17/09/2023

DEDOS DO SILÊNCIO ( Rosy Feros )

 Vem…

Me toma à beira da noite,
caminha por mim
com seus passos molhados,
despeja seu rio no meu cálice
– pois minha emoção é só água.

Vem…
Que eu lhe dou um trago
deste meu vinho guardado,
destas minhas uvas
frescas de inverno
Que eu derramo em gotas meu perfume
pelos quatro cantos do seu corpo,
vestindo sua pele com a camurça
da nudez e do silêncio.

Vem…
Deita e me canta,
sente meu desejo
se esgueirando pelos seus dedos,
veleja sem bússola
pelos meus sentidos,
me olha como quem pede lua

Deixa eu sussurrar minhas folhas,
soprar minhas pétalas
pelo seu peito de relva,
pelo seu solo macio.
Vem… Não volta,
esquece a hora morta
do cotidiano de sempre.
Me toca feito música
e deixa eu cantar meu bolero
pelas suas curvas de carne

Sinto-me inocência
passeando por suas alturas,
por seus andares cheios
da mais noturna noite densa.

Desvenda essa face molhada
e me mostra a sua vertente original
de emoção-fêmea pura
Que eu o espero na branca paz
do meu ventre adormecido,
dos meus braços plenos
de fogueiras e cantigas.

Vem…
Que eu desfolho
toda essa sua vontade nua,
que eu desperto
todo esse seu lado cigano
pois o meu leite é morno
e é rosa franca meu sorriso.
Deixa seu barco
navegar pelo meu leito,
que eu carrego no peito a ânsia
de hastear a bandeira do infinito.

Vem…
Deita… Me namora…
Me afoga no espelho de luz
dessa madrugada afora,
me diz que no nosso tempo
não há tempo nem hora,
que eu não agüento
a flor do sexo que arde
nas entranhas de mim.

Deixa que eu amanheça
na espuma dessa sua onda quente,
deixa sua emoção fluir
da garganta num repente…
Que eu carrego nos olhos de relento
a voz que lhe pede a terra
e que lhe entrega o mar.

INTERLÚDIO ( Beatriz Caldas )

 Seus sons ainda provocam

Abalos sísmicos

Barulho de concha quando coloco
Em meu ouvido

Às três da manhã
Brigo com as quedas,
Falhas de volume

Brigo com o brilho
Da tela, nunca tão intenso
Para quem está longe

Minha língua
Arrasta no céu da boca
Tentando sentir qualquer
Resquício
Do gosto da sua

Procuro por digitais
Em minha pele
Enquanto deito nua

E nada traz
Você para o ponto
Propício para o impacto

O que chamam de distância
Nada mais é
Que a loucura se instalando
Entre atos.

É PERMITIDO PERDER - SE ( Gabriela Augusto )

 em ruínas,

seus lábios são o apocalipse
às sinfonias,
o silêncio é a calmaria
o contemplar do não dito,
perdido
entre suspiros.

o indizível enunciado
em extensões sintonizadas
é o réquiem dos morados
das profundezas
é a extensão do meu eu
intimamente carregado
de entrelinhas,
que insistem em permanecer
na ponta da língua
e escorregam para dentro de si.

a inundação presente até os joelhos
derramam-se lágrimas empíricas
os olhares já transbordam
força erótica
carnal e vivida
força intrínseca
perplexa,
alvoroçada,
química.
e compartilho segredos no silêncio,
em confissões perduras
em pernoites,
perdidas.

amantes das noites sublunares
a claridade da lua intensifica
o olhar doce
confuso
perdido,
e ilumina o que está escrito:
aos perdidos,
todos os caminhos levam
à um encontro.

A UMA TELA DE DISTÂNCIA ( Penha Souza )

 eu quero ver teu corpo

sem filtros, sem aplicativos

você está
a uma tela de distância

e os algoritmos
que permitem que eu te veja
não permitem que o tato
perceba as coisas
que só são vistas
pelo:

pegar

(eu preciso que fique evidente
a urgência desse toque)

logo eu
cheia de não me toques
quero ter você
em minhas mãos
nem que seja
apenas uma vez

me inebriar
nas curvas do teu corpo
sentir teu gosto
entender os ritmos
que te movem

quero memorizar
tua pele, tua textura
os cheiros epidérmicos
que por imagem
parecem de uma suavidade
tão imensa que sinto o ar
me tornar mais leve
apenas de te imaginar
tão de perto

mulher,
eu te quero tanto
que a palavra querer
parece não preencher
a expressão do desejo
que eu sinto
quando se trata de você

meus lábios
querem saber como é teu beijo
minhas mãos querem segurar nas tuas
e descobrir o encaixe capaz
de te segurar comigo

quero dormir com você
quero dormir em você
e quando acordar
ainda inebriada
por tua presença

te entregar amor

mas a uma tela de distância
tudo que minha mão alcança de você
são resultados desses algoritmos
que nos conecta uma a outra

de forma remota

enquanto eu me remonto
na tentativa de engrandecer
e obter um tamanho
que me permita alcançar:

você.


CANTO DE PÁSSARO ( Valentina Maciel )

 foi bem-te-vi, passarinho assim

que me cantou no ouvido e teu dedo, assim
bem dentro de mim voava em-bebida

te encho te encharco e é nítido que tem dureza
na boca macia enquanto tu diz
me olha, quero engolir

e foi um galho, de árvore assim
que me arrancou um truncado
um jeito-gemido de mexer coberta
um calor que sobe desde o peito
do pé e vai até o cabelo
enrolado na mão enorme

teve um hiato, cores e formas
uma gostosa tinta púrpura
amarela cobalto fazendo
onda onda onda
deixando marcas costurando líquida
miríade de sensações-pinturas
nas nossas mãos-pincéis

cantando bem alto
na minha tela-interna
e assinando embaixo:

ternura é coisa que se faz com a boca.


CHAMAMENTO ARISCO ( Valentina Maciel )

 queria que começasse bem junto ao meu lado

como se fôssemos
uma voz
(chama uníssono)

sempre gostei das palavras
com sono
quero dizer das que encaixam na língua
como se fôssemos
uma boca
(chama beijo)

uma força nas pernas que nunca tive
sabe a impotência de não saber ter braços?
como se tivessem
me atravessado
b a l e i a s
(chama peso)

carícia e carência, muda duas letras
mas me carregam
como se afogassem
como se eu pudesse
satisfazer
desejos
(chama libido)

ai, cansa ser
(e invocar)
mulher e bicho

t u d o
ao mesmo tempo.

DE VOLTA AO CORAÇÃO ( Chris Ritchie )

 ciclos

círculos
oculares
cerebrais
os fios dos cabelos
as pontas dos dedos
as meias-luas nas unhas
crescendo redondas
mamilos
orifícios
coxas
canais
você pode fechar os olhos,
pode olhar só seu umbigo,
sair de cena quando as nuvens de sol
espiralarem sobre os lagos,
sobre as pétalas e a boca dos vulcões
e ainda assim sentirá seu sangue correr por cilindros
de volta ao coração.
desde o átomo ao óvulo,
atravessando as íris,
o universo conspira contra os ângulos retos,
as superfícies planas
e as permanências.

MIRAGEM ( Deni Maliska )

 E fê me ro

Desejo meu
Sentir o sabor
No prazer do teu corpo

Vislumbre
É o proibido
No segredo do mútuo desejar
Desnudar

Tiro a roupa
Se você quiser
Mostrar a transa
Me encanta

Me goza
Me lambe
O toque
Já vem por pensamento

Me pega sem medo
Vem comer meu gosto vivo
Sem receio
Vem logo se entregar
Ao meu encanto proibido

Sem medo
Vem logo me transformar em perdição

SUBLIME III ( Deni Maliska )

 contemplação, meu tesão

pela risada tímida
lábios sensuais
encaixe perfeito
na minha vulva

sentímos
los besos
cogemos

química: quando você está na minha cama
por que foge? atração

fazer seu retrato com minhas mãos
nosso ritmo ser orgasmo cardíaco
meu vinho após desenhar seu traço

sua mão que configura meu corpo
esculpido
vamos ser estátuas nuas

SUBLIME II ( Deni Maliska )

 Se me encanto

Com o tocar da tua pele
É nosso delírio desnudo
Carnal, profundo

Se sou apenas um sentimento
Ou erotismo encarnado
Então, que eu tenha seus lábios
Como ritual à Dionísio

Se transformo vida em amor
Então que seja essa a minha fama
Ser tragédia escrita
Transcrições em forma de poesia

SUBLIME I ( Deni Maliska )

 Eu só queria dormir acordada

Por entre seus braços
No encaixe de quadris
Com teu perfume de anis

Todo dia, dia todo
Ao despertar
Me excito por um beijo
Um amor pra ser devaneio

Eu só desejo a boca e o vigor
Não acordar mais na cama sem teu calor
Nessa insana vida dita, travestida
Na solidão de estar tão longe de dois.

FRÍGIDA ( Cesário Verde )

 I

Balzac é meu rival, minha senhora inglesa!

Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!

Mas ele eternizou-lhe a singular beleza

E eu turbo-me ao deter seus olhos cor das ondas.

 

II 

Admiro-a. A sua longa e plácida estatura

Expõe a majestade austera dos invernos.

Não cora no seu todo a tímida candura;

Dançam a paz dos céus e o assombro dos infernos.

 

III

Eu vejo-a caminhar, fleumática, irritante,

Numa das mãos franzindo um lençol de cambraia!

Ninguém me prende assim, fúnebre, extravagante,

Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

 

IV 

Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,

Mas nunca a fitarei duma maneira franca;

Traz o esplendor do Dia e a palidez da Noite,

É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

 

V 

Pudesse-me eu prostar, num meditado impulso,

Ó gélida mulher bizarramente estranha,

E trêmulo depor os lábios no seu pulso,

Entre a macia luva e o punho de bretanha!

 

VI 

Cintila ao seu rosto a lucidez das jóias.

Ao encarar consigo a fantasia pasma;

Pausadamente lembra o silvo das jibóias

E a marcha demorada e muda dum fantasma.

 

VII 

Metálica visão que Charles Baudelaire

Sonhou e pressentiu nos seus delírios mornos,

Permita que eu lhe adule a distinção que fere,

As curvas da magreza e o lustre dos adornos!

 

VIII

Desliza como um astro, um astro que declina,

Tão descansada e firme é que me desvaria,

E tem a lentidão duma corveta fina

Que nobremente vá num mar de calmaria.

 

IX

Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,

No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!

E, ao persegui-la, penso acompanhar de longe

O sossegado espectro angélico da Morte!

 

X 

O seu vagar oculta uma elasticidade

Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,

E a sua glacial impassibilidade

Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

 

XI 

Porém, não arderei aos seus contactos frios,

E não me enroscará nos serpentinos braços:

Receio suportar febrões e calafrios;

Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

 

XII 

E se uma vez me abrisse o colo transparente,

E me osculasse, enfim, flexível e submissa,

Eu julgara ouvir alguém, agudamente,

Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!