25/05/2025

OS OLHOS ( Sore Snid )

 Pensamento aborígene

Razão milenar de uma casta xamânica
O chão no ombro esquerdo
A chama engendrada na mão
Sete silvos ou cânticos de recordação
Dirigindo-se ao bosque de veados por entre a fortaleza
Aponta e dirige seu arco
Um mantra
A aurora percorre espaços sem tempo e chega ao vulcão de lava azul
A maré nos lábios
A pálpebra erguida com a força de três deuses
Uma centena de visões do futuro
Instauradas no perfeito instante da pluma
Começo da cadeia em círculo
O gato mia a verdade
Um condor se aproxima do paraíso
A serpenta rasteja sobre as pedras do subsolo
E os olhos
Os olhos que são teus olhos
E os olhos do mundo inteiro
Olhando através do cristal da história.


IMOLAÇÃO DA PELE ( Sore Snid )

 Deixa-me descansar em ti em teu olhar

Quero que descubras o céu dos caídos

Deixa-me o último suspiro de cada orgasmo
Incinera a tua alma e me presenteia com as cinzas

Entrega-te a meus segredos de luxúria
Empresta-me teu corpo para imolar meu desejo.

OFERENDA ( Laura Victoria )tradução de Floriano Martins

 No mutismo da noite cúmplice

rasgue tua respiração o traje do desejo,
e surja leve como uma flor madura
a pelúcia milagrosa de meu corpo
Rompa a luz seu desbotado ouro
nas ânforas tíbias de meus seios,
vertam teus olhos seu fluxo de sombra
no musgo outonal de meus cabelos.
Em botão de alabastro guarde tua alma
o langor suave de meu silêncio,
a tua boca desfrute em uma dobra de sorriso
a romã entreaberta de meu beijo
Seja a tua voz o chocalho sonoro
para despertar meu espírito do sono,
seja teu amor a estrela misteriosa
que derrete as neves de meu corpo.
E na carícia da seda cúmplice
Curve minha cintura o peso de teus dedos,
enquanto afunda como flor de abismo
a sombra na cavidade dos espelhos.

DESEJO ( Laura Victoria )tradução de Floriano Martins

 Na areia quente da praia

teu encontro amoroso com prazer espero;
o sol toca meus ombros nus
e entre minha saia brinca o vento.
Já com águas salobras cristalinas
o mar de anil acariciou meu corpo;
levo nos lábios um coral partido
e uma concha presa aos cabelos.
As esmeraldas de meus olhos tristes
aguardam por tuas pupilas de boêmio,
e minhas mãos germinam as carícias
que brotam ao toque de teus dedos.
Vem, já se abrem como amarantos rubros
os botões floridos de meus desejos,
e entre meus lábios trêmulos se acende
a flama louca de meus beijos.

ÍNTIMA ( Laura Victoria )tradução de Floriano Martins

 A pelúcia das sombras era tão quente,

que sem querer calamos,
e bebemos como vinho velho
a frase que tremia nos lábios.
Embora sem amor, em silêncio
as mãos se afastaram,
sem saber se embalamos um sonho
ou era o torpor de algum amor distante.
E também, sem conhecer o mistério,
nossas bocas alheias se juntaram,
e nas pupilas úmidas da ausência
a tarde lilás permaneceu tremendo.
Mais tarde, no emaranhado da reprovação,
nos perdemos conversando
e na rocha da alma se fez sangue
o fruto mentiroso dos lábios…
Talvez o vento de outras solidões
nos surpreenda chorando
e então nascerá como eco rompido
a frase que silenciamos…


IV ( Pietro Nardella-Dell’ova )

 A delicadeza dos seres

que se olham e se buscam,

e a carícia que se faz no virar

do rosto na aprovação,

e o sorriso de contentamento,

é a poesia não escrita,

é o essencial e bastante

para que os seres vivam

uma vida viva

e cheia de cores,

a vida nua e sem formas

que não se faz na aparência

de coisas imóveis,

mas, no aparecer do corpo

nas formas vivas

III ( Pietro Nardella-Dell'ova )

 Que lábios!

os seus lábios tenros

voltados para fora de si, à poesia,

cheios do langor feminino, a doçura,

mais lindos parecem a cada dia

no vermelho, e no rosa, e na procura

do afago íntimo do beijo pleno

e do murmúrio despretensioso que jorra

em cada sorriso que se faz sereno,

em cada desejo que nesses lábios mora.

IDENTIDADE ( Ana Poesia )

 O espelho não me refletia

Mas as colheres prateadas me viam

Eu enxergava mais do que devia

Sabia que as paredes me assistiam

 

Meus braços percorriam o gesso poroso

Eu me deitava no chão gelado

E o teto me olhava choroso

Porque não podia sair dali

 

Ninguém entendia o que eu possuía

Apenas o ar que sussurrava em meu ouvido

Só que na hora da birra, nem ele me queria

São tantas coisas que poderiam ter sido

 

Mas não foram

As fantasias em que eu fugia

Fugiram de mim

E eu entendi que só poderia ser assim

 

Eu fui castigado em um cantinho da escada

E se eu não caísse, eu seria amado

Caso contrário, eu seria punido

E na minha boca, uma fita seria colocada

 

O mal estava feito

O espelho sem reflexo se quebrou

E pouco a pouco, no meu corpo se infiltrou

Agora sou aceito

 

Mas as colheres custam me ver

Sob meu corpo ferido se instalou saudade

Do que era para eu ser

Do que era a minha identidade

 

RACHADURAS ( Isabella Ingra )

 a pessoa pode

embelezar as próprias rachaduras

no lugar de esconder cada fissura

contornar com ouro o lugar que foi fissurado

e na ausência de ouro, um bordado.

 

sentada, num hotel belérrimo, observando o teto

as marcas de mofo e rachaduras que penetram a beleza

 

lutam para serem visíveis

apesar de toda obra de retoque.

 

isso explica porque as

cicatrizes me caem no charme

 

isso explica a beleza dos machucados

dos entrebelos

 

nāo se trata de dar romance às marcas

nem todo romance é belo

 

se trata tanto

de dar contorno.

 

FIZ DO MEU CADERNO, SUA PELE ( Isabella Ingra )

 preencho os espaços dessas linhas com palavras

como se pudesse, num imaginário tão real, preencher seu corpo com meu corpo.

meu corpo: palavras

sua pele: linhas, longitudes.

meu corpo: sua casa

sua pele: meu quarto

meu corpo: palavras

sua pele: linhas, longitudes

meu corpo: um mapa

sua pele: uma bússola antiga

meu corpo: travessia

sua pele: pedestres dançantes

meu corpo: lágrimas matinais

sua pele: sorriso antes do almoço

meu corpo: pelugem

sua pele: rotação da terra

meu corpo: caneta vermelha

sua pele: tatuagem que percorro

meu corpo: cenário que te apresento

sua pele: a peça

meu corpo: silêncio

sua pele: uma festa que tento penetrar

24/05/2025

REALEJO ( Cecília Meireles )

 Minha vida bela,

Minha vida bela,
nada mais adianta
si não há janela
para a voz que canta.

Preparei um verso
com a melhor medida:
rosto do universo,
boca da minha vida.

Ah! mas nada adianta,
olhos de luar,
quando se planta
hera no mar,

nem quando se inventa
um colar sem fio,
ou se experimenta
abraçar um rio.

Alucinação
da cabeça tonta!

Tudo se desmonta
em cores e vento
e velocidade.
Tudo: coração,
olhos de luar,
noites de saudade.

Aprendi comigo.
Por isso, te digo,
minha vida bela,
nada mais adianta,
si não há janela
para a voz que canta.

23/05/2025

QUANDO R GOZA ( Adriana Graciano )

 Quando R goza

Meu coração quase se esquece de como bater

Antes de reaprender aquela batida que sempre conheceu mas julgava perdida

Meus olhos (abertos ou não) vêem em cores que só conheço em sonho

Meus ouvidos e sentidos se comportam com a reverência e entrega

De quem ouve uma sinfonia amada pela milésima inédita vez

Quando R goza

Minha primavera eclode

E morro minha pequena morte

SANGUE ( Adriana Graciano )

Seu sexo no meu sexo
Meu sexo no seu sexo
Arrebatados pelo paradoxo dessa transcendência física
dessa nova familiaridade
desse olhar sem véu
dessa nova nudez
Meu sexo no seu sexo
Seu sexo no meu sexo
Redefinindo o espaço
que ocupávamos
em nós


 


FRIO ( Adriana Graciano )

 

F ogo mudando a cor e a textura dos meus lençóis

R eencontro atemporal, reentrâncias redescobertas

I nexplicavelmente familiares, intensamente sentidos

O inverno reescrito: verão quando você está em mim

OS CINCO SABORES ( Adriana Graciano )

 

Primeiro gosto de tocá-lo com os olhos

Depois cheiro suas intenções

Leio seus sonhos

Como seu sexo

Ouço seu cheiro

Vejo sua fome

Danço sua febre

Bebo seu calor

Devoro seus pudores

Degusto seu (de)leite

Escrevo sua cor

Pinto seu gosto

Mas, sereia que sou,

Só canto para quem me cavalga (os mares)

22/05/2025

REALIDADE ( Isabel Sá ) in “Erosão de Sentimentos”

 Por causa de um livro

vieste ao meu encontro.
Era Verão, não sabias de nada
nem isso interessava. Palavras
amavam-se fora de ti,
no atropelo das emoções.
Lá chegaria a primeira vez,
o encontro apressado num lugar
público. Desfeito o erro
ao toque da pele, não sei
se havia medo, a paixão queria-me
no lugar exacto do teu coração.
Palavras enrolam-se na sombra
da vida a dor do sentimento.

Atingido o espírito, o tempo
da infância, a realidade. Em ti
a solidão que o prazer
não mata. Quero a beleza
dos versos revelada.
Alguns anos passaram sobre
a nossa história que não acabou.
A tarde envelhece e escrevo isto
sem saber porquê.

20/05/2025

O BELO OLHAR DA NUDEZ ( Lucas Munhoz )

 Nua, gosto de ver-te o bom desejo.

À sedução do corpo, como a fome
Vejo-te o corpo fogoso, esse nome.
Cravado nos teus seios, mas sem pejo.

A vê-la a carne nua, como o beijo.
Que o teu deleite nu já me consome;
Falas a mim, que o corpo não vos tome?
Ama-me como a Loba, como o harpejo.

Amor, que és só minha como a nudez!
Sem me sentires o corpo da vida.
O meu amor, eis-me o olhar da mudez.

Quero-te! Vem lograr-me a carne nua!
Não ele! Vens a mim a flor vivida!
Sim! Só me queres como a bela lua.

A DOCE MENINA DELICADA ( Lucas Munhoz )

 Dos teus olhares. Ó nudez que me sentes!

Vai-te a malva perfumosa nos teus braços;
Olho-te fortemente os mares dos laços,
Vem-me o anseio, a beijar-te os seios ardentes.

Ó desejo carnal! Dou-te as artes quentes.
Se este momento, que vens os meus abraços
Ontem à tarde, mas vens os fortes passos
Ó mil cabelos! Tens-me os doces presentes.

Hei de amar-te tanto amor mui deleitoso,
Dos meus amores. Ó frenesi sem dor!
Da beleza já vens amar-me o meu gozo.

Ó volúpia que me amas o sentimento.
De encher os corações em forte licor,
Tu, porque sentes a musa do acalento.

SONETINHO À DOCE MENINA (Borboleta) ( Lucas Munhoz )

 Ver amar o amor a amar-me;

Nua, e a sua cor do anelo.
Só foste a musa a vivê-lo.
Se fores o olho a adorar-me.

Dei-te os corpos nus em pêlo.
à cor negra, em sol a olhar-me!
Vês o forte olho a vagar-me;
Olha-me o amor do cabelo.

ó seios nus. Eis-me o alento!
Dos amores entre os beijos
ó doce mar. Sem tristeza.

Dos lírios ao doce vento.
O vôo deu-me aos arpejos;
Dei-te os fados. Sem pureza.

SONETO À DOCE MENINA (Pimentinha) ( Lucas Munhoz )

 Dar-me tesão vence a mudez, Amor!

Lambe-a a vulva sem dor, sê mui molhada
Ó cio atrevido! Dou-te a alma orlada!
Tenho a alçar-te o sabor entre o amador.

Bebê-la nua a fome quente ao licor.
Que vens a morder o meu pêlo, amada!
Dar-mas o fio d'água mui vagada;
Sem morte, vais mordê-lo o forte ardor.

Até que me beijes a noite ardente;
Lambê-la a pimenta que sentes a fome
Ó forte orgasmo! Dou-te a touça quente.

Fizeste o teu sexo que vens a alcova;
Ei-la a mulher virgem ao forte nome!
Dar-me a fantasia carnal que já mova.

OS SEIOS DA MULHER ( Lucas Munhoz )

 Morde-lhe os bicos à donzela sem dor.

Bebê-los o leite caindo em minha alvura;
Deixa-me ondear os teus seios que és pura.
Ó fome ardorosa! Que a mim do calor!

O amor, que és tão bela como o sentimento!
A nós da bondade a beijá-la a vertigem;
Decerto a ti, só queres a mulher virgem,
Lamber as duas jovens nos seios do alento.

Que é da volúpia a amá-las a castidade;
Deixo-te a amante a beijá-las a pureza,
Lambe-lhe os bicos d'água como a beleza
Que amas a donzela, que és uma vaidade.

Alça-se os teus calores do amor a amá-lo;
Sabes, a mim hás de sentir-me o perfume
Ó bela mulher! Que me adoças o lume?
Sem veste quente, que és um doce regalo.

Que és da luxúria a beijá-las os desejos;
Mordê-las os seios úmidos do alarde.
Depois a beijá-las a alcova da tarde!
Bebê-las os bicos dáágua aos meus arpejos.


 

POEMA ANTIGO ( Maria Teresa Horta )

 O homem que percorro

com as mãos

e a lua que concebo
na altitude
do tédio

o oceano
penso paralelo – ventre
à praia intacta
das janelas brancas
com silêncio

ciclames-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo – bússola
com raiz – grito de relevo

O homem que percorro
com as mãos

a estátua que consinto
a lua que concebo.