(O que se passa na cama
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
26/10/2025
O QUE SE PASSA NA CAMA ( Carlos Drummond de Andrade )
NO CORPO FEMININO... ( Carlos Drummond de Andrade )
No corpo feminino, esse retiro
AUSÊNCIA (Carlos Drummond de Andrade)
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
FLOR EXPERIENTE ( Carlos Drummond de Andrade )
Uma flor matizada
24/10/2025
TRAPÉZIO ( Silvana Guimarães )
a manhã nasce num gesto escuro
quando a espera se revela
inútil como um útero
que não sangra
o corpo incauto põe-se
de tocaia: aguarda outra deixa
para se jogar
e ignora o calafrio
esse arrepio entre o umbigo e os seios
essa dor terebrante no monte de vênus
anunciam
todo amor dilacera
SOULSTRIPPER ( Ariana Zahdi )
olhava pelo buraco da fechadura
E eu dançava um blues antigo
Descalça
No chão do quarto
Soltei o vestido de leve
E fiquei com as costas a mostra
Rebolante como uma stripper
Abri o sutiã devagar
E aos poucos lancei contra a porta
Tirei a calcinha
Deixei que caísse no piso gelado
E dancei como se meu corpo
Já não tivesse peso
Arranquei com calma a pele
Longa, lisa, macia
E ele invadiu o quarto
Sentou-se na cama
Enquanto eu rasgava os músculos
Ficou excitado
Porque eu destrinchava as vísceras
E não se conteve:
Quebrou meus ossos
E arrancou meu coração
Mas foi só quando a alma
Completamente nua
Se desprendeu de mim
REFOGADO ( Isadora Galvão )
piquei alho
e cebola
refoguei na manteiga
depois me deu um branco
abri um vinho tinto
e lembrei-me de que não sabia cozinhar
mas joguei na frigideira
tomilho, salsa, alho-poró
e deixei ao deus-dará
procurei na estante os livros
de nouvelle cousine
e gastronomia gourmet
achei só o volume de hilda hilst
que eu levava para
o banheiro
aos dezoito anos
e me tocava, até gozar
murmurando os versos
mais libidinosos
larguei para lá o refogado
bastava-me hilda
e o telefone da pizza delivery
mulher de cama, mesa e banho?
nem pensar
a fome dele é de mim
e o refogado que se resolva sozinho
A NOITE ( Daniela Delias )
bebe com mil línguas
minha noite estilhaçada
é quando creio
em tudo o que fere
o flanco a flecha a curva
amorosa do arco
ILHA-ME ( Lia Beltrão )
Não acenarei para as naus no horizonte.
PARA UM AMOR QUE SE DERRAMA II ( Ariana Zahdi )
Sol de meio-dia
Era fogo da primavera
Gelada
E por dentro
Floresciam as cerejeiras
Tão orientais
Quanto a paz construída a dois.
No confronto íntimo
Nem mortos, nem feridos
Só risos frouxos
Pernas tronchas
Mãos geladas a acordar o corpo
E uma taça que se derramava
Mas nunca se esvaziava.
Sem métrica
Mas com ritmo
Sem seriedade
Mas com graça
Sem nós de marinheiro
Mas com enroscar de almas.
SOL DE OUTONO ( Kiria Garcia )
Que eu aprenda
POESIA ( Kiria Garcia )
Os poetas anestesiam com palavras
REPRESA ( Kiria Garcia )
Palavras não ditas podem conter o amor?
INVERTIDO (Sophia Jamali Soufi) tradução: Nina Maria
Os relógios -
Mãos perdidas vagando.
O tempo
Conta o cansaço, grão por grão.
Você não veio.
Nem de além das estradas,
Nem de além do esquecimento.
Sombras,
No comprimento da ansiedade,
Alongam-se na parede.
Neste vão
Entre ser e não ser,
Tornei-me um espelho
Que nada reflete
Senão tua ausência.
Esperar
É a invasão de um monstro
Na alma.
Ele me ensinou
A despedaçar-me, pouco a pouco, na solidão,
E, com tua memória vívida,
Aceitar a rotina dos dias.
As estrelas?
Mentem.
Cada dia
É a mesma ferida de ontem.
Ainda creio
Nas velhas superstições:
Que você virá.
Mas se vier
Veja!
Já não quero janelas.
Temo todos os preenchimentos,
Temo todos os fins,
Os sentidos.
Temo as metáforas mortas.
Fico com uma verdade quebrada:
Amei tua sombra,
Não tua forma vazia.
Não venha.
Nunca venha.
Que tua ausência
Seja o grande prêmio -
Para sempre.
CULPA (Sophia Jamali Soufi ) tradução: Nina Maria
Os relógios -
Mãos perdidas vagando.
O tempo
Conta o cansaço, grão por grão.
Você não veio.
Nem de além das estradas,
Nem de além do esquecimento.
Sombras,
No comprimento da ansiedade,
Alongam-se na parede.
Neste vão
Entre ser e não ser,
Tornei-me um espelho
Que nada reflete
Senão tua ausência.
Esperar
É a invasão de um monstro
Na alma.
Ele me ensinou
A despedaçar-me, pouco a pouco, na solidão,
E, com tua memória vívida,
Aceitar a rotina dos dias.
As estrelas?
Mentem.
Cada dia
É a mesma ferida de ontem.
Ainda creio
Nas velhas superstições:
Que você virá.
Mas se vier
Veja!
Já não quero janelas.
Temo todos os preenchimentos,
Temo todos os fins,
Os sentidos.
Temo as metáforas mortas.
Fico com uma verdade quebrada:
Amei tua sombra,
Não tua forma vazia.
Não venha.
Nunca venha.
Que tua ausência
Seja o grande prêmio -
Para sempre.
TERRENO BALDIO ( Sophia Jamali Soufi ) tradução: Nina Maria
Nesta vizinhança
Nenhuma luz me reconhece
Memórias e eu fervemos em silêncio
Nenhuma mão
Nenhuma carícia
Nenhum olhar que me dê sentido
A mesma janela cansada
Voltada para o beco sem saída
Que só conhece
Risos artificiais
Aqui, deste lado,
A imagem do meu pássaro -
Um pássaro que já morreu mil vezes,
E, ainda assim, abre novamente as asas.
Sem medo algum
De cair.
O teto do quarto,
Mais pesado que uma tumba.
Os sopros
Que vêm e vão
Cheiram a coisa antiga.
E o espelho revela
As feridas do meu rosto
Mais nítidas que qualquer sorriso.
É a vida
Algo mais que uma ferida profunda?
Este olhar sem sentido
De um espetáculo amargo?
Respiramos
Apenas para ensaiar
A morte
Mais uma vez.
















