Há mil e cem anos
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
14/07/2024
PRELÚDIOS INSPIRADOS ( Inês Lourenço )
CAMINHOS DE SOPHIA ( Augusta Franco )
(homenagem a Sophia Mello Breyner Andersen)
Vens firme
PENSAMENTOS LUXURIOSOS ( Dalila Teles Veres )
Pensava nele
quando a seda do vestido
tocou-lhe as coxas
eriçando-lhe os pêlos
(asas a roçar o espírito
tocha a incendiar a carne)
Pensava nele
quando a voz de Maria Callas
alcançou a nota mais aguda
- L’atra notte in fondo al mare –
invocando Mefistofele
(setas fálicas a zumbir junto aos ouvidos
aromas de sândalo a embebedar os sentidos)
De tanto nele pensar
Devorou a si própria
l u x u r i o s a m e n t e
(espírito só carne)
MADRUGADA ( Dagmar Braga )
quando em silêncio arde o desespero
NOITE AFORA ( Eduarda Duvivier )
Tem dia que a gente fala
tem dia que a gente cala
tem dia que a gente ri
tem dia que a gente chora
tem dia que a gente trepa
tem dia que a gente ora
tem dia que a gente nasce
dia em que vai embora
e o que tem na noite afora?
PRINCÍPIO DO ESCURO ( Margarida Vale de Gato )
Vês daí como tudo aqui ainda e sempre
treme continuamente, e a descompasso
do real, todos os dias tenho calores
de imaginação, trabalho a libido
do cansaço, se fecho os olhos não durmo,
encho-me, ao invés, de fricções. Depois
no outro plano, já sentiste, custa-me
estar presente: das consecutivas vezes
que nos tocámos na boca, estudei os beijos
como uma alegoria embaraçosa:
tudo sob o comando diferido
da cabeça, com tensão mais que tesão,
a minha língua esgrimia a tua, quase
nada clamava ou humedecia, talvez
exceptuando um latido pequeno de amor
a pingar com irritação, não sei,
e além do mais haveria a indagar
se são de facto compatíveis nossas
espécies, se nisso há inevitabilidade,
ou onde preciso das tuas carícias
nos anéis das cervicais ou dedos
na pele ou o princípio do escuro
a partir do perímetro da cintura.
FEMININA ( Maria da Gloria Lima Barbosa )
Só Deus me entende assim anêmona
ANOITECER ( Cacilda Soares Barboza )
como o caboclo que espia
a tarde se desnudar
sem pressa sem arrepios,
sabendo o que esperar.
O vento lambia o chão
contorcia o infinito
em açoites de paixão.
Rolando em precipícios
noite e dia se amavam
em cio ardente ganindo
excitando todo o mato.
Folhas se entrelaçavam
águas se misturavam
na tarde azul que morria
puro êxtase e agonia.
Terra e céu se derramavam
nas cores do entardecer
no sol devagar sumindo
no soluço afogado
pairando abençoado
no coito do anoitecer.
LUXÚRIA ( Cacilda Soares Barboza )
SILOGISMOS ( Laís Corrêa de Araújo )

A língua sibilina
em quando falo
— fala?
O dedo viperino
em quando levita
— manuscrita?
A boca fescenina
A pele colubrina
em quando chama
— diagrama?
O seio horizontino
A coxa serpentina
A anca messalina
A gruta diamantina
O sexo saturnino
em quando estertora
— elabora?
A carne guilhotina
em quando estala
— cala.
MANTENHA ( Alzira Cabral )
Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente
na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.
E mando mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos:
A cor que me deste!
De Armando Freitas Filho
Eu conheço o seu começo:
ponto e novelo,
meada de mel e langor
de lentos elos
que a minha língua lambe
no calor despido,
no meio das suas pernas:
anéis de cabelos,
anelos e nós se desmancham
em nada ou nódoa
por todo o lençol do corpo
nu e amarrotado:
nós aqui somos todos laços
e nos rasgamos
devagar – poro por poro;
rumor de sedas
ou de uma pele toda feita
de suor e suspiro:
eu soluço a cada susto seu
que nos dissolve.
MADEMOISELLE FURTA COR ( Armando Freitas Filho )
Por esta fresta te espreito
De Armando Freitas Filho
Eu avanço, te abocanho,
a cama range, o corpo ruge
vermelho!
vivo num relance as nuances
de um arco-íris de tafetá
ferido no espaço do instante
de seu veloz delírio:
e caço o seu rosto em cada cor
em cada gama
a cada gomo que esmago e engulo
eu te provo, e bebo
as gotas do seu gosto
e mastigo o teu sabor
calcando sob mim
o gesto escancarado
do seu sangue sem som,
mas que, entretanto, em entretons
grita.
INDIVISÍVEIS ( Mário Quintana )
O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra
VENTO DA DESPEDIDA ( Olga Sedakova )(Trad.: Astier Basílio)
Vento da despedida vem julgando e vem.
SONETO DA BUNDA BRANCA ( Marcus Freitas )
Ah, uma bunda branca me emociona!
A BUNDA ( Belmiro Braga )
Quando ela passa todo mundo espia,
SORRISO DE LUZ ( Gilson Peranzzetta / Nelson Wellington )
No primeiro olhar
13/07/2024
CAIN ( Yvette K. Centeno )
Mas afinal o que era

















