14/07/2024

AMOR SAGRADO ( Isabel Wolmar )

 Um luar tímido, pardacento

iluminava os dois corpos
deitados no areal ainda quente
de hálitos de fogo infernal.

 

A pálida mulher de cabelos de Mistério
sereia mitológica saída das ondas
acolheu em seus braços de leitosa maciez
o homem, deus mítico
corpo de marés revoltas.

 

Fulminados por um raio incandescente

seus corpos uniram-se

como almas esfomeadas

dilatando o tempo num pulsar onírico.

 

O corpo de marés revoltas
penetrou a gruta da mulher pálida
inundando-a com as suas águas primordiais.

 

Em vibrações de cristal fendido

gemidos cortaram a noite de mil olhos espantados

ao fundearem a âncora do prazer

bandos de aves marinhas soltaram voo

saudando a aurora que despontava.

 

Estrelas iam adormecendo uma a uma
num céu a gotejar manchas de anil
em gestos lentos, cansados.

Os dois corpos num só corpo
embrulharam-se em farrapos de nuvens
deram as mãos à noite moribunda
e partiram para o infinito.

GOSTO DE VER AS MINHAS MÃOS ( Isabel Meyrelles )

 sonhar contigo,

sonhar os meandros

mais secretos

do teu corpo

floresta e armadilha,

fonte e bramido

 

Gosto de ver as minhas mãos

sonhar contigo,

entrelaçadas, adormecidas,

recriando o peito,

as espáduas, o ventre,

as coxas, o sexo,

amazônia interior

 

Gosto de ver as minhas mãos

sonhar contigo,

por vezes um único dedo

desenha no ar

os olhos, a boca, o cabelo,

estrela negra

que só eu conheço

Gosto de ver as minhas mãos

sonhar contigo,

sonhar esta travessia do espelho

de reflexos infindos

que é a minha recordação de ti.

Aliás, que outra coisa

podem elas fazer?

PRELÚDIOS INSPIRADOS ( Inês Lourenço )

 Há mil e cem anos

de poesia num só dia,
mil e cem palavras
numa só sílaba,
mil e cem páginas
numa linha

— quando abro o livro
do teu corpo, e provo mi
mil e cem receitas num só
amor

CAMINHOS DE SOPHIA ( Augusta Franco )

 (homenagem a Sophia Mello Breyner Andersen)

Vens firme

e sedutora
nas ondas
dos mares
que habitas,
tens a alma
das sereias
e os olhos
das gaivotas
que mergulham
no infinito.
Aguardas
todas as marés
sentada, longínqua,
um rochedo.
Mas as dunas
têm marcas
dos teus pés...
Sophia Mello Breyner Andersen

PENSAMENTOS LUXURIOSOS ( Dalila Teles Veres )

 Pensava nele

quando a seda do vestido

tocou-lhe as coxas

eriçando-lhe os pêlos

(asas a roçar o espírito

tocha a incendiar a carne)

 

Pensava nele

 

quando a voz de Maria Callas

alcançou a nota mais aguda

- L’atra notte in fondo al mare –

invocando Mefistofele

(setas fálicas a zumbir junto aos ouvidos

aromas de sândalo a embebedar os sentidos)

 

De tanto nele pensar

Devorou a si própria

l u x u r i o s a m e n t e

(espírito só carne)


INOCÊNCIA ( Dagmar Braga )

 além do muro


         o salto
                            o susto
                                               o gozo

sutil o louvor do tempo
tecendo
— de permeio —
o adormecimento

MADRUGADA ( Dagmar Braga )

 quando em silêncio arde o desespero

teu rosto assoma

tua mão acolhe o fogo e me desata
o descompasso

o dia serpenteia na garganta
um poema grita
                      germinando luz

NOITE AFORA ( Eduarda Duvivier )

 Tem dia que a gente fala

tem dia que a gente cala

tem dia que a gente ri

tem dia que a gente chora

tem dia que a gente trepa

tem dia que a gente ora

tem dia que a gente nasce

dia em que vai embora

 

e o que tem na noite afora?


PRINCÍPIO DO ESCURO ( Margarida Vale de Gato )

Acordei hoje como se fosse natural­
mente necessário ter o comprimento
do teu corpo na minha cama e estranhei
que não me abraçasses, nem preenchesse
o encaixe da tua pélvis
as minhas nádegas, a tua mão
sobre o meu monte, os teus joelhos
encostados à dobra onde os meus flectem

 

Vês daí como tudo aqui ainda e sempre

treme continuamente, e a descompasso

do real, todos os dias tenho calores

de imaginação, trabalho a libido

do cansaço, se fecho os olhos não durmo,

encho-me, ao invés, de fricções. Depois

no outro plano, já sentiste, custa-me

estar presente: das consecutivas vezes

que nos tocámos na boca, estudei os beijos

como uma alegoria embaraçosa:

tudo sob o comando diferido

da cabeça, com tensão mais que tesão,

a minha língua esgrimia a tua, quase

nada clamava ou humedecia, talvez

exceptuando um latido pequeno de amor

a pingar com irritação, não sei,

e além do mais haveria a indagar

se são de facto compatíveis nossas

espécies, se nisso há inevitabilidade,

ou onde preciso das tuas carícias

nos anéis das cervicais ou dedos

na pele ou o princípio do escuro

a partir do perímetro da cintura.


FEMININA ( Maria da Gloria Lima Barbosa )

 Só Deus me entende assim anêmona

cabelos correndo rios
adormecendo mar
brilhando pérolas em conchas secretas
água-viva mansa
receptáculo e espera.

ANOITECER ( Cacilda Soares Barboza )

A noite caía macia
como o caboclo que espia
a tarde se desnudar
sem pressa sem arrepios,
sabendo o que esperar.
O vento lambia o chão
contorcia o infinito
em açoites de paixão.
Rolando em precipícios
noite e dia se amavam
em cio ardente ganindo
excitando todo o mato.
Folhas se entrelaçavam
águas se misturavam
na tarde azul que morria
puro êxtase e agonia.
Terra e céu se derramavam
nas cores do entardecer
no sol devagar sumindo
no soluço afogado
pairando abençoado
no coito do anoitecer.


LUXÚRIA ( Cacilda Soares Barboza )

Eu não sou eu, sou tu
matéria sobre a qual Deus
esculpiu teu corpo nu.
Tua pele é minha veste
tua boca minha vertente
és meu verbo ser,
meu lado mau indecente.
És minha alma, minha cama
na qual ouso te usar
minha estrela, minha lama
na qual posso mergulhar.
Roça meu rosto
deixa eu beber teu gosto
bebe tu no seio meu.
Beija os meus beijos
aperta no meu o teu peito
me queima em teu desejar.
Desce em foto ao meu ventre
ter apaga morno, silente

em meu sexo a se derramar.



SILOGISMOS ( Laís Corrêa de Araújo )

A língua sibilina

em quando falo

                            — fala?

 

O dedo viperino

em quando levita

                            — manuscrita?

 

A boca fescenina

em quando suga
                            — conjuga?

 

A pele colubrina

em quando chama

                            — diagrama?

 

O seio horizontino

em quando iguaria
                            — alegoria?

 

A coxa serpentina

em quando possessa
                            — expressa?

 

A anca messalina

em quando sodomia
                            — ritmia?

 

A gruta diamantina

em quando sumarenta
                            — argumenta?

 

O sexo saturnino

em quando estertora

                            — elabora?

 

A carne guilhotina

em quando estala

                            — cala.

MANTENHA ( Alzira Cabral )

 Filha do teu adultério

existo

queiras ou não com a mesma pele.

Exilada

sobrevivo contente

na terra dos sem cor.

Com a boa vontade que ganhei

das gentes daqui,

sem ressentimentos nem vergonha

cultivo a mentira da tua grandeza

no existir dos meus descendentes.

 

E mando mantenhas, oh terra

através dos meus poemas vermelhos:

 

A cor que me deste!


De Armando Freitas Filho

 Eu conheço o seu começo:

                    ponto e novelo,

meada de mel e langor

                     de lentos elos

que a minha língua lambe

              no calor despido,

no meio das suas pernas:

             anéis de cabelos,

anelos e nós se desmancham

          em nada ou nódoa

por todo o lençol do corpo

               nu e amarrotado:

nós aqui somos todos laços

                 e nos rasgamos

devagar – poro por poro;

               rumor de sedas

ou de uma pele toda feita

      de suor e suspiro:

eu soluço a cada susto seu

       que nos dissolve.


MADEMOISELLE FURTA COR ( Armando Freitas Filho )

 Por esta fresta te espreito

Por esta fresta te desvendo

Por esta fresta
cravo
sonda contra esponja,
e babo
e te penetro
teso e reto, e por inteiro
ó seu corpo se entreabre:
porta e perna, caixa e coxa.

Por esta fenda
tenda
de pele que se franze,
e rasga
eu me adentro
feito de espera e de esperma:
e espremo - te aperto - e exprimo
toda a cor da carne do amor que escrevo.

Por esta fresta me espreito
Por esta fenda me desvendo

De Armando Freitas Filho

 Eu avanço, te abocanho,

a cama range, o corpo ruge

                            vermelho!

vivo num relance as nuances

de um arco-íris de tafetá

ferido no espaço do instante

de seu veloz delírio:

 

e caço o seu rosto em cada cor

 

                            em cada gama

 

a cada gomo que esmago e engulo

eu te provo, e bebo

 

              as gotas do seu gosto

 

e mastigo o teu sabor

calcando sob mim

o gesto escancarado

do seu sangue sem som,

mas que, entretanto, em entretons

 

                                                   grita.


INDIVISÍVEIS ( Mário Quintana )

 O meu primeiro amor e eu sentávamos numa pedra

Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas,
Isto é, que a gente achava bobas
Como qualquer troca de confidências entre crianças de cinco anos.
Crianças...
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela,
Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
Nem no cachorro e no gato da casa,
Que tinham apenas a mesma fidelidade sem compromisso
E a mesma animal - ou celestial - inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que diséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra,
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda a sua vida...

VENTO DA DESPEDIDA ( Olga Sedakova )(Trad.: Astier Basílio)

 Vento da despedida vem julgando e vem.

Talvez que nem enxergue, capaz que ouça pouco
e tal como as pessoas que não sabem ler
nós vamos repetindo o palavrear de outros.

A paz de ser autêntico e de ser passado
de onde recuarão a fúria e os relâmpagos
e sobre o sofrimento, de olhos que não abrem,
e sobre todo ultraje, de olhos se fechando.

E sobre tudo aquilo que nós não cumprimos
aquilo que num sonho nem tentamos ser.
Alegremente — diga — o que não lembraríamos
e aquilo que não ousas sequer esquecer

É glorioso amar, dourada e viva bênção,
cheirando a chuva e se tu fores dor tu hás
de estar a sós; e se fores jardim nós não
esperaremos lá pela felicidade.

SONETO DA BUNDA BRANCA ( Marcus Freitas )

 Ah, uma bunda branca me emociona!

O traço, a curva — desenho preciso —
matemático muro, alvo e liso,
estandarte e brasão da bela dona.

A bunda-ícone, bunda de neve,
onde a luz da seda sinta-se sombra,
onde o corpo role pela alfombra
e viva de prazer, que a vida é breve.

Oh, praça onde danço em apoteose!
Que geômetra te sonhou na bruma?
Estou tonto e quero mais, mais uma dose

dessa bunda-mulher que me desanca.
Se digo anca, a arma se apruma:
quem diz anca, diz bunda, bunda branca.

A BUNDA ( Belmiro Braga )

 Quando ela passa todo mundo espia,

Não para a cara, que não é formosa,
Mas para a bunda, que é maravilhosa.
Em bunda, nunca vi tanta magia.

Requebra, sobe, treme e rodopia
Dentro de uma expressão maravilhosa.
Deve ser uma bunda cor-de-rosa,
Da cor do céu quando desponta o dia.

E ela sabe que sua bunda é boa.
Vai pela rua rebolando à toa,
Deixando a multidão maravilhada.

Eu a contemplo, num silêncio mudo.
Embora a cara não valesse nada,
Só aquela bunda me valia tudo.