04/10/2025

DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE - I ( Hilda Hilst ) in “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Tenho me fatigado tanto todos os dias
Vestindo, despindo e arrastando amor
Infância,
Sóis e sombras.
Vou dizer coisas terríveis à gente que passa.
Dizer que não é mais possível comunicar-me.
(Em todos os lugares o mundo se comprime.)
Não há mais espaço para sorrir ou bocejar de tédio.
As casas estão cheias. As mulheres parindo sem cessar,
Os homens amando sem amar, ah, triste amor desperdiçado
Desesperançado amor… Serei eu só
A revelar o escuro das janelas, eu só
Adivinhando a lágrima em pupilas azuis
Morrendo a cada instante, me perdendo?

Iniciei mil vezes o diálogo. Não há jeito.
Preparo-me e aceito-me
Carne e pensamento desfeitos. Intentemos,
Meu pai, o poema desigual e torturado.
E abracemo-nos depois em silêncio. Em segredo.

DO AMOR CONTENTE E MUITO DESCONTENTE - 6 ( Hilda Hilst )

Tudo é triste. Triste como nós
Vivos ausentes, a cada dia esperando
O imutável presente.
Tudo é triste. Triste como eu
Antiga de carícias
De olhos e lamentos
Lenta no andar, lenta
Irmã
De algum canto de ave
De silêncio na nave, irmã.

Vamos partir, amor.
Subir e descer rios
Caminhar nos caminhos
Beijar
Amar como feras
Rir quando vier a tarde.
E no cansaço

Deitaremos imensos
Na planície vazia de memórias.

Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

O DESEMBARQUE DE JULIETA DOS SANTOS ( Cruz e Sousa )

 Chegou enfim, e o desembarque dela

Causou-me logo uma impressão divina!
É meiga, pura como sã bonina,
Nos olhos vivos doce luz revela!

É graciosa, sacudida e bela,
Não tem os gestos de qualquer menina:
Parece um gênio que seduz, fascina,
Tão atraente, singular é ela!

Chegou, enfim! eu murmurei contente!
Fez-se em minh’alma purpurina aurora,
O entusiasmo me brotou fervente!

Vimos-lhe apenas a construção sonora,
Vimos a larva, nada mais, somente
Falta-nos ver a borboleta agora!

DANÇA DO VENTRE ( Cruz e Sousa )

 Torva, febril, torcicolosamente,

numa espiral de elétricos volteios,
na cabeça, nos olhos e nos seios
fluíam-lhe os venenos da serpente.

Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
que convulsões, que lúbricos anseios,
quanta volúpia e quantos bamboleios,
que brusco e horrível sensualismo quente.

O ventre, em pinchos, empinava todo
como réptil abjecto sobre o lodo,
espolinhando e retorcido em fúria.

Era a dança macabra e multiforme
de um verme estranho, colossal, enorme,
do demônio sangrento da luxúria!

AFRA ( Cruz e Sousa )

 Ressurges dos mistérios da luxúria,

Afra, tentada pelos verdes pomos,
Entre os silfos magnéticos e os gnomos
Maravilhosos da paixão purpúrea.

Carne explosiva em pólvoras e fúria
De desejos pagãos, por entre assomos
Da virgindade–casquinantes momos
Rindo da carne já votada a incúria.

Votada cedo ao lânguido abandono,
Aos mórbidos delíquios como ao sono,
Do gozo haurindo os venenosos sucos.

Sonho-te a deusa das lascivas pompas,
A proclamar, impávida, por trompas,
Amores mais estéreis que os eunucos!

SERPENTE DE CABELOS ( Cruz e Sousa )

 A tua trança negra e desmanchada

Por sobre o corpo nu, torso inteiriço,
Claro, radiante de esplendor e viço,
Ah! lembra a noite de astros apagada.

Luxúria deslumbrante e aveludada
Através desse mármore maciço
Da carne, o meu olhar nela espreguiço
Felinamente, nessa trance ondeada.

E fico absorto, num torpor de coma,
Na sensação narcótica do aroma,
Dentre a vertigem túrbida dos zeros.

És a origem do Mal, és a nervosa
Serpente tentadora e tenebrosa,
Tenebrosa serpente de cabelos!

03/10/2025

RITO DE PASSAGEM ( Graça Pires )

 Descerrei o olhar

para ver no fundo do abismo
o reino da água
com reflexos
de lágrimas e suor
de sangue e saliva
no recato da memória se doendo.
Neles me purifiquei para entrar
no labirinto das palavras.

SAGRAÇÃO DO ÓCIO ( Fernando Campanella )

 Hoje, no dia dos meus anos,

saio da toca das palavras
e vou festejar no telhado
por horas ali ficando, um pombo
ou um tímido gato,
de papo para a tarde virado.

Hoje, não mais sou um bicho doído
nem trago o gosto antigo
de um paletó
ou de um guarda-chuva, pendurados.

Transito pelo tempo dos pássaros:
quem me conta os anos,
quem na memória me guarda?

Se a luz incide, sei que o dia perdura
e me ilumina por dentro esse fato.
Quando escurece, vou dançar conforme a sombra,
contar estrelas intermináveis
ou adormecer no anonimato.

Mas não quero agora falar de sombras —
a noite, eu sei, a noite já é bem outro trato.

CASO DO VESTIDO ( Carlos Drummond de Andrade )

Nossa mãe, o que é aquele

vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou.

Chorou no prato de carne,
bebeu, gritou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou,

dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele.

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio. Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só para lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Saí pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pai sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou para mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.

O SEU SANTO NOME ( Carlos Drummond de Andrade )

 Não facilite com a palavra amor.

Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

02/10/2025

DO LIVRO: NEFERTITI & AKHENATON, "O CASAL SOLAR " DE CHRISTIAN JACQ

 "Claro o rosto,

Alegremente enfeitado com dupla pluma,
Soberana da felicidade,
Dotada de todas as virtudes,
Com cuja voz nos alegramos,
Senhora de graça, grande de amor,
Cujos sentimentos enchem de alegria
O senhor dos dois países.
A princesa herdeira,
Grande de indulgência,
Senhora da felicidade,
Resplandecente nas suas plumas,
Alegrando com a sua voz àqueles que a ouvem,
Encantando o coração do rei em sua casa,
Satisfeita com tudo o que lhe dizem,
A Grande e bem amada esposa do rei,
Senhora dos dois países,
"Belas são as belezas de Aton",
"A Bela Chegou",
Vivendo para sempre.

ANIMAL QUE DESPERTA(Ana María Rodas)trad.:Floriano Martins

 Sou a gata que caminha dentro de mim

comigo
as leves patas felpudas
Desci pelo rio
conservando o gosto pela caça
os miados ambíguos

Quando fecho os olhos atravesso os séculos

As areias deram cor
a esta pele suave que esconde
uma flor molhada entre as mandíbulas
o ouro egípcio se vê refletido na pupila
desta gata
que demasiadas vezes
recorda sua verdadeira condição de fera

A Rainha de Sabá teria dado a metade de suas terras
para ter estas garras

LIMPASTE O ESPERMA(Ana María Rodas)trad.:Floriano Martins

 Limpaste o esperma

e te meteste no chuveiro.

Deste um tapa no testemunho
porém não na lembrança.

Agora
eu aqui, frustrada,
sem permissão para assim estar
devo esperar
e acender o fogo
e limpar os móveis
e encher o pão de manteiga.

Tu comprarás com cédulas sujas
o teu capricho
passageiro

tudo isto me enoja um pouco
quando deixo de ser humana
e me transformo em traste velho.

CORAÇÃO INSANO ( Nadia Anjuman ) tradução: Regina Guimarães

 Não quero as vistas do jardim, nem a água, nem os grãos

Sou aquele pássaro que procura apenas um recanto nas ruínas
O meu coração transborda de mágoa e desejo
Quero um buraco na casa do pesar para alojar esse desditoso órgão
Não recebi bondade de amigo, conhecido ou amante
Quero arredar do mundo este meu coração aflito
No meio da multidão, a solidão marcou-me a ferros
Possa o Deus de Anjuman fazer do meu coração uma borboleta
Do afã cerebral nada de bom emana: quero vinho – saúdo a embriaguez
não quero arejar o intelecto – é a loucura que me encanta
Quero um coração louco, quero um coração louco

UM PRANTO SURDO(Nadia Anjuman)Trad.:Regina Guimarães

 O som dos verdes rastros está na chuva

Chega até nós desde a estrada
Almas sedentas e saias empoeiradas chegaram do deserto
Seu hálito ardente e a miragem-fundida
De suas bocas secas e cobertas de pó
Nos chegam, agora, desde a estrada
Seus corpos atormentados, meninas criadas na dor
A alegria longe de seus rostos
Corações velhos e repletos de rachaduras
Não surgem sorrisos nos oceanos inóspitos de seus lábios
Nem uma lágrima brota do seco canal de seus olhos
Oh, Deus!
Poderia ignorar se seus gritos surdos que saltaram do céu,
Alcançam as nuvens?
O som dos verdes rastros permanece na chuva

01/10/2025

FLOR DE FUMO ( Nadia Anjuman )Trad.: Regina Guimarães

Estou cheia de vazio
                                   Cheia
E muitas vezes é este fardo de nada
no campo incandescente do meu corpo
                                   que arde por dentro
Desta estranha ebulição 
                                   de súbito
                                   os meus poemas
                                   nascem
                                   ao jeito de papéis
                                   desdobrando-se
                                   – rara flor são
Porém,
estes fios de fumo
                                   dão ao meu corpo
                                   seu cheiro e sua cor

BULHA ( Adélia Prado )

Às vezes levanto de madrugada, com sede,
flocos de sonho pegados na minha roupa,
vou olhar os meninos nas suas camas.
O que nessas horas mais sei é: morre-se.
Incomoda-me não ter inventado este dizer lindíssimo:
‘Ao amiudar dos galos.’ Os meninos ressonam.
Com nitidez perfeita, os fragmentos:
as mãos do morto cruzadas, a pequena ferida no dorso.
A menina que durante o dia desejou um vestido
está dormindo esquecida e isto é triste demais,
porque ela falou comigo: "Acho que fica melhor com
[babado"
e riu meio sorriso, embaraçada por tamanha alegria.
Como é possível que a nós, mortais, se aumente o brilho
[nos olhos
porque o vestido é azul e tem um laço?
Eu bebo a água e é uma água amarga
e acho o sexo frágil, mesmo o sexo do homem.


A SERENATA ( Adélia Prado )

 Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mão incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
o que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
— só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?

ANÍMICO (Adélia Prado)

Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoado de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asa, é boca, é bico,
é grão de poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.


TEUS OLHOS ( Alzira Freitas Tacques )

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SONHO? ( Leonor Farías ) Trad: Antonio Miranda

 Eu não sonhei…

os beijos na vereda da praça
o toque anoitecendo minha cintura
a mesa escondedora de joelhos
e a doce insinuação lasciva

Não foi una confusão
o sonho desses dois vocábulos
o enérgico e possessivo. Vamos!
as reinvidicações veladas
e a ternura ol descobrir o gesto.
Não foi uma fantasia
a glória da palavra justa
o cúmplice silêncio da espera
a gulosa mirada do encontro
e os dias de fogo à distância,,
as mãos sobrepostas
o céu por fazer-me tua
a ponta de meus pés para pegar a boca
e agachados para sorver minha essência.
Não foi una alucinação
a fúria animal entremesclada
o ofegante do músico
a vertigem elevada entre teus braços
e teu sensual tom autoritário.
Não era um delírio
(embora delirássemos)
os risos debaixo o cinto sustentador
tuas águas derramadas em meu ventre
me néctar fluindo por teus dedos
e a urgente ereção em meus confins.
Não, eu não sonhei

Os sonhos não deixam rastros, nem amasso,
nem odores
Os sonhos são pura confusão
Os sonhos não são nossos.

METÁFORA DO CORPO ( Leonor Farías) Tradução: Antonio Miranda

 É amor (e não me engano)

Eu o vi em sua inocente perversão
no crime das carícias moribundas
e o atropelo da fome.
Eu o senti na sucção dos espasmos
na fatal embalançar-se lúbrico
e na inefável  almagama do acoplamento.
Eu o viví no desbarranco
tomada pelo assalto
atravesando-me
(ávido)
o santuário
na elevação no justo instante
o ereto estandarte da morte.
Eu o  cheirei no suor das extremidades
no desperdício de fluidos
em cada gesto
que maltratou meu corpo com excessos.
No puxão sedento da ira
que devora e chupa com audácia
que sujeita com fúria
como troféu de batalha.
Posse que é amor (não tenho dúvida)          
quando a terra gira sob meus pés
no ritmo da entrega           
quando sua lança rompe
todas as fronteiras de minha história
Quando sou sua
E sou
e somos.