06/08/2025

RETRATO DE MINHA MÃE COSTURANDO ( Zila Mamede )

 A máquina move

bobinas fios 

a máquina fixa 

flor e atavios 

Corra essa correia 

de couro curtido 

da roda ao pedal 

como um desafio 

Dance a inquieta agulha 

em louco vai-e-vem 

cutelo e fagulha 

de calor, de bem 

A máquina e 

o veio: 

Aranha a tecer 

varizes inchadas 

longo anoitecer  

A máquina e 

o tempo: 

luz de lampião 

pedal madrugada 

cheiro quente: o pão 

A máquina e 

as linhas: 

branco em carretel 

chama de pavio 

na fumaça: o mel 

A máquina e 

o berço: 

filho vai nascer 

perna pedalando 

filha a adormecer 

A máquina: 

morna tessitura 

de lençóis-colchões 

dentes e cangalhas 

presos nos mourões 

A máquina: 

texto-documento 

na execução 

de mortalhas: anjos 

em azul de caixão  

A máquina: 

trapézio de infância 

caos da adolescência 

vestida sem rendas: 

Lúcida indigência 

A máquina: 

lúdico artefato 

de abstrato museu 

(a avó, a bisavó) 

do tempo hoje meu.

05/08/2025

MINHA SENHORA DE MIM (Maria Teresa Horta )

 Comigo me desavim

minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

03/08/2025

SINHÁ ( João Bosco & Chico Buarque de Holanda )

 Se a dona se banhou

Eu não estava lá
Por Deus Nosso Senhor
Eu não olhei Sinhá
Estava lá na roça
Sou de olhar ninguém
Não tenho mais cobiça
Nem enxergo bem

Pra que me pôr no tronco
Pra que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Por que me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com o sinal
Da santa cruz

Eu só cheguei no açude
Atrás da sabiá
Olhava o arvoredo
Eu não olhei Sinhá
Se a dona se despiu
Eu já andava além
Estava na moenda
Estava pra Xerém

Por que talhar meu corpo
Eu não olhei Sinhá
Pra que que vosmincê
Meus olhos vai furar
Eu choro em iorubá
Mas oro por Jesus
Pra que que vassuncê
Me tira a luz

E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz do pelourinho
E ares de senhor
Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá

LABIRINTOS ( Carla Andrade )

 Uma voz de degraus -

inalcançáveis -
está presa no porão
dos pensamentos.

Há muito tempo,
quando ninguém sabia
se pode mastigar o tempo
(as horas são ainda
mais mastigáveis),
ela já estava lá.

Na infância, tinha dentes.
Presas de cristal.
Era o tato
e todos os dedos do mundo
formigas estranguladas
nuvens de baralhos do céu
carrosséis berrantes da alegria.

              (Às vezes, disfarçava-se de saltos
   e, em cima das árvores, perseguia pipas).

Na adolescência, piscava aos vaga-lumes.
Cheiro de enxame, gosto de fumaça,
censura de pelos e
textura de ferida lívida.
A voz, epílogo de beijos
(sufocados de sonhos
em capítulos rosas).

Hoje, a voz, só uma música.
Sem cor e gosto de terra:
fala palavra, cospe sílaba.
Um buraco de ecos.
Degraus inalcançáveis, sepulcros
de memórias de framboesas.

RAINHA ONÇA ( Ricardo Aleixo )

 Sou Elza.

Sou onça.

Canto
sem pedir
licença.

Sou onça.
Sou Elza.

Eu onço
desde
nascença.

AFROINSULARIDADE ( Conceição Lima )

 Deixaram nas ilhas um legado

de híbridas palavras e tétricas plantações

engenhos enferrujados proas sem alento
nomes sonoros aristocráticos
e a lenda de um naufrágio nas Sete Pedras

Aqui aportaram vindos do Norte
por mandato ou acaso ao serviço do seu rei:
navegadores e piratas
negreiros ladrões contrabandistas
simples homens
rebeldes proscritos também
e infantes judeus
tão tenros que feneceram
como espigas queimadas

Nas naus trouxeram
bússolas quinquilharias sementes
plantas experimentais amarguras atrozes
um padrão de pedra pálido como o trigo
e outras cargas sem sonhos nem raízes
porque toda a ilha era um porto e uma estrada sem regresso
todas as mãos eram negras forquilhas e enxadas

E nas roças ficaram pegadas vivas
como cicatrizes — cada cafeeiro respira agora um
escravo morto.

E nas ilhas ficaram
incisivas arrogantes estátuas nas esquinas
cento e tal igrejas e capelas
para mil quilómetros quadrados
e o insurrecto sincretismo dos paços natalícios.
E ficou a cadência palaciana da ússua
o aroma do alho e do zêtê d'óchi
no tempi e na ubaga téla
e no calulu o louro misturado ao óleo de palma
e o perfume do alecrim
e do mlajincon nos quintais dos luchans

E aos relógios insulares se fundiram
os espectros — ferramentas do império
numa estrutura de ambíguas claridades
e seculares condimentos
santos padroeiros e fortalezas derrubadas
vinhos baratos e auroras partilhadas

Às vezes penso em suas lívidas ossadas
seus cabelos podres na orla do mar
Aqui, neste fragmento de África
onde, virado para o Sul,
um verbo amanhece alto
como uma dolorosa bandeira.

O CASO DO VESTIDO ( Lívia Natália ) Blog Outras Águas, da autora Lívia Natália

 De tempo e traça meu vestido me guarda.

                             Adélia Prado

Meu corpo não respeita as estações.

Chove grosso em cada dobra da cidade
E eu trago comigo um vestido de verão intempestivo.


Meu corpo não cede e, vivo, arde no ligeiro das rendas,
nas maresias que lambem o ar.
Meu corpo não cede.

E o vestido que me desveste neste calor temporão
é todo bordado na minha pele:
por dentro.

SOMETIMES ( Lívia Natália ) Blog Outras Águas, da autora Lívia Natália

Às vezes é um vento mais forte
e ele vem de longe, tangendo as colinas
E as tardes se emancipam de mim,
como se fossem feitas de puro desejo.

Um azul intenso devora meus dedos
e os olhos, inteiros, são de oceano e vão
e eu estou perdida: não há portas
mas as chaves persistem,
pendendo de minhas mãos.

Um vento que me fala em uma outra língua
e, ainda assim, toda me devora,
e não há apelo,
e não há distância que o coloque de volta:
entra pelos meus cabelos
e faz deles sua mais perfeita morada.

Um vento, e eu de todo exilada.
Um vento, e eu desfeita,
calada.
Um vento e, pobre de mim,

sou toda feita de Água.



O PÁSSARO NA GAIOLA(Maya Angelou)(Trad.: Lubi Prates)

 Um pássaro livre salta

nas costas do vento
e flutua com a corrente
até onde ela acaba
e mergulha suas asas
nos raios alaranjados
do sol e ousa tomar conta do céu.

Mas um pássaro que observa
tudo de sua gaiola apertada
raramente consegue ver através
de suas barras de raiva
suas asas estão cortadas e
suas patas estão amarradas
então ele abre sua garganta e canta.

O pássaro engaiolado canta
com um trinado amedrontado
sobre coisas desconhecidas
mas ainda desejadas
e sua melodia é ouvida
nas montanhas distantes
pois o pássaro engaiolado
canta por liberdade.

O pássaro livre pensa em outras brisas
e nos ventos leves que brotam através dos sussurros das árvores
e nos vermes gordos que esperam por ele sobre o gramado
e ele nomeia o céu sua propriedade.

Mas o pássaro engaiolado se encontra no túmulo dos sonhos
sua sombra berra em um grito de pesadelo
suas asas estão cortadas e seus pés estão amarrados
então, ele abre sua garganta e canta.

O pássaro engaiolado canta
com um trinado amedrontado
sobre coisas desconhecidas
mas desejadas
e sua melodia é ouvida
nas montanhas distantes
pois o pássaro engaiolado
canta por liberdade.

MÁTRIA E/OU TERRA-MÃE ( Lubi Prates )

 repetem repetem

mátria
com tanta certeza
como se a palavra
existisse
no dicionário
o último lugar de validação.

mas não é mãe
se permite
que te arranquem
o solo e os pés
no mesmo instante

não é mãe
se inventa um navio
quando te jogam
ao mar
se força as ondas
pra que chegue
mais rápido
ao desconhecido

não é mãe
se permite que grite
até a rouquidão
mas num idioma
que ninguém compreende.

repetem repetem
mátria
com tanta certeza
como se a palavra
existisse
no dicionário
o último lugar de validação.

de onde eu vim
pra onde sempre vou
eu chamo pátria.

PELE QUE HABITO ( Lubi Prates )

 minha pele é meu quarto.

minha pele é todos os cômodos
onde me alimento onde deito finjo
  o mínimo conforto.

minha pele é minha casa
com as paredes descobertas
  uma falta de cuidado
: necessita sempre mais
para ser casa.

minha pele não é um estado
desgovernado.

minha pele é um país
embora distante demais   para os meus braços
embora eu sequer caminhe sobre seu território
embora eu não domine sua linguagem.

minha pele não é casca
é um mapa: onde África ocupa
todos   os   espaços:
cabeça útero pés

onde os mares são feitos de
minhas lágrimas.

minha pele é um mundo
que não é só meu.

O DILEMA DE TELÊMACO ( Louise Gluck )

 Nunca consigo decidir

o que escrever
nas lápides de meus pais. Sei
o que ele quer: ele quer
amado, o que por certo
vai direto ao ponto, particularmente
se contarmos todas
as mulheres. Mas
isso deixa minha mãe
a descoberto. Ela me diz
que isto não lhe importa
para nada; ela prefere
ser representada por
suas próprias conquistas. Parece
pura falta de tato lembrar aos dois
que alguém não
honra aos mortos perpetuando
suas vaidades, suas
projeções sobre si mesmos.
Meu próprio gosto dita
precisão sem
tagarelice; eles são
meus pais, consequentemente
eu os vejo juntos,
às vezes inclinado a
marido e mulher, outras a
forças opostas.

                                                      (tradução: Pedro Gonzaga)       

FLORES SILVESTRES ( Louise Gluck )

 O que estão dizendo? Que querem

vida eterna? Seus pensamentos são mesmo
tão arrebatadores assim? Com certeza
não olham para nós, não nos ouvem,
em sua pele mancha de sol, pó
de botões-de-ouro: estou falando
com vocês, vocês que olham fixamente
por entre os talos de grama alta agitando
o pequeno guizo — Ó alma! alma! Basta
olhar para dentro? Desdém
pela humanidade é uma coisa,
mas por que desprezar o vasto campo,
seu olhar elevando-se acima das nítidas cabeças
dos botões-de-ouro silvestres em direção a quê?
Sua pobre ideia de céu: ausência
de mudança. Melhor que a terra? Como
saberiam, se não estão nem
aqui nem lá, eretas entre nós?

                         (tradução: Maria Lúcia Milléo Martins)

02/08/2025

1685 (Emily Dickinson ) ( tradução: Ivo Bender)

 A borboleta desfruta

De bem pouca simpatia,
Embora com louvor citada
Na entomologia.

Por viajar livremente
E vestir uma bata apropriada,
Os circunspectos têm certeza
De que é uma devassa.

Mas se usasse o banal escudo
De uma ocupação trivial,
O justo endosso obteria
Para a Imortalidade.

1173 (Emily Dickinson ) ( tradução: Ivo Bender)

 O raio é um garfo amarelo,

Por desatentas mãos deixado cair
De mesas postas no céu;
A espantosa cutelaria

De mansões jamais bem abertas,
Nem tampouco bem fechadas,
É aparato das trevas
À ignorância revelado.

541 (Emily Dickinson ) ( tradução: Ivo Bender)

 Certa borboleta pode ser vista

— Graciosa — nos pampas do Brasil,
Somente ao meio-dia em ponto —
Depois, sua liberdade expira.

E uma especiaria, que eclode e fenece,
À mercê de tua colheita —
Como as estrelas que conheceste à noite
E que, pela manhã, te são alheias.

219 (Emily Dickinson ) (Tradução: Aíla de Oliveira Gomes)

 Ela varre com vassouras multicores

E sai espalhando fiapos,
Ó Dona arrumadeira do crepúsculo,
Volta atrás e espana os lagos:

Deixaste cair novelo de púrpura,
E acolá um fio de âmbar,
Agora, vejam, alastras todo o leste
Com estes trapos de esmeralda!

Inda a brandir vassouras coloridas,
Inda a esvoaçar aventais,
Até que as piaçabas viram estrelas —
E eu me vou, não olho mais.

80 (Emily Dickinson) ( tradução: Isa Mara Lando )

 Nossas vidas são Suíças —

Tão quietas — tão Frias —
Até que uma tarde vem
Soltam os Alpes as suas Cortinas
E divisamos mais além!

A Itália fica do outro lado!
Qual sentinelas, porém
Os Alpes solenes
Os Alpes sirenes
Para sempre intervêm!

SIMPLICIDADE ( Maria Thereza Noronha )

 O que por mar vier não sendo barco

alga coral peixe retardatário
será de mim o que deixei alhures:
praia perdida de remoto mar.

O que por ar vier não sendo asas
— aeronave ou ave migratória —
rumor será de vento nas acácias:
rota antiga de um sonho perdulário.

O que por terra vier será bem-vindo
como bem-vindas são as coisas simples,
estratégia e rotina se alternando:
legada a insanidade aos altos píncaros.

UM COPO SOBRE A MESA ( Carlos Felipe Moisés )

 Pode ter sido só

o ranger da cadeira
    mas eu ouvi
    ouvi mais
    ouvi menos do que isso
    ouvi o arfante farfalhar
    de uma lembrança
    um gemido
    um ai!
    umas luzes falantes
quando me arqueei
na direção do copo sobre a mesa.

Curiosa a insistência dessa
inútil
cantabile melodia — a lembrar:
    uma cadeira que range um
    sorriso ofegante (pode ser)
    uns olhos claros
— ou foram
    os cabelos os lábios a testa
    iluminada?

Pode ter sido o antegozo
do primeiro gole ou a surpresa
    (não sei
    mas eu ouvi
    ouvi mais
    ouvi menos do que isso
    ouvi um sorriso uns braços um
    ai! uns seios nus)

: como pode um simples
copo sobre a mesa
abrigar, vadia, tanta luz?

Vontade de pedir: vem
beber comigo! (Este primeiro
gole foi promissor.)

DEPOIS DA CHUVA ( André Caramuru Aubert )

 agora é depois da chuva: o ar lavado, limpo,

no chão as folhas molhadas. e este sol, entre
nuvens, ainda tímido/frio.

você não está aqui, ora, então
só me resta imaginá-la: ao meu lado
[de mãos dadas?], caminhando.

e do chão, insistente, ritmado,
o plec plec plec dos nossos passos
sobre as folhas molhadas.

36. A POESIA QUE HÁ ( André Caramuru Aubert )

 a poesia que há no que a pele sente quando sente

que há nela outra pele,
encostando, os corpos, a calidez, as pernas
entrelaçadas, mamilos entre dedos que apertam
com força, a respiração. o cabelo, ora
solto, ora preso em coque, deixando ver, por inteiro,
o pescoço. e a poesia que há nos pequenos lábios, e
nos grandes. a respiração, a transpiração.

depois, o torpor. e a pele, cansada. a certeza
de que só a poesia redimirá nossos pecados
(que são muitos),
de que só a poesia nos poderá salvar.

ADORMECIDA (Castro Alves)

 Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière
   La croix de son collier repose dans sa main,
 —
   Comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière.
   Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain.
                                             A. de Musset

 Uma noite, eu me lembro. Ela dormia

Numa rede encostada molemente.
Quase aberto o roupão. solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina.
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos  beijá-la.

Era um quadro celeste! A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia.
Quando ela serenava... a flor beijava-a.
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia.

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças.
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se.
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio.

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor!  tu és a virgem das campinas!
"Virgem!  tu és a flor da minha vida!"

RISO PARA GIL ( Paulo Leminski )

 teu riso

reflete no teu canto rima rica
raio de sol
em dente de ouro

“everything is gonna be alright” teu riso
diz sim
teu riso

satisfaz

enquanto o sol
que imita teu riso
não sai
Na foto: o cantor e compositor Gilberto Gil

CONTRANARCISO ( Paulo Leminski )

 em mim

eu vejo
o outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente centenas

o outro
que há em mim é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

31/07/2025

O ÚLTIMO POEMA ( Heba Abu Nada )

  A noite na cidade é escura,

exceto pelo brilho dos mísseis;
silenciosa, exceto pelo som do bombardeio;
aterradora, exceto pela promessa lenitiva da oração;
tenebrosa, exceto pela luz dos mártires.
Tradução: Huda Fakhreddine / Carlos Machado