24/02/2024

MÚSICA ( Vera Silva )

 Caem as letras, uma a uma.

Cai a nossa roupa, espalha-se pelo chão,
Rebolam os versos nos nossos corpos
Em alegre sintonia.
Sinto-te na minha carne, quente.
Entras devagar, dentro de mim
E sacias-me a fome e o querer.

Transpiras-me,
Inspiras-me!

Realizo-te as fantasias mais loucas
Numa entrega indiscreta,
E quente, ardente.
Tomo-te e imaginas-me tua.
Inventamos caminhos indecentes
Para percorrermos juntos
E chegarmos, loucamente, ao fim

Inspiras-me!
Transpiras-me!
Sintonia
Voluptuosidade
Sou tua
Saberás o que queres?
e Amante sensual

PRESÍDIO ( David Mourão - Ferreira )

 Nem todo o corpo é carne. Não, nem todo.

Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco?
E o ventre, inconscientemente como o lodo?
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor. Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo.
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
Vulto da Primavera em pleno Outono.
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

21/02/2024

BOCA DA NOITE (Alice Ruiz)

 boca da noite

na calada em silêncio
grandes lábios
se abrem em sim

O CORPO ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Corpo serenamente construído

Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro erguidos
Contra a pureza inteira dos teus ombros.

Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.

Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.

Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.

NOITE ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Noite. Noite em nossa roda. Noite aberta.

E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre,
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.

18/02/2024

O SORRISO ( Eugénio de Andrade )

 Creio que foi o sorriso,

o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

16/02/2024

FLAGRANTE DELITO NAS TEIAS DO PRAZER ( Graça Pires )

 Há um barco no hálito das mulheres.

As gaivotas seguem-no ao longo das estradas,
desenhando o mar nas curvas dos seus corpos.
Vestidas de branco,
festejam o parto das manhãs
e nada altera a transparência
com que aguardam os improvisos,
que não deixam ao cuidado dos deuses.
Flagrante delito nas teias do prazer.


 

PROCURO A COR DA NOITE NOS TEUS OLHOS (Graça Pires)

 Por caminhos do sul, a noite

adquire a tonalidade do mar.
Pressinto o hálito das manhãs claras
e tenho, no sangue, um caos incendiado,
como se fora terra exposta ao sol do meio-dia.
São horas de reinventar os aromas
que me anunciam um trajecto de espanto.

Procuro a cor da noite nos teu olhos,
como quem lambe a lua, devagar.
Depois, digo barco, digo mastro,
digo quilha e somos ilha propícia a navegar.

UM DESAFIO EXIBIDO NAS ANCAS ( Graça Pires )

Dentro de si mesma, a noite
não tem contornos:
Serve-se das sombras
para repatriar exilados afectos.
Abro as janelas, de par em par
e caminho sobre as horas,
com jogos ilícitos presos à cintura.
Um desafio exibido nas ancas.
O vértice das pernas, a sobrançar um rio,
subitamente cheio.

 cheio.


NA TEIA FRÁGIL DOS DIAS ( Albino Santos )

 Não deixes que a tua voz se cale 

antes de ser eco. 
Não deixes que a magia desvaneça. 
Que nada na vida se interrompa 
antes que aconteça. 
Que nenhuma luz se extinga 
enquanto os olhos a pedirem. 
Que nenhuma carícia se perca 
antes das mãos entardecerem. 
Porque tudo o que acontece 
na teia frágil dos dias 
se esgota num imprevisível instante, 
num golpe de vento 
ou no rasgão fugidio de um poema. 

BEBO A PRÓPRIA SEDE ( Graça Pires )

 Volto às palavras resguardadas no útero dos sonhos. 

Uma caligrafia exasperada quer ofuscar o brilho 
em meus olhos, exaustos de procurar 
a estrela d’alva no infinito do amanhecer. 
Dobro-me sobre as páginas em que me escrevo. 
Como se fora uma serpente, rastejo as letras 
com sílabas átonas para não desfocar a minha voz, 
quase ilícita, quando me refugio na paisagem 
para habitar as múltiplas geografias das sedes eternas. 
Bebo a tragos longos a própria sede e choro a tristeza 
extenuada de qualquer melancolia distante. 


ELAS ( Graça Pires )

 Elas têm olhos de vespa como as antigas deusas

e mordem o freio que lhes sangrou os lábios.
Fazem minuciosamente o inventário dos sonhos
esmagados na lembrança.
As paredes das casas com marcas de fumo
guardaram-lhes os gritos quando queimaram
as cartas de amor e o alecrim para afastarem
os fantasmas do passado parados à beira da insónia.
Agora turva-se-lhes a água no quebranto das horas
que a vigilância dos relógios e dos homens
tornam fatigantes.
Às vezes ficam deitadas horas a fio no chão
de cimento afagando o dorso do gato
que febrilmente se enrosca em suas ancas.

10/02/2024

SELF - SERVICE ( Vera Maya )

 Entre o desejo e o medo

de perdas irreparáveis,
a moralista e seu dedo
tornaram-se inseparáveis.

ILUSÃO ( Judith Teixeira )

Vens todas as madrugadas

prender-te nos meus sonhos,
estátua de Bizâncio
esculpida em neve!
e poisas a tua mão
mavia e leve
nas minhas pálpebras magoadas

Vens toda nua, recortada em graça
rebrilhante, iluminada!
Vejo-te cegar
como uma alvorada
de sol
E o meu corpo freme,
e a minha alma canta,
como um enamorado rouxinol

Sobre a nudez moça do teu corpo,
dois cisnes erectos
quedam-se cismando em brancas estesias
e na seda roxa
do meu leito,
em rúbidos clarões,
nascem, maceradas,
as orquídeas vermelhas
das minhas sensações

És linda assim; toda nua,
no minuto doce
em que me trazes
a clara oferta do teu corpo
e reclamas firmemente
a minha posse

Quero prender-me à mentira loira
do teu grácil recorte
E os teus beijos perfumados,
nenúfares desfolhados
pela rajada dominante e forte
das minhas crispações,
tombam sobre eu meus nervos
partidos... estilhaçados

...........

Acordo. E os teus braços,
muito ao longe,
desfiam ainda
a cabeleira fulva
do sol
por sobre os oiros adormecidos
da minha alcova

Visão bendita! Repetida e nova!

Loira Salomé
de ritmos esculturais!
Vens mais nua
esta madrugada!
Vem esconder-te na sombra dos meus olhos
e não queiras deixar-
ai nunca. nunca mais!


08/02/2024

OS AMANTES ( Maria João Cantinho)

 Poderiam ter deixado tudo para trás de si

e tomar o último comboio da noite,
como anjos de Chagall,
que não conhecem senão a dança do amor.
Teriam, então, deslizado pelas sombras,
como figuras luminosas,
que se desenhavam no hálito da madrugada,
os corpos fundidos nos versos
que escreviam no coração um do outro.
Teriam sido felizes, deitados sobre a terra,
a olhar o céu, onde deslizavam animais feitos de algodão,
teriam esquecido os nomes um do outro,
para reaprender o apelo da água
e do sangue, o apelo da voz universal,
o canto derradeiro que os sonhava.
Era preciso ter esquecido tudo
O lugar onde se nasce,
a casa onde sempre se retorna,
era preciso ter esquecido tudo,
para reaprender esse enigma,
que se escrevia na flor do silêncio.
Poderiam ter esquecido tudo, para trás de si
e tomado o último comboio do tempo.

Margarida Vieira, in SEGREDOS TECIDOS À MÃO

 Espero por ti

como a areia
pela espuma salgada
a flor pela abelha laboriosa
a rua pela janela envidraçada
Espero por ti
como o sol
pelo sorriso do bosque
o amante pela noite escura
a terra pelo orvalho matinal
Espero por ti
como o minguante
pela lua cheia
a pomba pela paz real
a sereia pelo navegante
Espero por ti
como o vento
pelo voo da gaivota
a mãe pelo filho no ventre
a boca pelo beijo ardente.

31/01/2024

NOITE POR TI DESPIDA ( Casimiro de Brito )

 Adulta é a noite onde cresce

o teu corpo azul. A claridade
que se dá em troca dos meus ombros
cansados. Reflexos
                                  coloridos. Amei
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada
sem fim. Canto apenas (enquanto os álamos
amadurecem) a transparência, o caminho. A noite
por ti despida. Lume e perfume
do sol. Íntimo rumor do mundo.

29/01/2024

PANDORA ( Graça Pires )

 De múltiplos espelhos emergiu a fêmea. 

Divina e humana. 
Estratagema de zeus para ser perverso, 
no tempo em que os homens 
e os deuses se divertiam juntos. 
Era irrelevante acorrentar-lhe os pulsos. 
Suas mãos eram aves 
ansiosas de voos ousados. 
Os ventos, deslumbrados, 
soltaram a luz e a sombra 
em seus dedos que, sem pudor, 
destaparam o vaso da inocência. 
A palavra culpada enroscou-se-lhe 
no corpo como um estigma sem fim. 
E apenas bem no fundo dos seus olhos 
permaneceu, para sempre, a esperança 
de ser salva ou de salvar. 


EM SEARA ALHEIA ( Lília Tavares )

 V

Deita-te comigo. 
O linho sobra. 
A noite também. 

IX 
Não me deixes entre as folhas. 
Sou árvore e tenho nos ramos 
o cio das aves em tardes azuis. 

XIV
De todas as palavras possíveis 
escolhi beijo. O teu. Fica. 
Não leves contigo as nossas bocas. 

DOS DESEJOS (Graça Pires de O Improviso de Viver, 2023 )

 Enfrentamos o rosto ansioso dos desejos 

com o enigma da posse 
no limite de cada gesto. 

Inquietos falamos longamente 
até a lentidão das mãos 
insubmissas nos perturbar. 
Até recolhermos nas palavras caladas 
a seda dos murmúrios. 
Até que se solte o rio já sem margens 
tão dono de seu júbilo. 

Pode ser nosso o ofício da ternura. 
É minha a ânfora da sede.

MEMÓRIAS DE ISADORA V (Graça Pires )

 Sobre o esguio molde de minhas pernas

acoitei o ritmo imprevisto de todos os rumores.
Com elas soergui o corpo até ficar íntima do chão.
Sobre elas me suspendi em movimentos leves,
sensuais, clandestinos quase.
Para não ruir.
Para aprisionar os ventos.
Para silenciar os medos.
Os habituais saberes do bailado
não me pertenceram nunca.
Preferi imitar o desassossego da natureza
como se uma incompleta dança
me nascesse nos ossos até se esvair,
entreaberta, no mais fulgurante cansaço.

21/01/2024

DELICADEZA ( Ana Rüsche ) in Rasgada, Quinze & Trinta Edições, São Paulo, 2005

 meus desejos,

que me imobilizasse
com fitas brancas de cetim
para que elas me deixassem
talhos e cortes na carne.
mas ele me amarrava
com cordas grossas e ásperas
e me largava com nós frouxos.

meus desejos,
que me espancasse
com uma vareta de marfim
e quebrasse todas as minhas costelas,
não eram dele mesmo?
mas ele me macerava,
no chicote macio de couro
que me marcava com lanhos engraçados.

meus desejos,
que me esquartejasse
com quatro alvos corcéis
e me desfizesse em pedaços.
mas ele me penetrava,
me xingava,
fazíamos amor e
suspirando, dormíamos sem sonhos.

AS VESTES ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.

 Enfrentei furacões com meus vestidos claros

Quem me vê por aí com esses vestidos
estampados
não imagina as grades, os muros
o chão de cimento que eles tornaram leves
Não se imagina a escuridão
que esses vestidos cobrem
e dentro da escuridão os incêndios que retornam
cada vez que me dispo
cada vez que a nudez me liberta dos seus
                                                [ laços.

O TEU DEMÔNIO ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.

 O teu demônio me segue

anos a fio
ele tece flores para mim
divide meu corpo em partes
Ele me culpa
acena feliz por trás das labaredas
dança ao meu redor
cresce como uma planta
eu aparo suas bordas seu rabo seus chifres
O teu demônio me encanta
como um retrato antigo amarelado
uma xícara de louça no mercado
O teu demônio me espanta
canta para mim todas as noites
me arde me explora me atormenta
O hálito quente sobre a minha boca
a febre sempre
O teu demônio vai embora hoje
eu fujo dentro dele a galope
eu vivo dentro dele feito um passarinho
feito uma coisa miúda enorme pobre
dilatada como um crucifixo
dura como uma esmeralda
Me esmero e espero
um dia me chamo Laura
tu me abocanhas os peitos
eu te abocanho a alma

RESPOSTA AO ANJO GABRIEL ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.

 Agora que aprendeste a incendiar-me

e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha
                                       [ casa
agora que fechaste a porta
e me calaste com teus lábios e língua
peço-te afoitamente
que me faças assim
ínfima e sagrada
muito mais pornográfica do que lírica
muito mais profana do que tântrica
muito mais vadia do que tua

IDÍLIO ( Iracema Macedo ) In Lance de Dardos. Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000.

 Entre notícias antigas e muralhas

construí com você
um amor feito alucinadamente de palavras
Meus versos seduzem os seus
seus versos aliciam os meus
Coloquei nossos livros juntos na estante
para que se toquem
e se amem clandestinamente
durante as madrugadas

O POEMA DE LAURA ( Iracema Macedo )

 Essa moça que amei

na tarde fria
não a amo mais

Aos poucos
estou esquecendo seu rosto,
suas formas, seu modo obsceno
de gritar meu nome em meio ao gozo

Estou esquecendo suas mãos, seus gestos,
Seu modo de fugir, sua alegria.
A cada dia que passa
eu a esqueço mais
como se ainda fosse amor o que sentisse

Estou esquecendo as águas
onde a vi banhar-se
esqueço as vestes claras, a trança úmida,
e os pequenos defeitos de seu corpo

Se me perguntarem se era feia ou bonita,
não sei, não lembro
tampouco sei dizer se ela era triste

Mas às vezes vinha pela tarde
feito um anjo sem abrigo
e meu amor mordia suas asas

Assim, ferida, ela ficava
presa sob meus cuidados
imune à ira dos deuses e do tempo

Mas me escapou um dia
Ah, essa moça que amei na tarde fria

VINHO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021


rosa vermelha no copo
nem sabe que é obscena

perfuma, abre
rouba a cena

20/01/2024

VELEIROS BRANCOS ( Ledusha B. A. Spinardi )


Alheia confiro a curva bem feita dos meus pés
minhas coxas que guardam o último sol
onde se encontram

A lua acena veleiros brancos
beijando a janela escancarada

Faz muito calor por aqui
faz calor nas dunas do meu corpo
que sei, pressentes
como pressinto a delicada febre das tuas mãos

No umbigo da noite destilo vapores
lavanda e mirra para que me queiras
tanto
e temas quase nada

No teu silêncio de homem
sinto que vislumbras minhas veredas
Assim permaneço recostada
os travesseiros de pluma afagando o dorso
e te quero dessa forma inescrutável
entre o tesão e a perplexidade.

ENXOVAL ( Déborah de Paula Souza ) In Moça Mousse Musselina; Pindaíba, São Paulo, 1982

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