23/09/2017

NOS TEUS OLHOS VERDES (António Barroso Cruz)


Hoje, quando te encontrei

e o teu sorriso olhou para mim,
fui arrastado para os teus olhos
numa alquimia sem fim 
Beijei-te o pescoço ardente de desejo,
tirei-te a roupa em gestos urgentes e delicados,
e deixei que as tuas mãos se entregassem
aos corpos impacientes que se queriam amados

E depois, imerso no poema do teu olhar,
e na constância das nossas sofreguidões,
consumimos os nossos gestos em desatino
na impulsividade das nossas imensas paixões.



 

12/09/2017

RUA DE CAMÕES (Inês Lourenço)


A minha infância 
cheira a soalho esfregado a piaçaba 
aos chocolates do meu pai aos Domingos 
à camisa de noite de flanela 
da minha mãe. 

Ao fogão a carvão 
à máquina a petróleo 
ao zinco da bacia de banho. 

Soa a janelas de guilhotina 
a desvendar meia rua 
surgia sempre o telhado 
sustentáculo da mansarda 
obstáculo da perspectiva. 

Nele a chuva acontecia 
aspergindo ocres mais vivos 
empapando ervas esquecidas 
cantando com as telhas liquidamente 
percutindo folhetas e caleiras 
criando manchas tão incoerentes nas paredes 
de onde podia emergir qualquer objecto. 

E havia a Dona Laura 
senhora distinta 
e sua criada Rosa 
que ao nosso menor salto 
lesta vinha avisar 
que estavam lá em baixo.

as pratas a abanar no guarda-louça 
O caruncho repicava nas frinchas 
alongava as pernas 
a casa envelhecia. 

Na rua das traseiras havia um catavento 
veloz nas turbulências de inverno 
e eu rejeitava da boneca 
a imutável expressão. 

A minha mãe fazia-me as tranças 
antes de ir para a escola 
e dizia-me muitas vezes. 

Não olhes para os rapazes 
que é feio.
 
 FILIGRANA (Hélder Leal Martins)
É na alquimia dos olhares
que os gestos se misturam
as palavras se calam
e o silêncio fecunda as bocas
com a líquida melodia
que inunda a pele 
e funde os corpos
numa vibração uníssona
de prazer indivisível
superlativa comunhão
filigrana de paixões
sem calendário.

11/09/2017

CALÇADA DE CARRICHE ( António Gedeão )

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.

Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

07/09/2017

O CORPO ( Maria Teresa Horta )


É pêssego
Tangerina
E é limão
Tem sabor a damasco
e a alperce
Toma o gosto da canela
de manhã
e à noite a framboesa que se despe
De maçã guarda o pecado
e a sedução
Do mel
o açúcar que reveste
Do licor
a febre no seu rasgão
me invade me inunda e me apetece
Mergulho depressa a minha boca
e bebo a sede
que em mim já cresce
Delírio que me enche
de prazer
tomando o ponto num lume que humedece
Devagar mexo sem tino
as minhas mãos
Provando de ti
o que de ti viesse
O anis do esperma
o doce odor do pão
que o teu corpo espalha e enlouquece.

O SEGREDO (Maria Teresa Horta)

Não contes do meu vestido
que tiro pela cabeça
Nem que corro os cortinados
para uma sombra mais espessa.

Deixa que feche o anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas pernas
e a sombra do meu poço.

Não contes do meu novelo
nem da roca de fiar
Nem o que faço com eles
a fim de te ouvir gritar.

AMÊNDOA AMARGA ( Maria Teresa Horta )


Esse travo inteiro
a amêndoa
amarga
A ameixa
a doce a ferver no tacho
Esse travo na língua
a fermentar no corpo
A febre a nascer
a crescer debaixo
Em baixo...
a saia a subir nas coxas
e esse cheiro mais grosso, se entreabro
As pernas os lábios
e o gosto
onde o sabor da amêndoa se torna mais
amargo
É esse o momento
o instante exacto
em que tudo se prende
ao gesto sem sentido
A calda no ponto
deixa a língua em brasa
E eu tiro pela cabeça
o meu vestido.
CICUTA (Maria Teresa Horta)
Debruça-te, amor
e colhe-me a manhã
bebe-me o hálito
morde-me os gemidos
eu sou o copo
de cicuta
(o vinho)
com o qual envenenas
os sentidos.

05/09/2017

 TUA PELE (Carlos Eduardo Leal)
Quero conjugar um verbo em tua pele
e inventar novas palavras para o teu corpo.
Eu-pele
tua-pele
dorso azulado
tua pele em mim
roçando sentimentalidades
lubrificando estados da alma.
Quero conjugar um verbo em tua pele
em teus cabelos negros
em tua boca rubra
e deixar escorrer
este verbo pelo teu corpo
para transformá-lo em carne
saborosa
saboroso encontro
de peles delícias
nos olhares conjugados.
Quero conjugar um verbo em tua pele
úmida, quente
me perder em sonhos
só para te achar em cada um deles e
realizar com você a loucura,
declinação dos meus sonhos.
Quero conjugar um verbo em tua pele
sem mais nenhum pré-texto
só para te fazer feliz
só para sentir minha inscrição
na tua pele: 
mulher da minha escrita.

04/09/2017

CONHEÇO O SAL (Jorge de Sena)


Conheço o sal da tua pele seca
Depois que o estio se volveu inverno
De carne repousada em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
Quando das bocas se estreitavam lábios
E o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
Os louros ou cinzentos que se enrolam
Neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minhas mãos
Como nas praias o perfume fica
Quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
Da tua língua, o sal de teus mamilos,
E o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
Ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
Um cristalino pó de amantes enlaçados.
PARA TE VER É LONGA TODA ESPERA (Jaci Bezerra)
Há uma serra no teu peito 
feita de sonho e de distância. 

É nessa serra que me deito 
com tua luminosa infância. 
Ao te esfolhar, na tarde branca, 
me extravio nas tuas ancas. 

Habitando a paisagem branca 
na curva dessa serra deito. 

Assim, montando as tuas ancas, 
cavalgo os sonhos do teu peito. 
Depois, retido na distância, 
na cama acendo a tua infância. 

Nos veludos da tua infância 
qualquer montanha é pura e branca, 
claro verão que, na distância, 
cintila sobre tuas ancas. 

É minha a serra do teu peito 
quando à sombra do teu corpo deito. 

Sobre os lençois, quando me deito, 
meu coração é a tua infância. 
Eu, pelas serras do teu peito, 
sou um menino na distância, 

cavalgando, na tarde branca, 
os girassois das tuas ancas. 

Nos extremos das tuas ancas 
cavalgo as serras do teu peito. 
O teu corpo, na tarde branca, 
é o meu lençol quando me deito. 

Uma criança, na distância, 
sou a serra da tua infância. 

Quero galgar serra e distância 
nas tuas mãos de nuvens brancas, 
do mesmo modo quero a infância 
e os girassois das tuas ancas. 

A mim me basta, se me deito, 
morrer nas serras do teu peito.

POEMA ( Mário de Cesariny )


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura.

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

AVE BREVE DOS SEIOS (João dos Sonhos)


Ave breve dos seios em voo
florindo nos galhos
que esta voz velou.

Ave breve do pasmo pousado
neste sentir-te irmã terrena
beijo-te a carne como quem esquece o voo.

Ave breve do canto sorvido
neste calar-te serena
sinto-te a carne pela carne que sou.

Ave breve da espessura
que um vento rasteiro
revolve e afaga.
De mim ascendem raízes
como um ramo derradeiro
num silêncio sem destroços.

Ave breve que o instante esmaga
neste pregar-te de músculo e ossos.

SETE LUAS ( Eugénia Tabosa )


Esta noite sete luas,
sete luas cheias,
rolaram juntas nos céus.
Dançaram nuas 
sem pudor nem véus.
Vieram as estrelas,
as fadas e os anjos
deram-se as mãos
e fizeram roda
à roda da lua
sete vezes branca.
Vem, meu amor,
escuta seu canto.

NO RIMAR DA SEDUÇÃO ( Newton de Lucca )

NO RIMAR DA SEDUÇÃO (Newton de Lucca)
Os meus medos –
perdidos nas delícias 
de tua fruta.

Os meus dedos –
nas carícias envolvendo
teus receios.

Meu desejo firme
como rocha
no pleonasmo sem fim
de tua gruta.

E ainda por cima
de sobra a minha língua
depositada sempre nas últimas sílabas
de teus anseios.

O PAPEL, A MESA, O SOL, A PENA (António Ramos Rosa)

O papel, a mesa, o sol, a pena.
Ao lado, a janela. E nada tenho
e nada sou que escrevo. E nada espero
de quanto espero.

Enquanto escrevo não sou nem mesmo quero
não escuto nem palavras nem silêncio.
Alinho palavras mas ainda não caminho.
Estou a uma mesa pobre sem movimento.

O papel, a mesa, o sol, a pena.
Nada começa, nem à sombra respiro.
Tudo é distinto e claro.

Tudo é certo ou obscuro. Em vão caminho.
Não quero esperar,
não quero navegar num mar fácil de palavras.
Quero caminhar somente com o corpo que sou,
quero, sem querer, ser o próprio sangue,
músculos, língua, braços, pernas, sexo,
a mesma certeza oculta e única, tantas vezes clara,
a mesma força que nos pulsos aflora, tensa,
a mesma noite aberta que a todo o dia estendo,
a mesma alta, elástica dança de um corpo vivo!

Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.

Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.

Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.

Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.

SOMOS O MUNDO ( Edgardo Xavier )

No silêncio em ti sinto a terra arada.
As palavras separam e entre a tua e a minha pele
toda a distância doi
toda a roupa é um excesso intolerável.
Para tanto apelo os dedos são poucos
e a boca falta à respiração atropelada.
Se pudesse, engolia-me em ti
mas espero pela montanha, barca de fogo, céu de guerra
e já lacrimosa lança aterra montes, avança e recua, cavalga e para.
Foge, regressa, tem sede e tem pressa.
Sente de ti a surda voz das entranhas,
línguas e manhas, unhas e dentes, águas, chamas inclementes
e a morte que se anuncia em crispada libertação.
É no teu corpo a minha rua, a porta do sol, a estrada.
É em ti que nasce o mar, a canção, a toada.
Sozinhos somos o mundo na madrugada.

 AUTO DA CAIXA DO INFERNO (Renato Filipe Cardoso)
a menina da caixa
deixou passar a embalagem de medo
deixou passar o kit de solidão
deixou passar o sortido de desalento
sem registar

deixou passar a promoção de carícias e flores
deixou passar o dois-em-um de beijos e chocolates
deixou passar amor
sem registar

a menina da caixa
deixou passar um escadote que levaria ao céu
sem registar

deixou passar o sítio exacto de cada palavra
deixou passar surpresa em miniatura
deixou passar cócegas de outros mundos
sem registar

com o olhar a menina da caixa
dá troco em rebuçados
tem tatuado no coração um código de barras
mas o código de birras do patrão
que deixa passar o céu sem registar
pode fazê-la quebrar em caso de emergência.