"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
16/01/2026
15/01/2026
AS CAMÉLIAS DO QUILOMBO DO LEBLON ( Caetano Veloso & Gilberto Gil )
As camélias do quilombo do Leblon
Célia Moura, in “No hálito de Afrodite”
Vem
14/01/2026
DE PRIMEIRA GRANDEZA ( Antônio Carlos Belchior )
Quando eu estou sob as luzes
UMA MULHER ( Lourdes Espínola ) , in Partidas e Regressos. tradução: Albano Martins.
Uma mulher é apenas
essa que às vezes
faz crescer ( no lugar errado )
a dúvida
numa ênfase sem lógica,
o arrepio que devagar.
Uma mulher impõe-se suavemente
com movimentos de peixe;
ela insinua-se nos teus sentidos e nas tuas palavras;
deixa um livro aberto entre os lençóis
e uma camélia
de fogo nas tuas pernas.
MEU CORPO ( Lourdes Espínola ) , in A Estratégia do Caracol; tradução: Albano Martins
No meu corpo convergem
os mitos silenciosos.
O teu sexo, minotauro
e a criação dos gémeos nos meus seios.
A árvore da vida do meu ventre
e a sinfonia de todos os adeuses.
Repositório de histórias antigas
de tudo o que foi e o que foram
mãos ensanguentadas
de unicórnio partido.
Reconheço-me em cada canto
onde repousam,
quentes e descalços,
os quebrados mitos.
AS PALAVRAS DO CORPO ( Lourdes Espínola ), in A Estratégia do Caracol; tradução: Albano Martins
Os nossos corpos molhados pela água,
lambidos, entrelaçados,
o mar faz-nos cócegas no sexo,
um pé, a nuca.
A água espumosa
que nos agarra, um braço
como um toque por distracção
que te apanha,
me apanha
mas esquivo-me, tu estendes-te.
As nossas asas tocam-se,
as nossas pernas enlaçam-se
e a água
por dentro, por fora, por dentro.
Os nossos corpos: a água.
A lua impiedosa
ou a tua língua, lavando-me
inteira e brilhante,
despiu-nos.
O teu corpo, espelho interminável,
sabia que a maldade
estava ocupada noutro sítio.
E possuíste-me inteira
no descuido exacto da vida.
Eu serei Margarida e tu o mestre,
Merlin com sua língua
na cova mais funda
e a minha boca
uma bússola no teu corpo.
Os postes circulares da tua cama
convergem nos nós das minhas pernas
- a luz era uma vela –
mas os teus olhos
dardos na noite.
O silêncio ganhou um cheiro a sândalo marinho:
esse que derrete
as máscaras.
CORPO ( Lourdes Espínola ), in A Estratégia do Caracol; tradução: Albano Martins.
Ofereço-te:
esta coordenada-cordilheira
esta longa seda desprendida
o buraco, o vale, o abraço prolongado.
Cavalga amor com mãos acesas
- argonauta da bússola partida –
para que sul e norte se soltem
para que os signos azuis
te devorem,
para que a minha voz cubra
o teu silêncio.
Onde reconheci o teu sinal,
onde reconheci o meu?
Na tua voz, nos teus olhos, nas tuas mãos
ou no silêncio que precede o silêncio?
A tua mão ordena a desordem do caos
e a minha paixão agita os ramos da árvore
que há dentro de ti
para que os frutos caiam.
Que generosos são os deuses
sábios e calados!
Posso observar o seu sorriso
de prazer, de entendimento
quando nos vêem
caminhando juntos,
desenredando os fios
em estranhos, secretos labirintos.
Podem acontecer duas coisas:
que o caracol se vire sobre si mesmo
ou que se erga rolando
para fora.
Assim são os caminhos,
as nossas vidas.
Eu dobrada sobre mim mesma
e tu estendendo-te, cingindo.
Num ponto qualquer
os círculos concêntricos
tocaram-se:
estranhos meteoros
de rápidos planetas.
Não te enganes,
posso ensinar-te muitas coisas.
Guardo dentro de mim esse segredo,
o que procuraste e procuras
em tantas outras mãos.
De noite, quando as tuas pálpebras te cobrem,
escapo-me,
visito os teus fantasmas
e examino lentamente as tuas feridas
sanadas pela minha língua.
Quando te aproximas
e pensas
escondo-me e, de assalto,
digo o teu nome, esconjuro-o.
E cresço dentro do teu corpo
e tu dilatas-te no meu coração
porque assim o disseram
os antigos deuses.
Espero-te, embora estejas a meu lado,
calado e como ausente.
Espero o sinal
para o silencioso encontro
das tuas torres com os meus cumes,
do teu abismo
com os meus braços.
Embora digas o meu nome em sonhos,
espero-te desde esta imensa
eternidade,
desde o território do amor,
semeando.
A tua carícia é um laço,
seda colada à minha pele,
veludo que se estende
e se agarra às minhas pernas.
A tua carícia é um látego feroz
que me submete ao jugo do teu tempo
e do teu prazer.
A tua carícia solta
o mar enlouquecido
humana, demasiado humana.
Se o teu cérebro pudesse autorizar
o teu coração,
se fechasses os olhos.
Se sentisses
toda esta constelação que treme
nas minhas mãos.
Se pudesses receber o meu coração,
olhá-lo fixamente,
ser sua testemunha
antes que se extinga.
Se pudesses.
Um dia os ponteiros dos relógios girarão ao contrário
e os nomes repetir-se-ão
sem pensar nisso.
A presença de tantas madrugadas
que trago nos alforges
despertará.
E abrir-te-ei a porta
como antigamente:
tremor, raiz cravada no meu epicentro.
A noite será oferenda:
a serpente de seda e a taça da ninfa,
unidas,
tão amadas.
VAMOS CONSIDERAR TUDO ( Lourdes Espínola ) in Tímpano e Silêncio; tradução: Albano Martins
Vamos considerar tudo:
UMAS MÃOS EXPERIENTES ( Lourdes Espínola ), in Tímpano e Silêncio; tradução: Albano Martins
PROCURAR A TUA BÚSSOLA ( Lourdes Espínola ) ,in Tímpano e Silêncio; tradução: Albano Martins
Procurar a tua bússola,
SOLIDÃO ( Lourdes Espínola ), in Ser Mulher e Outras Desventuras. tradução: Albano Martins.
Com o cheiro dos meus poros,
DELMIRA ( Lourdes Espínola ), in Ser Mulher e Outras Desventuras. tradução: Albano Martins
Ser contradição ou mulher
MITO DA CRIAÇÃO ( Lourdes Espínola ), in As Palavras do Corpo : tradução: Albano Martins.
Abri as pernas












