07/05/2025

DO LADO DE LÁ ( Ayana Moreira Dias )

 inoperantes versos

pendendo

dos braços

das mãos

dos dedos

da operária

 

falanges

que operam esta coisa

aqui

 

e

outras coisas

tantas

que nem pensa

que opera

enquanto faz

só faz

 

pés nos

sofás

cansados de dias

 

pernas moventes

que seguem operando

até

quando pousam

numa certa almofada

tremulam

 

exibindo

ansiedades

 

membros

pensam

sobre

o fim

do

dia.

 

qual dia?

qual fim?

qual meio?

estamos sempre no meio

 

nos presentes

pré

e

pós

operatórios

 

o braço cansa,

a nuca também

 

a forma desinforma

e

cai

em gesto seco

 

o gesto poderia ser simples,

um só:

escrever

 

do lado de lá

há desejo imenso e vário

 

enquanto pensa nos desejos,

a operária opera

 

paga contas

faz café

corrige redações

responde e-mails

renasce

caminha

rega as plantas

toma o café

varre a casa

paga sustos

faz amor

corrige atenções

responde espelhos

refaz-se

dança

rega as esperas

toma o amor

varre as preocupações

MARESIA E ANDOR ( Caroline Diniz )

 Sou toda uma metrópole litorânea.

Uma areia indesejada nos chãos de restaurante.

Ah, como eu gosto da sinfonia dos talheres nervosos.

Sinto muito e em tudo sinto.

Eu percebi a esses dias que sou sensível demais.

Se você fosse pintar um quadro, eu poderia ver:

O andor louco na areia corroído pela maresia selvagem.


CARNE DE DENTRO ( Caroline Diniz )

 desnuda-me,

ó meu

lado avesso.

carne de dentro

rui ao maior lamento:

daí afago, daí alento

pro buraco deste peito.

Flanco trêmulo

denuncia

dor latente,

que espicha

impertinente.

Urgentemente,

virai-me do lado avesso!

TEMPOS DE AMOR ( Márcio Barbosa )

 1) A boca em molhado círculo

envolvendo a pica
ou beijando com suavidade imensa
a suada virilha

2) A língua tesa enfiada
na bunda
ou buscando em dança perfeita
da buceta o salino sabor

3) Em dois tempos o desejo inunda
corpos marrons em marés de amor

EXU ( Abílio Ferreira )

 Lábios vermelhos

Muito vermelhos
Acesos e acesos e haciendo-me entrar
- vem vem me ver por dentro
E eu vou à fenda - acesso labiríntico a chamar
A brasa - chama rubra e corpo negro

O PRAZER NOSSO ( Oubi Inaê Kibuko )

 Amada minha que estais no cio; cultuado seja o vosso corpo; venha o prazer ao nosso leito; sejam saciadas nossas vontades, sem tabeliães e sem véus. Um amor pleno de poesias gozai hoje; desfrutaremos nossas querenças; um minuto sequer não percamos, discutindo leis que nos têm reprimido. Vamos copular com emoção, porque amar nunca fez mal. Axé!


EJACORAÇÃO ( Jamu Minka )

 Quando tua ausência se multiplica em dias

eu me divido em saudades
consciente ou não
e de resto sobram poemas

quando a vida devolve oficialmente tua presença
o coração dá voltas
e dispara ejaculando promessas de amor

TESÃO ( Regina Helena da Silva Amaral )

 Teu falo é um facho

Fascinante.
Eu me encrespo
Sempre.
Teu Facho é um fato
Irreversível!

05/05/2025

AS MULHERES ENVELHECEM ( Luiza Oliveira )

 as mulheres envelhecem

eu enterneço
usam saias longas e roupas fechadas
eu não ligo pra fachada
utilizo meus mistérios
me uso mulher…
com pernas longas
e o bico do seio à mostra…

Hilda Hilst, "Poemas Malditos Gozosos e Devotos", 1984

 Move-te. Desperta.

Há homens à tua procura.
Há uma mulher, que sou eu.
A Terra mora na Via-Láctea
Eu moro à beira de estradas
Não sou pequena nem alta
Sou muito pálida
Porque muito caminhei
Nas escurezas, no vício
De perseguir uns falares
teus indícios.
Move-te. Tua aliança com os homens
Teu atar-se comigo
Tem muito de quebra e dessemelhança.
Muitos de nós agonizam.
A Terra toda. Há de ser quase
Brinquedo adivinhares
Onde reside o pó, onde reside o medo.
Não te demores.
Eu tenho nome: Poeira.
Move-te se te queres vivo.

ANALOGIA ( Gilka Machado ) No livro "Mulher Nua", 1922.

Sempre que o frio chega o meu pesar sorri,
pois te adoro no Inverno e adoro o Inverno em ti

Amo o Inverno assim triste, assim sombrio,
lembrando alguém que já não sabe amar;
e sempre, quando o sinto e quando o espio,
julgo-te eterizado, esparso no ar.

Afoita, a alma do Inverno desafio,
para inda te querer e te pensar
para gozá-lo e gozar-te, que arrepio!
que semelhança em ambos singular!

Loucura pertinaz do meu anelo:
- emprestar-te, emprestar-lhe uma emoção,
- pelo mal de perder-te querer tê-lo

Amor! Inverno! Minha aspiração!
quem me dera resfriar-me no teu gelo! 

quem me dera aquecer-te em meu Verão! 

FOME ( Sílvia Maria Ribeiro )

Não creio que amar desejosamente seja privilégio da juventude ou próprio dela.

o tesão pontual
aquela disposição para viver na horizontal
Amor é amor
sexo é sexo
mas vamos combinar
amor & sexo é um pote de ouro no fim do arco-íris; É possível dada a oportunidade
sociedade
construção
O chakra aberto e a ciência dos riscos
o comprometimento com o sentimento
eterno enquanto durar
Não é fracasso de não acontecer
Ser eterno e sincero não é só querer
Acontece de ser
de não se manter
Mudar dá trabalho
No modo soneca vai que desperta
Ou segue Resignado, hibernado
E em novos ciclos desce pro play underground
já que não é mais jovem
resignação, palavra tranca caminhos
na contramão da pulsão da vida
Dá parafuso, pano pras mangas é pá virada confusão
dor de cabeça
de consciência
sudorese febre e fome
Dá vontade de dar e receber
Comer até saciar, gozar
Chama fumaça chama fumaça
Só chama
o bom e velho tesão
se fincar pós-juventude
fixa
Faz bem pra pele
Escutei do amor atenta
Só fala
Sabe tudo
SusPirei
Agora vai

Gilka Machado. In: "Mulher Nua", 1922.

 Amo o Inverno assim triste, assim sombrio,

lembrando alguém que já não sabe amar;
e sempre, quando o sinto e quando o espio,
julgo-te eterizado, esparso no ar.
Afoita, a alma do Inverno desafio,
para inda te querer e te pensar
para gozá-lo e gozar-te, que arrepio!
que semelhança em ambos singular!
Loucura pertinaz do meu anelo:
emprestar-te, emprestar-lhe uma emoção,
pelo mal de perder-te e querer tê-lo
Amor! Inverno! Minha aspiração!
quem me dera resfriar-me no teu gelo!
quem me dera aquecer-te em meu Verão!

Por Hilda Hilst

 É rígido e mata

Com seu corpo-estaca.
Ama mas crucifica.

O texto é sangue
E hidromel.
É sedoso e tem garra
E lambe teu esforço

Mastiga teu gozo
Se tens sede, é fel. 

Tem tríplices caninos.
Te trespassa o rosto
E chora menino
Enquanto agonizas.

É pai, filho e passarinho.

Ama. Pode ser fino
Como um inglês.
É genuíno. Piedoso.

Quase sempre assassino.
É Deus.

H – ( Andrea de Barros )

 Tenho andado mais atenta aos corredores.

Túneis, meias luzes, vãos,
batentes de portas,
Intermitências, intervalos, entremeios.

Nos espaços entre dois corpos, onde caem as vírgulas, os hífens,
Pontos de interrogação.

Talvez… depende… quase… provável…

Estou viva no surdo estalido antes da explosão.

DEPOIS ( Sonia Nabarrete )

 Após a paixão,

Momento ameno
Feito flor no sereno
Orvalhamos
Amanhecemos

PALAVRA DE ORDEM ( Sonia Nabarrete )

 Mais amor, mais atitude

Na cama, nada de fast-food

UAU! ( Sonia Nabarrete )

 Delírio momentâneo

Paraíso instantâneo
O orgasmo simultâneo

GANGORRA ( Sonia Nabarrete )

Vida de amante
É oscilante
Um dia Jardim do Éden
No outro, inferno de Dante

OFERENDA ( Sonia Nabarrete )

 A cama se fez tenda

Um ritual de oferenda
Falo e fenda
Em harmonia
Soneto sem emenda
Só pura poesia

ODE À SIRIRICA ( Sonia Nabarrete )

 No ritmo, tempo e intensidade desejados

É o gozo garantido, com direito
A ohs, uis e ais sussurrados ou sustenidos
É o prazer escancarado, em resposta
a todos os broxas, brutos e apressados
Liberta as fantasias mais secretas
Enquanto explora o meio das pernas
Num impulso instintivo, soberano
Momento eu me amo
Hora de desbravar um imenso
Repertório, de dar inveja às
Meninas da Major Sertório
E fazer a homenagem da vez
A alguém que de fato conheceu
Ou a um improvável Romeu
Dá para comer o Chico, o
Caetano, o Antonio Bandeiras
Todos na mesma esteira
E ainda a Gisele e a Madona
Quando o desejo vem à tona
Dá para pegar todo mundo junto
Dá para comer até defunto
O limite é a imaginação
Quando os dedos entram
Em ação e nunca é preciso
Pedir: por favor, não pare não

Por Florbela Espanca

 Até agora eu não me conhecia.

Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.
Mas que eu não era Eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, o não dissera
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!
Andava a procurar-me – pobre louca! –
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!
E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma

Por Hilda Hilst

 É meu este poema ou é de outra?

Sou eu esta mulher que anda comigo
E renova a minha fala e ao meu ouvido
Se não fala de amor, logo se cala?
Sou eu que a mim mesma me persigo
Ou é a mulher e a rosa que escondidas
(Para que seja eterno e meu castigo)
Lançam vozes na noite tão ouvidas?
Não sei. De quase tudo não sei nada.
O anjo que impulsiona o meu poema
Não sabe da minha vida descuidada.
A mulher não sou eu. E perturbada
A rosa em seu destino, eu a persigo
Em direção aos reinos que inventei.

04/05/2025

LÍLIA TAVARES, in Nas Mãos A Sede Dos Pássaros

Há mulheres que deixaram a natureza entregue

a si própria.
Já raramente se ocupam dos vasos e do jardim.
Todas as coisas parecem estar à solta, numa
liberdade sem limites.
A tesoura de poda, as pás, a vassoura há muito que
pingam gotas de ferrugem encostadas a uma porta
em cujas ferragens a erosão do tempo passou sem
piedade.
Elas não são indiferentes nem despreocupadas.
Saem à rua para ver o sol nascente. Para verem o
afogueado crepúsculo espreitam pelos vidros da
janela na parede oposta à porta.
Não as vêem sair com crianças.
“São mulheres sozinhas, sem futuro”, murmuram.
De facto, recebem poucas visitas e em datas certas.
Nesses dias mostram o seu riso através do cabelo
desgrenhado, sem corte.

Quem não lhes conhece o íntimo, chama-lhes
mulheres que têm um quarto só para si.
Moram numa casa de paredes cheias de livros,
folhas, tinteiros, lápis e uma máquina de escrever. A
cadeira da secretária é velha mas conhece-lhes os
contornos do corpo. Têm um candeeiro aceso junto
da pilha de livros e papéis rasurados.
Como virginia woolf, tiveram de fazer escolhas.
Aniquilaram o fantasma da fada do lar.
Sentam-se cada dia à secretária e deixam-se levar
por personagens, amores e enredos que escrevem
com os dedos nas teclas da máquina. Por vezes
param e anotam umas palavras e riscos numa folha.
Preparam um chá e voltam a escrever.
Uma certa manhã prendem o cabelo num rolo,
passam pelo rosto um creme guardado e tiram do
roupeiro o fato de saia e casaco, os sapatos e a mala.
Enlaçam no pescoço um lenço mais colorido.
Abrem a porta e levam na mão uma capa de pele
preta muito volumosa. Sobem para um autocarro na
paragem. Sentam-se apreensivas. Não sabem se
desta vez vão ler o seu nome na capa do livro. Estão
fartas de assinar os livros com george, joão e outros
nomes.

LÍLIA TAVARES, in Nas Mãos A Sede Dos Pássaros

 Há mulheres que esperam cravadas numa

concha de solidão.
Mordem as mãos para se sentirem vivas.
Descem à intimidade do mar para compreender a
melancolia dos peixes.
Como veias das mãos, abrem canais no arvoredo
para se ocultarem.
Amiúde sentem temor, pois é no coração que
guardam um a um os seus medos.
Como corujas, cerram os olhos longamente. Têm a
visão audaz das aves nocturnas.
Misturam-se em tramas de inquietude para tomar o
gosto do espanto das sombras.
Retornam à claridade e expelem do corpo, lugar
desabitado, todas os fragmentos da
inutilidade do tempo.
Sobem torres.
As mulheres.

LÍLIA TAVARES, in Nas Mãos A Sede Dos Pássaros

 Elas escrevem.

As palavras oferecem-lhes
o dorso como gatos
a dormir enroscados.
Elas dão-lhes carinhos imensos:
pêlo aqui,
lambidela nos dedos
ronrons que sossegam.
As palavras das bocas dos
gatos não começam por “h”,
não precisam do “til “
ainda menos de maiúsculas.
São maciez preguiça completude
proximidade segredo.
Palavras escritas com gatos
são metáfora
e transferência
num pulo
e
adormecem.