14/06/2017

MASTURBAÇÃO ( Angela Lara )

Saudade do beijo na chuva,
da mão estendida, 
do coito sem medo, 
da frase sentida, 
do corpo em brasa, 
da fusão das palavras, 
sussurros em pelo, 
tesão dos sabores, 
do olhar de magia 
na hora do gozo 
nas tantas manhãs 
que me toco em segredo.

DO DESEJO I ( Hilda Hilst )

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

DESENHO 2 ( Cecília Meireles )


Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lágrimas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam

Isso era um lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas.
O eco, burlão, de pedra, ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Com a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! - aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.



PACTO (Luhli & Lucina)
Pediria a certeza da chuva 
sopraria a surpresa dos ventos 
sentiria a nobreza da pedra bruta
viajaria na força do pensamento.

Choraria a tristeza do mundo 
beberia a riqueza da lama 
me alçaria com as aves num voo farto 
gritaria com o mar num bramido largo.

E meu corpo seria uma chama etérea amando
e o amor energia de luz infinita sendo
e o curso dos rios do sangue 
e da seiva ardendo 
é o caminho ansiado que estamos buscando.

CÂNTICO 10 - ESTE É O CAMINHO (Cecília Meireles)


Este é o caminho de todos que virão.
Para te louvarem.
Para não te verem.
Para te cobrirem de maldição.
Os teus braços são muito curtos.
E é larguíssimo este caminho.
Com eles não poderás impedir
Que passem, os que terão de passar,
Nem que fiques de pé,
Na mais alta montanha,
Com os teus braços em cruz.




13/06/2017

TRANSA DE PALAVRAS (Bruno Barros)


Justifico a poesia desabotoando botões,
Sem ousadas mãos,
Com roupas ao vento e
Seus joelhos ao chão.

Na tranquilidade de nossa cama
Entrelaçou-me em pernas brancas.
Entre os macios dedos e toques
Lábios meus nos seios teus.

Com nossas sujas palavras,
Quão tórridos fomos intensos.
Desde o alto calor imponente,
À malícia sempre presente.

Comia-me com pequenos olhares,
Dominando-te com euforia,
Fazendo banquete no sexo meu,
Molhando-o com doce saliva.

Genuína vida perfumada
Junto a teus baixos encantos.
No caminho da flor desabrochada,
Minha língua adentrava.

Mas é apenas penetrando bem fundo,
Chegando à essência nossa,
Que sabemos como foi complicado:
Tornar duas almas em uma,
Adentrar em ti,
Ser bem amado.

Embriagou-me o íntimo,
Com o presente suor metido.
Criando música em meus ouvidos,
Ritmando seus gemidos.

E prestes a explodir,
Manchamos o ardente lençol,
Contraindo pés e mãos,
Numa gozada conclusão,
De que nós chegamos ao fim.


CÂNTICO 05 - ESSE TEU CORPO (Cecília Meireles)


Esse teu corpo é um fardo.
É uma grande montanha abafando-te.
Não te deixando sentir o vento livre
Do infinito.
Quebra o teu corpo em cavernas
Para dentro de ti rugir
A força livre do ar.
Destroi mais essa prisão de pedra.
Faze-te recepo.
Âmbito.
Espaço.
Amplia-te.
Sê o grande sopro
Que circula.

CÂNTICO 17 - PERGUNTARÃO PELA TUA ALMA (Cecília Meireles)


Perguntarão pela tua alma.
A alma que é ternura,
Bondade,
Tristeza,
Amor.
Mas tu mostrarás a curva do teu voo
Livre, por entre os mundos.
E eles compreenderão que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
E mais amargo,
Porque não se pode mostrar,
Porque ninguém pode ver.

CÂNTICO 07 - NÃO AMES (Cecília Meireles)


Não ames como os homens amam.
Não ames com amor.
Amor sem amor.
Ama sem querer.
Ama sem sentir.
Ama como se fosses outro.
Como se fosses amar.
Sem esperar.
Por não esperar.
Tão separado do que ama, em ti,
Que não te inquiete
Se o amor leva à felicidade,
Se leva à morte,
Se leva a algum destino.
Se te leva.
E se vai, ele mesmo. 

TUA AUSÊNCIA ( Celso Brasil )


Tua ausência deitou-se comigo
Nesta noite de ares enfadonhos.
Tocou minh’alma. Toque incisivo.
Penetrando tocou meus sonhos.

Tua ausência abraçou todo meu ser,
Senti aquela que não mais existe.
Despertou-me friamente ao amanhecer,
Mostrando-me um quarto vazio e triste.

Tua ausência caminhou pela sala.
Encarnou-se em teu belo retrato
No quadro sombrio que deixaras
Na angustiosa saudade emoldurado.

Tua ausência plantou-se no jardim,
Cravando raízes profundamente.
Crescendo ao lado dos jasmins,
Espalhando mais tuas sementes.

Tua ausência pôs música no ar,
Antigos sons que te recordam.
Lágrimas dos olhos a jorrar.
Tempos belos que não retornam.

Tua ausência enfim, presente se fez.
Por todo tempo comigo ficou.
Triste verbo bardo para sempre, talvez.
Neste poeta se incorporou.
 

CÂNTICO 02 - NÃO SEJAS O DE HOJE (Cecília Meireles)


Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens.
Não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
É a eternidade.
És tu.

AMAR E SER AMADO (Castro Alves)
Amar e ser amado! Com que anelo
Com quanto ardor este adorado sonho
Acalentei em meu delírio ardente
Por essas doces noites de desvelo!
Ser amado por ti, o teu alento
A bafejar-me a abrasadora frente!
Em teus olhos mirar meu pensamento,
Sentir em mim tu’alma, ter só vida
P’ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento,
Confundido também, amante — amado —
Como um anjo feliz, que pensamento!



12/06/2017

FLOR DA CARNE (Lenny Lima e Silva)
Que coisa é essa?
Eu te intumesço,
Você me umedece
Deixa-me às avessas.
E desce, sem pressa.
E sua boca desce
E sobe e desce
E cresce
E o desejo floresce.
E o rosto enrubesce.
E sobe e desce.
E o corpo incandesce.
De repente
A terra estremece.
E vira e mexe
E sobe e desce.
Paixão inconfessa
E mexe e remexe.
E rompe, e irrompe.
Desejo liquefeito.
Satisfeito.
O corpo adormece.
Até que novamente se enlouquece.
E tudo recomeça!


MEU CORPO SENTE O TEU CORPO
(Cláudio  Peres)
Meu corpo sente
o teu corpo!
Quente,
nu e poderoso,
a deslizar gostoso
sobre si.
Suado,
exalando o aroma
que antecede o gozo,
perfuma o ambiente
e abre-se completamente
para engolir meu fogo,
afogando-me aos poucos
neste mar fremente
de águas quentes,
que sua fenda em brasa
mantém selada
e que sinto ferver
estremecer

a cada
estocada.



MULHER  (Dora  Brisa)
Não sou mulher de uma noite
Nem de um dia só.

Sou mulher que tem mais fases
Que a lua
Mais estrelas
Que o céu
Mais calor
Que o sol
Mais segredos
Que o universo.

Não sou mulher para comemorar
Um dia
Que nada mais é
Que um dia
Um dia qualquer.

Não sou mulher de receber flores
Quero logo o jardim.

Não sou mulher de uma vida
Nem "foi bom enquanto durou"
Da lembrança banida
No tempo que passou.

Não sou mulher do amanhã
(Amanhã será outro dia)

Sou a mulher bandida
Vadia
Mendiga
Vazia.

Mulher que perambula na rua
Com pouca roupa
Maltrapilha, louca
De alma nua.

Sou a mulher do infinito
Meu nome é eternidade
Neste dia não deixo sequer o meu grito.

Sou a mulher que passa na esquina
Carregando crianças pela mão
Trouxa de roupas a lavar
Carrinho de papelão
Marido bêbado a escandalizar.

Sou a mulher que apanha
Em casa
Na calçada
No trabalho
Só porrada.

Sou a mulher que cala
Consente
Fala
Mente.

Sou mulher que não tem dia
Tempo
Hora
Memória.

Mulher sem identidade
Sem história.

Amores? Todos que vivi.
Sou apenas (mais uma) mulher.
Meu nome? Geni.

SONHOS NO ENTARDECER
(Lenny  Lima  e  Silva)
Teu corpo nu
Entregue à nudez
Do corpo meu.
Sem pudores, sem tabu.
Doce embriaguês.
A noite traz seu breu.
Nosso sonho vaga solto
Feito barco num mar em calmaria,
Passeamos no mundo da fantasia
Numa mais louca alegria
Vulcões entram em erupções
Incendeiam nossas emoções
Iluminam nossos rostos.
Deixas-me louca com estes teus gostos.
Saliva doce, corpos descompostos.
Amor em explosão
Com o fogo da paixão.

LOBA ROMANA (Gilberto Gil)
Oh! Romana loba
Romana mulher.

Tu sabes que és
Mãe dessa cidade que tens aos teus pés
A te adorar
E eu serei talvez
Um daqueles teus amantes mais fieis
Que sabe amar.

Mais que aos teus encantos
Amar o que é teu destino
Mais que amar-te (a arte)
Amar o amor, o verso de Roma.

Mais que às tetas
Amar-te a eterna ideia
Mais que ao teu sabor
Amar ao teu aroma.

Tu sabes que eu tenho a alma apaixonada
E o meu amor por ti não vale nada
Tu sabes que eu serei, serei
Um dos teus tantos amantes mais fiéis
A te adorar.



09/06/2017

BUSTO RENASCENTISTA (Antonio Carlos de Brito)

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FATALIDADE (Antonio Carlos de Brito)


A mulher madura viceja
nos seios de treze anos de certa menina morena.
Amantes fidelíssimos se matarão em duelo
crepúsculos desfilarão em posição de sentido
o sol será destronado e durante séculos violas plangentes
 farão assembleias de emergência.
Tudo isso já vejo nuns seios arrebitados
de primeira comunhão.

SEMPRE ( Chico Buarque de Holanda )


Sempre
Eu te contemplava sempre
Feito um gato aos pés da dona
Mesmo em sonho estive atento
Para poder lembrar-te sempre
Como olhando o firmamento
Vejo estrelas que já foram
Noite afora para sempre.

O teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso, o teu silêncio
Serão meus ainda e sempre.

Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que bastantes
Quando cada instante é sempre.

CARNE ( Anderson Christofoletti )


I
A rosa que se revela
À contemplação lírica do poeta
Confessa toda sua
Incandescente ânsia
Antes resguardada.

Sua casta pele-pétala
Ganha a lascívia do instante:
Hiato que não mais
Sabe ao intemerato lírio.

És, agora, musa escarlate,
Desejo lúbrico dos seres platônicos.

Tua seiva é a gota de desejo
Que se dilui na boca sedenta do beijo.

Tua leitura pueril se concretiza
No êxtase natural do pecado.

Tua pele branca é banhada pela nuança
Do arrebol que rebenta todo pejo
Deste sobejo de amor.

São olhos que se traduzem;
São mãos que se perdem;
Sulcos, côncavos, curvas,
Ancas, coxas, seios, pelos.

Dentro da lânguida busca dos lábios,
Um grito de prazer se esboça
E não há força que possa
Com este orgasmo etéreo que se exprime.
II
Corpos
Na procura incessante dos opostos
 Formas que se completam.

Momento em que tudo se consome
À flor em fogo
Da ébria inconsciência do gozo;
A inconsequência necessária
Que se acoita na magia do coito.

Estamos cegos,
Porém seguros,
Pois sabemos que a noite
Aos amantes pertence,
Que não cabe ao prazer o açoite
E que todo ato de amor é puro
(Visto que a entrega o é inerente).
III
Tem-se, então, a explosão
Que nos torna, por um breve espaço de tempo,
Imortais.

Rompe-se o harmônico pulsar
De toda atmosfera.

A fusão dos corpos se desfaz
Na efusão das almas.

Somos o que o universo comporta
E o que o verso só completa.

Somos partes refletidas num único cerne;
Somos rosa, amor, carne e poeta.








08/06/2017

DENGUINHO DE MANHÃ (Luli Heloisa Orosco & Lucina )


ah, é tão bom te sentir quente no frio
brasa interior, 
coração de lã denguinho de manhã, 
sentimento de hortelã brasa interior,
coração de lã

casa bonita, corpo maior 
cristais da mente luminosos e transparentes 
grande água nos lavou
e nem sentimos tanto assim
a perda dos pedaços que no passado 
pareciam tão parte de nós

ah, é tão bom me sentir quente no frio
brasa interior, coração de lã
denguinho de manhã, sentimento de hortelã 
brasa interior, coração de lã

te amo te quero cheirar e fuçar 
e tocar e sentir o macio e total abandono
dos encontros com tempero da manhã 
deixa estar que hora desperto 
vendo a mim te revendo 
me querendo em ti, te querendo mais 
cada vez com menos ais.

SEMENTE (Luhli  &  Lucina)
Riacho na rota rasteira 
penacho penhasco ribanceira 
pedregulho da cachoeira
E uma energia alegria reza e vento
entra penetra no momento
Dois seres fundidos num jeito 
de ser semente
demente espelho eu só, dianfante
lapida a lágrima de Deus 
Semente de mim vida há e há 
no colo da mãe natureza 
Nos frutos de uma videira
despertar a colheita de nós 
na dor a beleza ao amor de dar luz ao amor
no ventre esse grão sonho e pão
que encerra o espaço da primavera.
QUEM SABE DE MIM (Luhli, Lucina, Marta Manhães & Sonia Prazeres)
Quem sabe de mim é meu coração
espelho miragem sumo selvagem do amor 
tudo que acabou virou ventania
segredo e magia sim que solta a voz. 

Nossos corpos nus desatando nós
louco desejo, flor de fogo num beijo 
no grito da fera chamar o futuro 
num prazer doído, doido, gostoso e perdido.

Quem sabe de mim é o amor delícia 
dengo carinho e carícia
um cheiro bom embriagando o não, o senão
prazer proibido até por ser tão permitido 
fruto tentação servido em cada refeição.

Quem sabe de mim é meu coração
anjo demônio joia lira e delírio
na santa sangria do dia a dia
um choro risonho pra lavar meus ais.

Quem sabe é o amor que canta a cantiga 
deitar no colo dessa energia amiga.


SEMELHANÇAS DESIGUAIS ( Luli Heloisa Orosco & João Gomes )


A gente junto nos achamos pouco 
Que sempre muito procuramos ser
Que juntos nunca descobrimos tudo
Que nada vemos por dentro da gente
A gente mente, sente, deita ao vento 
Como se o vento fosse a nossa cama
A gente chama, cisma, sofre, inflama
E não se toca do que a gente sente
Ah, em mim a imensidão ah, nunca mais
Se encheu completamente 
Pedi a sua voz de gente
Que diga a toda voz quem somos nós 
Que a sós no chão da estrada 
Nos perdemos nus 
E nus pelas calçadas nos achamos sós 
E seja como for
É a dor da própria cruz
As nossas semelhanças desiguais.

A gente junto sempre tantas vezes 
Se amamos ontem já passaram meses 
Se amamos hoje fazem dez segundos
Se amor, a gente sente siameses 
Se a fundo vamos raso é o nosso tempo 
Se é raso o tempo a fundo somos leigos 
Se arde em chama bruta o nosso beijo 
Os lábios meigos cessam nossos planos
Ah, em mim a imensidão ah, nunca mais.

EU E VOCÊ ( Luhli & Lucina )


era a hora do amor chegar
e eu me atrasei
nas tramas intrigas
nas queixas e brigas
palavras amargas vinganças antigas
e agora me diga como encontrar
o pleno sentimento
estar lá como aprendiz
calar como quem diz, querer largar
de querer ser, ser só feliz ser só feliz
por estar aqui eu e você
bem junto do quase, bem perto do agora
bem dentro do eterno, no denso da hora
no imenso reencontrar sabor de maçã
um frisson, um élan, ah!
o que nos fez querer
resiste sem porque
nos salva de perder
eu e você.

CHEIRO DE ROSA (Luhli & Lucina)


abri a porta, varri a soleira e parei no tempo
vi o calor afastar toda a sombra 
da noite que passou 
joguei no sol almofada colchão travesseiro 
lavei as janelas com pano macio
pus água nas jarras à espera das flores

ah, esse cheiro de rosa no ar, 
esse cheiro de rosa no ar 
sempre o mesmo

lavei o rosto me olhei pelo espelho 
e pintei na boca 
rubro carmim derramado 
um sorriso espantado a me espiar 
gota de sangue na ponta do dedo 
que brilha e que espalha o vermelho 
num risco traçado bordado apagado 
nas marcas do tempo

vendo morrer cada hora 
arrastando quebrada a asa do agora
no instante partido o momento que espera 
a chegada da aurora

ah, esse cheiro de rosa no ar, 
esse cheiro de rosa no ar 
agora.
(Pintura: Vicente Romero)

AMOR MADURO ( Luli Heloisa Orosco & Lucina )


Pra saber de nós, nem mais preciso de você
Nem você de mim, você de mim
Nem você
Fios, laços, nós, entregas mútuas 
Sons, silêncios 
Filhos frutos de um mesmo viver
Quisemos ser 
Quisemos ser um grito e fomos
Quisemos ser um mito e somos 
Quisemos entregar a vida à vida
E aqui estamos 
Eu sem você e sei seu riso 
Você aí e eu não me livro
Dessa presença plena 
Lúcida medida de inferno e paraíso
Agora a minha fantasia já é sólida
Minha mágoa já é líquida
Minha escolha já é múltipla, múltipla
Múltiplos carinhos pelos muitos eus
Ternura pelos erros resgatando mágica 
Amor maduro transmutado em música.

BUGRE ( Luhli & Lucina )


Bugre perdido na luz de neon
herói de vídeo game, fera mineral 
armo a garganta e acendo o tambor 
guerreando no som também se faz amor 
espalha o medo que afia a coragem 
que a carne tem um fraco pela dor 
a hora vai chegar os gelos descerão 
e as trombetas tocarão 
um tema vulgar, banal 
couraça de pedra, peito de metal.

quebro a maloca, queimo essa palha
brilho de letras que não dizem nada
pedra lascada, ser de Plutão 
sou projeção futurista cro-magnon
pena de arara, olho de gavião
boto o batoque na boca de baton 
me escondo na lama, armo a tocaia
sou jacaré de sapato e de saia
estou inteiro, estou exato
com a teimosia do porco do mato 
e o que se vê não é de sapé 
e o que me vale é a alma de macaco
seios de índia, tez de cunhã
gero o alento e a luz do amanhã.


07/06/2017

UM BEIJO (Ana Cristina Cesar) in “Poética“. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.


que tivesse um blue.
isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
"what's new"
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo.

ANÔNIMO (Ana Cristina Cesar)


Sou linda; quando no cinema você roça
o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais
quem desejo, que me assa viva, comendo
coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura
inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no
cinema é escuro e a tela não importa, só o lado,
o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste
sabe onde me encontro até de olhos fechados;
falo pouco; encontre; esquina de concentração com difusão,
lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.