25/03/2026

TODA PALAVRA É CORPO ( Inês Falafogo )

 toda a palavra é corpo

e a liberdade movimento

um vendaval solto

dançando preso cá dentro

cabeça língua lábios

juntos ao mesmo tempo

de vermelho presença

de cravo unguento

minha cabeça sentença

minha língua certeza

meus lábios enormes

serena no encontro

porque me vês de longe

— ser livre é ter fome

 

andar de boca aberta

ávida de instantes

de espanto desperta

enchendo a barriga com gigantes

 

encontra-me no caos imerso

lugar imenso que atravesso

sou tudo quanto basta ao excesso

 

não há nada mais livre que ser de mim

sentimento que, por fim, bendigo

— poder nascer e morrer comigo

ESTAÇÃO UENO, TÓQUIO ( para Yu Miri ) ( Karen Kazue Kawana )

vidas são gastas

vidas se perdem

vidas são consumidas

em gestos vãos

 

vidas pelas que se passa

sem serem vividas

meras cenas

em sucessão

 

vidas que acabam

luzes que se apagam

já sem brilho

FANTASIA ( Karen Kazue Kawana )

 Eu a criei e alimentei.

Achei que me completaria.

Ela cresceu e engordou.

Não cabia mais entre meus braços.

Quem se aninhava entre os dela era eu.

Quando despertei e a olhei nos olhos,

soube que foi tudo desperdício,

não havia amor nem gratidão.

Todas as horas que lhe dediquei

não passaram de febre e delírio.

HISTÓRIA ( Karen Kazue Kawana )

 Tornar-me foi um desfazer-me.

Despir-me de pele e de sonhos.

Cada passo à frente foi mais leve,

porque despojado de propósito,

movido por inércia e desalento.

 

Caminhei por várias vias

sem telefone, sem dinheiro,

sem medo dos perigos.

De meu, tinha só o corpo,

que sempre foi só carne,

nunca um objeto de desejo.

Não tinha sexo, nem etnia,

ignorava que, nos outros,

ele pudesse despertar repulsa,

ou ser motivo de cobiça.

Mirava o alto, as miragens,

queria ser apenas espírito.

MEDUSA ( Viviane de Santana Paulo )

 não há nada que não seja um labirinto

desde o reencontro com um amigo de infância

após muitos anos

a ficar preso no elevador de um edifício

desde o ínvio olhar de quem mais confio

a ouvir o meu nome dito por quem tanto amo

 

seja asfalto ou montanha

seja mar ou rio

seja céu ou ponte

seja tempo ou jornal

seja ontem ou gestos

espelho ou brincadeira

sejam as construções modernas

ou um punhado de terra

não há nada que não seja um labirinto

fora ou dentro de mim

perseus eu matei

com a minha indiferença

com a minha resignação e abandono

com a minha própria coragem

de me olhar no espelho

BOCAS AO SOL ( Yara Osman )

 Há muito tempo

me tornei uma parede.

 

Uma parede com dois olhos,

aquela que viu tudo

e nunca disse nada.

 

A única que não caiu

de uma casa

milhares de vezes bombardeada.

 

Do outro lado do muro

há pessoas dormindo

com a boca aberta para o sol,

e os olhos — mesmo fechados —

fixos nos meus.

 

Com olhos abertos,

a morte me observa

como um gato

observa uma borboleta.

 

Com asas abertas,

a morte me encara

como uma borboleta

encara o fogo.

 

A morte me visita.

A morte dorme comigo.

Rouba meu lençol.

 

E toda vez que esqueço

que sou uma parede,

ela me mostra meu pai

com a boca aberta para o sol.

BAILARINA ( Djavan )

 A cada pirueta que você dá

um tom de violeta
inunda o seu bailar
fico encantado ao vê-la voar
em seu grand-jeté
como eu queria ser o seu par
queria o meu destino
junto ao seu dom
e o estilo manuelino
no que tem de bom
pra erigir um belo altar
na intenção de entronizá-la
no lugar de uma deusa
sou um barco navegando
alto-mar por você
a me desbravar sem medo
com um desejo incontido
invadindo a canção
crepuscular estação
do amor não correspondido
tal como o sol
no arrebol
eu morro com vida
plié aqui
jeté ali
socorro, querida
quero viver
só pra você
de hoje
pra sempre

FERA ( Djavan )

 Você é coisa demais

Que mau eu não saber lidar
Com tudo isso de uma vez
Eu sei, mas eu vou dar tudo
Vou enfrentar um mundo assustador
Pra conquistar o coração da fera
Que me fere com amor
Cai o sol no mar
É um milagre eu não me afogar com a tarde
Sou quem arde cego de paixão
Abra a porta então
Deixe eu pensar que por ser assim sou amado
Perdido ou desejado,
Estar contigo me faz tão bem
É amor, bem
E eu nem sei se você vai me amar
Ninguém, só você, meu bem

Pode fazer meu coração sofrer. 


ENCONTRAR - TE ( Djavan )

 Qualquer lugar

Em que eu vá
Encontrar-te
Com o desejo
À flor da pele
Por fim

Destacaria o teu agir
E o modo de sentir
Como sendo vitais
Pra mim

Não é possível
Descrever
Como me encantas
Mais que o outono
Faz com os vales
De abril

Tu tens a natureza
Aos pés
Por isso é que tu és
Estrela, mesmo
Em céu de anil

Há paixão nos ares
Mas só no amor
Se vai longe
Seja eu de mais ninguém

Não é porque queres
Que é só teu
O meu pensamento
Sei que tenho
A ti também

O espetáculo em teu olhar
Fez escândalo
A boca é farta
Entre beijar e dizer
Não faço nada sem te ouvir
E há muito decidi
Amar-te enquanto
Eu viver

ESQUINAS ( Djavan )

 Só eu sei

As esquinas por que passei
Só eu sei só eu sei
Sabe lá o que é não ter e ter que ter pra dar
Sabe lá
Sabe lá

E quem será
Nos arredores do amor
Que vai saber reparar
Que o dia nasceu
Só eu sei
Os desertos que atravessei
Só eu sei
Só eu sei

Sabe lá
O que é morrer de sede em frente ao mar
Sabe lá
Sabe lá
E quem será
Na correnteza do amor que vai saber se guiar
A nave em breve ao vento vaga de leve e traz
Toda a paz que um dia o desejo levou

Só eu sei
As esquinas por que passei
Só eu sei
Só eu sei
E quem será
Na correnteza do amor

24/03/2026

BORBULHAS DE AMOR (Juan Luis Guerra Seijas) versão para o português: Ferreira Gullar

Tenho um coração
Dividido entre a esperança e a razão
Tenho um coração
Bem melhor que não tivera

Esse coração
Não consegue se conter ao ouvir tua voz
Pobre coração
Sempre escravo da ternura

Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor pra te encantar
Passar a noite em claro
Dentro de ti

Um peixe
Para enfeitar de corais tua cintura
Fazer silhuetas de amor à luz da lua
Saciar esta loucura
Dentro de ti

Canta coração que esta alma necessita de ilusão
Sonha coração, não te enchas de amargura

Uma noite para unir-nos até o fim
Cara a cara, beijo a beijo
E viver para sempre dentro de ti

21/03/2026

TUA SOMBRA ( Francesca Randazzo Eisemann ) tradução de Floriano Martins

 tua sombra

decompõe com um sorriso
a dor
de todos os olhares
ela que cruza fronteiras
e cobre de ondas e areia
muitos outros
– eu vou seguir
descobrindo espaços –
alguns relatos
de estrelas em nossas pupilas,
da verdade e de outros planetas
que giram em suas órbitas,
são o sol
que posso evocar
correndo pelas minhas mãos
– como o calor das histórias
que trouxeste
para curar feridas e apagar cicatrizes –
teu olhar na sombra
abre
outro
buraco
por onde só entra a luz

VIDA ( Francesca Randazzo Eisemann ) tradução de Floriano Martins

 vida

atrevo-me a pronunciar suas cores
ver a luz
entre tuas correntes
como um laço de palavras
vida
denunciada
no cuidado
com que nasce das pedras
eu te escuto
na sombra do silêncio
quando a porta é desfeita
fechada por dentro
alma que cresce
movimento
e isca
pensamento
dedos de meu pés
língua
nervo
nuvem de todas as formas
olho que as cria
eu quero fazer o mapa da tua pele
lançá-la inteira ao vento
e aprender a voar
sem o tom do vazio
vida
objetiva e zoom
mundo que se abre
após me haver apertado
tantos braços

CIDADE INVERSA ( Karen Valladares ) tradução de Floriano Martins

                                            Ninguém sonha com o mundo.

                                                                                    (Jorge Luis Borges)

A cidade

é uma lâmpada
um leque.
Por vezes
é um pássaro,
espelho da morte,
poeira de nosso próprio corpo.
Uma criança que nos usa como pipa,
um cachorro que lambe nossas sombras.
Homens e mulheres
que avançam em qualquer direção.
Às vezes simplesmente não avançam.
É longa,
imóvel
sem fôlego.
A cidade não é nada mais
restos de lixo
voando em um céu negro
ou azul
ou amarelo.
Esta cidade
é como um verso ruim
“É uma batalha silenciosa no crepúsculo,
Um toque de guitarra ou uma espada velha.”
A cidade
é um rio
carregado de pedras
onde a pedra atinge o rio.
Esta cidade,
esta cidade precisamente
é o mundo
com o qual ninguém sonha.

QUEM ME LEVARÁ SOU EU ( Dominguinhos - Manduka )

 Amigos a gente encontra

O mundo não é só aqui
Repare naquela estrada
Que distância nos levará
As coisas que eu tenho aqui
Na certa terei por lá
Segredos de um caminhão
Fronteiras por desvendar
Não diga que eu me perdi
Não mande me procurar
Cidades que eu nunca vi
São casas e braços a me agasalhar
Passar como passam os dias
Se o calendário acabar
Eu faço voltar o tempo outra vez, sim
Tudo outra vez a passar
Não diga que eu fiquei sozinho
Não mande alguém me acompanhar
Repare, a multidão precisa
De alguém mais alto a lhe guiar

Quem me levará sou eu
Quem regressará sou eu
Não diga que eu não levo a guia
De quem souber me amar
 

A LUZ OBLÍQUA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 A luz oblíqua da tarde

Morre e arde
Nas vidraças

Nas coisas nascem fundas taças
Para a receber,
E ali eu vou beber.

A um canto cismo
Suspensa entre as horas e um abismo

A vibração das coisas cresce.
Cada instante
No seu secreto murmurar é semelhante
A um jardim que verdeja e que floresce.

A PEQUENA PRAÇA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 A minha vida tinha tomado a forma de uma pequena praça

Naquele outono em que a tua morte se organizava meticulosamente
Eu agarrava-me á praça porque tu amavas
A humanidade humilde e nostálgica das pequenas lojas
onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava ali de ser a minha
Eu procurava sorrir como tu sorrias
Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco
E á mulher sem pernas que vendia violetas
Eu pedia á mulher sem pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em todos os altares
Das igrejas que ficavam ao canto desta praça

Pois mal abri os olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas os lugares as gentes
Que foram as testemunhas do teu rosto
Para que eles te chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte entrelaçava em ti.

MANHÃ ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Na manhã recta e branca do terraço

Em vão busquei meu pranto e minha sombra

O perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente da seda e da serpente

No meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas de água mãos de areia pura

A luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem a linha das águas me divide

Mergulho atré meu coração de gruta
Rouco de silêncio e roxa treva

O promontório sagra a claridade
A luz deserta e limpa me reúne.

A NOITE E A CASA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 A noite reúne a casa e o seu silêncio

Desde o alicerce desde o fundamento
Até à flor imóvel
Apenas se ouve bater o relógio do tempo

A noite reúne a casa a seu destino

Nada agora se dispersa se divide
Tudo está como o cipreste atento

O vazio caminha em seus espaços vivos.