13/01/2025

COM AS MÃOS ( Eduíno de Jesus )

 com as mãos

construo
a saudade do teu corpo
onde havia

uma porta
um jardim suspenso
um rio
um cavalo espantado à desfilada

com as mãos
descrevo o limiar
os aromas subtis
os longos estuários

as crinas ardentes
fustigando-me o rosto
a vertigem do apelo nocturno
o susto

com as mãos
procuro ainda colher o tempo
de cada movimento do teu corpo
em seu voo

e por fim destruo
todos os vestígios (com as mãos)
brusca-
mente

A SAIA COM GIRASSÓIS ( Maria Jorgete Teixeira )

 Volta ela, a inquieta voz, visto a saia do dia, preta com girassóis plantados, aqui e ali, no tecido meio ruço. Gostavas daquela saia, me dizias, a desenhar-me o redondo da anca. Com os olhos mo dizias, com os olhos.

Ai, a seda dos teus olhos e o teu corpo que não se gasta na minha saudade!
Procuro-te, na voz da inquietação, aqui, ali, nos largos, nas esquinas, na areia, em casa, na panela da sopa, nos vasos pendurados no alpendre, nos cantos onde o pó se acumula, entre os móveis ou na curva difícil do fumo do cigarro.
O tempo que não tem retorno, a vida que não se vira, os dias certos, levanta, escova os dentes, escova a vontade de entrar em mais uma volta, mais uma viagem, oiço a vizinha, está quente e é inverno, é verão e não faz calor, pois é, pois é…
Estende-se a conversa ao sol, no varal onde se penduram também as tuas mãos que a minha cintura reclama, onde andas, onde andas?
Onde ficaste perdido, onde fiquei eu e essa menina que fazia vestidos das folhas do castanheiro e das pedrinhas, tachos? E nós, onde? Onde as utopias na tua camisa branca adejando ao vento?
O tempo tudo cura, dizem, e eu repito, em mentira piedosa. A casa e a roupa para lavar e a ferida que arde ainda e sempre e faz regos na alma, a garrafa, o copo da cerveja, um, outro, outro, a procura do abraço, um e outro e outro..
Ai a dor que não se cala!
Ai, o tempo, aos quadradinhos, o teu sorriso irónico e quente, no meio a fome desmedida, da vida, no casco do barco e no pescoço da garça, onde se prende o pensamento e o olhar voa.
Onde tu, onde?

O HOMEM SEM CORAÇÃO ( Maria Jorgete Teixeira )

 Um homem desperta. Um homem ergue-se e vê-se reflectido nas paredes de vidro que aquecem o ninho onde se rasgou em parto.

Um homem acorda da gestação encomendada. Um homem resolveu parir-se outra vez.
Toda a gente deveria ter a hipótese de se gerar de novo, como uma serpente que larga os véus e se reinventa no tempo, roçando o ventre pelo vértice das pedras.
Assim, o homem abriu os olhos ensanguentados e olhou o mundo pela segunda vez. Olhou-o como Caeiro quando inventou o girassol na inocência do olhar. Olhou-o como fita de filme em branco, como virgem à espera do primeiro sémen.
Tinha varrido da memória a infância povoada de corvos e cantos escuros, de lendas tenebrosas vestidas de anjos. Aventada a adolescência da barba por crescer, da inquietação, da masturbação, da rejeição, do medo.
Hibernou no próprio corpo, lua após lua, numa caverna onde não entraram as asas dos arcanjos, nem a vontade dos cometas. Reinventou-se como crisálida, músculos duros e vivos e sangue impoluto, correndo nas artérias desimpedidas de paixões.
Nasceu já crescido e formado com tudo o que era preciso para ser feliz. “Clean” e transparente, sem coração de gente.
No quarto branco e seco onde renasce, há pessoas de largos sorrisos de gato Cheshire que tentam abraçá-lo. Vestidas de areáceas como se vivessem de chuva. Gesticulam, dançam, quais criaturas etéreas, pulam, tocam-se com as mãos e com as bocas. São imperceptíveis as palavras para o recém-nascido. Incompreensíveis na derme, epiderme, tecido mole, ossos, onde se instalaram rouxinóis mudos às emoções.
Chegam até ele e esfregam-se. Abrem os dedos em leque e investigam-lhe a carne. Enlaçam-se os odores, apertam-se.
Desapartam-se à sua estranheza. Não sabe o que fazer. Quer apenas viver o sol e acolher a noite, a vida como figura desenhada num quadro intemporal, depurada e plana.
O toque das pessoas acende-lhe interrogações cujas respostas não inscreveu no seu ADN. Turva-lhe o olhar, que queria límpido e sereno. Indolor.
De súbito nasce a constatação do silêncio, da nudez das veias descoloridas. Da incompletude. A nítida premência das quedas que dobrem a arrogância dos ossos, o manto de dor que justifique a dança dos corpos. E a compaixão.
Dá conta de que os braços lhe são inúteis.

06/01/2025

ESPIRAL ( Mia Couto )

 No oculto do ventre,

o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

04/01/2025

APAIXONADAMENTE DE MIM ( Célia Moura )


Escorre-me pelas pernas
este frémito
é como um séquito
o desejo
que me invade a púbis, as coxas
e o tal infinito clitoriano.
Ah, se soubessem como ele é doce,
audaz, vivo e absoluto de paixão!

Escorrem-me pelas pernas os beijos
que me não dás!
Pelos abundantes seios que acaricio
faço renascerem erectos os mamilos
e por momentos quem me dera ser tu,
mesmo não sendo, beijo-os.
Sabem-me a fêmea e a mar
enquanto tu sempre me soubeste de modo igual.

Escorrem-me memórias desta alma desfeita
enquanto fazíamos amor pelo chão da casa,
pelos becos sempre que nos desejávamos
mais que o próprio desejo.

Não deixei de voar no absoluto meu amor
no tal infinito clitoriano que me invade apaixonadamente
mas escorro silêncio e lágrimas por todos os poros de mim.


UM SONGO ( Manoel de Barros )

 Aquele homem falava com as árvores e com as águas

ao jeito que namorasse.
Todos os dias
ele arrumava as tardes para os lírios dormirem.
Usava um velho regador para molhar todas as
manhãs os rios e as árvores da beira.
Dizia que era abençoado pelas rãs e pelos
pássaros.
A gente acreditava por alto.
Assistira certa vez um caracol vegetar-se
na pedra.
mas não levou susto.
Porque estudara antes sobre os fósseis lingüísticos
e nesses estudos encontrou muitas vezes caracóis
vegetados em pedras.
Era muito encontrável isso naquele tempo.
Ate pedra criava rabo!
A natureza era inocente.

APRENDIMENTOS ( Manoel de Barros )

 O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura

é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.
Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas
di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.
E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos
do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.
Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.
Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.
Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.
Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.
Sócrates falava que as expressões mais eróticas
são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.

03/01/2025

O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA (Manoel de Barros)

 Tenho um livro sobre águas e meninos.

Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!

A MENINA AVOADA ( Manoel de Barros )

Foi na fazenda de meu pai antigamente
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.

Meu irmão pregava no caixote
duas rodas de lata de goiabada.
A gente ia viajar.

As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar
as rodas se abriam para o lado de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote
com as perninhas encolhidas.
Imitava estar viajando.

Meu irmão puxava o caixote
por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.

Eu comandava os bois:
- Puxa, Maravilha!
- Avança, Redomão!
Meu irmão falava
que eu tomasse cuidado
porque Redomão era coiceiro.

As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade -
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.

No caminho, antes, a gente precisava
de atravessar um rio inventado.
Na travessia o carro afundou
e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.

Sempre a gente só chegava no fim do quintal
E meu irmão nunca via a namorada dele -
Que diz-que dava febre em seu corpo.

01/01/2025

ANSEIO ( Célia Moura )

Anseio famintos
os teus lábios
quando minhas pérolas
já rolam pelo mármore
e aquela música insiste
em saborear rosas
na vertigem dos corpos
Anseio qual fêmea
em pleno cio
ser somente tua
amado!
Despir-te perante
tuas mãos de antúrios
e dançar contigo
entre vodka e incenso
o tango dos amantes,
apetecer jangadas de maresia
entre as pernas
e sentir-te (m)Eu.

21/12/2024

ANJOS DA MEMÓRIA - V ( Maria Teresa Horta )

 Os anjos alados

da memória

com as suas asas
de pérgula
e medronho

a voarem noite dentro,
pelo sonho

Serás de branco
despojada de tudo
à cabeceira

por detrás do meu ombro
anjo mudo

Serás de branco
despojada de tudo,

asas supostas
de ti
à minha beira

O pássaro cintilante
da tua nudez
(uma matriz calada)

Da tua nudez

Com os teus seios
de anjo
sob as asas

A tomares conta
da memória

És um passaro – digo
És um pássaro

com penas
cintilantes
dos teus olhos

As tuas asas
de pétalas

tecidas com a luz
das penas
das asas que te crescem

Poisar um pouco
nos parapeitos
da memória

antes de recomeçar
o voo
de regresso a casa

Com as nossas asas
lúcidas:
translúcidas e pálidas

Deixa-me voar
por cima do teu
colo

até ir poisar
na tua alma

É a memória,
dos teus dedos pisados
nas asas dos meus ombros

Entrelaçados
Enlaçados

Como entranças
os sonhos

As tuas asas de prata
que atravessam a voar
o território
brando
das minhas lágrimas

Este

é o inconsciente
dos teus olhos
de águas postas – de águas sobrepostas

– rente

à meiga – à mansíssima
racha
do teu ventre

Em voo raso
perto da sua boca:

A ouvir a memória

Há um ruído de
asas
que te é próximo

um odor a flor,
a framboeza

um sabor a leite
e a morango
numa uterina luz de penumbra acesa

Um pouco acima
dos teus olhos,
como um pássaro

a voar por dentro,
bem por dentro
do interior dos lábios

do corpo

A parte que é
anjo
do teu corpo

e me procura a meio
da madrugada

Sobrevoando o lago
que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava

A parte que é
anjo
do teu corpo

e me visita
a meio da madrugada

descansando as asas
dos teus ombros,
a meu lado:
em cima da almofada

Voava,
com a memória
das asas

no sentido inverso
do silêncio

e do sono

Oiço atrás de mim,
o breve respirar
das tuas asas

– quase imperceptível –

Um ligeiro arfar
Como a brisa a passar
por entre as casas

BEIJO ( Cigana )

 O melhor beijo é o beijo desejado,

o beijo que me completa,
o beijo da minha forma adequada,
o beijo com o sabor do desejo
na flor da minha pele,
o beijo da minha vontade,
o beijo que faz o meu pensamento,
o beijo que faz a minha boca e
meu corpo querer um novo beijo
outra vez e mais outra vez.
O melhor beijo é o beijo sem tempo,
o beijo de longa duração ou de pouca duração,
um beijo de vinte segundos
ou de vinte minutos, isto não importa.
O tempo não conta,
enquanto se beija o tempo para, o tempo freia.
E nesta inércia do tempo
só sinto a louca vontade do outro.
Sinto a outra língua que de encontro
com a minha faz um passeio suave e
excitante umedecendo minha alma.
Sinto a língua que viaja dos
dentes ao céu da boca.
Sinto a língua que acarinha os
meus lábios. A língua e a língua.
A língua que me roça, que me percorre,
que me navega e que me lambe.
O melhor beijo é o beijo em que a língua
faz o beijo e o beijo faz o sexo.

MENINA , MULHER AMANTE ( Adolfo Capella )

 Menina, mulher amante,

com seus olhos brilhantes,
quero ter você por um instante,
e beber teu prazer constante.
Beijar o teu corpo gostoso,
lamber seu pescoço,
e ser grudento aos poucos.
Se te quero tanto assim,
nesta ilusão tão ruim,
é porque para mim,
és um castigo sem fim.
Na minha serra querida,
tu és a minha guia,
te quero nua de dia,
nem que seja por fantasia.

OS ANJOS - I ( Maria Teresa Horta )

 Eles andam no ar

com as suas vestes
longas

as asas frementes
a baterem no tempo

Vêm
da infância
a rasar a memória

a voarem o vento

Ouvia os insectos,
deitada-rente
sobre a terra

e imaginava os anjos
debruçados no espaço
a beberem o sol

Uma por uma as pétalas
Os gomos

as citilantes escamas
mais pequenas

Uma por uma as penas

a formularem a nossa memória
das asas dos anjos

Tem a força estagnada
das paredes
a respirarem através da cal do útero

num arfar
lento
menstruação contida

Os pés vão nus,
a bordejarem o voo

a controlarem o
espaço

lemes do corpo
a fixarem
as asas:

crespas e acesas
nos ombros dos
anjos

São anjos
apenas
com o corpo dos homens

num corpo de mulher

e um ligeiro crepitar
de asas
na altura dos ombros

Tem uma conotação
sexual
de aventura

com a sua vagina
entreaberta
e o seu clitóris tumefacto
e tenso
à ponta dos dedos

Desviar os lábios
dos anjos

mas entreabrir-lhes também
as coxas

os sonhos – a mente
enquanto eles observam

Quando os anjos
flutuam
sobre as tréguas

naquele segundo
em que se ouve bater
o coração das pedras

Uma flor de
amparo,

o apoio de uma
asa
no voo raso às raízes do tempo

Até ao vácuo?

Os anjos são
os olhos
da cidade

Olhos de mulher,
que voa

Tem asas de cristal
e água
os anjos que à flor-do-dia
entornam a madrugada

cintilantes e volácteis

Eles voam com as suas asas
de prazer:

os anjos da fala
– dormindo na saliva da boca

Substituir os peixes alados
por anjos
Com as suas longínquas asas
a afagar os meus ombros

Queria saber
do destino dos anjos

quando voam
no mar
dos nossos olhos

No céu líquido
dos olhos
das mulheres

Diz-me
da poesia

através da palavra
dos anjos.

Aos olhos do tempo
a transgressão
das horas

pelo dentro das nervuras
das asas

pequenos capilares de vento
onde começa a vontade
de voar

num caminhar
sedento

Têm todos os anjos
o vício:

da queda?

NINGUÉM VAI SABER ( Julieta Lima )

 Ninguém vai saber

Do meu segredo.
Tenho um amante
Belo como Deus
E todo nu
Aqui deitado ao meu lado!
Seus beijos são azuis
E a sua voz vermelha como o lume!
Tenho um amante só meu
E ninguém vai saber,
Ninguém mo vai roubar,
Porque ele é meu, só meu:
É feito de poemas e de fumo.

RAÍZES ( Carlos Alberto Pessoa Rosa )

 enfio

meu pau em sua vagina
enraízo
sou falo
és a terra de minhas raízes
a nutrir o gozo
sou tronco
enfiado na terra de seu corpo
sou raiz
és o solo
eu apenas o agregado
és chupa
onde deposito minhas sementes
vestígios
que escoam na geratriz

TU ( Tatiana V. Mattos )

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