04/09/2017

PARA TE VER É LONGA TODA ESPERA (Jaci Bezerra)
Há uma serra no teu peito 
feita de sonho e de distância. 

É nessa serra que me deito 
com tua luminosa infância. 
Ao te esfolhar, na tarde branca, 
me extravio nas tuas ancas. 

Habitando a paisagem branca 
na curva dessa serra deito. 

Assim, montando as tuas ancas, 
cavalgo os sonhos do teu peito. 
Depois, retido na distância, 
na cama acendo a tua infância. 

Nos veludos da tua infância 
qualquer montanha é pura e branca, 
claro verão que, na distância, 
cintila sobre tuas ancas. 

É minha a serra do teu peito 
quando à sombra do teu corpo deito. 

Sobre os lençois, quando me deito, 
meu coração é a tua infância. 
Eu, pelas serras do teu peito, 
sou um menino na distância, 

cavalgando, na tarde branca, 
os girassois das tuas ancas. 

Nos extremos das tuas ancas 
cavalgo as serras do teu peito. 
O teu corpo, na tarde branca, 
é o meu lençol quando me deito. 

Uma criança, na distância, 
sou a serra da tua infância. 

Quero galgar serra e distância 
nas tuas mãos de nuvens brancas, 
do mesmo modo quero a infância 
e os girassois das tuas ancas. 

A mim me basta, se me deito, 
morrer nas serras do teu peito.

POEMA ( Mário de Cesariny )


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura.

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

AVE BREVE DOS SEIOS (João dos Sonhos)


Ave breve dos seios em voo
florindo nos galhos
que esta voz velou.

Ave breve do pasmo pousado
neste sentir-te irmã terrena
beijo-te a carne como quem esquece o voo.

Ave breve do canto sorvido
neste calar-te serena
sinto-te a carne pela carne que sou.

Ave breve da espessura
que um vento rasteiro
revolve e afaga.
De mim ascendem raízes
como um ramo derradeiro
num silêncio sem destroços.

Ave breve que o instante esmaga
neste pregar-te de músculo e ossos.

SETE LUAS ( Eugénia Tabosa )


Esta noite sete luas,
sete luas cheias,
rolaram juntas nos céus.
Dançaram nuas 
sem pudor nem véus.
Vieram as estrelas,
as fadas e os anjos
deram-se as mãos
e fizeram roda
à roda da lua
sete vezes branca.
Vem, meu amor,
escuta seu canto.

NO RIMAR DA SEDUÇÃO ( Newton de Lucca )

NO RIMAR DA SEDUÇÃO (Newton de Lucca)
Os meus medos –
perdidos nas delícias 
de tua fruta.

Os meus dedos –
nas carícias envolvendo
teus receios.

Meu desejo firme
como rocha
no pleonasmo sem fim
de tua gruta.

E ainda por cima
de sobra a minha língua
depositada sempre nas últimas sílabas
de teus anseios.

O PAPEL, A MESA, O SOL, A PENA (António Ramos Rosa)

O papel, a mesa, o sol, a pena.
Ao lado, a janela. E nada tenho
e nada sou que escrevo. E nada espero
de quanto espero.

Enquanto escrevo não sou nem mesmo quero
não escuto nem palavras nem silêncio.
Alinho palavras mas ainda não caminho.
Estou a uma mesa pobre sem movimento.

O papel, a mesa, o sol, a pena.
Nada começa, nem à sombra respiro.
Tudo é distinto e claro.

Tudo é certo ou obscuro. Em vão caminho.
Não quero esperar,
não quero navegar num mar fácil de palavras.
Quero caminhar somente com o corpo que sou,
quero, sem querer, ser o próprio sangue,
músculos, língua, braços, pernas, sexo,
a mesma certeza oculta e única, tantas vezes clara,
a mesma força que nos pulsos aflora, tensa,
a mesma noite aberta que a todo o dia estendo,
a mesma alta, elástica dança de um corpo vivo!

Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.

Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.

Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.

Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.

SOMOS O MUNDO ( Edgardo Xavier )

No silêncio em ti sinto a terra arada.
As palavras separam e entre a tua e a minha pele
toda a distância doi
toda a roupa é um excesso intolerável.
Para tanto apelo os dedos são poucos
e a boca falta à respiração atropelada.
Se pudesse, engolia-me em ti
mas espero pela montanha, barca de fogo, céu de guerra
e já lacrimosa lança aterra montes, avança e recua, cavalga e para.
Foge, regressa, tem sede e tem pressa.
Sente de ti a surda voz das entranhas,
línguas e manhas, unhas e dentes, águas, chamas inclementes
e a morte que se anuncia em crispada libertação.
É no teu corpo a minha rua, a porta do sol, a estrada.
É em ti que nasce o mar, a canção, a toada.
Sozinhos somos o mundo na madrugada.

 AUTO DA CAIXA DO INFERNO (Renato Filipe Cardoso)
a menina da caixa
deixou passar a embalagem de medo
deixou passar o kit de solidão
deixou passar o sortido de desalento
sem registar

deixou passar a promoção de carícias e flores
deixou passar o dois-em-um de beijos e chocolates
deixou passar amor
sem registar

a menina da caixa
deixou passar um escadote que levaria ao céu
sem registar

deixou passar o sítio exacto de cada palavra
deixou passar surpresa em miniatura
deixou passar cócegas de outros mundos
sem registar

com o olhar a menina da caixa
dá troco em rebuçados
tem tatuado no coração um código de barras
mas o código de birras do patrão
que deixa passar o céu sem registar
pode fazê-la quebrar em caso de emergência.

28/08/2017


Vem só,
Rasgando as 
Cortinas da noite branca,
Por dentro da neve,
Trazer-me o amanhecer.
Reencontrar a paixão, 
Perdida no silêncio do olhar,
No meio das tempestades de areia e vento.
Vem só,
Com os teus cabelos de anjo,
Consumir as horas

Que deixei nos teus lábios,

Nas tuas palavras de lume e de seda.
Perder-me no teu corpo de mar,
Esculpido nas rochas,
Que nunca conheceu o jardim das trevas.
Vem,
Rompendo o silêncio da noite,
Descendo os degraus 
De uma escada sem fim,
Mostrar-me o amor dos paraísos perdidos.
Ouvir cantar o pássaro das estrelas,
Embarcar neste barco que parte,
Ninguém sabe para onde.
Quero regressar a ti, 
Com a primeira pedra 
Do tempo dos sonhos, 
Para que lhe toques e sintas
Que já podes secar as lágrimas.
E na doçura das palavras murmuradas, 
Trocaremos fantasias, assassinamos o tempo,
Com medo que deixe de ser nosso.
Vim só, 
Pelos caminhos que percorríamos 
Ao fim da tarde, 
Com a desculpa de nos termos perdido,
A pensar que um dia as tuas lágrimas
Caíram pela terra e chamaram pelo meu nome.
Aproxima-se um vento de bruma,
E as linhas do teu corpo, fechadas na moldura,
Por vezes, têm o sabor da eternidade.
(Paulo Eduardo Campos)



EU-MULHER (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”. BH: Nandyala, 2008.

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.

DE MÃE ( Conceição Evaristo ) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

O cuidado de minha poesia
Aprendi foi de mãe
mulher de pôr reparo nas coisas
e de assuntar a vida.

A brandura de minha fala
na violência de meus ditos
ganhei de mãe
mulher prenhe de dizeres
fecundados na boca do mundo.

Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo.

Foi de mãe esse meio riso
dado para esconder
alegria inteira
e essa fé desconfiada,
pois, quando se anda descalço
cada dedo olha a estrada.

Foi mãe que me descegou
para os cantos milagreiros da vida
apontando-me o fogo disfarçado
em cinzas e a agulha do
tempo movendo no palheiro.

Foi mãe que me fez sentir
as flores amassadas
debaixo das pedras
os corpos vazios
rente às calçadas
e me ensinou,
insisto, foi ela
a fazer da palavra
artifício
arte e ofício
do meu canto
de minha fala
O  ÊXTASE (Paul  Éluard)
Encontro-me em face desta paisagem feminina
Como uma criança diante do fogo
Sorriso pairante e com lágrimas nos olhos 
Perante esta paisagem em que tudo ressoa em mim 
Em que espelhos há que se embaciam e outros se iluminam 
Reflectindo dois corpos nus nas fases do tempo uníssonos. 
As razões de me perder são imensas 
Sobre esta terra sem trilhos e sob este céu sem horizonte 
Belos motivos que ontem desconhecia 
E que nunca vou esquecer 
Belas chaves dos olhares chaves nascendo de si mesmas 
Perante esta paisagem onde a natureza é minha 
Diante deste fogo primeiro fogo 
Trave mestra de todos os motivos de encanto 
Estrela identificada sobre a terra 
E sob o céu que está fora do meu coração e dentro dele 
Segundo botão em flor primeira folha verde 
Que o mar cobre com suas asas 
E o sol no cômputo final de nós provindo
Eu estou perante esta paisagem feminina 
Como um ramo deitado ao fogo ardendo.
(tradução de Maria Gabriela Llansol)
Tu nunca hás-de entender o tamanho das noites 
em que gastei tudo o que havia 
por dentro dos meus olhos 
os rios que de ti desaguaram sempre 
nas minhas veias
eu não sabia 
ou talvez já o tivesse esquecido 
como podem ser mortíferas as cinzas 
das palavras que um dia tiveram asas
e ainda mais mortíferas as garras 
que nos destroem com os pequenos medos quotidianos 
a que não podemos escapar 
porque as sílabas da paixão são sempre 
os primeiros objectos a serem retirados do quarto 
para que tudo regresse à prateleira certa 
e de manhã a poeira nos vista 
tranquilamente 
como um hábito
e foi por isso que nessas noites morri muitas vezes 
enquanto as secretas palavras de adeus alastravam 
pela foz do teu desejo 
e a minha pele se despia 
vagarosamente 
da tua.
(Alice Vieira)

DA MENINA, A PIPA(Conceição Evaristo)“Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

Da menina a pipa
e a bola da vez
e quando a sua íntima
pele, macia seda, brincava
no céu descoberto da rua
um barbante áspero,
másculo cerol, cruel
rompeu a tênue linha
da pipa-borboleta da menina.
E quando o papel
seda esgarçada
da menina
estilhaçou-se entre
as pedras da calçada
a menina rolou
entre a dor
e o abandono.
E depois, sempre dilacerada,
a menina expulsou de si
uma boneca ensanguentada
que afundou num banheiro
público qualquer.

Conceição Evaristo no epígrafe de abertura de "Poemas da Recordação e Outros Movimentos",2008.


"O olho do sol batia sobre as roupas do varal e mamãe sorria feliz. Gotículas de água aspergindo a minha vida-menina balançavam ao vento. Pequenas lágrimas dos lençóis. Pedrinhas azuis, pedaços de anil, fiapos de nuvens solitárias caídas do céu eram encontradas ao redor das bacias e tinas das lavagens de roupa. Tudo me causava uma comoção maior. A poesia me visitava e eu nem sabia…"

AMOR É TEU OLHAR QUE SOBE
(Armindo Trevisan)
Amor é teu olhar que sobe 
e desce torna a subir ao ramo
desce ao poço detém-se 
na água porque a sede avança 
e torna a subir em carícia 
pelo braço compraz-se 
em resvalar pelo declive 
do corpo em balanço 
como o movimento de um 
pêndulo e assim nunca 
sabes se o caminho 
para ele é ascensão 
ou simplesmente espera 
sobre um trilho de pedras 
mais do que uma ideia 
sentimento porque 
o subir e o descer crescem 
na viagem indiferentes 
ao amor até que a ames 
como se nunca a tivesses 
conhecido somente 
fora de teu alcance.

MENINA (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”. BH: Nandyala, 2008.

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AMOR (Irene Lisboa)

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acelerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor,
Que sensível és
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!
Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.
Canseira eterna!

Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida…
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti e tu de nós?

TU ( Edgardo Xavier)

Pela tua nudez
toda a glória do mundo
cabe em minhas mãos
Ardo.
Corre em mim tumultuada
uma lava ardente
que só em ti descobre rumo
e apaga o tempo.


24/08/2017

A LINGUAGEM ( Sara F. Costa )


há em toda a linguagem um excesso
que escorre dos ombros
quando os nossos nervos reflectem a nossa inocência
e um brilho sonolento nos separa dos sons
mantemos nas mãos todos os crimes
e na superfície das palavras deixamos um fogo salgado
a carbonizar o tempo.
é quando o paladar obscuro do silêncio rompe as lembranças
nunca nos conformamos por dentro da alucinação
nunca esgotamos o medo nem o ímpeto
porque beber o teu suor é pura adrenalina,
é soletrar a mortalidade de deus
como quem explode de êxtase
mas a linguagem é excessiva
e ter-te é apenas escrever que te tenho,
não é ter-te mesmo.