27/09/2025

DIA-A-DIA ( Líria Porto )

 domingo

ia à missa

 

segunda

rezava o terço

 

na quinta

maria das quantas

limpava o quarto

e punha o lixo

na cesta

 

no sábado

vinha um soldado

tirar-lhe as teias

da aranha

 

nu tempo restante


SUICIDA ( Líria Porto )

 cimentei bombas nos olhos

pus granadas no umbigo

soquei pólvora em cada poro

bebi chumbo derretido

ateei fogo no invólucro

acorrentado a explosivos

depois convoquei a morte

para dormir comigo

 

ela me disse tu és um forte

se queres uma consorte

convida a vida

EXPLÍCITO ( Maria Terra )

 Louvai a Deus todo poderoso mulheres de toda a Terra

Amai a todos os homens como se fosse a si mesmas

Bebei de sua água repugnante e salvai vossos casamentos

Imaginai pra sempre que poderia ser pior

Rameiras romeiras rezeiras

Irmãs de toda caridade

Negai apenas o arrependimento

Trilhai a trilha confiante e sem choro

O amor de Deus é singular

 


OUTDOOR ( Líria Porto )

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ENQUANTO A LUA FLUTUA ( Líria Porto )

 o luar penetra entre as persianas

listra a cama o lençol as fronhas

mescla as paredes

 

tua ausência morde-me o pescoço

deixa em minha pele a digital do frio

o roxo dos carimbos

LACUNA ( Líria Porto )

 no vão entre o colchão e o cobertor

espaço da tua ausência

a saudade dos arrulhos dos sussurros

do amor que existiu e voltará

numa noite assim

de muita chuva


FLORES DESABROCHAM ( Líria Porto )

 insinuas compreendo

e sem nada explícito

fico nua tu te despes

 

em dias de delicadeza

o grotesco é belo

:

o sexo dos velhos

COMPLEXO ( Líria Porto )

 vestida com poucos pelos

(tinha pelagem restrita)

caminhava uma mulher

sem qualquer outro adereço

e nua como nasceu

atravessava esta vida

até que um dia um cruel

apontou suas estrias

 

a mulher então corou

apequenou-se

cobriu-se


A ATRIZ ( Líria Porto )

 com uma saia cigana

um xale de renda preta

e eu virava uma puta

uma mulher sem cabresto

 

depois — a roupa trocada

e limpa de qualquer culpa

fantasiada de santa

ninguém me apontava o dedo

 

difícil é ficar nua — ser duas

seres tu mesma

UM SONHO ( Caetano Veloso )

 lua na folha molhada

brilho azul-branco
olho-água, vermelho da calha nua

tua ilharga lhana
mamilos de rosa-fagulha
fios de ouro velho na nuca
estrela-boca de milhões de beijos-luz

lua
fruta flor folhuda
ah! a trilha de alcançar-te
galho, mulher, folho, filhos
malha de galáxias
tua pele se espalha
ao som de minha mão

traçar-lhe rotas
teu talho, meu malho
teu talho, meu malho

o ir e vir de tua
o ir e vir de tua ilha

lua
toda a minha chuva
todo o meu orvalho
caí sobre ti
se desabas e espelhas da cama
a maravilha-luz do meu céu
jabuticaba branca


 


 

26/09/2025

ENGRAÇADINHA ( Sergio Saraceni / Tite Lemos )

 Nua,

Dentro do quarto
Dentro do espelho
Sou toda tua,
Mas não és só meu
Pois me seduzes,
Mas me desprezas.
Apago as luzes
À tua espera
Te ensino amar
E a malquerer
O amor tão virgem, principiante e eu,
Tão sábia amante
A te chamar.
Oculta fêmea,
Engraçadinha,
Sabes meu nome,
Pois és meu homem
E também és minha mulher
O amor antigo verdejante e eu,
Tão tola amante
A te esperar
Inutilmente...

24/09/2025

O AMOR É O MEU PAÍS(Ivan Lins/Ronaldo Monteiro de Souza)

 Eu queria, eu queria, eu queria

Um segundo lá no fundo de você
Eu queria, me perdera, me perdoa
Por que eu ando à toa
Sem chegar
Quão mais longe se torna o cais
Lindo é voltar
É difícil o meu caminhar
Mas vou tentar
Não importa qual seja a dor
Nem as pedras que eu vou pisar
Não me importo se é pra chegar
Eu sei, eu sei
De você fiz o meu País
Vestindo festa e final feliz
Eu vi, eu vi
O amor é o meu País
E sim, eu vi
O amor é o meu País

23/09/2025

INESGOTÁVEL ( Lila Maia )

 Já fui tão antiga querendo ser feliz.

Mas ele chega louco demais para o meu corpo.

Me arrasta, porque sabe que serei magma

Neste doce deslumbramento das marés altas.

E feito um guerreiro suas mãos tocam

Onde só existe falta.

Esse homem me habita com fúrias e pássaros.



 

LETRAS ( Jade Prata )

 Cada palavra

         é áspera, é úmida,
         língua.
         Voz à mingua.
         Cada palavra minha
         é quente, é fértil,
         útero.
         Cada palavra sua
         recusa, se lambuza,
         abusa de mim.

PERFEIÇÃO ( Patrícia Lins )

Hoje fiz amor comigo mesma,
É quase perfeito
O toque no peito.
Em meu pensamento invento.
E braços fantasmas
Me esmagam,
Um ou mais bocas me sugam
Eu mesma me desdobro
Em mais de um gesto
Que espalho por todo o resto.
Posso ser Leda, por que não?
(O Cisne a bicar meus seios)
Quem sabe escrava, serva surrada
Ou, de alta linhagem, uma dama
Pudica, cheia de anseios.
Branca? Negra?
Idolatrada ou usada?
(Bem de acordo com meu estado emocional)
E quando o gozo explode, sem igual,
Extemporâneo, lá dentro, total!

ALÉM DE MIM ( Olga Savary )

 Quero apenas

Além de mim, quero apenas
essa tranquilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.

Além de mim
e entre mim e meu deserto
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto de meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

"A Literatura é uma dama exigente, não dá descanso. Ou você entrega a ela toda a sua energia ou ela lhe vira as costas." ( Olga Savary)


 

O ESPELHO ( Carla Andrade )

 Essa mulher no espelho

tem o mesmo olhar
abotoado da menina que roubava
as sombrinhas de cogumelos
das árvores e dos pastos.

Esse olhar no espelho parece
bolinhas de gude
na escada rolante,
olhos inconsequentes.

Essa mulher no espelho
tem gosto de hóstia
ao lembrar
dos dedos de menina
a lambuzar o próprio sexo.

Essa mulher é a mesma
que se atira nas raízes do seu colo
e se retira com nacos de barro
de obra inacabada.

Esse reflexo no espelho é o
reflexo de tantos outros reflexos.
Máscaras de pétalas
secas pelo tempo.

Coragem.
Pediu para o homem.
Essa mulher ainda sou eu?

COMBUSTÃO ( Carla Andrade )

 Minha coxa

a esfregar na sua.
Palito de fósforo
a riscar o céu.

AULA DE ANATOMIA PARA CERTAS MENINAS ( Carla Andrade )

as meninas de outra época 

colecionavam e trocavam papéis de carta 
os de seda  – os mais valiosos – amassavam 
não eram espichados como o tergal das saias

 

Na ponta dos dedos toques sutis:
nervos fibras músculos e enredos
como uma descoberta num mapa 
cada desenho uma labareda
a eterna promessa do completo

 

o papel de carta insinuava
o que não seria estudado na escola:
tesouros de piratas de seus corpos 
marés encharcadas de águas-vivas
a ponta da pirâmide, esfinge

 

o cheiro dos papéis de carta:
orquídeas de Madagáscar
plantas carnívoras
coberta descoberta
lençol não trocado
árvores frutíferas


os envelopes das cartas
ficavam quase abertos
asas de libélulas 
retirados em dedos ébrios
com luvas de cetim 
de cartolas mágicas

 

já ouvi falar que as meninas 
ardiam seus papéis de carta
em ferros a vapor 
sem nenhum rubor
não aprendiam com as mães
mas com as mãos

 

os papéis importados
forasteiros
abriam-se
como figos na imaginação
um livro pagão

se em blocos 
as meninas molhavam
a ponta dos dedos 
e desfolhavam
um a um

 

alguns papéis de carta 
se esfregavam dentro
das pastas 
assim como as pernas
das meninas ao comprimir
seus travesseiros

tão bem lavados pelas mães

 

as mãos os dedos 
eram cúmplices

assim como 
as pernas penas 
sem tinta sem álibis

 

as meninas não falavam 
dos seus dedos no recreio
merendeira lacrada: 
maçã, bolacha recheada
os meninos preferiam 
medir coisas no banheiro

 

Meninas
de matemática não eram certeiras
de vasos sanguíneos mais festeiras

 

pequenos montes de eclosão 
meninas e seus dedos
os meninos jogavam tapão

 

as meninas não trocam mais papéis de carta
algumas ainda guardam suas pastas
tocam-nos como tecido de alfaiataria rara
e sentem o cheiro de notas
das primeiras alforrias

SUMIDOURO ( Olga Savary )

 Talhe da audácia

e da covardia, meu rei e vassalo,
engolir de pássaros,
golpe de asa
fartura de água
na árvore da vida,
na terra me tens
com os pés bem plantados.
Aqui nado, aqui voo,
telúrica e alada.


PELE DE TERRA, MINHA MORADA ( Olga Savary )

 Pele de terra, minha morada,

para ti portas abertas, abertas
as comportas do mar deflagrado
na manhã vendo-te vindo todo de branco.
Aqui o pio de pássaros e algumas árvores,
nossa imaginação, teus objetos,
fingem floresta para o selvagem e quase
sem ternura momento de naufrágio.
Minha voluta roxa e ascendente
ao labirinto-caracol, tua obsessão,
só agora te descubro, ah minha força,
instrumento contra meus excessos,
minha  imperfeita perfeição.

GUERRA SANTA ( Olga Savary )

 Tenho um medo da fera que me pelo,

ao vê-la quase perco a fala
(embora seja a fera o que mais quero)
mas reagindo digo-lhe palavras doces
e palavras ásperas, torno
igual minha voz à voz dos bichos
para seduzi-la ou para intimidá-la,
para que pontiaguda me tome das entranhas
depois de dilacerar com as garras meu vestido.