 

Apostei no vento que chegou de fora 
e levou meu passado embora 
numa lufada larga e radical. 
Mas quando chego ao destino, 
ouço saudades na frase de um violino 

e percebo seu beijo em meu porto final.

TRATADO MANSO DE LOUCURA ( Flora Figueiredo ) in "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

 Como amo a paz de estar comigo! 

Essa fusão de alma-umbigo, 
esse roteiro quente do meu sangue. 
Eu que conheço cada palmo dos meus passos, 
que me retenho e me disponho. 
Faço dos versos meu avesso, 
dos adversos, meu passado, 
das alegrias, meu recomeço. 
Deito liquefeita e, de repente, 
amanheço solidificada. 
Sou água, sou pedra, 
às vezes nuvem, 
às vezes nada. 
Por ser inconstante e difusa, 
enrolo e desenrolo essa vida 
num movimento mágico e confuso, 
admito ser ou não ser 
e ser assim. 
Como é bom sentir-me tão querida, 
tão bem-amada e tão dividida, 

eu resolvida inteiramente por mim!

PRIMAVERA ( Flora Figueiredo ) in "O Trem Que Traz A Noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

 Esse acorde doce me faz lembrar 

um beijo roubado à mesa do jantar 
num momento de mel que a Primavera trouxe. 
Faço um poema. 
Bordado de flores e de afetos 
e de segredos mais que indiscretos. 

Você é a musa, eu sou o tema.

PERPLEXIDADE ( Flora Figueiredo ) in "Chão de Vento". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.

 Sempre pensei que quando a gente envelhecesse, 

o tempo por fim se condoesse 
e parasse de vez de pregar peças. 
Agora vem você desavisadamente, 
colocar minha oração em desalinho, 
desafiar-me a retidão posta à avessas. 
Por isso peço aos anjos novamente, 

que dêem licença para eu errar mais um pouquinho.

FÉ (Flora Figueiredo) in "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

 Sob a abóboda, uma tonalidade âmbar, 

que entra quieta pelos vitrais. 
Um leve aroma de incenso, 
que os dias de hoje já nem usam mais. 
De joelhos, os fiéis contritos; 
em pé, os devotos aflitos; 
sentados, os mais conformados. 
Um grupo discreto murmura confiante 
uma novena: 
a esperança é grande, 
a sorte é pequena, 
só Deus que dá jeito. 
Ave Maria, cabeça baixa, mão no peito, 
talvez um dia. 
A viúva recente, a moça carente, 
o desempregado; 
a mãe alarmada, a sogra injuriada, 
o velho doente; 
uma adolescente que quer namorado. 
No início da esquerda, a imagem parece 
sensibilizada. 
Também, tanta prece. 
Olhos comovidos, gestos suplicante, 
aos pés uma rosa e a serpente pisada. 
Lá na frente, um cristo sofrido pede penitência, 
que o pecado é insistente, 
o corpo é atrevido 
e a gente escorrega por inconsequência. 
Depois do conforto, 
o frasco de água - benta na porta da saída. 

Se houver recaída, só fé que sustenta.

DOIS ( Flora Figueiredo ) in "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.

 Dois: 

a procurar nossas fragrâncias 
entre sombras e reentrâncias, 
a percorrer nossos roteiros, 
a nos tornarmos parceiros. 
Dois: 
de repente nos engajamos 
irremediavelmente 
numa conduta lisa e calma, 
engolindo do outro a própria alma 
e nos mixamos. 
Pra que depois 
fundidos e misturados, 
células e sangues consumidos 
rolemos nossos núcleos confundidos 
numa corrente mágica e comum. 
Absorventes, 
antropofágicos, 

um.

NÓ (Flora Figueiredo) in "Amor A Céu Aberto". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

 Estou perdidamente emaranhada

em seus fios de delícias e doçuras.
Já não encontro o começo da meada,
não sei nem mesmo
se há uma ponta de saída,
ou se a loucura
vai num ritmo crescente
até subjugar a minha vida.
Não importa.
Quero seus nós de seda
cada vez mais cegos e apertados
a me costurar nas malhas e nos pêlos.
Enquanto você me amarra,
permanece atado
na própria trama redonda do novelo

LÍQUIDO ( Flora Figueiredo ) in "Calçada de Verão". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

 Teu beijo é tanto 

é tamanho 
que nele me dispo, 
me banho, 
me adoço. 
Deixo no pescoço 
uma gota ativa 
pra te manter molhado 
enquanto posso. 
Essa umidade me conserva viva.

JÁ ( Flora Figueiredo ) in "Florescência". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987

 Segure o beijo antes que acabe, 

que o amor desabe, 
que a aurora canse. 
A vida tem nuances não entendidas. 
Adere esse momento no teu peito e goza. 
Aspira fundo o âmago da rosa 
antes que ele se desloque, 
desapareça, 
desencante. 
Antes que a flor desaconteça, 
bebe o cerne quente desse instante.

INDOMÁVEL ( Flora Figueiredo ) in "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

 Sem água morna, 

sem pedra mole, 
nem fogo brando. 
Amor quando chega, 
tem que vir arrebatando, 
virando a mesa, 
rompendo a porta. 
Amor que se preza 
agarra a vida na marra 
e desentorta; 
abraça a hora com força 
e desamassa. 
Vem certo de ficar, vai indo embora; 
vem pensando em partir, mas vai ficando. 
Sempre confundindo, é certo - errando 
que deixa tudo fora do lugar. 
 e quanto mais o peito resistir, 

o tanto mais vai explodir de muito amar.

DUPLICIDADE ( Flora Figueiredo ) in "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

 Eu te pressinto 

correndo a meu lado 
e te admito. 
Gosto do teu sorriso sem conflito, 
tua trança 
que balança frouxa contra o vento. 
Acostumei-me a te levar comigo 
pelos meus sucessos 
e nos contratempos. 
Eu me desculpo pelos meus excessos. 
Há espaço pra nós duas, 
suficiente 
para poder te manter irreverente, 
apoiada 
na minha metade equilibrada. 
Assim me encosto 
na textura sem rugas de teu rosto. 
Se houver um quase nada 
de divergência, 
é melhor prevalecer a tua inconsequência, 
que é nosso lado mais sadio. 
Se por acaso houver um desafio, 
há de vencer-me a ingenuidade 
que evaporou no tempo, 
que decorou nos tons da meia-idade 
Mas, quando um dia confrotarmos 
nossas diferenças, 
quero que se sobreponha 
por sobre minha face mais tristonha 
a tua liberdade mais traquina. 
Eu te dou a mão num gesto de ternura, 
porque te quero sábia, 
porque me quero pura. 
Meio mulher madura, 

meio menina.

CONSELHO ( Flora Figueiredo) in "O Trem Que Traz a Noite". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

 Nunca chore um insucesso. 

O que pode parecer um abscesso, 
também pode servir de recomeço. 
Agarre o desaponto pelo avesso, 
apare as pontas, corte o excesso. 
Mude a covardia de endereço, 
ponha a escavadeira em retrocesso 
até que o mundo, esse réu confesso, 
lhe devolva seu mel e seu apreço. 
Uma vez retomado esse processo, 
devolva-me o sorriso que mereço.

Por Jorge de Sena

 Que coisas se fariam - tão de seios

redonda e esbelta aqui sentada e loira
e lendo um livro idiota à minha frente!
As pernas que se juntam quanto abri-las
a duras mãos com dedos titilantes
para depois se unirem apertando
em húmidas paredes o que se entesa vendo-a ...
E ah como a boca se arredonda rósea!
E os dedos que são esguios, serão sábios?
Tão sábios como os meus e minha boca?
Que loura juventude nem me vê - quem pode
envelhecer sem raiva aos olhos dela,
se de alma e de entre pernas se é tão jovem sempre?

Por Jorge de Sena

 -Meu corpo, que mais receias?

-Receio quem não escolhi.

-Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.

Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos.
Meu corpo, que mais receias?

-Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.

Por Jorge de Sena

 A desenhada imagem como forma que

Se forma no tecido distendido por
Recurvas fímbrias que de forma criam
O arredondado abrupto do pequeno seio.

Um seio que se alonga e se projecta
Em desejado enigma de se erguer em pêndulo
Que horizontal balouça contra as leis do peso
Ao resto suspendendo sobre o espaço vago.

Do róseo olhar que cego e mais obscuro
Só por promessas fita escorrem gotas
De alva humidade opaca a boca lambe-as
Antes de os lábios se fecharem nela
Ao gosto abrindo-se (por dentro) à vida
Alimentada em sonhos de a crescer bebida.

QUANTOS NA VIDA ( Jorge de Sena )

 Quantos na vida corpos conheci?

Uns de passagem, outros repetidos, outros demorados
a ponto de não querer já conhece-los ou
conhece-los fazer que mais agudamente
a outros desejasse. É incrível se pensa.
E às vezes descendência de primeiros poderá ter sido.
Que me deixaram? Uma ciência inútil,
tão doce e tão amarga, de saber de mais
como corpos se entregam ou se negam.
Que deixei neles? Uma ciência? Culpa?
Uma memória cínica? Saudade?
ou quando se recordam do amor feito
algum estranho vazio a persegui-los
mais vazio se torna e de vazio estranho?
É isto o conhecer sem nome e sem conversa
em que se estendem corpos antes que o pensar
transforme o amor que é feito
no amor que se apaixona.

VARIAÇÃO PRIMEIRA (Jorge de Sena ) in Variações Sobre Um Corpo, editora Inova,1973.

 Ao sol ardente, ao mar azul, ao vento que

lhes faz vibrar a pele, os deuses dão-se
numa nudez total de agreste juventude
que impudica se exibe e se deseja,
se acaso olhos humanos os espiam.
Promíscuos tombam num tropel de corpos,
de pernas, braços, bocas e cabelos,
ancas e mãos, de línguas e gemidos,
uivos de espasmo, seios e tremuras,
e sexo é tudo o que se entrega e tudo
o que num ritmo seguro arranca
sacões em que se ajusta mais ao fundo
e túrgido se escoa e recomeça.
Torcem-se os corpos, arfam e agitam-se,
soerguem-se e arqueiam-se e descaem,
e pouco a pouco vão ficando plácidos
e como que dormindo na difusa,
anónima e divina confusão final.
De súbito, levantam-se altíssimos
ao pé dos corpos que ainda jazem trémulos.
Mais outros se levantam, se recortam
na luz que irisa a negridão dos sexos.
As gargalhadas tinem pela praia clara
num cascalhar sereno da ressaca
lambendo a areia que, trazida, fica
como suspensa no limiar do vento.
Ao mar acorrem que espadanam breves,
enquanto um só dos deuses se demora
à beira de água e se espreguiça erguendo
ao alto os braços num curvar das ancas
sobre as retesas pernas que espraiada
a espuma molha pelos tornozelos.
Num grito atira-se e mergulha e segue
os outros que são pontos na distância,
ou sombras só de pequeninas vagas
quebrando-se, e ao longe, contra a luz.
Silvos ligeiros, lépidos, irónicos
alisam pela praia o que ficou dos corpos
— areia remexida, vagos moldes
de ancas e torsos, calcanhares e nucas,
e até gotas dispersas de vertido amor.
Promíscuo o amor dos deuses, se os espiam
olhares humanos, sequiosos, turvos,
e dissipado, violento, abrupto.
Apenas o tinir das gargalhadas
subsiste ainda, e na memória o vulto
do deus que se espreguiça à beira de água.