30/01/2026

PRESA NÃO SOU RIO ( Lidiane Adjú Kariú )

 Não me queiram água mansa,

Porque água mansa não sou.

Eu sou correnteza,

E na correnteza eu vou.

Quebrando pedra,

Quebrando represa,

Quebrando tudo que me mantem presa.

Presa não sou rio,

Presa não sou.

 

Não me queiram espírito brando

Porque domesticada não sou.

Eu sou feita de selva

E a selva me ensinou.

A cantar o canto

A quebrar quebranto

A quebrar o encanto

Que me mantem presa.

Presa não sou tua,

Presa não sou.

MESTRA DO AMOR ( Vânia de Oliveira Freitas (Prema Shakti))

 Gratidão a Ti Oh doce Mãe

Numa concentração intensa

Suas cores brilham e se revelam

Teus poderes se manifestam

Para nós perceptíveis ficam

Cada vez mais nos direcionamos para Ti

E a vida começa a sorrir

Unidos a Ti

Sem hesitar

Tua vontade cumprir

Agir!

PARÁ É TERRA INDÍGENA! (Danielle Souza (Iacy Anambé))

 Da cidade das mangueiras

Maíri Tupinambá levanta

Banhada de rios misteriosos

Do povo Parawara

 

Pará é terra indígena, meu mano!

Não sabias?

Pois chegue que vou lhe contar!

 

Aqui ilhas de memórias

Levantam Acaizais

Imponentes samaumeiras

Viram o tempo de milhares de povos que plantaram esse chão!

 

Cabelos de jenipapo, olhos de urucum,

pintados de diversidades,

cocares dos tuxaus são cedidos gentilmente pelo povo do céu

Tecido por mãos Matriarcais

 

Da mandioca, alimento da terra!

Many ensinou como tirar sem matar

Beber sem secar

Viver em harmonia com todos os seres.

 

Do céu Jacy ensinou suas filhas a plantar as raízes dos Kunamis no ritmo da batida do coração da natureza.

 

Do fundo, oyaras guardam as memórias dos clãs das águas e as gigantes sucuris devoradoras de mundos.

 

Tapi Ir’rape

Conta as histórias para os anciões que preservam memórias, cantos, línguas e constelações.

 

Somos muitos povos, muitas nações, somos, guerreiros, somos guardiões desta terra paraowara, tapajowara, marajoara, karajawoara...

 

Somos!

Anambé, Gavião, tembé, munduruku, Tupinambá, sacaca, Kayapó, amanaye, turiwara, assurini, borari, arara, xipaya...

 

O meu país Pará é terra indígena é terra de gente forte

Do norte, da Amazônia!

REVOLTOSAS ( Danielle Souza ( Iacy Anambé ))

 Entre terras e águas, o corpo emerge,

Mulher ancestral, que a memória protege.

Símbolo de poder, cravado no chão,

Onde rios esculpem sua canção.

 

Guarda segredos, medicinas da mata,

Fala a língua que o vento desata.

Do fundo dos rios, dos céus a chorar,

Seu corpo é história a se revelar.

 

Na arqueologia, fragmentos despontam,

Mãos hábeis, no barro, lembranças contam.

Cerâmicas vivas, matriarcal oração,

Do sagrado e do simples, a narração.

 

Pegadas no solo, digitais da história,

Renasce no tambor a força da memória.

Pinceladas vibram no espírito forte,

O corpo pulsa, ecoa no norte.

 

Revoltosas, não apenas beleza,

Mas chama que arde em luta e nobreza.

Social e cultural, é força que inspira,

Poder vivo que a história admira.

SÓ TE QUERIA ATÉ ONDE ME ACHAVA( Izabela Souza )

 Me recusei de você

Só te queria em parte
Me recusei de você

Não sabia me abrir

Não sabia te sentir
Perdi-me dos teus olhos
E não nos encontrei mais
Por medo de não ser óbvio
O óbvio que me sinto segura
Agora o meu sorriso é triste
Pedir-te e estou triste
Triste pela recusa, tão odiosa
Para mim e para ti
E você sorri e não é mais para mim
Está algo justo
Teus olhos eu não encontro mais
E o óbvio agora é vazio
E cadê a segurança?

BRUXA ( Izabela Souza )

Mulher livre

Liberdade feminina

Solto a bruxa que sou

Sou poeta e tô cantando Cássia Eller,

Me adorando ao som de Pitty,

Exalando poder.

Somos deusas, Rita Lee.

O suor na pele é a prova da dança que danço.

Liberdade.

Bruxa, bruxa a palavra dança na minha mente.

Apenas uma mulher liberta.

Sou grande demais para estar presa.

Música alimenta o meu ser.

O volume está alto.

Preenchendo cada vibração da minha alma.

Inspirada ao escrever.

Liberdade.

Euforia.

Te entendo, Natasha.

Bebo a água gelada. Escorrendo pelo canto da boca.

Água é alivio.

Meu cabelo é arte.

Quem não entende que se foda.

Que não me entende que se ame mais.

Amor.

Olhos vermelhos me faz chegar ao clímax.

Alguns momentos atrás tocava Geração Coca Cola, sou  aquela revolução passada.

E me lembro daquele poema que fiz outro dia.

Sou intensa, em todos os sentidos.

Intensidade, amém.

8/80.

Santa trindade, amo-lhes.

A sensação de se encontrar é transcendental.

No atual exato momento, tô me encontrando aqui, sozinha, escutando música boa, cantando música boa, dançando e escrevendo, me sinto preenchida.

Imagine-me.

Imagine-me bruxa.

Faroeste caboclo.

Não peço por nenhuma permanência, só a minha.

Não cobro ninguém.

Mas faço a minha parte.

Me afogo em tudo que vale, o final vale o início.

28/01/2026

NÃO CREIO NESSE DEUS ( António Aleixo )

 I

Não sei se és parvo se és inteligente
Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II
Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra.
Não te achas egoísta ou exigente?

III
Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.

IV
Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!

27/01/2026

PAGANÍSSIMA TRINDADE ( Mônica Ribeiro )

 Falo a partir do umbigo mas

quando peço: “fale, umbigo!”
ele se fecha
teimoso
falso profundo
sequer um centímetro de breu

Teme mostrar-se
o ele-eu

Quando o guardo sob tecidos
ele resolve escapar
e diz: “agora eu falo!”
No fundo de seu fundo
não quer calar sua-minha voz

Pensamento-voz-sem-timbre
Dedos escrevendo
Palavra grafada
Eis
nesta simultaneidade
minha Paganíssima Trindade

OCEANO ( Ana Cecília de Sousa Bastos ) in Contemplação do Mar; Confraria do Vento, Rio de Janeiro, 2022

 Somos oceano nas extremidades.

Contemplo minhas unhas,
conchas do mar.
Tanto brilham essas partes!
Fecham extremidades,
ilusória completude.

Somos oceano,
peixe e cautela,
flutuação e peso em luta na água,
correnteza e vida,
ave e liberdade.
E nada quero dizer do amor.

Alheio-me, abstraio-me,
ânsia e vertigem,
sonho profundidades inauditas,
mergulho.

ORNITÓLOGA ( Adriane Garcia )

 Vai saber

O que passa no pássaro
Eu que não sei nem de mim
Me dou ares de laboratório e
Lupas, tubos de ensaio
Tenho uns
Pinçamentos estranhos

Cato amostragens
Para ver se me explicam
Voos
(eu que
nunca saí do chão
quando saí
era sonho)

Me intrigam os olhos pretinhos
Paradinhos
Dos pássaros mortos

Desde criança eu reparo
Se a morte é sempre fria.

HARAS ( Adriane Garcia )

 Crio

Ninguém me diz o quê
Nem como

Domo
Meu cavalo eu quero aqui
No arreio

Mas gosto
Que ele corra
Desembestado

Até o meu
Assovio.

O AMOR DISPARADO (Adriane Garcia ) in Garrafas ao Mar, Penalux, Guaratinguetá - São Paulo, 2018.

 Pressente-se o perigo

O coração acelera
E ganha vantagem

O médico o chama
De taquicardia
E o cérebro sabe

Daqui pra frente
Quem é que manda.

O MÉTODO DA MULHER DE LÓ (Adriane Garcia ) in A Bandeja de Salomé, Caos & Letras, 2022.

 Quem olhasse para trás se tornaria

Uma estátua de sal
Foi o dito e
Todos sabiam

Como qualquer um sabe
Que cortar o pulso

Como qualquer um sabe
Que tomar veneno

Como qualquer um sabe
Que se enforcar na corda

Como qualquer um sabe
Que pular de um penhasco

Mas me tornar uma estátua de sal
(perdoem-me por não aguentar mais, minhas filhas)
Me pareceu mais rápido
Menos doloroso
Do que acompanhar aquele homem
Vendo o que eu via
Todos os dias
Dentro da minha casa.

26/01/2026

LEVA - ME ( Alfonsina Storni ) – Tradução: Nelson Santander

 Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;

Ata-me a tua alma; a alva a brilhar.

Toma-me pelas mãos como em um branco casulo
E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho.

Leva-me! É uma noite muito negra e sombria!
A morte caça pelo mundo tal qual harpia.

Faz-me esquecer o muito que me pesa nos ombros
Esta carga pesada de pesados escombros.

Liberta-me! Em tuas mãos quero pesar menos
Do que pesam – luzes – os pensamentos serenos.

Mais leve do que o ar, do que o ar muito mais leve
Como bolha de espuma a voar na manhã breve.

Espuma, brisa, aroma, casulo, flor, fragrância:
Leva-me para sempre sem rumo nem distância.

ODE SOBRE UMA URNA GREGA (John Keats ) – Tradução: Augusto de Campos

 I

Inviolada noiva de quietude e paz,
Filha do tempo lento e da muda harmonia,
Silvestre historiadora que em silêncio dás
Uma lição floral mais doce que a poesia:
Que lenda flor-franjada envolve tua imagem
De homens ou divindades, para sempre errantes.
Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo?
Que deuses ou mortais? Que virgens vacilantes?
Que louca fuga? Que perseguição sem termo?
Que flautas ou tambores? Que êxtase selvagem?

II

A música seduz. Mas ainda é mais cara
Se não se ouve. Dai-nos, flautas, vosso tom;
Não para o ouvido. Dai-nos a canção mais rara,
O supremo saber da música sem som:
Jovem cantor, não há como parar a dança,
A flor não murcha, a árvore não se desnuda;
Amante afoito, se o teu beijo não alcança
A amada meta, não sou eu quem te lamente:
Se não chegas ao fim, ela também não muda,
É sempre jovem e a amarás eternamente.

III

Ah! folhagem feliz que nunca perde a cor
Das folhas e não teme a fuga da estação;
Ah! feliz melodista, pródigo cantor
Capaz de renovar para sempre a canção;
Ah! amor feliz! Mais que feliz! Feliz amante!
Para sempre a querer fruir, em pleno hausto,
Para sempre a estuar de vida palpitante,
Acima da paixão humana e sua lida
Que deixa o coração desconsolado e exausto,
A fronte incendiada e língua ressequida.

IV

Quem são esses chegando para o sacrifício?
Para que verde altar o sacerdote impele
A rês a caminhar para o solene ofício,
De grinalda vestida a cetinosa pele?
Que aldeia à beira-mar ou junto da nascente
Ou no alto da colina foi despovoar
Nesta manhã de sol a piedosa gente?
Ah, pobre aldeia, só silêncio agora existe
Em tuas ruas, e ninguém virá contar
Por que razão estás abandonada e triste.

V

Ática forma! Altivo porte! em tua trama
Homens de mármore e mulheres emolduras
Como galhos de floresta e palmilhada grama:
Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas
Tal como a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a idade apagar toda a atual grandeza,
Tu ficarás, em meio às dores dos demais,
Amiga, a redizer o dístico imortal:
“A beleza é a verdade, a verdade a beleza”
— É tudo o que há para saber, e nada mais.

OS DEGRAUS ( Mário Quintana )

 Não desças os degraus do sonho

Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo.

QUANDO MEU CORPO E MINHA CABEÇA ( Anabel Torres ) –Tradução: Carlito Azevedo

Quando meu corpo e minha cabeça

começaram a arder e a provocar incêndios,
minha mãe, como bombeiro enlouquecido,
me perseguia por toda a casa.

Apontava contra mim, implacável
o poderoso jorro de seu medo
e tratava de me enterrar.

Assim cresci.

Meu pai era diferente.

Defendia diante de mim, por igual, e com igual veemência e convicção
as vantagens do gelo e do fogo.

Quando meus incêndios chegavam
a seu máximo ponto de fusão
se afastava, discreto.

Se fracassavam,
me sugeria novos lugares.
Me dava pistas sobre alguns incêndios que ele havia provocado.
Me falava das maravilhas da sombra
ou me trazia fósforos.

Se estava longe, mandava longas cartas,
celebrando a vida, a palavra,
nossa comum piromania.

E sempre acrescentava esse p.s.:
“Anabel, o dólar é estritamente para sorvetes ou fósforos”.

Quando meu pai temia por minha segurança
– e sem dúvida temia, pois conhecia não só meu amor pelo fogo
mas minha propensão às queimaduras –
o fazia sozinho, em sua casa.

Minha mãe, criada em San Benito, residente
do purgatório
bela
como um cesto de tangerinas
quando não era seu dia de turno,
com seu sorriso de cerejeiras e pássaro em seus dias livres,
ao morrer me amou por sobre todas as coisas:
não permitiu que eu herdasse sua mangueira.
Devolveu-a à sua família,
à casa de onde veio intacta.

Meu pai, ao morrer, há três anos, continuou morrendo.
Logrou tão dificilmente morrer, que inclusive
desde então
já saiu ileso de alguns atentados.

Amava tanto a vida. Era tão vigoroso
frente ao frio.
Era tão rico em incêndios.