27/11/2025

PENSÃO ( Líria Porto )

 antes chegava sem jeito

pedia licença sentava-se

só depois de algum tempo

ficava nu

 

agora já vem sem roupa

come o que vê pela frente

(cru e cozido)

 

não agradece

                  nem paga

SONHO DE VALSA ( Heloisa Defarge )

 fantasia de mulher

não é seda

colar ou bracelete

fantasia de mulher

é se vestir de gala

O FIO DO PARA-RAIO ( Heloisa Defarge )

 o amor é puta que pariu

sem nenhuma palavra bela

era assim quando

me abrias as pernas

para cuspir melancolias

GINECEU ( Daniela Delias)

 a mão toca

o centro

 

sobre o seio

um cálice de rosa

estende suas sépalas

O PRANTO EM QUE COMERAM ( Adriane Garcia)

 Tantos já se alimentaram

De mim

Que eu já não poderia separar

O que é sêmen de saliva

VOCÊ MESMA ( Adriane Garcia )

 Viva, mulher!

De frente ao espelho

Apalpe o seu seio

Direito e esquerdo

Sorria

Viver é preciso

E quanto mais cedo

Melhor

Não esqueça essa lágrima

Mas passe um batom

De que gosta.

SAIA DE BICICLETA (Cris Zaninelli )

 Hoje eu visto saia

Para que toda libido me saia.

A saia e só

me solta

Sem combinação.

Em livre sinestesia

posso misturar

vermelho e fúcsia

e voar ao vento

onde nem cor

nem corrimento

vão me prender de pedalar até

O suor escorrer

da ponta do nariz

para a coxa

ainda moça

que desliza

ao sabor do selim

sem fim

do meu roliço

e tenso biciclo

Firme tripé em pé.

É duro!

É.

Mas ai de mim

que gosto dele assim.

A PELE É O PALIMPSESTO DO AMOR ( Norma de Souza Lopes)

 pela terceira vez amou

(se contasse a paixão pelo

professor de matemática

aos doze seria a quarta)

tatuou do lado esquerdo

do ombro bem abaixo

do esterno, em gótico

o nome do amor

 

amou pela quarta vez

(ou seria quinta?)

tatuou um gato preto

sobre o nome do amor

com gatos o lance é outro

amor eterno é para cães

MEDIDA CAUTELAR ( Adília do Rego Castro )

 deitou tanto tempo

depois da menarca

que a flor de cheiro

abriu o bico

óleo de rícino, costura

cozinha e o rame-rame

atritava em demasia

pediu ajuda, manteiga,

vaselina, pediu ao Pero

paciência, calmaria

até que um dia

atrás da horta

fez a descoberta

esfregou-se no caule

do pajé e a gruta

melou mais que manga

na boca da normalista

26/11/2025

A ESPOSA DE LÓ ( Amalia Bautista )

 ninguém ainda nos esclareceu

se a esposa de Ló foi transformada
numa estátua de sal apenas como punição
pela curiosidade incontrolável
e pela desobediência,
ou se ela se voltou porque no meio
de todo aquele fogo terrível
ardia o coração que ela mais amava.

Célia Moura, in “No Hálito de Afrodite”

 Ai plenitude de mim rasgada

Asfixia de meu grito entre os dedos
Agrestes de licor
Meu alívio num voo de condor
Ai plenitude enclausurada
No peito de uma gaivota
Grito calado
Por tantas mãos
Aflito!
Ai meu amor
Que desconheço,
Embriaguez Divina
Entre meus braços
Despedaçados!
São para ti todos os meus gritos,
São para ti todas as rosas,
Todo este sangue de esgar e volúpia
Todos os cedros do meu derradeiro Jardim,
Estas mãos de luar
Meu amor
Que desconheço!

25/11/2025

DEVORANDO A VIDA ( Carolina Salcides )

 Hoje e amanhã

O meio termo já não me satisfaz.
Nem pessoas máximas vazias
Nem as ínfimas cheias de mais.
Se por isso me sentencias
Se não me compreendes mais
Digo-te novamente:
É a essência que busco!
Um coração cheio de gente
E não gente cheia de razão.
Quero a carne o osso, a alma
Quero tudo intensamente.
Quero dessa louca vida calma
Desde o fruto
Até a semente!

DESFRUTE ( Carolina Salcides )

 Eu sou o fruto do teu pecado.

Cada curva...
O fruto do teu desejo.
Sou a doçura da uva
O picante, o azedo.
Sou fruto da tua imaginação
Fruto da tua loucura, da tua fúria.
Sou o fruto na mão
O deleite na boca
A languidez no teu corpo...
Sou fruto fluido
Fruto maduro
Fruto proibido.
Sou a maçã rubra lá do alto
Sou fruta gula...
Tentação.
Fruta carne
Nua e crua
Fruta vontade...
FrutAção.

TEMPERO ( Carolina Salcides )

 Pimenta rubra de minha alma ardente...

Meu segredo exultante.
Ruborizas minha pele
Me deixas pronta num instante.
Basta mirá-lo, ousado,
a querer-me só com o olhar.
Que eu me abro, e,
Sabendo que sou fogo,
que ardo,
Ele me prova
Com saciedade
E ele me engole...
Sem dó nem piedade.

SÃO OS LÁBIOS, AS SUAS LETRAS ( António Ramos Rosa )

 São os lábios, as suas letras

e esta mão que desliza,
esta janela e esta mesa
O que eu desejo, o que eu escrevo
não é a claridade nem o meu olhar.
Um imperceptível movimento,
um antegosto

Não. O meu desejo
só o saberei no sabor
das palavras com que o persigo
e o vou perdendo

Qual o seu hálito?
De pedra e água.
É aqui mesmo que o saboreio
onde o ignoro.

Bafo de animal — rio.
Mão calma.
Instantânea força sábia.
Tentá-la!

Mão que tempera o sono.
Dorso que sobe da água.
Duas ou três palavras
para captá-lo nu e vivo.

Um lápis. Um papel deslumbrante,
tudo consinto, ó lisa força que
amacias os músculos e o olhar,
ó palavra flexível e palpitar da sombra
para a vivaz vertigem!

Não há razão para desesperar.
Não posso ser senão o que sou
no momento em que adiro e ardo

DO MAR PARA A TERRA ( António Ramos Rosa )

 Impreparado ainda

te procuro na sombra.
Venho adiante,
proa que deslizas,
maré que me renova.

Destroçado, um torso
lavado e límpido,
da própria água obscura,
eis o que à praia jogo,
na líquida impulsão,
atirado na areia,
de sede mais ardente.

E na água me envolvo,
me afundo, corpo novo,
e movimento, abraço,
e me confundo e abarco,
os nomes me atravessam,
outros nomes procuro,
iguais ao dia que desejo,
à mulher que ondula
e da salsugem surge,
mais branca, mais real.

E é um torso, um dorso
que a água move,
trabalha,
donde despontam brancos
membros,
que na superfície ondeiam
e altos se levantam
cheios de luz.

Assim nasce o possível,
se mais fundo o procuro
e se largo demoro
na sede do ar,
no côncavo da água,
se mais fundo respiro
e formo os membros livres.

Aprendo a prender-te
soltando-te
e impelindo-me
para a forma que desato
— rígida e macia
seiva que transluz.

Tronco é que te quero,
redondo animal
de delicadas palmas,
afeito às ondas
— largas ancas
rodopiantes pernas

- sobre a terra,
mas formado no mar.
 in Ocupação do Espaço, 1963

TEU CORPO PRINCIPIA ( António Ramos Rosa )

 Dou-te um nome de água

para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol — verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

Ó maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

Ó vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

UM PEQUENO VULCÃO ( António Ramos Rosa )

 Aproximo a boca de um pequeno vulcão

que palpita e fulgura como uma magnólia.
Talvez seja uma folha que crepita na sombra.
Ou apenas um lábio que desliza sobre a terra.
Sorvo na sua chama um nó de pequenas veias.
Não sei senão beijar, beijar os negros brilhos.
Sou um cavalo aceso numa gruta incandescente.
Vai ascendendo a saliva dos minúsculos arbustos.
Vou penetrando os ossos até estalar a carne.
Deliram sombras, vacilam luzes, dança o vento.
Aliaram-se as veias e os astros.
Uma aldeia esconde-se entre os lábios.
Um vestido gira nas águas de um jardim.
 in No Calcanhar do Vento, 1987.

24/11/2025

EXPLICAÇÃO DO AMOR ( Cacaso )

 O amor em seu próprio corpo

recebe os cacos que lança:
Diálogo de briga ou rinha
em tom de magia branca.

O amor, o dos amantes,
é sangue da cor de crista:
Coagula insensivelmente
nas polifaces de um prisma.

O amor nunca barganha,
que trocar não é seu fraco:
Recebe sempre entornado
como a concha de um prato.

Amor não mata: previne
o que vem depois do susto:
Modela o aço e o braço
que vão suportar o muro.

O amor desconhece amor
sem ter crueza por gosto:
Contempla-se diante do espelho
sem nunca ver o outro rosto.

Elisa Lucinda, no livro “Vozes Guardadas“. Record, 2016

 Me deixa em paz.

Deixe o meu, o dele, o dos outros em paz!
Qualé rapaz, o que é que você tem com isso?
Por que lhe incomoda o tamanho da minha saia?
Se eu sou índia, se sou negra ou branca,
se eu como com a mão ou com a colher,
se cadeirante, nordestino, dissonante,
se eu gosto de homem ou de mulher,
se eu não sou como você quer?
Não sei por que lhe aborrece
a liberdade amorosa dos seres ao seu redor.
Não sei por que lhe ofende mais
uma pessoa amada do que uma pessoa armada!?
Por que lhe insulta mais
quem de verdade ama do que quem lhe engana?
Dizem que vemos o que somos, por isso é bom que se investigue:
o que é que há por trás do seu espanto,
do seu escândalo, do seu incômodo
em ver o romance ardente como o de todo mundo,
nada demais, só que entre seres iguais?
Cada um sabe o que faz
com seus membros,
proeminências,
seus orifícios,
seus desejos,
seus interstícios.
Cada um sabe o que faz,
me deixe em paz.
Plante a paz.
Esta guerra que não se denomina
mas que mata tantos humanos, estes inteligentes animais,
é um verdadeiro terror urbano e ninguém aguenta mais.
Conhece-te a ti mesmo
este continua sendo o segredo que não nos trai.
Então, ouça o meu conselho
deixe que o sexo alheio seja assunto de cada eu,
e, pelo amor de deus,
vá cuidar do seu.

POSSIBILIDADES (Wislawa Szymborska) tradução: Júlio Sousa Gomes

Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
que a amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulhas e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é culpada de tudo.
Prefiro as excepções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em bicha para o número
Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.
in Paisagem Com Grão de Areia; Lisboa. Relógio d'Água, 1998.

23/11/2025

ATRAVÉS ( Flávia Ferrari )

 Equilibrando-se no abismo

A queda é possível
Mas é mais provável
Que sigamos agarrados à corda
Que dança sobre nossas cabeças
Amarrada entre dois extremos
Que se mantém firmes
Não cedem
Não se deslocam
E não se desmancham

Entretanto
Se tirássemos os olhos do que nos sustenta
Talvez vislumbrássemos um tombo
Compatível com a vida
Mas para isso
Precisaríamos olhar na direção
Do que é invisível
Bem abaixo dos nossos pés

FRESTAS ( Flávia Ferrari )

 Há frestas por onde o sangue aflora

e o excesso escorre
e que cicatrizam

Há frestas que revelam
fragilidade
e uma ruptura iminente

Há frestas que acusam
um passado negligente
futuro incerto

Há frestas que orientam
que contam histórias
e aguentam

Há frestas que não cicatrizam
endurecidas
por onde só passa o ar
imperceptível

Há frestas invisíveis
que só se mostram na claridade
e somem quando chegam as sombras

Há frestas por onde brotam
elementos vivos
quando já não mais acreditamos
e resistem