22/01/2018

SIMS ( Nálu Nogueira )


Eu quero sims
sims na tua boca
na tua pele
no meu cabelo esparramado
em travesseiros
sims em sucessão
estroboscópica
no meu olhar caramelo
nos meus pelos
nas gargalhadas que darei
- e darei, acredite-me.

Sims brotando roucos
na garganta
escapulindo pelos
lábios, a língua
provocante procurando
sims na tua boca
no gosto da tua boca
no perfume que a tua pele
exala, no teu olhar que
inebria.

Sims que quero ver
na chama que arde
trêmula, nas sombras,
sentir os sims nas mãos
que passeiam lânguidas
ávidas, a minha pele
de seda, a tua masculinidade
o teu suor, o meu suor
de quem é? De quem são?
os sims que ouço, de quem?
sinais, paixões
essas estrelas, de quem?
esse luar no cristal
esses cabelos abundantes
que cobrem teu rosto
percorrem teu corpo.

Sims para cada parte
que minha boca vasculha
meus olhos nos teus
olhos sims!
nas bocas se confundindo
na língua que brinca
comigo
sims nas pernas
entrelaçadas
nas mãos e nas unhas
riscando as costas, sims!
o corpo em arco, olhos
fechados em sims,
gemidos,
sims de portas escancaradas.
PALPITANDO ALUCINADO (Ana C. Pozza)
Não bateu inspiração.
O que me move
É esta enlouquecida paixão
Que dispara o coração
A cada suspiro de saudade
Quando aumenta a vontade
De encontrar os doces lábios teus.


E todo o meu corpo,
Palpitando alucinado,
Volta-se a esta saudade
Espreguiçando-se num cansaço
Só pra ter o teu abraço
Enlaçando apertado
Todo o desejo meu.

CONTENDA ( Walter Dimenstein )

Começa a doce contenda
As tuas partes pudendas
Túrgidas e deslisantes
Abarcam meu corpo fálico
Semipétreo e pulsante
E flui o êxtase mágico
Com murmúrios e caricias
Ó que sublime delícia
Logo após nova contenda
As tuas partes pudendas.

DEDOS DO SILÊNCIO ( Rosy Feros )


Vem...
          Me toma à beira da noite,
          caminha por mim
          com seus passos molhados,
          despeja seu rio no meu cálice
          – pois minha emoção é só água.

Vem...
          Que eu lhe dou um trago
          deste meu vinho guardado,
          destas minhas uvas
          frescas de inverno.
          Que eu derramo em gotas meu perfume
          pelos quatro cantos do seu corpo,
          vestindo sua pele com a camurça
          da nudez e do silêncio.

Vem...
          Deita e me canta,
          sente meu desejo
          se esgueirando pelos seus dedos,
          veleja sem bússola
          pelos meus sentidos,
          me olha como quem pede lua.

          Deixa eu sussurrar minhas folhas,
          soprar minhas pétalas
          pelo seu peito de relva,
          pelo seu solo macio.
          Vem... Não volta,
          esquece a hora morta
          do cotidiano de sempre.
          Me toca feito música
          e deixa eu cantar meu bolero
          pelas suas curvas de carne.

          Sinto-me inocência
          passeando por suas alturas,
          por seus andares cheios
          da mais noturna noite densa.

          Desvenda essa face molhada
          e me mostra a sua vertente original
          de emoção-fêmea pura.
          Que eu o espero na branca paz
          do meu ventre adormecido,
          dos meus braços plenos
          de fogueiras e cantigas.

Vem...
          Que eu desfolho
          toda essa sua vontade nua,
          que eu desperto
          todo esse seu lado cigano.
          pois o meu leite é morno
          e é rosa franca meu sorriso.
          Deixa seu barco
          navegar pelo meu leito,
          que eu carrego no peito a ânsia
          de hastear a bandeira do infinito.

Vem...
          Deita. Me namora.
          Me afoga no espelho de luz
          dessa madrugada afora,
          me diz que no nosso tempo
          não há tempo nem hora,
          que eu não aguento
          a flor do sexo que arde
          nas entranhas de mim.


          Deixa que eu amanheça
          na espuma dessa sua onda quente,
          deixa sua emoção fluir
          da garganta num repente.
          Que eu carrego nos olhos de relento
          a voz que lhe pede a terra
          e que lhe entrega o mar.
MINHA  MULHER (Calex Fagundes)
A minha mulher
tem mistério insondável,
recato impenetrável
aos olhos voyeurs.

A minha mulher,
tem uma nudez invisível
e um olhar transparente
só para o que quer.

A minha mulher
tem o encanto das fadas
e a magia das bruxas
quando estamos em nós.

Ela sabe fazer-se inteira
nunca está em pedaços
sabe todas perícias
atar e soltar nossos nós.

Nela, o meu corpo presente
é mais do que tudo,
do eterno, um estudo,
quando estamos a sós.

Ela tem a magia dos celtas,
obtém a têmpera correta,
de traz-nos o instante
de toda eternidade.

Ela tem o erotismo dos anjos
o silêncio dos sábios
ao dizer o que é
ser a minha mulher.

SONHEI COMIGO ( Eugénia Tabosa )


Sonhei comigo
esta noite
Vi-me ao comprido
Deitada
Tinha estrelas
nos cabelos 
em meus olhos
madrugadas
Sonhei comigo
esta noite
como queria
ser sonhada
Senti o calor da mão
percorrendo uma guitarra
De loge vinha um gemido
uma voz desabalada
Havia um campo
de trigo
um sol forte
me abrasava.
E acordei
meio sonhando
procurando
me encontrar
Quando me vi
ao espelho
era teu
o meu olhar.

PARIS ( Eugénia Tabosa )


Caminhavas lento 
o corpo solto 
quase displicente 
à volta do rosto 
cabelos dourados 
pelo sol poente. 

Imaginei-te nu 
qual estátua viva 
apenas saída 
do museu em frente. 

E ali fiquei parada 
no banco da praça 
olhando esquecida 
de encobrir o olhar. 

E fui te despindo 
sonhando acordada 
sem me perguntar 
de tua vontade. 

Passaste sorrindo 
atrasando o andar, 
como se estiveras 
num espelho a entrar.

ORGASSEMA ( E.M. de Melo e Castro )


de semântica sêmea
se insinua o sêmen
na lacona lagoa lacunar
e da sádica sede se ressente
o sentido
no sentido cunar.

se sádica ou sábia
quem o saberá?
Se salubre salgado
o teu sabor a odre
é a onda do útero
é terra que remorde
a espera de esperma
nas ásperas paredes.

e o significado vem
da fricção rítmica e formal
entre as mucosas rubras
do pênis, da vulva, da boca 
ou da anal.

VISITA (De Paula,W.J.)


Gosto de morar em você 
De me ter entre suas negras colunas. 
Gosto de me ter em você, 
Escancarando essa porta hospitaleira, 
Passeando, perdido, pelo corredor. 
Insano, feliz 
Entrando e saindo. 
Saindo e entrando, sem destino. 
Suando, umedecendo, molhando. 
Até me derramar em contentamento 
No mais íntimo dos seus aposentos.

Adoro morar em você, meu lar.

MAR GLU-GLU ( Luiz Silva / Cuti )


bunda que mexe remexe e me leva 
num belo novelo de apelo e chamego 
me pego a pensar que essa vida 
precisa envolver como tu 
nesse dengo gostoso que nina e mastiga 
meu olho que vai atrás 
sonho carnudo embalando as ondas ou dunas colinas montanhas veludomoventes do caminhar 
balanço de exuberância a marolar a distância 
a bunda é mergulho e murmúrio no mar glu-glu 
a forma do espaço repleto e nu.

GEOMETRIA BIDIMENSIONAL ( Miriam Alves )


Confluência das coxas 
Encontro pleno da geometria 
Há um triângulo isóscele 
triângulo isóscele 
Triângulo isóscele pede 
isóscele padê 
pode
pede posse 

(padê)

DOIS CORPOS ( Roseli Nascimento )

Dois corpos
(em chamas)
Fez-se a nudez
Ávidos
À
Vida

Em um mergulho
Solar

LUZ NA URETRA ( Luiz Silva / Cuti )


O coração na cabeça do pênis
sístole e diástole sou-te
na vagina
e
num voo riacho
espalho-me
via láctea
no teu
infiníntimo.

20/01/2018

ONÍRICO ( Ana Horta )

abre-me o sexo
como um livro
para ler com os olhos
e os dedos em êxtase
cada corpo é um livro

para leitores ávidos.
Derrama o mel dos teus olhos
na tesão das páginas
Dentro das paredes brancas do quarto
só tu existes
E toco-te apenas a contracapa da vida!
Deixaste um sorriso oblíquo
numa das páginas marcada
com o canto dobrado
Vou contar-te um sonho antigo
da adolescência do corpo:
Há uma negra hermafrodita dançando nua
em torno de uma fogueira
o cabelo curto em caracóis fortes 
como a púbis
a pele suada, brilhando
o pénis enorme, erecto
os seios pequenos e firmes.
A música tribal imparável como o desejo..
a fogueira arde
deita fagulhas sob as estrelas
e a negra dança suada
sob os meus olhos suados.
Sempre que tenho cinzas sobre a pele
ela volta a acendê-las
com a sua dança louca
repete o suor do mel
o som dos tambores.
Agora,
estás de cócoras olhando o fogo
vestido com trapos negros
Sorris,
os teus dentes atravessam a fogueira
e rasgam-me os seios
como madeira em brasa.

16/01/2018

MUSA  HÍBRIDA (Caetano Veloso)
musa híbrida
musa híbrida
de olho verde e carapinha cúprica
cúprica cúprica cúprica
onça, onça.

a minha voz tão fosca
brilha por teus lábios bundos
a malha do teu pelo
dongo, congo, gê, tupi, batavo, luso, hebreu e
mouro
se espalha pelo mundo
vamos refazer o mundo
teu buço louro
meu canto mestiçoso.

tu, onça tu
eu, jacaré eu.
(Foto: Ildi Silva)

08/01/2018

Por Nuno Júdice, in Navegação De Acaso; Dom Quixote, 2013.

Faz-me ouvir o teu canto, o eco
dos passos sob a negrura das abóbadas, e
o perfume de uma rosa de pele no fundo
dos tapumes. Envolve, ó deusa da tarde,
com a seda do teu corpo os corpos
que a noite deixou exaustos, e abraça
com um rumor de ausência os solitários
inquietos, como se tivessem perdido
o rumo do inverno nas linhas interrompidas
das suas mãos.

03/01/2018

POEMA DA COMUNHÃO DA CARNE (Márcio Barbosa)


Querer-te como rima preciosa uma pedra esculpida um ritual de amor 
e arte em negrura colorida. Sim 
querer-te o corpo como um templo 
e cultuar-te - assim sagrada - 
a salgada e rubra hóstia da vagina.

VISITA (De Paula, W.J.)


Gosto de morar em você 
De me ter entre suas negras colunas. 
Gosto de me ter em você, 
Escancarando essa porta hospitaleira, 
Passeando, perdido, pelo corredor. 
Insano, feliz 
Entrando e saindo. 
Saindo e entrando, sem destino.
Suando, umedecendo, molhando. 
Até me derramar em contentamento 
No mais íntimo dos seus aposentos.
Adoro morar em você, meu lar.

SAFARI ( Jamu Minka )


Aquela tigresa é tanta 
que me almoça e janta 
faço de conta que a sala é ponto 
na geografia da África 
e o tapete vira suave savana ao entardecer 
quando a pele da noite vem camuflar 
nosso safari safado.
TESÃO (Regina Helena da Silva Amaral) 
Teu falo é um facho 
Fascinante. 
Eu me encrespo 
Sempre. 
Teu facho é um fato 
Irreversível! 

02/01/2018

 DELÍCIA  NUA (Joanna / Tharcísio & Tony Bahia) 
Tenho mil desejos convertidos em um só 
Loucos, verdadeiros, que me fazem bem melhor 
Foi uma doçura cristalina que nos fez 
Quero essa loucura, menina, outra vez.

São esses seus beijos que atiçam sensações 
E que alucinam o delírio das paixões 
Faz daquele jeito que ilumina o meu prazer 
Quero essa delícia, menina, com você.

Fale baixinho no meu ouvido 
Aguce mais e mais o meu sentido 
Faça carinho, não pare nunca 
Meu amor.

A delicadeza dessa hora nua 
Você é minha, a vez é sua outra vez 
A delicadeza dessa hora nua 
Você é minha, a vez é sua outra vez.

Deliciosa, sim 
Deslizo a minha mão 
Me enlouquece assim 
Quando você diz não. 


ENLACE (Cecília Vilas Boas)
Balanço no impulso brando do divagar
Dou colo à lua que me ilumina o sonhar
Doce balançar este triste almejar
A vida enlaça, desenlaça, sem pudor
A melancólica utopia do amor
Encontro-me, desencontro-me
Nas marés que desenham o receio
Cogita a esperança na brandura do cume
E logo que clareia o dia
A tua boca volta à minha, morna, sensual

O teu abraço alimenta-me em cada alvorada
O meu corpo cede ao teu, neste tempo de ser nada
Reencontro-me desfragmentada
Num areal povoado de gaivotas
Banhada pelo mar que me beija a boca.

DESEJO (Fátima  Guedes)
Onda do mar vem me buscar na areia.
Quem sabe o que é o amor?
É o mar quando incendeia.
Fundo do mar sabe guardar segredo.
O amor vai me perder.
Do mar não tenho medo
Chega mais perto da minha pele nua.
O mar aberto espalha a luz da lua.
Raio de sol, gosto de sal no beijo.
Eu vivo no sabor da maré
Medo de amar, desejo.

01/01/2018

DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE– 10 (Hilda Hilst)

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica:
O amor, a fome, o átomo, o câncer.
Tudo vem a tempo no seu tempo.
Tenho pedido às crianças mais sossego
Menos risos e muita compreensão para o brinquedo.
O navio não é trem, o gato não é guizo.

Quero sentar-me e ler nesta noite calada.
A primeira vez que li Franz Kafka
Eu era uma menina. (A família chorava).
Quero sentar-me e ler mas o amigo me diz:
O mundo não comporta tanta gente infeliz.

Ah, como cansa querer ser marginal
Todos os dias.
Descansem anjos meus. Tudo vem a tempo
No seu tempo. Também é bom ser simples.
É bom ter nada. Dormir sem desejar
Não ser poeta. Ser mãe. Se não puder ser pai.

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica.
Mas o homem

Não cansa.

Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.