22/07/2024

REEDUCAR - SE (João Melo )

 sem competição

dentro de casa

fora de casa

buscar um empate
o melhor resultado

um aprendizado
de cheiros, permissões

me estuda
e me chupa
e me lambe
e me fode, enfim

suor, sussurros
exercícios exauridos

e tudo te devolvo
na ponta do lápis
na ponta da língua
o gozo

juntos, sem pressa
a procurar
todos os líquidos
todos os lábios
todas as letras
da igualdade

NA PONTA DA LÍNGUA ( Janaína Steiger )

 na ponta da língua

o poema preferido
um verso famoso
a última música chiclete que explodiu

na ponta da língua
poucos contatos de emergência
datas de aniversário
duas ou três cifras de violão

na ponta da língua
uma receita bem simples
a fórmula de bháskara
tabuada alfabeto e olhe lá

na ponta da língua
o relevo da pele
todas as linhas do corpo dela
desenhadas pelo grafite

da ponta da minha língua

REVOLUÇÃO ( Janaína Steiger )

 8 mil terminações nervosas ali

70% das mulheres sem conseguir chegar lá

é revolucionário mas não devia
fazer uma mulher gozar

SONETO DE ANUNCIAÇÃO ( BF )

 Despida do seu manto virginal,

Maria deita-se mole na baia.

Os dedos procurando o grelo santo
sob a renda pasmosa da calcinha.

Entre as curvas altas de suas coxas,
Maria embala o sêmen que a deseja.
Perfume de milagre anunciado,
o Anjo, em felação, missa corteja:

“Escute o cuspe amargo na alcova
que fecunda o Corpo-Sangue salvador,
e faça dele o Filho da Nova Era.”

Maria, olhos no céu, boca seca,
geme e se engasga com o fervor
de quem ama o sacramento da Matéria.

LISTA DE PREFERÊNCIAS ( Bertold Brecht )

 Alegrias, as desmedidas.

Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

A MULHER DE LOT ( Wislawa Szymborska )Tradução de Regina Przybycien

Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.
 

À BELEZA ( Miguel Torga )

 Não tens corpo, nem pátria, nem família, 

Nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço...

Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço!

Ana Miranda, In Prece A Uma Aldeia Perdida

 No tempo em que eu tinha quintal

Foi quando eu era menina
Tinha pai e um desespero
De desbravar este mundo
Mas ele me desbravou
E mansa do coração
Mas brusca na atitude
Na aptidão messalina
Vivendo meus pesadelos
Numa pena e num tinteiro
Ferindo por ser ferida
Perdendo por ser perdida
E encontrada depois
Na barra do meu vestido
Na juventude das coxas
Na inocência esquecida
Nas roxas saias de Deus
Ah quantas vezes fui rude
Ah tantas vezes fui má
Tudo passa tudo passa
Não passa o que eu desejar
A menina tão afoita
A menina tão aflita
Às turras com o destino
Como fosse condenada
A um nunca desistir
Flor de uma obsessão
Flor da paixão ardente

BEBER TODA A TERNURA ( Mia Couto ) in 'Raiz de Orvalho'

 Não ter morada

habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces

UM NAVIO ( Angela Melim )

 A solidão é um navio.

Só o que me move é a pá da solidão
o leme.
Se não gozo
suspiro
cristas suspensas
pedras de sal
fiapos de mar
— a maior boca
a mais
voraz.
Mas no seu fundo longínquo
âncora
os leitos de areia e seus lençóis limpíssimos
os peixes cegos
a paz.

NESTA NOITE, NESTE MUNDO ( Alejandra Pizarnik )

 Nesta noite neste mundo

as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que queremos dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado pela sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não é o da re-surreição
de algo parecido com negação
do meu horizonte de maldoror com o seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(todo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

não
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é que não se vê
o que se passa com a mente é que não se vê
o que se passa com o espírito é que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se esconde
a pedra da loucura
corredores escuros
eu os percorri a todos
oh fica um pouco mais conosco!

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem sacou uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh fica um pouco mais conosco!

as degenerações das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que fizeste do dom do sexo?
oh meus mortos
eu os comi e me engasguei
não posso mais de não poder mais

palavras dissimuladas
tudo se desliza
para a negra liquefação

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh ajuda-me a escrever o poema mais desnecessário
                que não sirva nem para
                 ser imprestável
ajuda-me a escrever palavras

nesta noite neste mundo

O AMOR NÃO É TUDO.... ( Edna St. Vincent Millay )

 O amor não é tudo: não é comida nem bebida

Nem sonho, nem um teto para proteger sua cabeça da chuva;
Não é um mastro flutuante para os homens que se afundam
E boiam  e  afundam, boiam e afundam de novo;
O amor não pode encher de ar o pulmão ferido
Nem limpar o sangue ou colar o osso quebrado;
No entanto, neste momento em que te falo
Muitos homens estão perto da morte apenas por falta de amor.
Poderia ser que num momento difícil,
Presa à dor e implorando para ser libertada
Ou levada por uma necessidade superior à minha vontade,
Eu tivesse que vender teu amor por um pouco de paz,
Ou trocar a memória desta noite por comida.
Poderia ser. Mas acho que não o faria.



O TEMPO DAS ESTRELAS ( Ana Luísa Amaral )

 Um compasso de espera

tão longo e musical
por estrelas destas
a tocar-me o rosto
E aprender a aceitá-las,
e eu ser um céu imenso
onde elas se pudessem passear,
encontrar uma casa,
um pequeno silêncio
de folhas,
de poeiras e cometas
Na desordem mais cósmica
das coisas,
organizar inteiro:
o coração
Porque, a tocar-me o rosto,
o tempo das estrelas
será sempre,
mesmo que tombem astros,
ou outras dimensões se lancem
em vazio,
ou raízes de luz se precipitem
no nada mais atônito
Terá valido tudo
a desordem do sol, terá valido tudo
este lugar incandescente
e azul
Porque, a tocar-me o rosto,
agora,
e em silêncio tão terreno:
paraíso de fogo:
estas estrelas
Transportadas em luz
nas tuas mãos —

Por Hilda Hilst, in Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão

 A minha Casa é guardiã do meu corpo

E protetora de todas minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
E minha boca se faz fonte de prata

Ainda que eu grite à Casa que só existo
Para sorver a água da tua boca.
A minha Casa, Dionísio, te lamenta
E manda que eu te pergunte assim de frente:
A uma mulher que canta ensolarada
E que é sonora, múltipla, argonauta
Por que recusas amor e permanência?

20/07/2024

SIMPLICIDADE ( Ana Maria Oliveira )

 A criatura humana deixa-se encantar pelo colorido da cena

Pelas personagens amorosas da sedução aparentemente plena
E distancia-se do estado de plenitude do Eu
Como união de ambiguidades
Pois somos o todo que arrasta consigo a união dos opostos
Numa erupção de vivências e incandescências
Multiplicidades de sentires e irreverências

Devíamos sentir-nos simples como a água do mar
Lamber as lágrimas salgadas num misto de dor e prazer
De quem sabe que a vida é ilusão aparência de Ser
Porque vibra uma ligação inquebrável entre os humanos
Que acontece em forma de grito de união
Porque a separação só a sente quem não dialoga com o espelho
Quem não se sente genuíno e transparente
Quem não entra em êxtase perante um pôr-do-sol esplendidamente vermelho!

 


FREIO ANIMAL ( Ana Maria Oliveira )

 Cativa de rituais em demanda irrefletida de gozo

Em descontrolo numa precisão material
Despojo-me das roupagens óbice à intimidade
E danço ao ritmo de momices num trejeito sensual
Aprisionando a tua atenção que me profetiza um travão
Libido que comanda em forma de rasgo mental
Mas desprovido de desejo concentras-te no premente
E eu fantasiadora gerada por imperativo biológico primordial
Apagas o braseiro interior num universo simples de veemência lúbrica
Envolves-me gelidamente escondendo a flama num porte colossal
Leio nos teus olhos a imagem espelhada do desregrado
Ser de outros tempos e outros mundos intacto
Criatura meiga mas sofredora e ser amado
Voluptuosa e descalça volvo as costas ao teu desapego
Permaneces num outro globo oposto do lascivo
Foge dos teus braços o esperado ardor
Desaparece momentaneamente a paixão do teu rosto
Apaga-se então a labareda do meu coração em vulcão de clamor!
E em sublime conexão isenta de qualquer mal
Provindo de outra dimensão e consciente do efémero
Tornas-te anjo platónico meu freio animal!

MEDITO SOBRE A LENTIDÃO DOS SENTIDOS ENQUANTO TUA LETRA MUDA DE LUGAR NO MEU CORPO (Anna Apolinário)

 Teus vocábulos são lobos vociferando nos vãos de minha vigília.

Negros chacais riscando sílabas em minha cintura.
Percorrendo a cordilheira encarnada de meus cabelos.
O terraço afogueado de meu ventre.
Os precipícios peçonhentos em meu púbis.
Teu letra decifra os mapas secretos,
traçados pelos meus sinais de nascença.
As sílabas matilham-se, em tocaia,
estremecendo os porões da pele,
conduzem-me ao coração do desvario,
devorando as carótidas do real.
O poema é um deus dançando jazz na algibeira do meu delírio.

LONJURA ( Mariana Artigas )

 Deixe-me amar-te

Como uma mulher,
O ar pesado
Comprime
Meus dedos
Ainda enrugados.
O cabelo molhado
Tece um rastro
Do quarto ao banheiro.
Manhãs dissipam-se
Em sonolência
Ergo as pálpebras,
E a inconsistência
Dos dias
Insiste em renascer.
Cambaleando
Entre corredores
Esparsos.
Letras escrevem
As chuvas de março,
Desejos encontram-se
No vão dos ecos
Inimagináveis.
O mistério finda
A concretização
Do desejo.
Em uma fissura ínfima,
Clausura íntima,
Pinçando frases desnudas.


DA MORTE ( Mírian Freitas )

 Quando a morte chegar a esta casa

não ameaces o silêncio com o choro convulso.

Vá até o pomar e colhe frutos

aperta entre os dentes as peras

e os figos

mentaliza todas as flores amarelas

acaricia a lágrima da ausência

deita-te sobre a relva e lembra-te dos pássaros

e do arder do vento

entre as árvores e as águas

que se repetem.

PRECE A AUÐUMBLA ( Francesca Cricelli )

 Auðumbla das divinas tetas

deusa primeva dessa latitude

que seus quatro rios de leite

abençoem os meus córregos

que nunca me falte a fonte

na curva noturna entre os

os meus bicos e os lábios dele.

Na mitologia nórdica, Auðhumbla era a vaca alimentadora, a Mãe Terra. Amamentou o deus Ímer e lambendo o sal do gelo desenterrou e deu vida a Búri.


FEBRE ( Daniela Pace Devisate )

Flores cadentes

estrelas perfumadas

Rimbaud na mente

a última serpente

de um jardim sem éden

música transparente

desmaio dócil

na bruma, na brisa branca

no leito de espuma

na nuvem de bruços

(deito e me cubro

com colcha de lírios

que pegam fogo)

febril a fronha

desfaleço e peço

água da fonte

para a minha fronte


CAMAFEU ( Daniela Pace Devisate )

 A rosa púrpura

colheu o inverno

na fenda fulva

a lua em casulo

pulsa

nenúfar de neve

a vulva

antiga jóia

antes rubra

ÊXTASE ( Daniela Pace Devisate )

 Sentia a borboleta

de asas de fogo

a esvoaçar e pousar

por entre as pernas

na rosa de carne

que principiava

a entreabrir seus lábios

de róseas pétalas

pingando mel

para que você sugasse

e minha alma

desmaiasse, debruçada

na varanda

de uma estrela cadente

porque explodiam sóis

sobre um planeta novo