Eu sentia os seus olhos beber os meus;
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
15/07/2024
O OLHAR ( Eugénio de Andrade )
O LUGAR MAIS PERTO ( Eugénio de Andrade )
O corpo nunca é triste;
UM NOME ( Eugénio de Andrade )
Di-lo-ei pela cor dos teus olhos,
PÁSSARO ( Cecília Meireles, "Retrato Natural", 1949 )
14/07/2024
MULHER ( Ângela Togeiro Ferreira )
Sou mulher,
sou todas as mulheres:
sou Afrodite, Amélia, Ângela, Eva, Diana, Joana,
Madalena, Maria, Raquel, Rita, Sara,
Salomé, Tereza, Vênus, Zênite.
Tenho na genética
a herança dos tempos,
que me dá todos os nomes,
que me tira todos os nomes,
quando me desdobro em outra mulher.
Nasci em todas as raças,
tenho todas as cores puras e miscigenadas.
Pratico todos os credos.
Nasci em todos os cantos deste planeta.
Vivi em todas as eras.
Registrei meus gritos em todos os rincões,
mesmo se expulsos da alma
no mais profundo silêncio.
Vim de todos os lugares,
nasci em berço de ouro, em choupana,
na rua, nas matas, hospitais, templos.
Fui vestida, fui enrolada,
despida, jogada.
Gerada num útero que me amou,
ou num que me recusou.
Pouco importa, se rica ou pobre,
se esculpida no Belo ou no Feio,
preciso cumprir meu destino,
meu destino de Mulher.
INFINITO EM NÓS ( Maria Augusta Silva )
Entre os novelos do caos e a fuga
REBIS (Natália Correa)
Oh a mulher como é côncava
de teclas ter no abdómen
de sua porção de seda
ser o curso do rio homem
Como é mina espadanar de água
na cama abobadada de homem
gargalhada de lustre se sentada
dique de nuvens estar de dólmen!
Oh o homem como é ângulo
aberto de procurar
o sítio onde nasce o ouro
na salmoura da mulher mar
como é cúpula de copular
nadador de braçadas de mirto
como é nado de a nada formar
o quadrado da mulher círculo!
Oh os dois como se fundem
na preia-mar dos lençóis
despidos como fogo e água
deus de dois ventres ferozes
e quatro olhos de fava!
MONTANHA (Maria Zabeleta/Maria Adelaide Ferreira Rodrigues)
Prenhe de raízes, de bagas, de grão
LÍRICA DO CIBORGUE ( E. M. de Melo e Castro )
o ciborgue habita
AMOR SAGRADO ( Isabel Wolmar )
Um luar tímido, pardacento
Fulminados por um raio incandescente
seus corpos uniram-se
como almas esfomeadas
dilatando o tempo num pulsar onírico.
Em vibrações de cristal fendido
gemidos cortaram a noite de mil olhos espantados
ao fundearem a âncora do prazer
bandos de aves marinhas soltaram voo
saudando a aurora que despontava.
GOSTO DE VER AS MINHAS MÃOS ( Isabel Meyrelles )
sonhar contigo,
sonhar os meandros
mais secretos
do teu corpo
floresta e armadilha,
fonte e bramido
Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
entrelaçadas, adormecidas,
recriando o peito,
as espáduas, o ventre,
as coxas, o sexo,
amazônia interior
Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
por vezes um único dedo
desenha no ar
os olhos, a boca, o cabelo,
estrela negra
que só eu conheço
Gosto de ver as minhas mãos
sonhar contigo,
sonhar esta travessia do espelho
de reflexos infindos
que é a minha recordação de ti.
Aliás, que outra coisa
podem elas fazer?
PRELÚDIOS INSPIRADOS ( Inês Lourenço )
Há mil e cem anos
CAMINHOS DE SOPHIA ( Augusta Franco )
(homenagem a Sophia Mello Breyner Andersen)
Vens firme
PENSAMENTOS LUXURIOSOS ( Dalila Teles Veres )
Pensava nele
quando a seda do vestido
tocou-lhe as coxas
eriçando-lhe os pêlos
(asas a roçar o espírito
tocha a incendiar a carne)
Pensava nele
quando a voz de Maria Callas
alcançou a nota mais aguda
- L’atra notte in fondo al mare –
invocando Mefistofele
(setas fálicas a zumbir junto aos ouvidos
aromas de sândalo a embebedar os sentidos)
De tanto nele pensar
Devorou a si própria
l u x u r i o s a m e n t e
(espírito só carne)
MADRUGADA ( Dagmar Braga )
quando em silêncio arde o desespero
NOITE AFORA ( Eduarda Duvivier )
Tem dia que a gente fala
tem dia que a gente cala
tem dia que a gente ri
tem dia que a gente chora
tem dia que a gente trepa
tem dia que a gente ora
tem dia que a gente nasce
dia em que vai embora
e o que tem na noite afora?
PRINCÍPIO DO ESCURO ( Margarida Vale de Gato )
Vês daí como tudo aqui ainda e sempre
treme continuamente, e a descompasso
do real, todos os dias tenho calores
de imaginação, trabalho a libido
do cansaço, se fecho os olhos não durmo,
encho-me, ao invés, de fricções. Depois
no outro plano, já sentiste, custa-me
estar presente: das consecutivas vezes
que nos tocámos na boca, estudei os beijos
como uma alegoria embaraçosa:
tudo sob o comando diferido
da cabeça, com tensão mais que tesão,
a minha língua esgrimia a tua, quase
nada clamava ou humedecia, talvez
exceptuando um latido pequeno de amor
a pingar com irritação, não sei,
e além do mais haveria a indagar
se são de facto compatíveis nossas
espécies, se nisso há inevitabilidade,
ou onde preciso das tuas carícias
nos anéis das cervicais ou dedos
na pele ou o princípio do escuro
a partir do perímetro da cintura.
FEMININA ( Maria da Gloria Lima Barbosa )
Só Deus me entende assim anêmona
ANOITECER ( Cacilda Soares Barboza )
como o caboclo que espia
a tarde se desnudar
sem pressa sem arrepios,
sabendo o que esperar.
O vento lambia o chão
contorcia o infinito
em açoites de paixão.
Rolando em precipícios
noite e dia se amavam
em cio ardente ganindo
excitando todo o mato.
Folhas se entrelaçavam
águas se misturavam
na tarde azul que morria
puro êxtase e agonia.
Terra e céu se derramavam
nas cores do entardecer
no sol devagar sumindo
no soluço afogado
pairando abençoado
no coito do anoitecer.
LUXÚRIA ( Cacilda Soares Barboza )
SILOGISMOS ( Laís Corrêa de Araújo )

A língua sibilina
em quando falo
— fala?
O dedo viperino
em quando levita
— manuscrita?
A boca fescenina
A pele colubrina
em quando chama
— diagrama?
O seio horizontino
A coxa serpentina
A anca messalina
A gruta diamantina
O sexo saturnino
em quando estertora
— elabora?
A carne guilhotina
em quando estala
— cala.
MANTENHA ( Alzira Cabral )
Filha do teu adultério
existo
queiras ou não com a mesma pele.
Exilada
sobrevivo contente
na terra dos sem cor.
Com a boa vontade que ganhei
das gentes daqui,
sem ressentimentos nem vergonha
cultivo a mentira da tua grandeza
no existir dos meus descendentes.
E mando mantenhas, oh terra
através dos meus poemas vermelhos:
A cor que me deste!

















