15/07/2024

O OLHAR ( Eugénio de Andrade )

 Eu sentia os seus olhos beber os meus; 

longamente bebiam, bebiam; 
bebiam 
até não me restar nas órbitas nenhuma 
luz, nenhuma água, 
nem sequer o sinal de neles ter chovido 
naquele inverno. 
Eugénio de Andrade, em "Rente Ao Dizer". 1992.

O LUGAR MAIS PERTO ( Eugénio de Andrade )

 O corpo nunca é triste; 

o corpo é o lugar 
mais perto onde o lume canta. 
É na alma que a morte faz a casa. 

UM NOME ( Eugénio de Andrade )

 Di-lo-ei pela cor dos teus olhos, 

pela luz 
onde me deito; 
di-lo-ei pelo ódio, pelo amor 
com que toquei as pedras nuas, 
por uns passos verdes de ternura, 
pelas adelfas, 
quando as adelfas nestas ruas 
podem saber a morte; 
pelo mar 
azul, 
azul-cantábrico, azul-bilbau, 
quando amanhece; 
di-lo-ei pelo sangue 
violado 
e limpo e inocente; 
por uma árvore, 
uma só árvore, di-lo-ei: 
Guernica! 
A Árvore de Guernica (em basco: Gernikako Arbola), símbolo das liberdades e autonomia tradicionais da Biscaia e, por extensão, dos bascos.

PÁSSARO ( Cecília Meireles, "Retrato Natural", 1949 )


Aquilo que ontem cantava 
já não canta. 
Morreu de uma flor na boca: 
não do espinho na garganta

Ele amava a água sem sede, 
e, em verdade, 
tendo asas, fitava o tempo, 
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência: 
não foi nada. 
E o dia toca em silêncio 
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura: 
ir-se a vida 
sobre uma rosa tão bela, 
por uma tênue ferida.

14/07/2024

MULHER ( Ângela Togeiro Ferreira )

 Sou mulher,

sou todas as mulheres:

sou Afrodite, Amélia, Ângela, Eva, Diana, Joana,

Madalena, Maria, Raquel, Rita, Sara,

Salomé, Tereza, Vênus, Zênite.

Tenho na genética

a herança dos tempos,

que me dá todos os nomes,

que me tira todos os nomes,

quando me desdobro em outra mulher.

Nasci em todas as raças,

tenho todas as cores puras e miscigenadas.

Pratico todos os credos.

Nasci em todos os cantos deste planeta.

Vivi em todas as eras.

Registrei meus gritos em todos os rincões,

mesmo se expulsos da alma

no mais profundo silêncio.

Vim de todos os lugares,

nasci em berço de ouro, em choupana,

na rua, nas matas, hospitais, templos.

Fui vestida, fui enrolada,

despida, jogada.

Gerada num útero que me amou,

ou num que me recusou.

Pouco importa, se rica ou pobre,

se esculpida no Belo ou no Feio,

preciso cumprir meu destino,

meu destino de Mulher.


INFINITO EM NÓS ( Maria Augusta Silva )

 Entre os novelos do caos e a fuga

de quimeras
o meu corpo entrega-se ao teu corpo
— a memória
dos mitos do tempo é esta sede de ti
dupla das abelhas
na vontade de sorver a flor até o fim.
Dou-te então
o reino do amor, a origem do fruto
a claridade
da palavra. Tu conheces a porta
do jardim dos afagos
sabes as bodas da luas e das mãos
absolutas
— soltas as veias na madrugada
dos meus olhos.
E o infinito é anunciado em nós.
O carrossel lírico
do prazer leva diabos e deuses
ao mistério
do nosso acontecer. Somos a matéria
da árvore do paraíso
pedindo às feras a negação da morte
enquanto
toda a sinfonia for esta sede de ti
duplas das abelhas
na vontade de sorver a flor até o fim

REBIS (Natália Correa)

 Oh a mulher como é côncava

         de teclas ter no abdómen

         de sua porção de seda

         ser o curso do rio homem

         Como é mina espadanar de água

         na cama abobadada de homem

         gargalhada de lustre se sentada

         dique de nuvens estar de dólmen!

         Oh o homem como é ângulo

         aberto de procurar

         o sítio onde nasce o ouro

         na salmoura da mulher mar

         como é cúpula de copular

         nadador de braçadas de mirto

         como é nado de a nada formar

         o quadrado da mulher círculo!

         Oh os dois como se fundem

         na preia-mar dos lençóis

         despidos como fogo e água

         deus de dois ventres ferozes

         e quatro olhos de fava!


MONTANHA (Maria Zabeleta/Maria Adelaide Ferreira Rodrigues)

 Prenhe de raízes, de bagas, de grão

Vivo do teu pão
Banho-me no teu hálito
Sonho com as tuas fogueiras
Cheiro o teu ventre
Bebo a tua resina
Durmo no teu leito de pedras
Desperto nos teus braços

Descanso no teu sopé
 

Visto-me com o teu manto amarelo e verde
Grito a tua tempestade
Escarpo-te as alturas

 

Colhi uma rosa silvestre
Coroei-me de malmequeres
Cingi-me de alfazema
Bordei-me de alecrim
Toquei-me de rosmaninho
Rosei-me de papoilas
Desmaiei do teu cio.

LÍRICA DO CIBORGUE ( E. M. de Melo e Castro )

 o ciborgue habita

debaixo da tua pele

pouco a pouco
ele toma conta
de todos os teus
sentidos e não sentidos

com os olhos ele vê
as cores que não há

nos ouvidos
músicas silenciosas

pela pele os toques
tocam nas coisas
imponderáveis
na boca os sabores
sabem de cor
os desgostos do gosto
no nariz
os odores são
as dores que sobem
desde a raiz
e no todo teu corpo
eles inauguram
os movimentos
que são teus pensamentos
na mágica do leve
levitarás em breve
nos espaços
abstratos
de todos os teus atos

trilhões das tuas células
serão sutilmente alteradas
e as funções
dos teus órgãos
serão novas

quando já não terás
um só eu

mas vários eus
que nem sequer
serás

é com eles
que para sempre
viverás
para além do óbvio

Homo Sapiens Ciborgue
irmão de mim próprio 

AMOR SAGRADO ( Isabel Wolmar )

 Um luar tímido, pardacento

iluminava os dois corpos
deitados no areal ainda quente
de hálitos de fogo infernal.

 

A pálida mulher de cabelos de Mistério
sereia mitológica saída das ondas
acolheu em seus braços de leitosa maciez
o homem, deus mítico
corpo de marés revoltas.

 

Fulminados por um raio incandescente

seus corpos uniram-se

como almas esfomeadas

dilatando o tempo num pulsar onírico.

 

O corpo de marés revoltas
penetrou a gruta da mulher pálida
inundando-a com as suas águas primordiais.

 

Em vibrações de cristal fendido

gemidos cortaram a noite de mil olhos espantados

ao fundearem a âncora do prazer

bandos de aves marinhas soltaram voo

saudando a aurora que despontava.

 

Estrelas iam adormecendo uma a uma
num céu a gotejar manchas de anil
em gestos lentos, cansados.

Os dois corpos num só corpo
embrulharam-se em farrapos de nuvens
deram as mãos à noite moribunda
e partiram para o infinito.

GOSTO DE VER AS MINHAS MÃOS ( Isabel Meyrelles )

 sonhar contigo,

sonhar os meandros

mais secretos

do teu corpo

floresta e armadilha,

fonte e bramido

 

Gosto de ver as minhas mãos

sonhar contigo,

entrelaçadas, adormecidas,

recriando o peito,

as espáduas, o ventre,

as coxas, o sexo,

amazônia interior

 

Gosto de ver as minhas mãos

sonhar contigo,

por vezes um único dedo

desenha no ar

os olhos, a boca, o cabelo,

estrela negra

que só eu conheço

Gosto de ver as minhas mãos

sonhar contigo,

sonhar esta travessia do espelho

de reflexos infindos

que é a minha recordação de ti.

Aliás, que outra coisa

podem elas fazer?

PRELÚDIOS INSPIRADOS ( Inês Lourenço )

 Há mil e cem anos

de poesia num só dia,
mil e cem palavras
numa só sílaba,
mil e cem páginas
numa linha

— quando abro o livro
do teu corpo, e provo mi
mil e cem receitas num só
amor

CAMINHOS DE SOPHIA ( Augusta Franco )

 (homenagem a Sophia Mello Breyner Andersen)

Vens firme

e sedutora
nas ondas
dos mares
que habitas,
tens a alma
das sereias
e os olhos
das gaivotas
que mergulham
no infinito.
Aguardas
todas as marés
sentada, longínqua,
um rochedo.
Mas as dunas
têm marcas
dos teus pés...
Sophia Mello Breyner Andersen

PENSAMENTOS LUXURIOSOS ( Dalila Teles Veres )

 Pensava nele

quando a seda do vestido

tocou-lhe as coxas

eriçando-lhe os pêlos

(asas a roçar o espírito

tocha a incendiar a carne)

 

Pensava nele

 

quando a voz de Maria Callas

alcançou a nota mais aguda

- L’atra notte in fondo al mare –

invocando Mefistofele

(setas fálicas a zumbir junto aos ouvidos

aromas de sândalo a embebedar os sentidos)

 

De tanto nele pensar

Devorou a si própria

l u x u r i o s a m e n t e

(espírito só carne)


INOCÊNCIA ( Dagmar Braga )

 além do muro


         o salto
                            o susto
                                               o gozo

sutil o louvor do tempo
tecendo
— de permeio —
o adormecimento

MADRUGADA ( Dagmar Braga )

 quando em silêncio arde o desespero

teu rosto assoma

tua mão acolhe o fogo e me desata
o descompasso

o dia serpenteia na garganta
um poema grita
                      germinando luz

NOITE AFORA ( Eduarda Duvivier )

 Tem dia que a gente fala

tem dia que a gente cala

tem dia que a gente ri

tem dia que a gente chora

tem dia que a gente trepa

tem dia que a gente ora

tem dia que a gente nasce

dia em que vai embora

 

e o que tem na noite afora?


PRINCÍPIO DO ESCURO ( Margarida Vale de Gato )

Acordei hoje como se fosse natural­
mente necessário ter o comprimento
do teu corpo na minha cama e estranhei
que não me abraçasses, nem preenchesse
o encaixe da tua pélvis
as minhas nádegas, a tua mão
sobre o meu monte, os teus joelhos
encostados à dobra onde os meus flectem

 

Vês daí como tudo aqui ainda e sempre

treme continuamente, e a descompasso

do real, todos os dias tenho calores

de imaginação, trabalho a libido

do cansaço, se fecho os olhos não durmo,

encho-me, ao invés, de fricções. Depois

no outro plano, já sentiste, custa-me

estar presente: das consecutivas vezes

que nos tocámos na boca, estudei os beijos

como uma alegoria embaraçosa:

tudo sob o comando diferido

da cabeça, com tensão mais que tesão,

a minha língua esgrimia a tua, quase

nada clamava ou humedecia, talvez

exceptuando um latido pequeno de amor

a pingar com irritação, não sei,

e além do mais haveria a indagar

se são de facto compatíveis nossas

espécies, se nisso há inevitabilidade,

ou onde preciso das tuas carícias

nos anéis das cervicais ou dedos

na pele ou o princípio do escuro

a partir do perímetro da cintura.


FEMININA ( Maria da Gloria Lima Barbosa )

 Só Deus me entende assim anêmona

cabelos correndo rios
adormecendo mar
brilhando pérolas em conchas secretas
água-viva mansa
receptáculo e espera.

ANOITECER ( Cacilda Soares Barboza )

A noite caía macia
como o caboclo que espia
a tarde se desnudar
sem pressa sem arrepios,
sabendo o que esperar.
O vento lambia o chão
contorcia o infinito
em açoites de paixão.
Rolando em precipícios
noite e dia se amavam
em cio ardente ganindo
excitando todo o mato.
Folhas se entrelaçavam
águas se misturavam
na tarde azul que morria
puro êxtase e agonia.
Terra e céu se derramavam
nas cores do entardecer
no sol devagar sumindo
no soluço afogado
pairando abençoado
no coito do anoitecer.


LUXÚRIA ( Cacilda Soares Barboza )

Eu não sou eu, sou tu
matéria sobre a qual Deus
esculpiu teu corpo nu.
Tua pele é minha veste
tua boca minha vertente
és meu verbo ser,
meu lado mau indecente.
És minha alma, minha cama
na qual ouso te usar
minha estrela, minha lama
na qual posso mergulhar.
Roça meu rosto
deixa eu beber teu gosto
bebe tu no seio meu.
Beija os meus beijos
aperta no meu o teu peito
me queima em teu desejar.
Desce em foto ao meu ventre
ter apaga morno, silente

em meu sexo a se derramar.



SILOGISMOS ( Laís Corrêa de Araújo )

A língua sibilina

em quando falo

                            — fala?

 

O dedo viperino

em quando levita

                            — manuscrita?

 

A boca fescenina

em quando suga
                            — conjuga?

 

A pele colubrina

em quando chama

                            — diagrama?

 

O seio horizontino

em quando iguaria
                            — alegoria?

 

A coxa serpentina

em quando possessa
                            — expressa?

 

A anca messalina

em quando sodomia
                            — ritmia?

 

A gruta diamantina

em quando sumarenta
                            — argumenta?

 

O sexo saturnino

em quando estertora

                            — elabora?

 

A carne guilhotina

em quando estala

                            — cala.

MANTENHA ( Alzira Cabral )

 Filha do teu adultério

existo

queiras ou não com a mesma pele.

Exilada

sobrevivo contente

na terra dos sem cor.

Com a boa vontade que ganhei

das gentes daqui,

sem ressentimentos nem vergonha

cultivo a mentira da tua grandeza

no existir dos meus descendentes.

 

E mando mantenhas, oh terra

através dos meus poemas vermelhos:

 

A cor que me deste!