01/08/2017

DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE – IV ( Hilda Hilst )

Falemos do amor, senhores,
Sem rodeios.
[Assim como quem fala
Dos inúmeros roteiros
De um passeio].
Tens amado? Claro.
Olhos e tato
Ou assim como tu és
Neste momento exato.
Frio, lúcido, compacto
Como me lês
Ou frágil e inexato
Como te vês.
Falemos do amor
Que é o que preocupa
Às gentes.
Anseio, perdição, paixão,
Tormento, tudo isso
Meus senhores
Vem de dentro.
E de dentro vem também
A náusea. E o desalento.
Amas o pássaro? O amor?
O cacto? Ou amas a mulher
De um amigo pacato.
Amas, te sentindo invasor
E sorrindo
Ou te sentindo invadido
E pedindo amor. (Sim?
Então não amas, meu senhor)
Mas falemos do amor
Que é o que preocupa
Às gentes: nasce de dentro
E nasce de repente.
Clamores e cuidados
Memórias e presença
Tudo isso tem raiz, senhor,
Na benquerença.
E é o amor ainda
A chama que consome
O peito dos heróis.
E é o amor, senhores,
Que enriquece, clarifica
E atormenta a vida.
E que se fale do amor
Tão sem rodeios
Assim como quem fala
Dos inúmeros roteiros
De um passeio.

O MUNDO NECESSITA DE POESIA (Gilka Machado)

O mundo necessita de poesia,
cantemos, poetas, para a humanidade;
que nossa voz suba aos arranha-céus,
e desça aos subterrâneos,
acompanhando ricos e pobres
nos atropelos
das carreiras
de ambição
e na luta pelo pão!

Lavemo-nos das máscaras histriônicas,
tenhamos a coragem
de propalar a existência eterna
do sentimento;
ponhamos termo
a esses malabarismos
de palhaços
falsos
da modernidade,
permanecendo diferentes,
diante da multidão
insensibilizada,
enferma.

A humanidade quer rir de tudo,
porém é alvar sua gargalhada;
foge das tristezas,
mas paira ausente
em meio aos prazeres,
desligada em toda parte,
perdida em si mesma.

O homem anda esquecido
do caminho da fé
que a poesia sempre lhe ensinou.
O homem está inquieto
porque lhe falta a posse das distâncias
que só a poesia proporciona.
O homem se sente miserável
porque a poesia já não lhe enche a alma
daquele ouro inesgotável
do sonho.

O mundo necessita de poesia,
(não importem assuadas)
cantemos alto, poetas, cantemos!
Que seja nossa voz
um sino de cristal,
um sino-guia de perdidos rumos,
vibrando do nevoeiro da inconsciência
do momento angustioso!

Nosso destino, poetas, é o destino
das cigarras e dos pássaros:
- cantar diante da vida,
cantar
para animar o labor do Universo,
cantar para acordar
ideias e emoções;
porque no nosso canto
há um trigo louro,
um pão estranho que impulsiona
o braço humano,
e os cérebros orienta,
uma hóstia
em que os espíritos encontram,
na comunhão da beleza,
a sublimação da existência.
O mundo necessita de poesia,
cantemos alto, poetas, cantemos.
Gilka Machado, em "Sublimação", no livro "Poesias Completas". Léo Christiano Editorial; Funarj, 1992.   
 

SONETO ( Chico Buarque de Holanda )


Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono.

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo.

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar com que navio
E me deixaste só, com que saída.

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio.

O MAR NOS TEUS OLHOS (Maria Teresa Horta)


I
É o mar, meu amor,
na febre dos teus olhos

é o manso fascínio
da onda que se inventa

É o mar, meu amor,
mestiço nos teus olhos

é o mirto, o queixume
a mansidão tão lenta.

II
É o mar, meu amor,
o lastro dos sentidos
que afogas nos olhos
sem nunca te afundares

É o mar, meu amor,
que transportas nos olhos
e onde eu nado o tempo
sem nunca me encontrar.

31/07/2017

FORA DE HORA ( Dori Caymmi & Chico Buarque de Holanda )


Fora de hora o meu coração
Pega a pensar no seu 
Será que ele também
De mim não se esqueceu. 


Será que embora um bom coração
Deseja mal ao meu
Será que diz que nem
Sequer me conheceu.

Quando é tempo de serenar 
Quando é hora de recolher 
Por que vai e vem 
Na gente um bem 
Querer.

Quando já nem balança o mar
Quando nem uma luz se vê
Nem um dia além 
Da noite sem
Você.

Agora mora o meu coração
Sozinho como quer
Sem outra dor senão
A dor de ser mulher
E estar à sua mão 
Quando você vier.

ÂMBAR (Adriana Calcanhotto)

Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim

Tudo ligado

Como se eu fosse um morro iluminado
Por um âmbar elétrico que vazasse nos prédios
E banhasse a Lagoa até São Conrado
E ganhasse as Canoas aqui do outro lado

Tudo plugado, tudo me ardendo

Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos
Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos

EU QUE NÃO SEI QUASE NADA DO MAR


Garimpeira da beleza te achei na beira de você me achar. Me agarra na cintura, me segura e jura que não vai soltar. E vem me bebendo toda, me deixando tonta de tanto prazer. Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio, não vou esquecer.
Eu que não sei quase nada do mar descobri que não sei nada de mim
Clara noite rara nos levando além da arrebentação. Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Clara noite rara nos levando além da arrebentação. Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão
Me agarrei em seus cabelos, sua boca quente pra não me afogar. Tua língua correnteza lambe minhas pernas como faz o mar. E vem me bebendo toda me deixando tonta de tanto prazer. Navegando nos meus seios, mar partindo ao meio, não vou esquecer
Eu que não sei quase nada do mar descobri que não sei nada de mim
Clara noite rara nos levando além da arrebentação. Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão. Clara noite rara nos levando além da arrebentação. Já não tenho medo de saber quem somos na escuridão.
( Ana Carolina & Jorge Vercilo)

28/07/2017

O  BEIJO (Denise  Emmer)
Levou-me sem feitas frases
Somente passo e camisa
Roubou-me um beijo de brisa
Na quadratura da tarde.

Jogou-me contra a parede
Rasgou-me a blusa de linho
Roubou-me um beijo de vinho
Diante das aves vesgas.

Puxou-me para seu fundo
Rompeu a rosa pirâmide
Roubou-me um beijo de sangue
E bateu asas no mundo.

CANÇÃO PARA UM GRANDE AMOR
(Isabella Taviani)
 Mas agora vai
Deixa o vento te seduzir
Deixa o novo sonho te invadir
E não volte nunca mais aqui pra me esperar.

Agora vai
Lança teu destino em outro mar
Não recues nunca pra ancorar
Nunca pra duvidar.

Deixa o sol queimar a tua pele
Deixa o céu forrar a tua cama
Deixa amanhecer tua chama, teus desejos.

Mas agora vai
Porque há vida em outra dimensão
Porque há paz no outro coração
Por que com a gente não!
Por que com a gente não?

Agora vai
Buscar os novos horizontes
Pousar no colo de outros ombros
Saciar a sede do teu corpo louco.

Vai pra sempre vai
ser feliz é uma estrada sem fim
Tens a força que eu nunca atingi
Tens a dor mas ainda sei que tens a mim.




EMBARCAÇÃO DO AMOR ( Adriano Gama )


Velejo nos sonhos e prazeres
Deste amor
Que insiste em assoprar
As velas
Do meu barco
Na direção
De teus desejos
Ancorado eu fico
Em teus anseios
Que revelam
Segredos íntimos
E nossos instintos
Enlouquecem ao descobrirem
Estes mistérios 
Navegando em
Teu corpo
Agitado
As minhas mãos
Traçam o percurso
Que nos interessa
E passam a comandar o barco,

Exploramos este mar
De rosas
Para nos perder
De amor
Como dois
Náufragos que se descobrem
Numa ilha deserta.



TRÊS IDADES (Manuel Bandeira)


A vez primeira que te vi,
Era eu menino e tu menina.
Sorrias tanto. Havia em ti
Graça de instinto, airosa e fina.
Eras pequena, eras franzina.

Ao ver-te, a rir numa gavota,
Meu coração entristeceu.
Por quê? Relembro, nota a nota,
Essa ária como enterneceu
O meu olhar cheio do teu.

Quando te vi segunda vez,
Já eras moça, e com que encanto
A adolescência em ti se fez!
Flor e botão. Sorrias tanto.
E o teu sorriso foi meu pranto.

Já eras moça. Eu, um menino.
Como contar-te o que passei?
Seguiste alegre o teu destino.
Em pobres versos te chorei
Teu caro nome abençoei.

Vejo-te agora. Oito anos faz,
Oito anos faz que não te via.
Quanta mudança o tempo traz
Em sua atroz monotonia!
Que é do teu riso de alegria?

Foi bem cruel o teu desgosto.
Essa tristeza é que mo diz.
Ele marcou sobre o teu rosto
A imperecível cicatriz:
És triste até quando sorris.

Porém teu vulto conservou
A mesma graça ingênua e fina.
A desventura te afeiçoou
À tua imagem de menina.
E estás delgada, estás franzina.

O BEIJO (Manuel Bandeira)


Quando a moça lhe estendeu a boca
(A idade da inocência tinha voltado,
Já não havia na árvore maçãs envenenadas),
Ele sentiu, pela primeira vez, que a vida era um dom fácil
De insuspeitáveis possibilidades.

Ai dele!
Tudo fora pura ilusão daquele beijo.
Tudo tornou a ser cativeiro, inquietação, perplexidade:

— No mundo só havia de verdadeiramente livre aquele beijo.

ARTE DE AMAR ( Manuel Bandeira )


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação,
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

AMANHECENDO (Billy  Blanco)
Começou um novo dia
Já volta quem ia
O tempo é de chegar
De metrô chego primeiro
Se tempo é dinheiro
Melhor vou faturar
Sempre ligeiro na rua
Como quem sabe o que quer
Vai o paulista na sua
Para o que der e vier
A cidade não desperta
Apenas acerta
A sua posição
Porque tudo se repete
São sete, e às sete
Explode em multidão
Portas de aço levantam!
Todos parecem correr!
Não correm de, correm para
Para São Paulo crescer!
Vambora, vambora
Olha a hora
Vambora, vambora
Vambora, vambora
Olha a hora
Vambora, vambora
Vambora!

DESEJO DIVINAL (Eunice Contente)

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ELA E SUA JANELA ( Chico Buarque de Holanda )


Ela e sua menina
Ela e seu tricô
Ela e sua janela, espiando
Com tanta moça aí
Na rua o seu amor
Só pode estar dançando
Da sua janela
Imagina ela
Por onde hoje ele anda
E ela vai talvez
Sair uma vez
Na varanda.
Ela e um fogareiro
Ela e seu calor
Ela e sua janela, esperando
Com tão pouco dinheiro
Será que o seu amor
Ainda está jogando
Da sua janela
Uma vaga estrela
E um pedaço de lua
E ela vai talvez
Sair outra vez
Na rua.
Ela e seu castigo
Ela e seu penar
Ela e sua janela, querendo
Com tanto velho amigo
O seu amor num bar
Só pode estar bebendo
Mas outro moreno
Joga um novo aceno
E uma jura fingida
E ela vai talvez
Viver duma vez
A vida.

26/07/2017

A PRIMEIRA VEZ EM QUE FITEI TEREZA (Gilka Machado)

A vez primeira em que te vi comigo.
De olhos voltados para os olhos meus.
Ante o impossível de seguir-te, amigo,
Tive desejos de dizer-te adeus.

Passaram meses nosso amor crescia
(a assim o houve conservado Deus!)
Naquela sereníssima agonia
Trocando olhares e dizendo adeus!

Tentei fugir, mas fui por ti vencida,
E, um dia, presa entre os braços teus,
Tive a impressão da extrema despedida
Primeiro beijo - derradeiro adeus!

Veio-te a saciedade do desejo;
Teceu o dado os labirintos seus.
Tão perto ainda e já quão longe vejo
O teu amor a me dizer adeus!

Passou depressa como que se evade
teu lindo vulto, entre os soluços meus.
Vieste pra deixar esta saudade
a me acenar, num imortal adeus! 

PARTICULARIDADES I ( Gilka Machado ) no livro "Estados da Alma: poesias". Revista dos Tribunaes, 1917.

Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
os meus gostos crimino e busco, em vão, torcê-los;
é incrível a paixão que me absorve por tudo
quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... os pêlos.

Amo as noites de luar porque são de veludo,
delicio-me quando, acaso, sinto, pelos
meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.

Pela fria estação, que aos mais seres eriça,
andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
às luvas de camurça, aos boás, à pelica.

O meu tato se estende a todos os sentidos;
sou toda languidez, sonolência, preguiça,
se me quedo a fitar tapetes estendidos.