12/01/2026

MIM ( Darcy Ribeiro ), in “Eros e Tânatos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

 O tempo transcorre em mim

Celeremente. Tão afoito que finda.
Acho que sei, afinal, a que vim.
E já me vou. Uma pena.
Não há tempo mais pra mim.
Volto à silente matéria cósmica
Que em mim, um dia, se organizou
Para me ser. Uma vez, uma vez somente.

FAGULHAS DE MEMÓRIA (Darcy Ribeiro), in “Eros e Tânatos”. Rio de Janeiro: Editora Record, 1998.

 O cacho de bananas amarelíssimas, que meu avô tirou do armário preto de papéis cartoriais.

A velha naturalista estrangeira, meio surda, se fazendo carregar pelos índios, de aldeia em aldeia.
Uma légua de piranhas mortas, dourando a baía ao amanhecer
de não mais ser, nem estar, jamais aí.
Vocês todos vivendo, seus filhos da puta. Só eu não.

À VIDA (Marina Tzvietáieva) “Poesia da Recusa”. org. e trad. Augusto de Campos. Editora Perspectiva, 2006

 Não colherás no meu rosto sem ruga

A cor, violenta correnteza.
És caçadora – eu não sou presa.
És a perseguição – eu sou a fuga.

Não colherás viva minha alma!
Acossado, em pleno tropel,
Arqueia o pescoço e rasga
A veia com os dentes, o corcel

Árabe.

MENINA PASSARINHO ( Cátia de França )

 Passarinho atrepado nas cajazeiras

Cantavam pra ela lindas sinfonias
E ela não queria, não chegava e não mudava
Sorrindo se escondia, cantava
Cantava também
Cantava também

Chovendo canivete, fazendo temporal
O nosso amor, eu sei
É um eterno carnaval
A conta évinte dias
Pra se amar e se tocar
Demora vem o enjoo
Ave danada em pleno voo

Assovia na cumieira
O vento da separação
Amor bom é nosso
Que sabe aceitar
A hora da apartação

Estrada que se cala
Moça, passarinho
Segue seu rumo
Que sigo meu caminho
Gente como nós
Não tem nada a temer
Se a vida é isso mesmo
A gente tem é que viver

A vida é quem ensina
E me fez tomar sentido
O sabiá na moda
Escurecer seu gorgeio
A brisa reservada
De baixo dessas asas
A emoção preservada calada
Debaixo de meu seio

O TOQUE ( Paulo Coelho & Rita Lee )

 Abri a janela

Um som diferente entrou
Meus olhos mudaram, eu sei
Ou foi o sol que mudou, babe

O som das nuvens
A conversa do vento
A voz dos astros
A história do tempo

O som das estrelas
A música do luar
Contando em segredo, eu sei
Contando todo o meu medo, babe,

O som das flores
O murmúrio do céu
Me deram um toque
Quem tem ouvidos que ouça

Você é uma criança do universo
E tem tanto o direito de estar aqui
Quanto as árvores e as estrelas
Mesmo que isto não esteja claro para você
Não há dúvidas
Que o universo segue o rumo
Que todos nós escolhemos

11/01/2026

POR QUE DEIXEI O JARDIM ( Ama Codjoe )Tradução: Nelson Santander

 Depois que perdi meu seio, tornei-me uma mulher

suturada por um tipo de sabedoria.

Ao longo do dia eu me movia como se caminhar não fosse diferente
de cair. Eu possuía os buracos
e o céu crivado. Eu não tinha absolutamente nada.

Mesmo à distância,
eu conseguia ouvir o disco pulando.
O tempo escorria
das mãos. Dos rostos.

Na primeira vez em que um amante traçou
minha cicatriz, acariciou seu rio
e beijou seu sulco, acordei cedo
na manhã seguinte e, silenciosamente, parti.

AMOR À NATUREZA ( Paulinho da Viola )

 Relíquia do folclore nacional

Joia rara que apresento
Nesta paisagem em que me vejo
No centro da paixão e do tormento
Sem nenhuma ilusão
Neste cenário de tristeza
Relembro momentos de real bravura
Dos que lutaram com ardor
Em nome do amor à natureza

Cinzentas nuvens de fumaça
Umedecendo meus olhos
De aflição e de cansaço
Imensos blocos de concreto
Ocupando todos os espaços
Daquela que já foi a mais bela cidade
Que o mundo inteiro consagrou
Com suas praias tão lindas
Tão cheias de graça, de sonho e de amor

Flutua no ar o desprezo
Desconsiderando a razão
Que o homem não sabe se vai encontrar
Um jeito de dar um jeito na situação
Uma semente atirada
Num solo tão fértil não deve morrer
É sempre uma nova esperança
Que a gente alimenta de sobreviver
Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo

PECADO CAPITAL ( Paulinho da Viola )

Dinheiro na mão é vendaval
É vendaval!
Na vida de um sonhador
De um sonhador!
Quanta gente aí se engana
E cai da cama
Com toda a ilusão que sonhou
E a grandeza se desfaz
Quando a solidão é mais
Alguém já falou.

Mas é preciso viver
E viver
Não é brincadeira não
Quando o jeito é se virar
Cada um trata de si
Irmão desconhece irmão
E aí!
Dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão!
Dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão!

10/01/2026

CAMBAIO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

 Eu quero moça que me deixe perdido

Procuro moça que me deixe pasmado
Essa moça zoando na minha idéia
Eu quero moça que me deixe zarolho
Procuro moça que me deixe cambaio
Me fervendo na veia

Desejo a moça prestes
A transformar-se em flor
A se tornar um luxo
Pro seu novo amor
Moça que vira bicho
Que é de fechar bordel
Que ateia fogo às vestes
Na lua-de-mel

Eu quero moça que me deixe maluco
Moça disposta a me deixar no bagaço
Essa moça zanzando na minha raia
Eu quero moça que me chame na chincha
Com sua flecha que me crave um buraco
Na cabeça e não saia

Que não abaixe a fronte
Que vai por onde quer
Que segue pelo cheiro
Quero essa mulher
Que é de rasgar dinheiro
Marido detonar
Se arremessar da ponte
E me carregar

Vejo fulana a festejar na revista
Vejo beltrana a bordejar no pedaço
Divinais garotas
Belas donzelas no salão de beleza
Altas gazelas nos jardins do palácio
Eu sou mais as putas

09/01/2026

ZAMBI (Vinícius de Moraes & Edu Lobo)

É Zambi no açoite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi na noite, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi

Chega de sofrer, ei!
Zambi gritou
Sangue a correr
É a mesma cor
É o mesmo adeus
É a mesma dor

É Zambi se armando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi
É Zambi lutando, ei, ei, é Zambi
É Zambi tui, tui, tui, tui, é Zambi.

Chega de viver, ê
Na escravidão
É o mesmo céu
O mesmo chão
O mesmo amor
Mesma paixão

Ganga-zumba, ei, ei, ei, vai fugir
Vai lutar, tui, tui, tui, tui, com Zambi
E Zambi, gritou ei, ei, meu irmão
Mesmo céu, tui, tui, tui, tui
Mesmo chão

Vem filho meu
Meu capitão
Ganga-zumba
Liberdade
Liberdade
Liberdade
Vem meu filho

É Zambi morrendo, ei, ei, é Zambi
É Zambi, tui, tui, tui, tui, é Zambi
Ganga Zumba, ei, ei, ei, vem aí

Ganga Zumba, tui, tui, tui, é Zambi 


AVE CORAÇÃO ( Clodomir Souza Ferreira & Zeca Bahia ) do disco "Beleza"

 Eu sei que existe por ai uma andorinha solta

Procurando um verão que se perdeu no tempo
Cansou de ser herói do espaço
E quer a companhia de outros pássaros
É que seu coração de ave, não agüenta tanta solidão

Eu sei que eu ando por ai, sou andorinha solta
E nem sei a estação em que estou vivendo
Não quero ser herói de nada
Só quero a companhia de outros braços
É que meu coração de homem, voa alto como um pássaro

08/01/2026

TU TENS UM MEDO (Cecília Meireles) in Poesia Completa

Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Ama sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo
Não faças de ti
Um sonho a realizar.
Vai.
Sem caminho marcado.
Tu és o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
Sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares.
Sê o que renuncia
Altamente:
Sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
Nem esse último gesto!
O que tu viste amargo,
Doloroso,
Difícil,
O que tu viste inútil
Foi o que viram os teus olhos
Humanos,
Esquecidos
Enganados
No momento da tua renúncia
Estende sobre a vida
Os teus olhos
E tu verás o que vias:
Mas tu verás melhor
 E tudo que era efêmero
se desfez.
E ficaste só tu, que é eterno.

AMÉM ( Cecília Meireles )

 Hoje acabou-se-me a palavra,

e nenhuma lágrima vem.
Ai, se a vida se me acabara
também!

A profusão do mundo, imensa,
tem tudo, tudo - e nada tem.
Onde repousar a cabeça?
No além?

Fala-se com os homens, com os santos,
consigo, com Deus. E ninguém
entende o que se está contando
e a quem. 

Mas terra e sol, luas e estrelas
giram de tal maneira bem
que a alma desanima de queixas.
Amém.

RETRATO ( Cecília Meireles ) in Viagem; 1939.

 Eu não tinha este rosto de hoje,

Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?

MURMÚRIO ( Cecília Meireles )

 Traze-me um pouco das sombras serenas

que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

REINVENÇÃO ( Cecília Meireles ) in Vaga Música; 1942.

 A vida só é possível

reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas.
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo— mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço.
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

ÍSIS ( Cecília Meireles )

 E diz-me a desconhecida:

"Mais depressa! Mais depressa!
"Que eu vou te levar a vida! 

"Finaliza! Recomeça!
"Transpõe glórias e pecados! "
Eu não sei que voz seja essa

Nos meus ouvidos magoados:
Mas guardo a angústia e a certeza
De ter os dias contados. 

Rolo, assim, na correnteza
Da sorte que se acelera,
Entre margens de tristeza,

Sem palácios de quimera,
Sem paisagens de ventura,
Sem nada de primavera.

Lá vou, pela noite escura,
Pela noite de segredo,
Como um rio de loucura. 

Tudo em volta sente medo.
E eu passo desiludida,
Porque sei que morro cedo.

Lá me vou, sem despedida.
Às vezes, quem vai, regressa.
E diz-me a Desconhecida:

"Mais depressa" Mais depressa".

DESPEDIDA (Cecília Meireles) in Flor de Poemas, 1972.

 Por mim, e por vós, e por mais aquilo

que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranquilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação.
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra)

Quero solidão.

A CHUVA CHOVE ( Cecília Meireles )

 A chuva chove mansamente como um sono

Que tranqüilize, pacifique, resserene.
A chuva chove mansamente. Que abandono!
A chuva é a música de um poema de Verlaine.

E vem-me o sonho de uma véspera solene,
Em certo paço, já sem data e já sem dono.
Véspera triste como a noite, que envenene

 Num velho paço, muito longe, em terra estranha,
Com muita névoa pelos ombros da montanha.
Paço de imensos corredores espectrais,

Onde murmurem, velhos órgãos, árias mortas,
Enquanto o vento, estrepitando pelas portas,
Revira in-fólios, cancioneiros e missais.

CONTEMPLATIVA ( Raiza Figuerêdo )

 pelo direito à pausa

e não fazer nada, no correr das horas
são tantos estímulos
mensagens, demandas e notificações
na sociedade da pressa

a filosofia escreve sobre o cansaço contemporâneo
e freud, se estivesse vivo
falaria da aceleração, como mal estar da civilização
que aumenta a frequência cardíaca
e o fluxo dos pensamentos
tensiona os músculos
e adoece as vísceras

[mas a pausa está em tudo
nos ensina a professora natureza
na noite, no inverno
nas sementes e nos animais que hibernam]
descansar é revolucionário.

UM CORPO FEMININO ( Raiza Figuerêdo )

 experimenta muitas formas, linhas, curvas

e marcas no correr dos anos
o ganho dos kg na balança
e a oscilação
ora para mais, ora menos
os hormônios e o tempo passando nas células
em cada parte
os músculos da face, tronco e membros
desenham infinitas possibilidades de expressão
sorriso mostrando os dentes ou de boca fechada
ambos de orelha a orelha
o olhar que muda no jeito de rir
e os olhos ficam mais apertados ou maiores
em cada parte do corpo
há muitos caminhos a serem conhecidos
no correr dos anos
um mergulho dentro de ti

07/01/2026

AMOR ( Nuno Júdice ) in Meditação Sobre Ruínas, 1994

 Um poema, dizes, em que

o amor se exprima, tudo
resumindo em palavras.

Mas o que fica
nas palavras
daquilo que se viveu?

Um pó de sílabas,
o ritmo pobre da
gramática, rimas sem nexo...

O AMOR ( Nuno Júdice ) De Cartografia de Emoções, 2001

 Deus — talvez esteja aqui, neste

pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.

Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?

Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.

Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta. Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.

O OVO DA SERPENTE ( Thaís Campolina )

 ouvi dizer que o berro da cigarra é um aviso

debaixo da terra alguém está irritado
mas o solo não pode nos mastigar
não aqui não agora não tão longe
do encontro das placas tectônicas

o que ele faz então é esperar
as ninfas eclodirem em cigarras
para ecoar seu próprio grito
enquanto estuda uma forma
de romper a casca