22/04/2025

A VAGINA ( Maria Teresa Horta )

 É cálida flor

E trópica mansamente
De leite entreaberta às tuas
Mãos

Feltro das pétalas que por dentro
Tem o felpo das pálpebras
Da língua a lentidão

Guelra do corpo
Pulmão que não respira

Dobada em muco
Tecida em água

Flor carnívora voraz do próprio
suco
No ventre entorpecida
Nas pernas sequestrada.

Raquel Serejo Martins

 Eu falo de nuvens

tu falas do trânsito

e amo a tua orelha cortada,

a rapariga com um brinco de pérola

que há em ti,

o cheiro a cidade na tua nuca.

Eu falo de barcos

tu falas de sapatos

e amo o sabor dos teus olhos salgados,

o cabo dos teus ombros,

os teus sonhos em escombros,

os teus sapatos a precisar de solas.

Eu falo de pássaros

tu falas de gatos e outros predadores

e amo o teu sorriso monaliso,

os teus seios, o teu sexo, os teus pés

que lavo com a minha língua,

que sujo com a minha língua.

Eu falo de Abril

tu pedes para te abotoar os botões

enquanto ao espelho pintas os lábios,

e dás-me um beijo de adeus encarnado

que fica na minha cara como uma cicatriz de guerra,

e amo esse embuste de nos amarmos uns aos outros

e deixo de ter certeza da minha inocência.


 

20/04/2025

À HORA DOS CARDOS ( Edgardo Xavier )

 Chegas ao meu corpo


à hora agreste dos cardos

e sobes em maré
vermelha

alucinada

Ardo no teu fogo até que a sede
se cale

e o caminho se dilua na noite

serena


Só depois dispo o tempo

e a pele onde também te guardava


Persistes

A memória não se mata

nem se trava o coração

AVE ADORMECIDA ( Edgardo Xavier )

 Na minha mão

O teu sexo é uma ave adormecida

Na quietude da manhã

E o teu corpo

A praia onde é serena

A voz do azul

Profundo

No sono

Todas as vontades

São líquidas

18/04/2025

ENTÃO QUERES SER UM ESCRITOR ( Charles Bukowski )

 se não sai de ti a explodir

apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.
e nunca houve.
(Tradução: Manuel A. Domingos)

O CORAÇÃO RISONHO ( Charles Bukowski )

 Sua vida é sua vida

Não deixe que ela seja esmagada na fria submissão.
Esteja atento.
Existem outros caminhos.
E em algum lugar, ainda existe luz.
Pode não ser muita luz, mas
ela vence a escuridão
Esteja atento.
Os deuses vão lhe oferecer oportunidades.
Reconheça-as.
Agarre-as.
Você não pode vencer a morte,
mas você pode vencer a morte durante a vida, às vezes.
E quanto mais você aprender a fazer isso,
mais luz vai existir.
Sua vida é sua vida.
Conheça-a enquanto ela ainda é sua.
Você é maravilhoso.
Os deuses esperam para se deliciar
em você.

RUPI KAUR, in LEITE E MEL ( Lua de Papel, 2017 )

 pôs as mãos

na minha mente
antes de as pôr
na minha cintura
nas minhas ancas
ou nos meus lábios
não me disse
que era bonita primeiro
disse-me que era única
- é como me toca

17/04/2025

AOS LOUCOS ( Célia Moura )

 Floriram para mim breves instantes

fui poeira no teu deserto,
pirilampo esvoaçando na tapada
onde os grilos ainda cantam,
à toa.
Deste-me vazio, artifícios vários
e ausência.
Edifiquei alicerces, plantei sementes
e no fogo que em mim habita
continuo a construir amor
e sonho como só aos loucos
é permitido fazer.
Floriram em mim alvoradas de núpcias
entrego o meu corpo ao mar
não voltarei atrás
sigo esta loucura
jamais te direi adeus
porque te matei e sepultei
há tantos anos a um canto do jardim.
Um dia todas as sementes que em ti plantei
germinarão.
Entenderás finalmente
a dimensão desta ânsia de liberdade
de minha nobre e lúcida loucura
desta paixão que me morde & amordaça,
este intenso e absurdo amor,
desencontros de mim.

09/04/2025

Célia Moura in “No Hálito De Afrodite”

 Ela é a loba ancestral

Que te invade pelas madrugada
Percorre teus cabelos
Escorre-te pelas costas,
Finca as garras
Na pele que sempre lhe pertencera
Beija teus flancos estremecidos
De homem vivido e só
Ela é tua serpente temida
E amada,
Sibilando ao teu ouvido
A púbis de Afrodite
Sequiosa
Na masturbação dos sentidos
Chamando-te …

05/04/2025

O SOL ( Jaqueline Ruiz )

 a força que eu busco no outro,

só encontro quando eu me acolho.

envolve um certo risco se amar.
é preciso mergulhar sem saber nadar
e sem saber o que vai encontrar no fundo do mar.
mas é preciso ir.
disparar.

o melhor espelho
para cultivar amor-próprio
é o seu reflexo na água
pouco antes de pular.

há quem cante para Deus, Buda e Iemanjá.
eu canto para mim,
de olhos fechados,
sentindo a leveza do ar me tocar,
para me acalmar.
certa de que toda a espiritualidade,
independente dos nomes que a chamam,
de alguma forma me escuta e
está sempre pronta para me ajudar.

enquanto isso, respeito minhas ondas.
se eu choro, é para me recarregar.
eu me cuido com o amor que cuido dos outros
e com o amor que estou sempre disposta a dar,
por que não há outro jeito a não ser
ser minha amiga.
aceitar meu banquete,
rejeitar migalhas.

o sol descansa para a lua,
mas nunca deixa de brilhar.
felicidade é ponto de vista.

eu canto e escuto ecoar:
trabalhe em você,
na sua paz,
que em breve,
no teu peito,
o amor há de repousar.

AMARGOS COMO OS FRUTOS ( Ana Paula Tavares ) in Dizes-me Coisas Amargas Como Os Frutos

 Amado, por que voltas

com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo

Amado, onde perdeste tua língua de metal
a dos sinais e do provérbio
com o meu nome inscrito

Onde deixaste a tua voz
macia de capim e veludo
semeada de estrelas

Amado, meu amado,
o que regressou de ti
é a tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas 
como os frutos. 

AMA -TE: POR DENTRO E POR FORA ( Simone Moisés )

 Costumo dizer que nada é permanente

exceto a mudança.
Toda mudança interior e exterior
merece esforço e dedicação,
afinal buscar renovação deve e tem que
ser sempre para melhor.

Assim como as águas de um rio que se renova,
renove-se também, diariamente,
interiormente e exteriormente, ninguém
deve ser escravo de sua própria identidade.
Se houver oportunidade de mudança, mude.

Cuide-se, queira-se bem.
Respeite-se,
ama-te por dentro e por fora,
seja gentil consigo mesmo.

SE SOUBÉSSEMOS ( Ana Bailune )

 Se soubéssemos

Quantos adeuses se escondem,
Adormecidos,
Por trás de cada ‘olá’,
Talvez nós não deixássemos
A vida passar,
As pessoas irem embora
Sem nosso mais atencioso olhar

Se soubéssemos
Que a estrada sob os pés
Pode, a qualquer momento,
Desabar,
Talvez prestássemos mais atenção
À linda paisagem que nos cerca,
E que foi com amor, criada
Para que a possamos desfrutar.

Se soubéssemos
Que cada palavra proferida
Pode ter um imenso, enorme peso
Por sobre uma vida,
Talvez as medíssemos com cuidado
Antes de deixá-las caírem
Em ouvidos errados.

Se soubéssemos
Que tudo o que hoje vivemos
Em breve, tornar-se-há lembranças
Que, no futuro, teremos
Para reviver em noites longas e vazias,
Talvez fôssemos mais felizes,
Quem sabe, escolhêssemos cores mais bonitas
Para pintarmos cada dia!

MADRIGAL PARA CECÍLIA MEIRELES ( Cacaso )

Quando na brisa dormias,

não teu leito, teu lugar,
eu indaguei-te Cecília:
Que sabe o vento do mar?
Os anjos que enternecias
romperam liras ao mar.
Que sabem os anjos, Cecília,
de tua rota lunar?
Muitas tranças arredias,
um só extremo a chegar:
Teu nome sugere ilha,
teu canto: um longo mar.
Por onde as nuvens fundias
a face deixou de estar.
Vida tão curta, Cecília,
pra que então tanto mar?
Que música mais tranquila,
quem se dispôs a cantar?
São tuas falas, Cecília,
a barco tragando o mar.
Que céu escuro havia
há tanto por te espreitar?
Que alma se perderia
na noite de teu olhar?
Sabemos pouco, Cecília,
temos pouco a contar:
Tua doce ladainha,
a fria estrela polar
a tarde em funesta trilha,
a trilha por terminar
precipita a profecia:
Tão curta a vida, Cecília,
tão longa a rota do mar.
Em te saber andorinha
cravei tua imagem no ar.
Estamos quites, Cecília:
Joguei a estátua no mar.
A face é mais sombria
quanto mais se ensimesmar:
Tão curta a vida, Cecília,
tão negra a rota do mar.
Que anjos e pedrarias
para erguer um altar?
Escuta o coral, Cecília:
O céu mandou te chamar.
Os anjos com tantas liras
precisam do teu cantar.
Com tua doce ladainha
(vida curta, longo mar)
proclames a maravilha.