26/10/2025

O QUE SE PASSA NA CAMA ( Carlos Drummond de Andrade )

 (O que se passa na cama

é segredo de quem ama.)

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pênis.

Ai, cama, canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme a onça suçuarana,
dorme a cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima... O pênis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama.

NO CORPO FEMININO... ( Carlos Drummond de Andrade )

 No corpo feminino, esse retiro

- a doce bunda - é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento. Então, se ponho e tiro

a mão em concha - a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro -
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

AUSÊNCIA (Carlos Drummond de Andrade)

 Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

FLOR EXPERIENTE ( Carlos Drummond de Andrade )

 Uma flor matizada

entreabre-se em meus dedos.
Já sou terra estrumada
— é um de meus segredos.

Careceu vida lenta
e, mais que lenta, peca,
para a cor que ornamenta
esta epiderme seca.

Assino-me no cálice
de estrias fraternais.
O pensamento cale-se.
É jardim, nada mais.

24/10/2025

TRAPÉZIO ( Silvana Guimarães )

a manhã nasce num gesto escuro

quando a espera se revela

inútil como um útero

que não sangra

 

o corpo incauto põe-se

de tocaia: aguarda outra deixa

para se jogar

e ignora o calafrio

 

esse arrepio entre o umbigo e os seios

essa dor terebrante no monte de vênus

 

anunciam

 

todo amor dilacera

MÁGICA ( Líria Porto )

nossos dedos

brinquedos de deus

como abelhas ou aranhas

transformam em obras de arte

as coisas simples

SOULSTRIPPER ( Ariana Zahdi )

olhava pelo buraco da fechadura

E eu dançava um blues antigo

Descalça

No chão do quarto

 

Soltei o vestido de leve

E fiquei com as costas a mostra

Rebolante como uma stripper

 

Abri o sutiã devagar

E aos poucos lancei contra a porta

 

Tirei a calcinha

Deixei que caísse no piso gelado

E dancei como se meu corpo

Já não tivesse peso

 

Arranquei com calma a pele

Longa, lisa, macia

E ele invadiu o quarto

 

Sentou-se na cama

Enquanto eu rasgava os músculos

 

Ficou excitado

Porque eu destrinchava as vísceras

 

E não se conteve:

Quebrou meus ossos

E arrancou meu coração

 

Mas foi só quando a alma

Completamente nua

Se desprendeu de mim

Que ele gozou

REFOGADO ( Isadora Galvão )

 piquei alho

e cebola

refoguei na manteiga

 

depois me deu um branco

abri um vinho tinto

e lembrei-me de que não sabia cozinhar

 

mas joguei na frigideira

tomilho, salsa, alho-poró

 

e deixei ao deus-dará

 

procurei na estante os livros

de nouvelle cousine

e gastronomia gourmet

 

achei só o volume de hilda hilst

que eu levava para

o banheiro

aos dezoito anos

 

e me tocava, até gozar

murmurando os versos

mais libidinosos

 

larguei para lá o refogado

bastava-me hilda

e o telefone da pizza delivery

 

mulher de cama, mesa e banho?

nem pensar

 

a fome dele é de mim

e o refogado que se resolva sozinho

A NOITE ( Daniela Delias )

 bebe com mil línguas

minha noite estilhaçada

 

é quando creio

em tudo o que fere

 

o flanco a flecha a curva

amorosa do arco

ILHA-ME ( Lia Beltrão )

 Não acenarei para as naus no horizonte.

Nem acenderei fogueiras aos aviões noturnos.
Não quero buscas nem salvamentos.
 
Quero ficar aqui, ilha.
E não desejo que me venhas náufrago.
Mas que me cerques e molhes como um mar.

Por Chloe Arvoredo

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PARA UM AMOR QUE SE DERRAMA II ( Ariana Zahdi )

 Sol de meio-dia

Era fogo da primavera

Gelada

E por dentro

Floresciam as cerejeiras

Tão orientais

Quanto a paz construída a dois.

 

No confronto íntimo

Nem mortos, nem feridos

Só risos frouxos

Pernas tronchas

Mãos geladas a acordar o corpo

E uma taça que se derramava

Mas nunca se esvaziava.

 

Sem métrica

Mas com ritmo

Sem seriedade

Mas com graça

Sem nós de marinheiro

Mas com enroscar de almas.

SOL DE OUTONO ( Kiria Garcia )

 Que eu aprenda

Com o Sol do outono
A aquecer sem queimar
A levantar devagar
Sem pressa
Em tons alaranjados
A iluminar sem ofuscar
Deixando os verdes mais verdes
Os azuis mais azuis
Valorizando a beleza da natureza
E de cada um ao meu redor
Que eu aprenda
Com o Sol do outono
a ir embora antes da festa acabar

POESIA ( Kiria Garcia )

 Os poetas anestesiam com palavras

As dores que bêbados afogam em copos
Versos
Garrafas
Estrofes
Tinas
Sonetos
Se a escrita organiza
Angústias, mágoas e ansiedade
Nos braços de Baco se flutua rodopia
Em descompasso
Nem todo dia é dia de enfrentar
Há dias pra fugir e outros pra lutar
Dias de escrever e dias de bar

REPRESA ( Kiria Garcia )

 Palavras não ditas podem conter o amor?

Enquanto não sei o que sinto
Prudente calar o impulso
A vontade, o desejo
Assisto você despejar água na minha represa
Observo o nível subindo
As rachaduras surgindo
Se você continuar
Uma hora não vai dar pra escapar
Meu silêncio será rompido
Pode ser que eu te conte
O quanto sua companhia me dá prazer
Pode ser que eu confesse
Antes de eu mesma saber
O quanto já amo você

INVERTIDO (Sophia Jamali Soufi) tradução: Nina Maria

 Os relógios -

Mãos perdidas vagando.

O tempo

Conta o cansaço, grão por grão.

Você não veio.

Nem de além das estradas,

Nem de além do esquecimento.

Sombras,

No comprimento da ansiedade,

Alongam-se na parede.

Neste vão

Entre ser e não ser,

Tornei-me um espelho

Que nada reflete

Senão tua ausência.

Esperar

É a invasão de um monstro

Na alma.

Ele me ensinou

A despedaçar-me, pouco a pouco, na solidão,

E, com tua memória vívida,

Aceitar a rotina dos dias.

As estrelas?

Mentem.

Cada dia

É a mesma ferida de ontem.

Ainda creio

Nas velhas superstições:

Que você virá.

Mas se vier

Veja!

Já não quero janelas.

Temo todos os preenchimentos,

Temo todos os fins,

Os sentidos.

Temo as metáforas mortas.

Fico com uma verdade quebrada:

Amei tua sombra,

Não tua forma vazia.

Não venha.

Nunca venha.

Que tua ausência

Seja o grande prêmio -

Para sempre.

CULPA (Sophia Jamali Soufi ) tradução: Nina Maria

Os relógios -

Mãos perdidas vagando.

O tempo

Conta o cansaço, grão por grão.

Você não veio.

Nem de além das estradas,

Nem de além do esquecimento.

Sombras,

No comprimento da ansiedade,

Alongam-se na parede.

Neste vão

Entre ser e não ser,

Tornei-me um espelho

Que nada reflete

Senão tua ausência.

Esperar

É a invasão de um monstro

Na alma.

Ele me ensinou

A despedaçar-me, pouco a pouco, na solidão,

E, com tua memória vívida,

Aceitar a rotina dos dias.

As estrelas?

Mentem.

Cada dia

É a mesma ferida de ontem.

Ainda creio

Nas velhas superstições:

Que você virá.

Mas se vier

Veja!

Já não quero janelas.

Temo todos os preenchimentos,

Temo todos os fins,

Os sentidos.

Temo as metáforas mortas.

Fico com uma verdade quebrada:

Amei tua sombra,

Não tua forma vazia.

Não venha.

Nunca venha.

Que tua ausência

Seja o grande prêmio -

Para sempre.

TERRENO BALDIO ( Sophia Jamali Soufi ) tradução: Nina Maria

 Nesta vizinhança

Nenhuma luz me reconhece

Memórias e eu fervemos em silêncio

Nenhuma mão

Nenhuma carícia

Nenhum olhar que me dê sentido

A mesma janela cansada

Voltada para o beco sem saída

Que só conhece

Risos artificiais

Aqui, deste lado,

A imagem do meu pássaro -

Um pássaro que já morreu mil vezes,

E, ainda assim, abre novamente as asas.

Sem medo algum

De cair.

O teto do quarto,

Mais pesado que uma tumba.

Os sopros

Que vêm e vão

Cheiram a coisa antiga.

E o espelho revela

As feridas do meu rosto

Mais nítidas que qualquer sorriso.

É a vida

Algo mais que uma ferida profunda?

Este olhar sem sentido

De um espetáculo amargo?

Respiramos

Apenas para ensaiar

A morte

Mais uma vez.