29/05/2018

ELE PREFERE AS NÓRDICAS (Martha Medeiros)

ele prefere as nórdicas
as ricas, as putas
as filhas das tias
letradas, peitudas
alunas da puc
solteiras, taradas
mulheres pudicas
peludas, escravas
as boas de cama
mulatas, mineiras
as freiras da itália
escocesas, peladas
as bem mal-amadas
aquelas que dizem te amo
e mais nada

21/05/2018

A DISPONIBILIDADE DE UM AMOR ( Jorge Reis-Sá )

a disponibilidade de um amor
nasce numa cratera de deus
anos antes, um pequeno corpo rochoso beijou
a pele do pátio e um pequeno estrondo, tal suspiro
saiu da sua boca, expirou
a brisa, breve e quente
esvoaça sobre os sulcos da terra
e leva consigo uma espera
hoje essa terra és tu
e um amor disponível é a espera
que espera algures por ti

OS AMANTES COM CASA ( Joaquim Pessoa ) in Inéditos

Andavam pela casa amando-se 
no chão e contra as paredes. 
Respiravam exaustos como se tivessem 
nascido da terra 
de dentro das sementeiras. 
Beijavam-se magoados 
até se magoarem mais. 
Um no outro eram prisioneiros um do outro 
e livres libertavam-se 
para a vida e para o amor. 
Vivendo a própria morte 
voltavam a andar pela casa amando-se 
no chão e contra as paredes. 
Então era a música, como se 
cada corpo atravessasse o outro corpo 
e recebesse dele nova presença, agora 
serena e mais pobre mas avidamente rica 
por essa pobreza. 
A nudez corria-lhes pelas mãos 
e chegava aonde tudo é branco e firme. 
Aquele fogo de carne 
era a carne do amor, 
era o fogo do amor, 
o fogo de arder amando-se e por toda a casa, 
contra as paredes, no chão. 
Se mais não pressentissem bastaria 
aquela linguagem de falar tocando-se 
como dormem as aves. 
E os olhos gastos 
por amor de olhar, 
por olhar o amor. 
E no chão 
contra as paredes se amaram e 
pela casa andavam como 
se dentro das sementeiras respirassem. 
Prisioneiros libertados, um 
no outro eram livres 
e para a vida e para o amor se beijaram 
magoando-se mais, até ficarem magoados. 
E uma presença rica, 
agora nova e mais serena, 
avidamente recebeu a música que atravessou de 
um corpo a outro corpo 
chegando às mãos 
onde toda a nudez é branca e firme. 
Com uma carne de fogo, 
incarnando o amor, 
incarnando o fogo, 
contra o chão das paredes se amaram 
pressentindo que 
andando pela casa bastaria tocarem-se 
para ficarem dormindo 
como acordam as aves.

ECCE HOMO ( Ary dos Santos )

Desbaratamos deuses, procurando 
Um que nos satisfaça ou justifique. 
Desbaratamos esperança, imaginando 
Uma causa maior que nos explique. 

Pensando nos secamos e perdemos 
Esta força selvagem e secreta, 
Esta semente agreste que trazemos 
E gera heróis e homens e poetas. 

Pois deuses somos nós. Deuses do fogo 
Malhando-nos a carne, até que em brasa 
Nossos sexos furiosos se confundam, 

Nossos corpos pensantes se entrelacem 
E sangue, raiva, desespero ou asa, 
Os filhos que tivermos forem nossos.

SONETO DE MAL AMAR ( Ary dos Santos )


Invento-te  recordo-te  distorço 
a tua imagem mal e bem amada 
sou apenas a forja em que me forço 
a fazer das palavras tudo ou nada. 

A palavra desejo incendiada 
lambendo a trave mestra do teu corpo 
a palavra ciúme atormentada 
a provar-me que ainda não estou morto. 

E as coisas que eu não disse? Que não digo: 
Meu terraço de ausência    meu castigo 
meu pântano de rosas afogadas. 

Por ti me reconheço e contradigo 
chão das palavras mágoa joio e trigo 
apenas por ternura levedadas.

DESESPERO ( Ary dos Santos) in Liturgia do Sangue


Não eram meus os olhos que te olharam 
Nem este corpo exausto que despi 
Nem os lábios sedentos que poisaram 
No mais secreto do que existe em ti. 

Não eram meus os dedos que tocaram 
Tua falsa beleza, em que não vi 
Mais que os vícios que um dia me geraram 
E me perseguem desde que nasci. 

Não fui eu que te quis. E não sou eu 
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto, 
Possesso desta raiva que me deu 

A grande solidão que de ti espero. 
A voz com que te chamo é o desencanto 
E o esperma que te dou, o desespero.

SAUDADE DO TEU CORPO (António Patrício)

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma? 

Anda a saudade do teu corpo (sentes?)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado»

É o teu corpo em sombra esta saudade 
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios- sombra:
a luz do seu olhar é escuridade 

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra 
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

O SEXO (
Orlando Neves)

Neste corpo, a densa neblina, quase um hábito, 
lentamente descida, sedimento e sede, 
subtilmente o acalma. Ancora que se desloca, 
movediça e infirme. Só no olhar, além 

da luz e da cal, se distinguem os desejos 
e a mestria das palavras. E não há remos 
nem astros. Convido a neblina a esta 
mesa de chumbo, onde nada levanta o fogo 

solar ou os signos se alteiam. É a hora 
em que o corpo treme e a sombra lavra as frouxas 
manhãs. O que serão as tardes, sob a névoa, 

quando o vigor agoniza e o vão das águas abre 
o caos e os ecos? Estaremos em paz, 
usando a palavra, última herdeira das areias.

AMOR PACÍFICO E FECUNDO ( Rabindranath Tagore )


Não quero amor 
que não saiba dominar-se, 
desse, como vinho espumante, 
que parte o copo e se entorna, 
perdido num instante. 

Dá-me esse amor fresco e puro 
como a tua chuva, 
que abençoa a terra sequiosa, 
e enche as talhas do lar. 
Amor que penetre até ao centro da vida, 
e dali se estenda como seiva invisível, 
até aos ramos da árvore da existência, 
e faça nascer 
as flores e os frutos. 
Dá-me esse amor 
que conserva tranquilo o coração, 
na plenitude da paz! 
(Tradução de Manuel Simões)
 

A MULHER INSPIRADORA ( Rabindranath Tagore )


Mulher, não és só obra de Deus; 
os homens vão-te criando eternamente 
com a formosura dos seus corações, 
e os seus anseios 
vestiram de glória a tua juventude. 
Por ti o poeta vai tecendo 
a sua imaginária tela de oiro: 
o pintor dá às tuas formas, 
dia após dia, 
nova imortalidade. 
Para te adornar, para te vestir, 
para tornar-te mais preciosa, 
o mar traz as suas pérolas, 
a terra o seu oiro, 
sua flor os jardins do Verão. 
Mulher, és meio mulher, 
meio sonho. 
(Tradução de Manuel Simões)

19/05/2018

BLUES PARA BIA ( Chico Buarque de Holanda )


Eu fiz este blues pra Bia
Mas Bia não vem me ouvir
Não vou censurar a bela
É da natureza dela
Viver solta por aí.

Compus doce melodia
Pra ela se enternecer
Rimei com melancolia
Meu dia a dia sem Bia
Mas Bia não quer saber.

Vai ver que nem imagina
Que estou a me insinuar
Talvez ela dê risada
Talvez fique encabulada
Talvez queira me avisar.

Que no coração de Bia
Meninos não têm lugar
Porém nada me amofina
Até posso virar menina
Pra ela me namorar.

01/04/2018


MULHERES (Pablo Neruda)
Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.
Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se para injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução
Elas andam sem novos sapatos para
suas crianças poder tê-los.
Elas vão ao medico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.
Elas choram quando suas crianças adoecem
e se alegram quando suas crianças ganham prêmios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre
um aniversario ou um novo casamento.

DE TANTO TE PENSAR, SEM NOME, ME VEIO A ILUSÃO( Hilda Hilst)


Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.

De te pensar me deito nas aguadas

E acredito luzir e estar atada

Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.

De te sonhar, Sem nome, tenho nada
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e de abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cimos. De nunca te tocar
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
Do muito desejar altura e eternidade
Me vem a fantasia de que existo e sou.

Quando sou nada: égua fantasmagórica

Sorvendo a lua n’água.
Hilda Hilst, no livro "Sobre a Tua Grande Face." São Paulo-1986.

NAS ERVAS ( Eugénio de Andrade)

NAS ERVAS (Eugénio de Andrade)

Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.

porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.
 SONHO (Luís Filipe Castro Mendes)
Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.

Num poço ou num cristal me debrucei.
Só no teu rosto a morte me alcançava.

De quem a morte, por terror de mim?
De quem o infinito que faltava?
Numa casa de vidro vi meu fim.
Numa casa de vidro me esperavas.

Numa casa de vidro as persianas
desciam lentamente e em seu lugar
a noite abria o escuro das entranhas
e o teu rosto morria devagar.

Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.
Fiz do teu corpo sonho e não olhei
nas palavras a morte que guardavas.

Descemos devagar as persianas,
deixamos que o amor nos corroesse
o íntimo da casa e as estranhas
cerimónias do dia que adoece.

Numa casa de vidro. Num espelho.
Na memória, por vezes amargura,
por vezes riso falso de tão velho,
cantar da sombra sobre a selva escura.

Numa casa de vidro te sonhei.
No vazio dessa casa me esperavas.

OS CORPOS ( Maria Teresa Horta )


O teu corpo
o meu corpo
e o corpo do poema
entre o gosto
o gozo, a escrita
que faz gemer de prazer
quem escreve
a chama infinita

O teu corpo, meu amor
e o corpo da minha escrita.

O CORPO ( Maria Teresa Horta )

Digo do corpo
O corpo:
E do meu corpo

Digo no corpo
O sítio e os lugares

De feltro os seios
De lâminas os dentes
De seda as coxas
O dorso em seus vagares

Lazeres do corpo:
Os ombros
As lisuras – o colo alto
A boca retomada

No fim das pernas
A porta da ternura
Dentro dos lábios
O fim da madrugada

Digo do corpo
O corpo:
E do teu corpo

As ancas breves
Ao gosto dos abraços

Os olhos fundos
E as mãos ardentes
Com que me prendes
Em súbitos cansaços

Vício de um corpo:
O teu
Com o seu veneno

Que bebo e sugo
Até o mais amargo
Ao mais cruel grau do esgotamento

E onde em silêncio
Nado
Em cada espasmo

Digo do corpo
O gozo
Do que faço

Digo do corpo
O uso
Dos meus dias


E a alegria
Do corpo sem disfarce
O MAPA (Carlos Clara Gomes)
despi-te
buscando o mapa de ti
só então dei conta
que nunca fora desenhado
ou então o cartógrafo que o fez
escondeu os trilhos para a saída
e foi assim
que toda a gente que tentou entrar na tua alma
por lá ficou
eu não fui excepção
ainda hoje não consegui sair
também
em abono da verdade
nem procurei a porta de saída.

VIII ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento

Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser

Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite
POEMAS  DE  UM  LIVRO DESTRUÍDO


APENAS UM CORPO (Eugénio de Andrade)


Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.

Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.

Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.

Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.

Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.

AMOR (Eugénio de Andrade)

Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla,
sempre o amor procura,
tacteia no escuro,
essa perna é tua? esse braço?
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua,
morreria agora se mo pedisses,
dorme,
nunca o amor foi fácil,
nunca, também a terra morre.

POEMA QUADRAGÉSIMO SEXTO (Joaquim Pessoa)


Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti.

Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um "bouquet" de palavras que floriram
neste tempo de amor.