"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
25/10/2017
MAR II (Olga Savari)
AMO-TE, AMOR-MEU-INIMIGO, DE MIM NÃO
TENDO PIEDADE ALGUMA. AMO-TE, AMOR-
SOL-A-PINO, FEROZ, SEM NENHUMA SOMBRA.
ESTÁS INTEIRO EM MIM E VOU SOZINHA.
AO VER-TE, AMOR, MINHA SORTE FICOU COMO
SE DIZ: MARCADA. MAR É O NOME DO MEU
MACHO, MEU CAVALO E CAVALEIRO QUE
ARREMETE, FORÇA, CHICOTEIA A FÊMEA QUE
ELE CHAMA DE RAINHA, AREIA.
MAR É UM MACHO COMO NÃO HÁ NENHUM.
MAR É UM MACHO COMO NÃO HÁ IGUAL-E EU
MAR I ( Olga Savary)
I
para ti queria estar
como convém a deuses
tendo na boca a esperma
de tua espuma.
Violenta ou lentamente o mar
no seu vai-e-vem pulsante
ordena vagas me lamberem coxas,
seu arremesso me cravando
uma adaga roxa.
II
Amo-te, amo-meu-inimigo,
de mim não tendo piedade alguma.
Amo-te, amor-sol-a-pino,
feroz, sem nenhuma sombra.
Estás inteiro em mim
e vou sozinha.
Ao ver-te, amor, minha sorte ficou
como se diz: marcada.
Mar é o nome do meu macho,
meu cavalo e cavaleiro
que arremete, força, chicoteia
a fêmea que ele chama de rainha,
areia.
Mar um macho como no h� nenhum.
Mar um macho como no h igual
e eu toda água.
ACOMODAÇÃO DO DESEJO I ( Olga Savary )
Quando abro o corpo à loucura, à correnteza,
reconheço o mar em teu alto búzio
vindo a galope enquanto cavalgas lento
meu corredor de águas.
A boca perdendo a vida sem tua seiva,
os dedos perdendo tempo enquanto
para o amado a amada se abre em flor e fruto
(não vês que esta mulher te faz mais belo?)
A vida no corpo alegre de existir,
fiquei à espreita dos grandes cataclismos:
daí beber na festa do teu corpo
que me galga esse castelo de águas.
24/10/2017
VENTO AS SAIAS ERGUEU DA MINHA VIDA;
A SAPATILHA VI, MUITO ENCAMADA,
E A CALCINHA ESTREITA E ESTICADA,
COM A FORMOSA LIGA BEM CINGIDA.
MEUS OLHOS FORAM LOGO DE CORRIDA
PARA VER A COISA ENFIM QUE MAIS AGRADA;
PORÉM, PELA CAMISA DELICADA
FOI-LHES A DOCE VISTA PROIBIDA.
Ó CAMISA CRUEL E RIGOROSA!
POR QUE RAZÃO VER NÃO ME DEIXASTE
O QUE NÃO TE IMPORTAVA EU VISSE E TENTA?
MAS JULGO DEVE SER BELA COISA
QUE POR ELA ATÉ TE ENAMORASTE,
E POR ISSO A ESCONDES POR CIUMENTA?
(Jardim de Vênus - Século XVI)
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
Erotismo & Sensualidade Em Versos. Seleção: Renata Cordeiro
MULHERES COM SEIOS
DE POLPA MADURA:
SÃO CARNE, SÃO LEITE,
PRIMEIRA FARTURA?
QUEM CHUPA MORANGOS
MORDENDO MAMILOS
TEM LEBRES NOS OLHOS,
NOS DEDOS ESQUILOS.
MULHERES DE CARNE,
MULHERES DE PLÁSTICO,
MULHERES DE CERA,
DE GESSO, DE PLÁSTICO.
MULHERES VIVIDAS,
DEITADAS, DE JOELHOS,
DANÇANDO, CHORANDO
COMENDO OS ESPELHOS.
23/10/2017
AUTO - RETRATO ( Natália Correia ) in Poesia Completa
Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
VEM CÁ! ASSIM, VERTICALMENTE!
ACHEGA-TE... DOCEMENTE...
VOU OLHAR-TE... E, NO TEU OLHAR, COLHER
PROMESSAS DO QUE QUERO PROMETER,
ATÉ A SÍNCOPE DO AMOR NA ALMA!
COLEMOS AS MÃOS, PALMA A PALMA!
A MINHA BOCA NA TUA, SEM BEIJO...
DESEJO-TE, ATÉ O DESEJO
SE QUEIXAR QUE DOI.
E SOU TUA, ASSIM, COMO NENHUMA FOI!
POSSE (Leonor de Almeida - 1915)
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
XLVI ( José Gomes Ferreira / 1900 - 1985)
(Finjo que não vejo as mulheres que passam, mas vejo)
De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda.
E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.
De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda.
E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em Versos. Seleção: Renata Cordeiro.
ENLAÇAMO-NOS NUS ENTRE LOUREIROS-ROSAS,
RÓSEOS E BRANCOS, ALTERNANDO, ATÉ A PRAIA.
-NÃO TORNAM MAIS A VIR AS HORAS DOLOROSAS:
SUMIRAM-SE AO CAIR SUTIL DA TUA SAIA.
E BOCA CONTRA BOCA, A SORVER BAGOS DE ÂMBAR,
BEM BRUNHIDOS DE SOL, E SEMPRE A ARDER EM SEDE,
ASSIM FICAMOS NÓS ATÉ QUE VEIO A TARDE
DEITAR-NOS DEVAGAR SUA MÍSTICA REDE.
(António Patrício * 1878-1930)
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
20/10/2017
QUERO VER-TE, ASSIM, ESTATELADA, NUA.
CAPAZ DE SEDUZIR OS MORTOS COM DESEJOS...
AH, QUE O TEU CIO CHEGUE AOS ASTROS, FLOR DA RUA!
QUE JESUS DESÇA À TERRA, A COBRIR-TE DE BEIJOS,
QUE O OCEANO APERTE, ENFIM, EM SEUS BRAÇOS A LUA!
(Antonio Nobre 1867-1903)
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
(LÁBIOS - Éléazar Ben Jacob Há-Bavli) (1195*1250) in Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
LÁBIOS DE VINHO A CORÇA TEM, GRACIOSA.
PALAVRAS DE ÓLEO, ESSÊNCIA TÃO SEDOSA.
MAMILOS DE ROMÃ, ROSTO DA ROSA,
DO OLMO A ELEGÂNCIA... O VENTRE DA MELOSA
COLMEIA, E DA COLINA AS ONDULOSAS
ANCAS. A PAIXÃO TORNA, FAZ, FURIOSA.
TOLO O SÁBIO, E A VONTADE TUMULTUOSA,
NASCENTE O VIVO! SIM, A VI, RADIOSA.
VESTIDA QUAL UM CÉU, CUJA LEITOSA
LUA ERA A FACE NUA E LUMINOSA.
(LÁBIOS - Éléazar Ben Jacob Há-Bavli) (1195*1250)
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
SE DA BELA NO PEITO SEDUTOR
CAI UM GRÃO DE POEIRA
SACODE-O COM OS DEDOS PRONTAMENTE
E MESMO QUE A POEIRA
O DESEJADO PEITO NÃO MACULE
SACODE O GRÃO DE POEIRA INEXISTENTE.
QUE TUDO TE SIRVA DE PRETEXTO
PARA MOSTRARES A TUA CORTESIA.
NOTAS QUE O MANTO DEMASIADO LONGO
SE ARRASTA PELO CHÃO?
PEGA NA ORLA E DA IMUNDA TERRA
LEVANTA-O GENTILMENTE.
SEM À JOVEM FAZERES QUALQUER OFENSA
DAS SUAS BELAS PERNAS
OS TEUS OLHOS TERÃO A RECOMPENSA.
Erotismo & Sensualidade Em Versos. Seleção: Renata Cordeiro.
FALA A ROMÃZEIRA:
AS MINHAS FOLHAS SÃO COMO OS TEUS DENTES
OS MEUS FRUTOS COMO OS TEUS SEIOS.
EU, O MAIS BELO DOS FRUTOS.
ESTOU PRESENTE EM CADA TEMPO QUE FIZER,
EM TODAS AS ESTAÇÕES.
19/10/2017
Erotismo & Sensualidade Em Versos. Seleção: Renata Cordeiro.
OS SEUS LÁBIOS SÃO ENCANTAMENTO,
O SEU PESCOÇO TEM O TAMANHO CERTO
E OS SEIOS UMA MARAVILHA;
O SEU CABELO LÁPIS-LAZÚLI A BRILHAR,
E OS SEUS BRAÇOS DE MAIS ESPLENDOR DO QUE O OUTRO.
OS SEUS DEDOS FAZEM-ME VER PÉTALAS,
AS DO LÓTUS SÃO ASSIM.
AS SUAS ANCAS FORAM MODELADAS COMO DEVEM SER,
AS SUAS PERNAS ACIMA DE OUTRA BELEZA QUALQUER.
AS SUAS PERNAS ACIMA DE OUTRA BELEZA QUALQUER.
DEIXA QUE A MINHA MÃO ADENTRE
ATRÁS, NA FRENTE, EM CIMA, EMBAIXO, ENTRE.
MINHA AMÉRICA! MINHA TERRA À VISTA!
REINO DE PAZ SE UM HOMEM SÓ A CONQUISTA.
MINHA MINA PRECIOSA, MEU IMPÉRIO.
FELIZ DE QUEM PENETRE O TEU MISTÉRIO!
( John Donne 1572-1631 )
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
Retirado do livro Erotismo & Sensualidade em versos. Seleção: Renata Cordeiro.
23/09/2017
AMOR BARATO ( Francis Hime & Chico Buarque de Holanda )
Eu queria ser
Um tipo de compositor
Capaz de cantar nosso amor
Modesto
Um tipo de amor
Que é de mendigar cafuné
Que é pobre e às vezes nem é
Honesto
Pechincha de amor
Mas que eu faço tanta questão
Que se tiver precisão
Eu furto
Vem cá, meu amor
Agüenta o teu cantador
Me esquenta porque o cobertor é curto
Mas levo esse amor
Com o zelo de quem leva o andor
Eu velo pelo meu amor
Que sonha
Que enfim, nosso amor
Também pode ter seu valor
Também é um tipo de flor
Que nem outro tipo de flor
Dum tipo que tem
Que não deve nada a ninguém
Que dá mais que maria-sem-vergonha
Eu queria ser
Um tipo de compositor
Capaz de cantar nosso amor
Barato
Um tipo de amor
Que é de esfarrapar e cerzir
Que é de comer e cuspir
No prato
Mas levo esse amor
Com o zelo de quem leva o andor
Eu velo pelo meu amor
Que sonha
Que enfim, nosso amor
Também pode ter seu valor
Também é um tipo de flor
Que nem outro tipo de flor
Dum tipo que tem
Que não deve nada a ninguém
Que dá mais que maria-sem-vergonha.
Um tipo de compositor
Capaz de cantar nosso amor
Modesto
Um tipo de amor
Que é de mendigar cafuné
Que é pobre e às vezes nem é
Honesto
Pechincha de amor
Mas que eu faço tanta questão
Que se tiver precisão
Eu furto
Vem cá, meu amor
Agüenta o teu cantador
Me esquenta porque o cobertor é curto
Mas levo esse amor
Com o zelo de quem leva o andor
Eu velo pelo meu amor
Que sonha
Que enfim, nosso amor
Também pode ter seu valor
Também é um tipo de flor
Que nem outro tipo de flor
Dum tipo que tem
Que não deve nada a ninguém
Que dá mais que maria-sem-vergonha
Eu queria ser
Um tipo de compositor
Capaz de cantar nosso amor
Barato
Um tipo de amor
Que é de esfarrapar e cerzir
Que é de comer e cuspir
No prato
Mas levo esse amor
Com o zelo de quem leva o andor
Eu velo pelo meu amor
Que sonha
Que enfim, nosso amor
Também pode ter seu valor
Também é um tipo de flor
Que nem outro tipo de flor
Dum tipo que tem
Que não deve nada a ninguém
Que dá mais que maria-sem-vergonha.
A CURVA DO RIO (Ana Paula Tavares) in Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos; 2001
Desces a curva do meu corpo, amado
com o sabor da curva de outros rios
contas as veias e deixasses as mãos pousarem como asas
como vento
sobre o sopro cansado
sobre o seio desperto.
Parte a canoa e rasga a rede
tens sede de outros rios
olhos de peixes que não conheço
e dedos que sentem em mim a pele arrepiada
d'outro tempo.
Sou a esperança cansada da vida
que bebes devagar
no corpo que era meu
e já perdeste
andas em círculos de fogo
à volta do meu cercado
Não entres, por favor não entres
sem os óleos puros do começo
e as laranjas.
A TERRA (Miguel Torga)
Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois.
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos.
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção!
Ode de polo a polo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
PRELÚDIOS (Maria de Lourdes Hortas)
Porque sou da terra
preciso da chuva
e para ser verde
de ti tenho sede.
Ó meu amor
faz-me ouvir, apenas.
Sê tu a minha boca.
O orvalho desta rosa
encarnada que sou
quando me desfolhas
e enlanguesces
é a húmida certeza
que te dou
do prazer que em mim teces.
E por estar densa e túmida
plena de amor e alegria
explodi humedecendo
TER-TE ( Miguel Afonso Andersen )
Ter-te longe
e desejar-te aqui,
onde o frémito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.
e desejar-te aqui,
onde o frémito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.
Ah, ter-te perto
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.
Ensaiar o voo da águia
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.
NA SERENIDADE DOS RIOS QUE ENLOUQUECEM (Paulo Eduardo Campos)
Esta noite encheu-se de lobos.
Vagueiam pelo chão do quarto
De onde te escrevo.
Neste chão que te ouviu rir,
Quando tu eras o som
De todo este silêncio.
Os anjos soltaram-se do meu olhar,
Dos meus olhos feitos de tempo,
Que já não te acompanham
Pelos lugares onde passeias.
As asas quebraram os ventos
Fortes e cansados do karma.
Por dentro do sonho,
Floresce o sono que vestiu o teu corpo.
O sono que leva os poetas,
Soldados e amantes.
Nesta noite, antes e depois
De nos separarmos,
Eram essas mesmas estrelas
Que existiam no céu.
A alma é um corpo de mulher,
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