17/09/2023

CANTO DE PÁSSARO ( Valentina Maciel )

 foi bem-te-vi, passarinho assim

que me cantou no ouvido e teu dedo, assim
bem dentro de mim voava em-bebida

te encho te encharco e é nítido que tem dureza
na boca macia enquanto tu diz
me olha, quero engolir

e foi um galho, de árvore assim
que me arrancou um truncado
um jeito-gemido de mexer coberta
um calor que sobe desde o peito
do pé e vai até o cabelo
enrolado na mão enorme

teve um hiato, cores e formas
uma gostosa tinta púrpura
amarela cobalto fazendo
onda onda onda
deixando marcas costurando líquida
miríade de sensações-pinturas
nas nossas mãos-pincéis

cantando bem alto
na minha tela-interna
e assinando embaixo:

ternura é coisa que se faz com a boca.


CHAMAMENTO ARISCO ( Valentina Maciel )

 queria que começasse bem junto ao meu lado

como se fôssemos
uma voz
(chama uníssono)

sempre gostei das palavras
com sono
quero dizer das que encaixam na língua
como se fôssemos
uma boca
(chama beijo)

uma força nas pernas que nunca tive
sabe a impotência de não saber ter braços?
como se tivessem
me atravessado
b a l e i a s
(chama peso)

carícia e carência, muda duas letras
mas me carregam
como se afogassem
como se eu pudesse
satisfazer
desejos
(chama libido)

ai, cansa ser
(e invocar)
mulher e bicho

t u d o
ao mesmo tempo.

DE VOLTA AO CORAÇÃO ( Chris Ritchie )

 ciclos

círculos
oculares
cerebrais
os fios dos cabelos
as pontas dos dedos
as meias-luas nas unhas
crescendo redondas
mamilos
orifícios
coxas
canais
você pode fechar os olhos,
pode olhar só seu umbigo,
sair de cena quando as nuvens de sol
espiralarem sobre os lagos,
sobre as pétalas e a boca dos vulcões
e ainda assim sentirá seu sangue correr por cilindros
de volta ao coração.
desde o átomo ao óvulo,
atravessando as íris,
o universo conspira contra os ângulos retos,
as superfícies planas
e as permanências.

MIRAGEM ( Deni Maliska )

 E fê me ro

Desejo meu
Sentir o sabor
No prazer do teu corpo

Vislumbre
É o proibido
No segredo do mútuo desejar
Desnudar

Tiro a roupa
Se você quiser
Mostrar a transa
Me encanta

Me goza
Me lambe
O toque
Já vem por pensamento

Me pega sem medo
Vem comer meu gosto vivo
Sem receio
Vem logo se entregar
Ao meu encanto proibido

Sem medo
Vem logo me transformar em perdição

SUBLIME III ( Deni Maliska )

 contemplação, meu tesão

pela risada tímida
lábios sensuais
encaixe perfeito
na minha vulva

sentímos
los besos
cogemos

química: quando você está na minha cama
por que foge? atração

fazer seu retrato com minhas mãos
nosso ritmo ser orgasmo cardíaco
meu vinho após desenhar seu traço

sua mão que configura meu corpo
esculpido
vamos ser estátuas nuas

SUBLIME II ( Deni Maliska )

 Se me encanto

Com o tocar da tua pele
É nosso delírio desnudo
Carnal, profundo

Se sou apenas um sentimento
Ou erotismo encarnado
Então, que eu tenha seus lábios
Como ritual à Dionísio

Se transformo vida em amor
Então que seja essa a minha fama
Ser tragédia escrita
Transcrições em forma de poesia

SUBLIME I ( Deni Maliska )

 Eu só queria dormir acordada

Por entre seus braços
No encaixe de quadris
Com teu perfume de anis

Todo dia, dia todo
Ao despertar
Me excito por um beijo
Um amor pra ser devaneio

Eu só desejo a boca e o vigor
Não acordar mais na cama sem teu calor
Nessa insana vida dita, travestida
Na solidão de estar tão longe de dois.

FRÍGIDA ( Cesário Verde )

 I

Balzac é meu rival, minha senhora inglesa!

Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!

Mas ele eternizou-lhe a singular beleza

E eu turbo-me ao deter seus olhos cor das ondas.

 

II 

Admiro-a. A sua longa e plácida estatura

Expõe a majestade austera dos invernos.

Não cora no seu todo a tímida candura;

Dançam a paz dos céus e o assombro dos infernos.

 

III

Eu vejo-a caminhar, fleumática, irritante,

Numa das mãos franzindo um lençol de cambraia!

Ninguém me prende assim, fúnebre, extravagante,

Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

 

IV 

Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,

Mas nunca a fitarei duma maneira franca;

Traz o esplendor do Dia e a palidez da Noite,

É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

 

V 

Pudesse-me eu prostar, num meditado impulso,

Ó gélida mulher bizarramente estranha,

E trêmulo depor os lábios no seu pulso,

Entre a macia luva e o punho de bretanha!

 

VI 

Cintila ao seu rosto a lucidez das jóias.

Ao encarar consigo a fantasia pasma;

Pausadamente lembra o silvo das jibóias

E a marcha demorada e muda dum fantasma.

 

VII 

Metálica visão que Charles Baudelaire

Sonhou e pressentiu nos seus delírios mornos,

Permita que eu lhe adule a distinção que fere,

As curvas da magreza e o lustre dos adornos!

 

VIII

Desliza como um astro, um astro que declina,

Tão descansada e firme é que me desvaria,

E tem a lentidão duma corveta fina

Que nobremente vá num mar de calmaria.

 

IX

Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,

No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!

E, ao persegui-la, penso acompanhar de longe

O sossegado espectro angélico da Morte!

 

X 

O seu vagar oculta uma elasticidade

Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,

E a sua glacial impassibilidade

Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

 

XI 

Porém, não arderei aos seus contactos frios,

E não me enroscará nos serpentinos braços:

Receio suportar febrões e calafrios;

Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

 

XII 

E se uma vez me abrisse o colo transparente,

E me osculasse, enfim, flexível e submissa,

Eu julgara ouvir alguém, agudamente,

Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!

NOITE FECHADA ( Cesário Verde )

Lembras-te tu do sábado passado,

Do passeio que demos, devagar,

Entre um saudoso gás amarelado

E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas,

Que ambos nós percorremos de mãos dadas:

Às janelas palravam as vizinhas;

Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste,

Ante um pesado tempo com recortes;

E os cemitérios ricos, e o cipreste

Que vive de gorduras e de mortes!

Nós saíramos próximo ao sol-posto,

Mas seguíamos cheios de demoras;

Não me esqueceu ainda o meu desgosto

Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido,

Porque tu caminhavas com prazer,

Cara rapada, gordo e presumido,

O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a cúpula da igreja

Cobria parte do ventoso largo;

E essa boca viçosa de cereja

Torcia risos com sabor amargo.

A Lua dava trêmulas brancuras,

Eu ia cada vez mais magoado;

Vi um jardim com árvores escuras,

Como uma jaula todo gradeado!

E para te seguir entrei contigo

Num pátio velho que era dum canteiro,

E onde, talvez, se faça inda o jazigo

Em que eu irei apodrecer primeiro!

Eu sinto ainda a flor da tua pele,

Tua luva, teu véu, o que tu és!

 

Não sei que tentação é que te impele

Os pequeninos e cansados pés.

Sei que em tudo atentavas, tudo vias!

Eu por mim tinha pena dos marçanos,

Como ratos, nas gordas mercearias,

Encafurnados por imensos anos!

Tu sorrias de tudo: os carvoeiros,

Que aparecem ao fundo dumas minas,

E à crua luz os pálidos barbeiros

Com óleos e maneiras femininas!

Fins de semana! Que miséria em bando!

O povo folga, estúpido e grisalho!

E os artistas de ofício iam passando,

Com as férias, ralados do trabalho.

O quadro interior, dum que à candeia,

Ensina a filha a ler, meteu-me dó!

Gosto mais do plebeu que cambaleia,

Do bêbado feliz que fala só!

De súbito, na volta de uma esquina,

Sob um bico de gás que abria em leque,

Vimos um militar, de barretina

E galões marciais de pechisbeque,

E enquanto ela falava ao seu namoro,

Que morava num prédio de azulejo,

Nos nossos lábios retiniu sonoro

Um vigoroso e formidável beijo!

E assim ao meu capricho abandonada,

Erramos por travessas, por vielas,

E passamos por pé duma tapada

E um palácio real com sentinelas.

E eu que busco a moderna e fina arte,

Sobre a umbrosa calçada sepulcral,

Tive a rude intenção de violentar-te

Imbecilmente, como um animal!

Mas ao rumor dos ramos e da aragem,

Como longínquos bosques muito ermos,

Tu querias no meio da folhagem

Um ninho enorme para nós vivermos.

E, ao passo que eu te ouvia abstratamente,

Ó grande pomba tépida que arrulha,

Vinham batendo o macadame fremente,

As patadas sonoras da patrulha,

E através a imortal cidadezinha,

Nós fomos ter às portas, às barreiras,

Em que uma negra multidão se apinha

De tecelões, de fumos, de caldeiras.

Mas a noite dormente e esbranquiçada

Era uma esteira lúcida de amor;

Ó jovial senhora perfumada,

Ó terrível criança! Que esplendor!

 

E ali começaria o meu desterro!

Lodoso o rio, e glacial, corria;

Sentamo-nos, os dois, num novo aterro

Na muralha dos cais de cantaria.

Nunca mais amarei, já que não amas,

E é preciso, decerto, que me deixes!

Toda a maré luzia como escamas,

Como alguidar de prateados peixes.

E como é necessário que eu me afoite

A perder-me de ti por quem existo,

Eu fui passar ao campo aquela noite

E andei léguas a pé, pensando nisto.

E tu que não serás somente minha,

Às carícias leitosas do luar,

Recolheste-te, pálida e sozinha,

À gaiola do teu terceiro andar!

SARDENTA ( Cesário Verde )

 Tu, nesse corpo completo,

Ó láctea virgem dourada,

Tens o linfático aspecto

Duma camélia melada.


 

14/09/2023

MULHER ( Joaquim Pessoa )

 És tu. Mulher normal. Mulher inteira.

Olhos de amêndoa amarga. E peito doce.
Cisterna de água pura. Amendoeira.
Mulher de quem não sou. Mas antes fosse.

Tu és a flor do meu cantar de amigo.
Papoila no meu sangue amachucada.
De bruços a fazer amor comigo
na cama onde se deita a madrugada.

Mulher. Corça da noite. Erva do dia.
No peito duas rosas de alegria!
No ventre a rosa negra de cantar-te!

Mulher a quem desejo em plena rua.
A quem eu dispo. E ficas toda nua.
Que ali mesmo mulher eu quero amar-te!

13/09/2023

ÁGUA, VIDA E TERRA (Julia Constantina Burgos)

 Fui uma forte explosão vinda da selva e do rio,

e uma voz entre dois ecos, subi nas encostas.
De um lado as mãos das águas se estendiam para mim,
e do outro as montanhas me agarravam pelas raízes.

Quando o meu rio subia a sua carícia selvagem
em aventuras loucas com o orvalho e o nevoeiro,
com o mesmo amor louco que impulsionava o meu sonho,
longe de o surpreender, fiquei nas montanhas.

Mas se alguma sombra caísse em seus olhos,
eu me repetia em suas águas até bater na areia,
e meu novo grito era como um corte na montanha
que inundava as ruas e batia nas portas.

Às vezes a montanha me vestia de flores
e iniciava curvas primaveris na minha cintura.

Quem sabe em que manhã meus anos pressionaram
seios e coxas e quadris de pedra!

Os meus olhos subiram até às faces das árvores
e as borboletas foram as suas companheiras de vida:
é assim que nos prados vou à procura das flores,
e peço asas nas almas que se aproximam da minha vida.

Meus dedos arranharam a força dos penhascos
e juraram ser índices de minhas curvas futuras;

É por isso que entre os corpos curvados dos homens,
eles se erguem como puros suportes de orientação.

Fui uma forte explosão da montanha e do rio,
e cresci amando o rio e imitando as montanhas...

Certa manhã o ar me surpreendeu na planície:
minha raiz selvagem já afrouxava as rédeas!
Cerimônias pálidas saudaram minha vida,
e uma linha de vozes reivindicou o juramento...

Meus lábios continuaram o murmúrio das fontes
onde passei meus anos e abasteceram minhas veias.
Daí a minha voz agora, branca na linguagem,
se espalha pelo mundo como a terra a deu!

HARMONIA DA PALAVRA E DO INSTINTO (Julia Constantina Burgos)

 Tudo foi uma maravilha de harmonias

no gesto inicial que nos foi dado
entre impulsos celestes e telúricos
do profundo amor de nossas almas.

Até o ar se encheu de leviandades
quando me apaixonei pelo seu olhar;
e uma palavra, ainda virgem em minha vida,
atingiu meu coração, e se tornou chama
no rio de emoção que recebi,
e na flor da ilusão que te dei.

Um conúbio de novas sensações
elevou minha manhã de luz.
Ondas suaves elevaram minha consciência
até a praia azul da sua manhã,
e a carne virou silhueta.
à vista da minha alma libertada.

Como um grito integral, suave e profundo,
a palavra explodiu dos meus lábios;
Minha boca nunca teve tantos sorrisos,
nem nunca houve tanto vôo em minha garganta!

Na minha palavra suave e terna,
tornei-me tudo na sua vida e na sua alma;
e eu era um grito impensável rompendo
as paredes do tempo que me prendiam;
e eu fui um surto espontâneo do momento;
e eu era uma estrela derramada em seus braços.

Eu me entreguei tudo e me derreti para sempre
na harmonia sensual que você me deu;
e a rosa emocional que se abriu
no radical verbal da minha palavra,
uma a uma te deu suas pétalas,
enquanto nossos instintos se beijavam.