17/01/2024

UM OLHAR ( Kátia Cerbino )

Um olhar...
tudo foi fotografado.
Trago ainda na pele
o rastro do teu afago.
Meu seio,
qual monte de feno,
onde deitavas
a sonhar sereno.
Guardo nas entranhas
tuas impressões digitais.
Esquecê-las? Jamais.
Nos lábios,
o calor de uma febre terçã,
como o derradeiro beijo
de Camille em seu Rodin.


E NÃO NAVEGA MAIS RIO QUE SEU CORPO ( Antom Laia López )

 O nosso amor une-se subterrâneo

como as mãos agretadas de trabalho,
como os grãos de milho serodio,
como o río que no poço desemboca!

Nosso amor, sinal acesa nos espaços,
como os olhos que se abrem e se fecham,
como as lilás que tardias arrecendem,
como labres que se bicam fondamente!

O nosso amor, águas navegaveis surcando
nos seios frondosos da selvagem,
plenitude azul de tudos os anseios.

O nosso amor que se une subterrâneo
nas noites furiosas dos abraios,
fértil arvoreda na Fraga dos Esqueços.

E nom navego mais rio que o teu corpo!



16/01/2024

MAR SONORO ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

14/01/2024

O RIO APENAS DE LEVE ( António Osório )

 O rio apenas de leve

se mexia e virava:
menino dormindo,
suspirava de calor.

- Que sabes (disse Eva) da corrente
do teu sangue?
escuta em mim:
sentirás este fundo rumor do mar,
ondas que tocam na terra,
regressam e voltam
para teu corpo.

SALADA ( David Mourão Ferreira )

 Depois do sangue misturado,

depois dos dentes, dos lamentos,
estamos deitados, lado a lado,
e desfolhamos sofrimentos.
Temos trint'anos, mais trezentos
de sofredora exaltação.
É este o cabo dos tormentos?
Ai, não e não! Ainda não.
Saboreamos o passado
por entre os beijos mais violentos
e mais subtis que temos dado.
E o monumento dos momentos
oscila, desde os fundamentos,
a tão febril consagração.
Mas estacamos, sonolentos.
Agora, não. Ainda não.
Tudo se torna esbranquiçado:
eram azuis, são já cinzentos
os horizontes do pecado. 
Há nos teus ombros turbulentos
cintilações, pressentimentos.
Os nossos corpos descerão
para que abismos lamacentos?
Ah! não, e não! Ainda não!
Eis-vos, de novo, movimentos
que apunhalais a inquietação!
E assim unidos gritaremos
que não e não, que ainda não!

DE TI FIZ A HARPA (Albano Martins)

 De ti fiz a harpa e a lira,

a guitarra.
Outra música não sei.

13/01/2024

XLVI (José Gomes Ferreira )

(Finjo que não vejo as mulheres que passam, mas vejo)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda.

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.


AUTO - RETRATO ( Natália Correia ) in Poesia Completa

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

VASSALA SOLTA NO TEU PRAZER ( Camila Carreira )

 O meu olhar fundia-se em ti.

Vacilei de desejo quando te senti,
Cálido, cercada nos teus braços,
Meu corpo ofegou de ânsia,
Desabou rendido, estendido.
Eramos tão só tu e eu
E a tua pele na minha… ardiam.
Rastilhos febris que se consumiam
As tuas mãos possuíam-me.
O teu olhar penetrava-me.
E teus beijos iam dentro de mim,
E despojavam-me do mundo,
Éramos tão só, tu e eu, nada mais…
Afogueava-me o desejo,
E o prazer intenso de já te ter,
Raspou em mim como uma flecha a arder.
Incendiada, convulsa de prazer,
Entendi que era assim que queria viver
Em ti, por ti, mártir
Vassala solta no teu prazer

SONO DE PRIMAVERA (Jorge Sousa Braga )

 Adormeço sempre com o teu mamilo

entre os dedos da minha mão
E o meu sono é tranquilo
como o das rosas

A PROSTITUTA DA RUA DA GLÓRIA (Catarina Nunes de Almeida, in "Prefloração)

 Tanges a noite sem saber que a noite

é uma cítara com cordas de ferro
onde os insectos ferem as asas.
O teu canto arranha o azul da chama
e a cidade desperta para a dança:
um labirinto de minotauros
sorvendo o odor do primeiro tango -
um ténue resquício de feno escondido na nuca.

Ainda ontem foi lua cheia no teu ventre.
Sobrou um aquário onde os cegos vêm depenicar
a caspa dos pombos.
Hoje não saias, deixa-te ficar.

Pelos corredores as fêmeas largam o pó
das florestas quentes -
ténues resquícios de feno escondido na nuca.

Hoje não saias, deixa-te ficar.
Deixa dormir o teu sexo cansado de morrer.

BEIJO ( Pedro Abrunhosa, in "Canções" )

 Não posso deixar que te leve

O castigo da ausência,
Vou ficar a esperar
E vais ver-me lutar
Para que esse mar não nos vença.
Não posso pensar que esta noite
Adormeço sozinho,
Vou ficar a escrever,
E talvez vá vencer
O teu longo caminho.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

Leva os meus braços,
Esconde-te em mim,
Que a dor do silêncio
Contigo eu venço
Num beijo assim.

Não posso deixar de sentir-te
Na memória das mãos,
Vou ficar a despir-te,
E talvez ouça rir-te
Nas paredes, no chão.
Não posso mentir que as lágrimas
São saudades do beijo,
Vou ficar mais despido
Que um corpo vencido,
Perdido em desejo.

Quero que saibas
Que sem ti não há lua,
Nem as árvores crescem,
Ou as mãos amanhecem
Entre as sombras da rua.

ASSIM O AMOR ( Sophia de Mello Breyner Andresen ) in “Obra Poética”

 Assim o amor

Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa

POEMA DE AMOR PARA USO TÓPICO ( Nuno Júdice)

 Quero-te, como se fosses

a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa,
voz incerta de rosa.

AS PESSOAS SENSÍVEIS (Sophia de Mello Breyner Andresen, "Livro sexto")

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Àquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão."

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

GULOSA DE META FÍSICA ( João Rios, in "Livro das Legendas" )

 noviças de são tristão

não mirreis vossas entranhas
não percais vosso quinhão
com bordados e tisanas

sabede novas de luzia
que bem professa
nas naus do grande
gama

nas naus do grande gama
e sem laivos de tormenta
entrega soror as mamas
aos famintos de pimenta

aos famintos de pimenta
e com ares de timoneiro
a que a irmã acrescenta
as graças do seu traseiro

as graças do seu traseiro
o maná da sua fornalha
que neste amor pioneiro
à luzia nada lhe falha

à luzia nada lhe falha
nem a flauta nos beiços
e saltando como gralha
dá-lhes com força nos seixos

A MEU FAVOR ( Alexandre O'Neill )

 A meu favor

Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

DIANA NO BANHO ( Vasco Graça Moura )

 via diana

pelo buraco
da fechadura.
era jacuzzi?

banho de espuma?
estava nua,
brilhava flava,
tinha o cabelo

puxado acima,
belas maminhas
à tona de água,
olhos fechados

deliciada,
os pés nas bordas
dos azulejos.
e marulhava

de leve a água,
num chape-chape
de mansa vaga,
como se a lua

mais perfumada
ali pousasse
na porcelana
enevoada.

logo se deu
por servo dela,
para cantá-la,
ensaboada,

e se pudesse
dar-lhe umas quecas
vezes sem conta,
fora da água.

logo por dentro
os seus desejos
o devoraram
espreitador

desprevenido,
dos próprios cães
inda comido.
quanto a diana,

não deu por nada,
não o puniu,
não se vingou.
não precisava.


ETERNO OUTONO ( Vasco Gato )

 Estou com a idade pousada nas mãos.

Explico-me com dedicação aos berços fundos
onde cada coisa dorme o seu medo de morrer.

Há na tristeza um perigo de terminar:
o eterno outono parece belo
a quem perdeu todas as sementes.

Pergunta-se um nome e ninguém responde.
Onde fica essa ilha a que só chegamos por naufrágio?

MÍMICA ( Vasco Gato )

 Pode a noite doer

se as mãos tocarem a sua própria pureza
e houver um ponto negro ao centro

Quando no pulso
parece crescer uma pequena solidão
como se o espaço se afastasse e de repente
um véu cobrisse
todas as memórias futuras

Pode a noite tremer assim
para que os muros se abram ao meio

Para que a transparência dos gestos
publique essa mímica oculta
antiga intimidade

REGRAS DO ESQUECIMENTO ( Vasco Gato )

 Não esqueças sobretudo a armadura

da noite,
a aspereza das estrelas
quando os olhos são recentes
e a gravitação é como um poder
sucinto nas mãos.

Não esqueças sobretudo como os cereais
lavram os campos estafados, destilam
prodígio pelos sulcos da memória,
oferecem-te uma vida maior
em troca do sal
das pálpebras. 

Não esqueças sobretudo de olhar devagar.

12/01/2024

ASSOVIO ( Cecília Meireles )

 Ninguém abra a sua porta

para ver que aconteceu:
saímos de braço dado,
a noite escura mais eu.

Ela não sabe o meu rumo,
eu não lhe pergunto o seu:
não posso perder mais nada,
se o que houve já se perdeu.

Vou pelo braço da noite,
levando tudo que é meu:
— a dor que os homens me deram,
e a canção que Deus me deu.

10/01/2024

TUDO OU NADA ( Maria Teresa Horta )

 Com uma mão

dou-te tudo
com a outra descubro o nada 

uns dias sou
de veludo
outros de raiva vidrada 

Entre a escrita onde me digo
e na escrita 
onde me iludo 

há a escrita onde me escondo
e a outra 
de meu abrigo

Tendo a razão como escudo
na porfia do disfarce
eu escrevo a ventania

 pelo meio da tempestade

POEMA ( Maria Teresa Horta )

 Deixo que venha

se aproxime ao de leve
pé ante pé até ao meu ouvido

Enquanto no peito o coração
estremece
e se apressa no sangue enfebrecido

Primeiro a floresta e em seguida
o bosque
mais bruma do que neve no tecido

Do poema que cresce e o papel absorve
verso a verso primeiro
em cada desabrigo

Toca então a torpeza e agacha-se
sagaz
um lobo faminto e recolhido

Ele trepa de manso e logo tão voraz
que da luz é a noz
e depois o ruído

Toma ágil o caminho
e em seguida o atalho
corre em alcateia ou fugindo sozinho

Na calada da noite desloca-se e traz
consigo o luar
com vestido de arminho

Sinto-o quando chega no arrepio
da pele, na vertigem selada
do pulso recolhido

À medida que escrevo
e o entorno no sonho
o dispo sem pressa e o deito comigo

CAMINHO ( Maria Teresa Horta )

 Na boca as palavras

encontram-se
equilibram-se

deslizam na língua
são leite
ou saliva

Persistem resistem
objectos de mirra
com ancas de vidro
dunas perspectivas

são passos
caminhos

Poemas sensíveis

Na boca as palavras
adoecem
insistem

Razões obscuras
moles nas gengivas
rumores imprevistos

São docas antigas

Vaginas
ou quistos

BALADA DO FILHO DA PUTA – 2 ( Alberto Pimenta )

 II

o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


no entanto, há
filhos-da-puta
que já nascem grandes
e
filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos palmos,
diz ainda
o grande filho-da-puta.


o grande
filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.


por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em
ser
o grande filho-da-puta.


todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.


é o grande
filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa
para ser o pequeno filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.


de resto,
o grande filho-da-puta vê
com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja, o grande filho-da-puta.