13/01/2024

AS PESSOAS SENSÍVEIS (Sophia de Mello Breyner Andresen, "Livro sexto")

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Àquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

GULOSA DE META FÍSICA ( João Rios, in "Livro das Legendas" )

 noviças de são tristão

não mirreis vossas entranhas
não percais vosso quinhão
com bordados e tisanas

sabede novas de luzia
que bem professa
nas naus do grande
gama

nas naus do grande gama
e sem laivos de tormenta
entrega soror as mamas
aos famintos de pimenta

aos famintos de pimenta
e com ares de timoneiro
a que a irmã acrescenta
as graças do seu traseiro

as graças do seu traseiro
o maná da sua fornalha
que neste amor pioneiro
à luzia nada lhe falha

à luzia nada lhe falha
nem a flauta nos beiços
e saltando como gralha
dá-lhes com força nos seixos

A MEU FAVOR ( Alexandre O'Neill )

 A meu favor

Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

DIANA NO BANHO ( Vasco Graça Moura )

 via diana

pelo buraco
da fechadura.
era jacuzzi?

banho de espuma?
estava nua,
brilhava flava,
tinha o cabelo

puxado acima,
belas maminhas
à tona de água,
olhos fechados

deliciada,
os pés nas bordas
dos azulejos.
e marulhava

de leve a água,
num chape-chape
de mansa vaga,
como se a lua

mais perfumada
ali pousasse
na porcelana
enevoada.

logo se deu
por servo dela,
para cantá-la,
ensaboada,

e se pudesse
dar-lhe umas quecas
vezes sem conta,
fora da água.

logo por dentro
os seus desejos
o devoraram
espreitador

desprevenido,
dos próprios cães
inda comido.
quanto a diana,

não deu por nada,
não o puniu,
não se vingou.
não precisava.


ETERNO OUTONO ( Vasco Gato )

 Estou com a idade pousada nas mãos.

Explico-me com dedicação aos berços fundos
onde cada coisa dorme o seu medo de morrer.

Há na tristeza um perigo de terminar:
o eterno outono parece belo
a quem perdeu todas as sementes.

Pergunta-se um nome e ninguém responde.
Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?

MÍMICA ( Vasco Gato )

 Pode a noite doer

se as mãos tocarem a sua própria pureza
e houver um ponto negro ao centro

Quando no pulso
parece crescer uma pequena solidão
como se o espaço se afastasse e de repente
um véu cobrisse
todas as memórias futuras

Pode a noite tremer assim
para que os muros se abram ao meio

Para que a transparência dos gestos
publique essa mímica oculta
antiga intimidade

REGRAS DO ESQUECIMENTO ( Vasco Gato )

 Não esqueças sobretudo a armadura

da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.

Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras. 

Não esqueças sobretudo de olhar devagar.

12/01/2024

ASSOVIO ( Cecília Meireles )

 Ninguém abra a sua porta

para ver que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

Ela não sabe o meu rumo,
eu não lhe pergunto o seu:
não posso perder mais nada,
se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
— a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

10/01/2024

TUDO OU NADA ( Maria Teresa Horta )

 Com uma mão

dou-te tudo
com a outra descubro o nada 

uns dias sou
de veludo
outros de raiva vidrada 

Entre a escrita onde me digo
e na escrita 
onde me iludo 

há a escrita onde me escondo
e a outra 
de meu abrigo

Tendo a razão como escudo
na porfia do disfarce
eu escrevo a ventania

 pelo meio da tempestade

POEMA ( Maria Teresa Horta )

 Deixo que venha

se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

CAMINHO ( Maria Teresa Horta )

 Na boca as palavras

encontram-se
equilibram-se

deslizam na língua
são leite
ou saliva

Persistem resistem
objectos de mirra
com ancas de vidro
dunas perspectivas

são passos
caminhos

Poemas sensíveis

Na boca as palavras
adoecem
insistem

Razões obscuras
moles nas gengivas
rumores imprevistos

São docas antigas

Vaginas
ou quistos

BALADA DO FILHO DA PUTA – 2 ( Alberto Pimenta )

 II

o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.


o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.


por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.


todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.


é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.



CANÇÃO ( António Cabral )

 Ela caminhava toda,

tudo nela caminhava.

Seu corpo de húmida uva
abandonava-se em rios.

Divergência convergente,
uma árvore fluente.

Átrio de rosas, colmeia,
espiga de água seria.

Toda de sim contornada
de não que de sim ardia.

MUDANÇAS ( Eva Vaz )

 Agora saio com putos

mais novos
e drogo-me muito mais.

E já não me incomoda
que os homens me olhem
imaginando possível
a carne.

Chamam-me para os sanitários
com suas embolias seminais,
suas misérias de sábado à noite.
Com caramelos nos bolsos.

E tudo está por fazer.
Que não se acabe a noite.
Que não se acabe esta
noite maldita.
Baila,
baila...
Que não termine esta
mentira.

OLHO-TE PELO REFLEXO ( Ana Luísa Amaral )

 Olho-te pelo reflexo

do vidro
e o coração da noite

e o meu desejo de ti
são lágrimas por dentro,
tão doídas e fundas
que se não fosse:

o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.

SARÇA ARDENTE ( Ana Luísa Amaral )

 Um toque leve,

e eu perder-me-ei
- pelas planícies todas do azul,
pelos campos mais longos
que quiseres,
em direcção a leste, a norte,
a sul

Um toque tão macio de rouxinol
que a tortura se apague,
um nome se incendeie
junto ao chão
e expluda com a tarde

Desliza-me na pele
o fio incandescente dos teus dedos,
que eu entrarei de frente
pelo sol,
e arderei no sol,
sem medo

MULHERES INFIÉIS (Agustina Bessa-Luís)

 O Porto tinha uma condescendência especial para as mulheres infiéis, se elas eram inteligentes bastante para não preferirem o amante aos deveres da sociedade.


Não se discutiam os gostos, logo que não se cometessem erros com eles.

E era um erro enternecer-se por um destino quando se tratava apenas de amar um homem, coisa breve e sem muito de herético. 

TE LEIO ( António de Almeida Mattos )

 Te leio

poro a poro


e reescrevo
a golpes de cálamo


E ternura

VENHO DE DENTRO, ABRIU-SE A PORTA ( Luiza Neto Jorge ) in A Lume, Assírio & Alvim, 1989

 Venho de dentro, abriu-se a porta:

nem todas as horas do dia e da noite

me darão para olhar de nascente

a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo

de só imaginá-la a luz fulmina-me,

na outra face ainda é sombra.

 

Banhos de sol

nas primeiras areias da manhã

Mansidões na pele e do labirinto só

a convulsa circunvolução do corpo.

APELO ( Luísa Dacosta )

 Atravessa os campos da noite

e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

CHAMAMENTO ( Luísa Dacosta )

 Da margem do sonho

e do outro lado do mar
alguém me estremece
sem me alcançar.

Um bafo de desejo
chega, vago, até mim.
Perfume delido
de impossivel jasmim.

É ele que me sonha?
Sou eu a sonhar?
Sabê-lo seria
desfazer, no vento,
tranças de luar.

Nuvens,
barcos,
espumas
desmancham-se na noite.

E a vida lateja, longe,
num outro lugar.

06/01/2024

A UM JOVEM POETA ( Manuel António Pina )

 Procura a rosa.

Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser
que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças
como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.
Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da razão
e passagem para o que não se vê.

05/01/2024

POEMA DE AMOR ( Ruy Cinatti )

 Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar, 

tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,

nós olhando triste uma saudade imensa

num corpo de mulher metamorfoseada. 

 

Sou demasiado são para me esquecer

do tempo apaixonado que vivi nos teus braços

e bebo no teu um coração meu

adormecido no mar do meu cansaço

ou no rio das minhas secas lágrimas. 

 

Tardará muito, se é que as horas contam, 

ver-te, de novo, perto de mim, longe, 

mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto, 

um dia a menos, o da tua chegada. 

E assim me fico, rente ao horizonte,

abrigado da chuva numa cabine telefónica,

e ligo para ti - que número? - ninguém responde

do oceano que avança e retrai colinas,

o vulto de um navio, tu na amurada

acenando um lenço, ó minha pomba branca!

 

Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva

- as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... 

escurecendo os teus cabelos,

ou, se preferes, a minha boca neles 

carregada de ilhas, de nocturnos perfumes

que ateiam lumes, ó minha idolatrada, 

na minh' alma inquieta um outro bater d' asas

ou num jardim um leito de flores!