domingo
ia à missa
segunda
rezava o terço
na quinta
maria das quantas
limpava o quarto
e punha o lixo
na cesta
no sábado
vinha um soldado
tirar-lhe as teias
da aranha
nu tempo restante
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
domingo
ia à missa
segunda
rezava o terço
na quinta
maria das quantas
limpava o quarto
e punha o lixo
na cesta
no sábado
vinha um soldado
tirar-lhe as teias
da aranha
nu tempo restante
cimentei bombas nos olhos
pus granadas no umbigo
soquei pólvora em cada poro
bebi chumbo derretido
ateei fogo no invólucro
acorrentado a explosivos
depois convoquei a morte
para dormir comigo
ela me disse tu és um forte
se queres uma consorte
convida a vida
Louvai a Deus todo poderoso mulheres de toda a Terra
Amai a todos os homens como se fosse a si mesmas
Bebei de sua água repugnante e salvai vossos casamentos
Imaginai pra sempre que poderia ser pior
Rameiras romeiras rezeiras
Irmãs de toda caridade
Negai apenas o arrependimento
Trilhai a trilha confiante e sem choro
O amor de Deus é singular
o luar penetra entre as persianas
listra a cama o lençol as fronhas
mescla as paredes
tua ausência morde-me o pescoço
deixa em minha pele a digital do frio
o roxo dos carimbos
no vão entre o colchão e o cobertor
espaço da tua ausência
a saudade dos arrulhos dos sussurros
do amor que existiu e voltará
numa noite assim
de muita chuva
insinuas compreendo
e sem nada explícito
fico nua tu te despes
em dias de delicadeza
o grotesco é belo
:
o sexo dos velhos
vestida com poucos pelos
(tinha pelagem restrita)
caminhava uma mulher
sem qualquer outro adereço
e nua como nasceu
atravessava esta vida
até que um dia um cruel
apontou suas estrias
a mulher então corou
apequenou-se
cobriu-se
com uma saia cigana
um xale de renda preta
e eu virava uma puta
uma mulher sem cabresto
depois — a roupa trocada
e limpa de qualquer culpa
fantasiada de santa
ninguém me apontava o dedo
difícil é ficar nua — ser duas
seres tu mesma
lua na folha molhada
Nua,
Eu queria, eu queria, eu queria
Já fui tão antiga querendo ser feliz.
Mas ele chega louco demais para o meu corpo.
Me arrasta, porque sabe que serei magma
Neste doce deslumbramento das marés altas.
E feito um guerreiro suas mãos tocam
Onde só existe falta.
Esse homem me habita com fúrias e pássaros.
Cada palavra
Hoje fiz amor comigo mesma,
É quase perfeito
O toque no peito.
Em meu pensamento invento.
E braços fantasmas
Me esmagam,
Um ou mais bocas me sugam
Eu mesma me desdobro
Em mais de um gesto
Que espalho por todo o resto.
Posso ser Leda, por que não?
(O Cisne a bicar meus seios)
Quem sabe escrava, serva surrada
Ou, de alta linhagem, uma dama
Pudica, cheia de anseios.
Branca? Negra?
Idolatrada ou usada?
(Bem de acordo com meu estado emocional)
E quando o gozo explode, sem igual,
Extemporâneo, lá dentro, total!
Quero apenas
Essa mulher no espelho

as meninas de outra época
tão bem lavados pelas mães