16/03/2025

MOTIVO ( Cecília Meireles )

 Eu canto porque o instante existe

e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

15/03/2025

A EDUCAÇÃO PELA PEDRA (João Cabral de Melo Neto)

 Uma educação pela pedra: por lições;

para aprender da pedra, frequentá-la;

captar sua voz inenfática, impessoal

(pela de dicção ela começa as aulas).

A lição de moral, sua resistência fria

ao que flui e a fluir, a ser maleada;

a de poética, sua carnadura concreta;

a de economia, seu adensar-se compacta:

lições da pedra (de fora para dentro,

cartilha muda), para quem soletrá-la.

 

Outra educação pela pedra: no Sertão

(de dentro para fora, e pré-didática).

No Sertão a pedra não sabe lecionar,

e se lecionasse, não ensinaria nada;

lá não se aprende a pedra: lá a pedra,

uma pedra de nascença, entranha a alma.



 

MORDO - TE COMO QUEM TE AFAGAS ( Célia Moura )

 Mordo-te como quem te afaga

para que sintas o nascimento das plantas.
Beijo-te enquanto adormeces
percorrendo teus cabelos, tuas nádegas, teu rosto,
teu sexo.
Invoco Zeus e sua mão direita.
Desamarro grilhões e ferroadas de vespões
enquanto as primeiras chuvas me vão despindo
na arena de todas as gargalhadas.
Exilada de ti, do caos que me habita o cérebro e os quadris
vou mar adentro com a poesia escrita em cadernos de miúda, serenidade entre os seios e a alma,
o Amor e o desdém.
Exemplarmente nua de mim
e do assassinato de todas as plantas.

12/03/2025

ABSTENHO - ME DE TUA BOCA ( Célia Moura )

 Abstenho-me de tua boca,

Do teu sexo em esplendor
Onde já fui tela de pintor.
Soltei pendentes, saboreei teu sangue entre os dentes,
para possuir todas as ausências.
É bom soprar a vida!
Fui maltrapilha de feira vendida ao desbarato,
Fui cortesã do destino
E até hera pelos becos mais sombrios sussurrando algum fado desdenhado.
Durante séculos tive uma espada apontada ao peito.
Tu!
Embaixatriz do silêncio me guia,
Sinto três sóis entre a vagina, a tela e o umbigo.
Morreste-me em todos os pincéis.

UMA COLCHA DE LINHO ( Célia Moura )

 Jaz uma colcha de linho no passado

Das orquídeas
Quando tua sofreguidão se esbatia entrecortada
Na penumbra
Gemendo a saudade
Nas cortinas velhas do quarto antigo
Tuas mãos ainda habitam o séquito do meu corpo
Nesta ausência.
Sabes, fui até ao cais de nós e esqueci de voltar.
Estávamos senis, enlouqueceríamos em todos os orgasmos.
Mas os pardais, aqueles que fizeram ninho
Nas telhas do antigo quarto,
Eles sempre regressam, chilreiam livremente.
Jazem dois corpos enlaçados de paixão sob a colcha de linho.
Vejo-os tão longinquamente,
Espero-te.
Meu corpo sempre arderá nos teus lábios.

09/03/2025

CONHEÇO - TE ( Soledade Martinho Costa )

 Apetecia-me dizer-te

Que penso em ti demasiadas vezes
Embora
Não as vezes necessárias.
A distância que nos separa
Deixou de ter significado
Sempre que desejo
Corro um ver-te.
Conheço-te
Desconhecendo a cor dos teus olhos
Entendo as tuas palavras
Sem falar a tua fala.
A tua angústia
Corre nas minhas veias
Os passos que escutas nos teus ouvidos
Soam atrás da minha porta.
Os teus temores
Os meus temores nas alvoradas
Que despontam e morrem
Nos dias sem história.
A tua solidão
É a minha solidão inundada de Sol
No meio das vozes
No meio de risos.
As tuas chagas
Os teus gritos
A minha impotência.
Os teus sonhos
Os meus sonhos sem data
Hoje esclarecidos.
A minha ânsia
De poder dizer-te
Estou contigo.
Sim, contigo
Olhando pela mesma janela
A mesma nesga de segredo
A dormir o mesmo receio
Nas horas que deslizam
Orladas de suor
Pela sujidade engordurada das paredes.
Contigo
A comer a mesma côdea de medo
Que mata a tua fome.
Contigo
A tecer as mesmas madrugadas prisioneiras
Abraçada ao mesmo destemor
E ao mesmo perigo.
Apetecia-me dizer-te
Que penso em ti demasiadas vezes
Embora
Não as vezes necessárias.

BARCO ( Chico César )

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07/03/2025

A UMA PASSANTE (Charles Baudelaire)trad.: Fernando Pinto do Amaral

A rua ia gritando e eu ensurdecia.
Alta, magra, de luto, dor tão majestosa, 
Passou uma mulher que, com mãos sumptuosas, 
Erguia e agitava a orla do vestido; 
Nobre e ágil, com pernas iguais a uma estátua. 
Crispado com um excêntrico, eu bebia, então, 
Nos seus olhos, céu plúmbeo onde nasce o tufão, 
A doçura que encanta e o prazer que mata. 
Um raio e depois noite! – Efémera beldade 
Cujo olhar me fez renascer tão de súbito, 
Só te verei de novo na eternidade? 
Noutro lugar, bem longe! é tarde! talvez nunca! 
Porque não sabes onde vou, nem eu onde ias, 
Tu que eu teria amado, tu que bem sabias!


05/03/2025

VERMELHO ( Déborah de Paula Souza ) in Vermelho Vivo; Laranja Original, São Paulo, 2021

 o sol

o sangue
a flama
a tarde em chamas
a púrpura do olhar
que me derramas

morada incandescente
matéria al dente
placenta
mãe

tanto a fome
quanto a fúria
o vulcão e seu tremor
a vida e seus rebentos
a paixão e seus unguentos
a carne
o nascimento
o amor

NÃO CONHECES TEU CORPO ( Neide Archanjo ) In Todas as Horas e Antes – Poesia Reunida A Girafa, São Paulo, 2004

 Não conhecer teu corpo

mas sabê-lo possível
passível a viagens
que não as minhas.
Como te dizer
por exemplo:
Vem amiga; dar-te-ei a tua ceia
e a comida que acaso desejares
e algum poema que ilumine os ares
se me olhas
simplesmente desinteressada
e num gesto muito teu
tiras da sacola Peg Pag
uma maçã dourada
que mordes
de estalo
e que deixa
entre os lábios e os dentes
um espaço de desejo
preenchido vorazmente
pela fruta
não pelo meu beijo?

ATRÁS DA CURVA ( Neide Archanjo ) In Todas as Horas e Antes – Poesia Reunida A Girafa, São Paulo, 2004

 Atrás da curva dos teus ombros

uma chuva caía incessante
um pouco água um pouco bruma.

Mais acima estavam teus olhos
duas tâmaras maduras.
Então pensei: que alegria é esta
que a vida não me deu antes?

As tardes passarão esta hora passará
outras esperas outros acontecimentos
hão de turvar meu sangue.
Não hoje.

QUANDO ACORDEI ( Neide Archanjo ) In Todas as Horas e Antes – Poesia Reunida A Girafa, São Paulo, 2004

 Quando acordei a manhã já ia alta.

Reencontrei meu corpo
meus pensamentos de ontem
e as ameixas sobre o prato azul da sala.
A carne dos meus pensamentos tem a polpa
destas ameixas
mas falta volúpia
e perfume.

O que sonho a cada dia
é morder a vida.
Assim.

CONCEITO ( Maria Esther Maciel )

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XXX ( Hilda Hilst ) In Da Morte. Odes Mínimas Ed. Globo, São Paulo, 2003.

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XIX ( Hilda Hilst ) In Da Morte. Odes Mínimas Ed. Globo, São Paulo, 2003.

 Se eu soubesse

Teu nome verdadeiro

Te tomaria
Úmida, tênue

E então descansarias.

Se sussurrares
Teu nome secreto
Nos meus caminhos
Entre a vida e o sono

Te prometo, morte,
A vida de um poeta. A minha:
Palavras vivas, fogo, fonte.

Se me tocares,
Amantíssima, branda
Como fui tocada pelos homens

Ao invés de Morte
Te chamo Poesia
Fogo, Fonte, Palavra viva
Sorte.

PRA QUE SEJAMOS NECESSÁRIOS ( Bruna Lombardi )

 Transfere de ti pra mim essa dor

de cabeça, esse desejo, essa violência.
Que careça em ti o meu excesso
e que me falte o que tu tens de sobra.

Que em mim perdure o que te morre cedo
e que te permaneça o que tenho perdido.
Que cresça, se desenvolva um teu sentido
que em mim desapareça.

Dá-me o que de possuir tu não te importas
e eu multiplico o que te falta e em mim existe
para que nosso encaixe forme uma unidade – indivisível –
de que não se possa subtrair uma metade.

I ( Hilda Hilst, in Júbilo Memória Noviciado da Paixão 1974 )

 Se for possível, manda-me dizer:

— É lua cheia. A casa está vazia —
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
— É lua nova —
E revestida de luz te volto a ver.

SERÁ QUE VOCÊ PENSOU QUE EU FOSSE UMA CIDADE ( Rupi Kaur ) in Outros Jeitos de Usar a Boca

 será que você pensou que eu fosse uma cidade

grande o suficiente pra passar o feriado
eu sou a cidadezinha ao redor dela
aquela que você talvez não conheça
mas sempre atravessa
aqui não tem luz de neon
nem arranha-céu ou estátua
mas não vai faltar trovoada
porque eu deixo as pontes trêmulas
eu não sou carne de vaca sou geleia feita em casa
firme o bastante pra cortar a coisa mais
doce que sua boca vai tocar
eu não sou a sirene da polícia
eu sou o estalo da lareira
eu te queimaria e mesmo assim
você não tiraria os olhos de mim
porque eu ia ficar tão gata
que você ia corar
eu não sou um quarto de hotel eu sou a sala de casa
eu não sou o whisky que você quer
eu sou a água que é necessária
então não venha com expectativas
e tente me transformar numa viagem de férias

A MULHER QUE VEM DEPOIS DE MIM ( Rupi Kaur ) in Outros Jeitos de Usar a Boca

 a mulher que vem depois de mim vai ser uma versão

pirata de quem eu sou. ela vai tentar escrever poemas
pra te fazer apagar aqueles que deixei decorados nos
seus lábios mas os versos dela nunca serão um soco
no estômago como os meus. então ela vai tentar
fazer amor com o seu corpo. mas ela nunca vai
lamber, tocar ou chupar como eu. ela vai ser uma
reserva triste da mulher que você deixou escapar. nada
que ela fizer vai te excitar e isso vai destruí-la. quando
estiver cansada de se contorcer por um homem que não
dá nada em troca ela vai me reconhecer nas suas
pálpebras que a encaram com dó e tudo vai fazer sentido.
como ela pode amar um homem que está ocupado amando
alguém em quem ele nunca mais vai colocar as mãos.

O PRIMEIRO MENINO QUE ME BEIJOU ( Rupi Kaur )

 o primeiro menino que me beijou

segurou meus ombros com força
como se fossem o guidão da
primeira bicicleta
em que ele subiu
eu tinha cinco anos

ele tinha cheiro
de fome nos lábios
algo que aprendeu com
o pai comendo a mãe às 4h da manhã

ele foi o primeiro menino
a ensinar que meu corpo foi
feito para dar aos que quisessem
que eu me sentisse qualquer coisa
menos que inteira

e meu deus
eu de fato me senti tão vazia
quanto a mãe dele às 4h25

SONETO DO CANTO ( Ana Lucia Ometto )

 Bolo de fubá, café coado

Gosto doce da tua boca
Rir à toa, pitanga no prato
Carinho consciente é bom de fato

Suco de kiwi, seis ovos mexidos
Foco redobrado nas frutas e cereais
Pote de mel lambido, beijo na boca
Canto flauteado de Debussy

Manter o café aquecido
Banana, mel, aveia e canela
Eu e tu, tu e ela, somos nós…

Ativa o modo avião
Faz da rotina a cactinea
Na união do café com pão

CABELOS ( António Ramos Rosa )

 Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos

e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água

Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer

23 ( Armando Freitas Filho )

 Escrever é riscar o fósforo

e sob seu pequeno clarão
dar asas ao ar — distância, destino
segurando a chama contra
a desatenção do vento, mantendo
a luz acesa, mesmo que o pensamento
pisque, até que os dedos se queimem.

GUARDAR ( Antonio Cícero )

 Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
do que pássaros sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarde um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

CORPO ( Armando Freitas Filho )in De Palavra, 1963

 Acrobata enredado

em clausura de pele
sem nenhuma ruptura
para onde me leva
sua estrutura?

Doce máquina
com engrenagem de músculos
suspiro e rangido
o espaço devora
seu movimento
(braços e pernas
sem explosão)

Engenho de febre
sono e lembrança
que arma
e desarma minha morte
em armadura de treva.

RECOMPONHA - SE ( Heba Abu Nada )

 Oh como estamos sozinhos!

Todos os outros vencem suas guerras
e vocês foram deixados na lama,
inúteis.

Darwish, você não sabe?
A poesia não devolverá aos solitários
o que foi perdido, o que
foi roubado.

Como estamos sozinhos!
Esta é mais uma idade da ignorância.
Malditos sejam aqueles que nos dividiram
em guerra e marcharam juntos
em teu funeral.

Como estamos sozinhos!
A Terra é um mercado aberto,
e seus grandes países foram leiloados,
sumiram.

Como estamos sozinhos!
Este é um tempo de insolência,
e ninguém ficará do nosso lado,
nunca.

Oh! Como estamos sozinhos!
Enxugue seus poemas, antigos e novos,
e todas essas lágrimas. E você, Palestina,
recomponha-se.
 Tradução: Huda Fakhreddine / Carlos Machado
Na foto: Heba Abu Nada